Jar Of Hearts
3 Todas as garotas más vão para o inferno.
Notas iniciais

Irlanda 10 anos antes do casamento.
Acordei com uma ressaca muito grande na manhã seguinte. Eu nunca havia me permitido beber daquele tanto. Mas a noite merecia. Talvez eu tivesse voltado a Cecília de 16 anos e dado a ele um desfecho em sua história. Quando me levantei da cama pelo menos três garrafas caíram no chão. Vodca. Eu devia ter gastado muito dinheiro a noite passada, estava na hora de recuperar.
Fui pro banheiro e tomei um bom banho ao som de '‘shower – Beck G’'.
Enquanto picava as frutas para o café da manhã, liguei para casa.
—Ceci! Graças a Deus filha. Onde você se meteu? Fiquei preocupada.
—Quando você não fica mamãe? Está tudo bem!
—Você nem ligou para contar sobre a entrevista…
Soltei um suspiro.
—Ceci?
—Lamento informar mãe…
—Oh filha…
—O que houve?
Ouvi meu pai ao fundo. É quase como pudesse ter visto minha mãe fazer uma cara de negação para ele.
—Eu sinto muito mas vocês têm uma filha brilhantemente incrível!!! Eu passei mãe, você estava falando com a estudante de medicina da Dublin University College!!!
Minha mãe começou a gritar pelo telefone pude ouvir meu pai também!
—É eu sei, isso não é demais? Mas mãe, nosso trato… Se lembra?
—Sim Ceci, eu me lembro. Não contar a ninguém nada relacionado a essa mudança. Nem dar informações de onde você está, não importa o que aconteça!
—Exatamente. Agora deixa eu ir que eu tenho que procurar emprego. Beijos amo vocês.
Ao desligar o telefone, pude sentir uma eletricidade passando pela minha pele. Era um dia belíssimo e eu estava ali para viver ele.
Sai pelas portas como um pássaro que procura o gorjeio dos outros pássaros. Havia anotado alguns anúncios a respeito de emprego, então fui batendo de “Porta em porta” até que encontrei uma cafeteria próxima a faculdade. Era perfeito. De manhã e a noite eu era estudante de medicina e de tarde era garçonete. Tudo que eu precisava para me manter firme nessa jornada. Aproveitei que só começaria a trabalhar e a estudar na semana seguinte e precisava organizar algumas coisas. Fiz compras pois precisava de roupas novas para estrear no campus e fui ao cabeleiro mudar o meu visual. Me senti cheia, alimentada, a minha fome por hora estava controlada e meus planos tinha andamentos crescentes. Ao longo da semana aproveitei para fazer cursos on-line de etiqueta e assisti tutoriais de maquiagem. Se eu estava em uma nova jornada as coisas precisavam mudar. A primeira mudança começou de dentro para fora, a segunda quando Hardgreaves pisou o pé na Irlanda e a terceira mudando meu estilo de vida.
Lá estava eu acordada as 06:00 da manhã. O tique-taque do relógio funcionava como sinfonia para cada trabalhar interno do meu corpo. Eu não precisava de um despertador, meus ânimos já estavam funcionando como tal. Me levantei e fui até a janela. Alguns comércios estavam se aprontando para abrir. A manhã estava um pouco gelada, mas era ideal para meu primeiro dia de aula. Entrei no chuveiro e simplesmente deixei a água cair lentamente sobre meu corpo. As lembranças do jantar na semana anterior ainda me alimentavam, porém já eram mais o suficiente, eu teria que arrumar uma forma de alimentar o meu tempo se não tudo voltaria a se repetir e nada poderia sair do controle, afinal de contas tudo isso tem um objetivo final.
O dia prosseguiu tranquilo, minhas aulas eram melhores do que eu imaginava. O professor de anatomia era bastante sombrio, mas eu até que gostei dele. A apresentação do corpo humano é fascinante. Cada artéria, vaso, órgão, tudo me fascinava. A forma como o sangue corria, a periculosidade de cortar uma artéria posso estar maluca, mas eu estava tão encantada que meus olhos se encheram de água. Logo em seguida passamos por uma aula de Biologia celular e molecular. Não era uma aula igual à de anatomia, porém eu aproveitei cada segundo. Voltei a secretária para verificar minha grade novamente e percebi que haveria algumas aulas que teriam que serem feitas a tarde. Meu emprego. Tive que voltar a confeitaria para ver se havia algo que eu podia fazer. Nos corredores da universidade estava um certo conversei-o, mas eu não soube decifrar o que estava acontecendo. Como eu também não conhecia ninguém e nem fazia questão, continuei andando em direção a confeitaria. O campus estava agitado, as pessoas corriam de um lado para o outro, pareciam assustados. Continuei andando cada vez mais rápido na intenção de não ter que parar em qualquer um desses grupos. Não demorei muito e já estava adentrando as portas da confeitaria. Mostrei a minha grade ao meu chefe e ele disse que se a outra menina concordasse, nos poderíamos revezar os nossos turnos, disse que conhecia minha vó e se lembrava de mim quando criança, que daria prioridade para mim.
—Vá lá nos fundos, ela deve estar no intervalo dela.
Quando entrei me deparei com uma cena peculiar. A garota também ruiva assistia a um pornô lésbico e parecia um tanto quanto excitada. Eu nunca havia tido uma experiência lésbica, então achei que seria uma nova porta aberta e alguém a manipular em meu favor. Abri dois botões da minha camiseta, dei dois passos atrás e fiz um barulho como se antecedesse minha chegada. Rapidamente ela levantou a se sentou de frente para mim.
—Oi! Eu sou…
—A nova garçonete.
—É… Eu estudo na UCD e to com problemas na grade curricular…
—Precisa fazer ajustes no seu horário…? Correto?
—É… Pode fazer umas concessões comigo?
—Eu também estudo lá. Estou no terceiro ano de medicina. Como a minha grade deu uma reduzida, eu posso juntar com a sua e ver o que pode ser feito. Pode me emprestar ela?
—Eu tenho pelo telefone, pode me passar seu número?
Os olhos dela passearam pelo meu corpo. Talvez estivesse imaginando o que faria comigo.
—Eu já tenho. O Sr. O’Sullivan já havia pedido para ficarmos em contato uma com a outra.
—Ah, perfeito então. Vou me trocar para você ir embora. Se importa se eu me trocar aqui?
Claro que ela não se importava. Ela se sentou de costas para mim, porém a sua frente tinha um espelho – Espertinha – Fiz questão de me despir peça por peça. Peguei o uniforme recém pego. Antes de terminar de vestir olhei por cima do ombro, e pude perceber que ela estava vermelha e respirando fundo.
—Você tá bem? Parece um pouco… Constrangida.
Ela se recompôs limpando a garganta como se tivesse um pigarro.
—Eu estou bem obrigada. A gente se vê amanhã. Qualquer coisa entro em contato com você.
—Tudo bem.
Outro objetivo alcançado. Trabalhar lá não era tão difícil. Servi café, doces, bolos e todas as gostosuras comuns de uma confeitaria. Via algumas pessoas que estavam presentes comigo no primeiro dia de aula. Foi tranquilo. O Sr. O’Sullivan me ensinou tudo que eu precisava saber a respeito dos doces e como tocar um negócio a tanto tempo. Ao sair da confeitaria passei por uma banca de jornais e entendi o porque de tanto falatório dentro da faculdade e o medo espalhado no olhar dos alunos. O jornal dizia: “Estudante da UCD foi encontrada morta as margens do rio”. Dentro de mim um choque de adrenalina correu e eu podia sair gritando e pulando de alegria. Meu telefone tocou.
—Ceci, quero você em um voo de volta para casa agora! Vá direto para o aeroporto…
—Mãe, mãe o que tá acontecendo? Papai tá bem? Fala devagar.
—Eu vi pela televisão, a garota que foi encontrada morta, volte para casa agora! Cecilia, volte para casa!
—Mãe eu não vou desistir de um sonho por causa de um assassinato aleatório, assassinatos acontecem a todo momento. Preciso que a senhora fique calma. Por favor mãe. Quando estiver calma me ligue novamente.
Desliguei o telefone e fui pra casa.
Sábado anterior.
Eu havia aprendido algumas misturas pela internet, eu mesma testei em mim para forjar a primeira tentativa de suicídio. Funcionou para mim e eu pretendia usar hoje a noite. Hardgreave chegou. Estava linda, como sempre. O vestido tubinho preto era perfeito para a ocasião. Pedimos vinho para acompanhar nossa deliciosa refeição. Eu pedi um beef guinnes stew, estava fabuloso. Hardgraves pediu Colcannon. Conversa vai conversa vem, ela tocou bem na ferida.
—Queria dizer que eu sinto muito pela noite do baile. Eu era muito inconsequente.
Vaca mentirosa.
—Pensar que Theo realmente gostava de você, eu acho que fiquei mordida de inveja.
Fui pega de surpresa ao ouvir ela falando do Theo. Isso aumentou a minha raiva. Por mim usaria a faca de sobremesa para fazer ela sangrar.
—Chelsea… Não vamos viver de passado. As coisas acontecem o tempo todo. Eramos jovens. Hoje estamos passando para fase adulta. Vamos deixar o passado no passado.
— Que bom que pensa assim Cecilia, a propósito, seu cabelo ficou ótimo loiro. Vou ao banheiro.
Hora perfeita. Meu anel tinha um vão feito exatamente para isso. Derramei sobre a taça dela. O suficiente apenas para deixá-la tonta. Aquele pedido de desculpas fajuta não ia me comover. Quando ela voltou impulsionei que ela bebesse cada gota até o fundo, e não demoro muito fazer efeito. Chamei um táxi e levei para antiga marmoraria do meu avó do outro lado da cidade. Sai com dificuldade do táxi, a vaca era pesada. Levei tempo para colocar ela para dentro. Dentro do meu esconderijo eu não pensava nas consequências, eu só pensava em ver o sangue ela jorrar de forma quente em mim. Esperei ela despertar.
—Ai minha cabeça, aonde eu estou? Ceci… Cecilia? O que tá acontecendo?
Ela tentou se mexer e estava presa.
—Você me amarrou? Que brincadeira essa?
—Sabe de uma coisa Chelsea, as garotas boas vão para o céu. Mas garotas más como nós esse sim, vão para o inferno!
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