Irlanda – 9 anos antes do casamento.

As notícias ainda rondavam Dublim. O assassino da inglesa que foram encontradas as margens do rio Liffey em Dublim, ainda não havia sido encontrado, e as autoridades estavam sem pistas. Eu havia acabado de concluir o primeiro ano de medicina. Minha vida continuou a mesma depois do acontecimento com Hardgraves. Mantive minha postura de estudante e garçonete. Raramente podia evitar os pensamentos. Ao lembrar o que aconteceu naquela noite arrepios desciam pela minha espinha. Não era um arrepio ruim, pelo contrário, eu estava satisfeita. Eu fui muito cuidadosa em relação ao corpo. As roupas eu fiz uma grande fogueira e o que sobrou eu joguei no rio, nada melhor que fogo e água para destruir as evidências. Ou talvez tinha algo que eu não contava, que ela tivesse avisado alguém. Eu estava servindo algumas mesas quando dois policiais locais entraram. Queria dizer que senti medo, mas não. Eu estava empolgada.

—Srta. Tommlison?

—Sim.

—Eu sou o policial O’malley e esse Carter. Estamos investigando o assassinato de Chelsea Hardgraves, podemos fazer algumas perguntas?

—Podemos ir lá nos fundos?

—Claro!

Fomos até os fundos da confeitaria.

—A empregada disse que ouviu ela dizendo que iria se encontrar com uma amiga da época da escola. Então vimos seu telefone na agenda dela. Vocês se viram naquela noite?

—Sim.

—Mas o garçom disse que a viu conversando com uma mulher loira… Obviamente você não é loira.

Ele pegou em meus cabelos ruivos.

—Heardgraves era muito brincalhona, então ela sempre criticava meus cabelos ruivos. Adolescentes.

Suspirei como quem se lembra de algo muito afetuoso no passado.

—Resolvi usar uma peruca loira na intenção de não ouvir as brincadeiras “no sense” da adolescência.

—E depois do jantar?

—Dividimos um taxi até o apartamento dela e depois eu chamei outro taxi até o meu.

Mentira. Meu carro estava logo na rua de trás.

—Você se lembra algo do taxista? O carro?

—Me desculpe, eu estava muito bêbada. Eu devo ter dado uma gorjeta bem gorda a ele, porque ele me ajudou a deixar a Chelsea no saguão do hotel.

Chelsea ficou lá durante 45 minutos. Duas pessoas passaram e não tocaram nela não havia câmeras de segurança. Tudo que eu precisei para armar um cenário.

—Entrevistamos duas condôminas que passavam por lá, deduziram que a Srta. Heardgraves estava bêbada e decidiram não fazer nada.

—Ela era brilhante. Popular e uma das melhores da turma. Eu não imagino quem faria algo tão terrível a ela. Ela era venerada.

—Posso fazer mais uma pergunta Srta. Tommlison?

—Claro.

—Qual foi o conteúdo da conversa entre vocês no jantar.

Quando estiver encurralada, conte a verdade, mas conte tão bem contada que eles jamais questionarão.

—Bom, Chelsea queria pedir desculpas.

—Desculpa? Pelo que?

—No nosso baile de formatura, ela… Ela pregou uma peça em mim. Pra mim ela nunca pensou em mim depois daquele dia, porém ela me disse que precisava me pedir desculpas.

—Vocês se falaram por mensagens?

—Sim, poucas, mas trocamos algumas mensagens nesse meio tempo. Até “Boa noite” eu mandei para ela.

—Podemos ver?

—Você tem um mandado?

Eles ficaram estagnados.

—Brincadeira. Vamos lá.

Peguei o telefone, e chequei as mensagens que ela havia me mandado. Eles verificaram.

—Bom, desculpe o incomodo. Obrigado pelo seu tempo.

Eu sabia que eles não estavam satisfeitos, mas eu estava. A morte da Hardgraves ficou estampada em vários jornais, TV, internet, qualquer veículo de comunicação disponível se falava sobre o suposto assassino. A crueldade com que haviam lhe arrancado o coração, e o fato do órgão ainda estar desaparecido. Bom, eu precisava preservá-lo ate o grande dia. Esperei semanas com ele guardado em uma temperatura de-196°C abaixo de zero. Precisava mover ele de forma que não estragasse o meu troféu. Na faculdade havia uma sala de preservação de órgãos. Paguei 50 euros ao zelador e ele me deu uma hora, tudo que eu precisava. Apliquei algumas coisas que aprendi durante as aulas, com cuidado o suficiente para não danificar minha obra de arte. Faltava vinte minutos para a última turma da noite se liberada, então sai com todos eles caso tivesse alguém me vigiando. Ninguém a vista. Deixei o coração de Heardgraves esse tempo todo a vista na faculdade em um pote especial e ninguém havia percebido. Após chegar em casa eu precisava de um alibi. Eu sabia que a qualquer momento o curso da investigação poderia se virar para mim. Foi quando a primeira mensagem.

{Olá Heiner. Eu cresci aqui, mas estou tendo dificuldades de me encaixar. Será que poderíamos sair essa noite? Me sinto muito sozinha vou entender também se não puder. Enfim, aguardo a resposta}.

Heiner não tirou os olhos de min no último ano. Eu sabia que estava no centro do desejo dela desde o primeiro dia, mas eu estava aguardando o momento certo. Se não fosse ela seria qualquer outra pessoa a ser o bode expiatório. Sabe o que é interessante sobre as pessoas? Dê a elas o que elas querem, e elas farão o que você quer. Mas se você colocar elas exatamente onde elas devem ficar, você pode manipular elas ao seu favor. Dinheiro, fama, sexo… Sinais visíveis de poder sobre qualquer coisa no mundo. Satisfaça as e tudo se transforma em um grande tabuleiro de xadrez. Seja a rainha, mas proteja o rei.

{Te pego as 20 horas}.

E o segundo movimento foi feito.

Londres – 13 anos antes do casamento.

—Papai, aonde estão indo?

—Estamos indo caçar querida.

—Por que não me leva?

—Porque é uma experiência muito brutal Ceci.

—Por favor papai, se eu não gostar eu prometo não insistir mais.

Mamãe passou por ele e sussurrou algo em seu ouvido. Ele sorriu e deu um beijo em sua bochecha.

—Talvez não seja má ideia. Coloque roupas confortáveis e aquelas botas que te dei no natal. Pegue também a capa de chuva. Você tem 10 min meu moranguinho.

Papai passou por mim e depositou um beijo em minha testa.

—Pai… Promete que não me chama de moranguinho na frente dos meus amigos?

Ele olhou para trás e piscou o olho. Em 10 min eu estava na ponta da escada esperando meu pai. Meu corpo foi tomado de uma ansiedade causando descargas elétricas de animação por todo meu corpo. Tudo o que eu havia visto sobre a morte, estava em livros e na internet, mas estava preste a presenciar aquilo pessoalmente. Entramos na picape e meu pai começou a dirigir rumo a área de caça. Ao entrar na reserva, meu pai me deu algumas instruções. Escutei atentamente. Havia um silencio absurdo e aquilo me trazia paz. Meu pai ia ali com os amigos toda estação de caça. Eles caçavam coelhos, pois animais de porte maior tem sua caça proibida. Uma vez ou outra um cervo entrava no caminho deles e eles tinha que pagar uma fortuna de multa. Quando isso acontecia meu pai dizia que havia sido um ano ruim e resmungava o restante do ano, mas nunca deixava de comparecer a reserva.

—Pai posso fazer uma pergunta?

—Claro querida.

—O que passa pela sua cabeça quando você está caçando?

Meu pai permaneceu em silêncio por alguns instantes enquanto carregava o rifle. Suspirou fundo.

—Deixo minha mente limpa. Serena. De forma que talvez eu até consiga ouvir os sons na floresta de forma que com o passar da caçada, só exista eu e a presa. Enquanto eu manter minha mente pacifica, eu sou soberania em cima da minha presa. Você verá na prática como funciona.

As palavras de meu pai foram de muita ajuda. Entramos na floresta. Mantive minha mente limpa e calma. E um dado momento eu me perdi do meu pai na floresta, os barulhos começaram a se tornar mais alto, estava me confundindo. Fechei os olhos e deixei que a natureza me guiasse. Ouvi um tiro. Em seguida senti passos acelerados, quando dei por mim vi um belo cervo em minha direção, corri até a árvore mais próxima. Peguei a mochila que meu pai havia equipado para mim e abri. Havia uma adaga. Sentir a presença dele cada vez mais próxima. Podia sentir o meu fluxo sanguíneo se misturar ao da presa. Estávamos conectados. Quando percebi que ela havia parado, pisei de forma fraca ao caminho a minha frente e fiquei cara a cara com ele. Era belíssimo. E então com um movimento rápido cravei a adaga em seu pescoço. O sangue jorrou em mim, quente como fogo. O animal com sua ultima força bateu contra meu corpo me jogando contra árvore atrás de mim. Me levantei novamente e fui ao encontro do animal ferido. Enfiei a faca em seu flanco, ele gritou e aos poucos fui vendo a vida se esvair de seus olhos. Acima, abri próximo ao coração eu tirei com as mãos. Ali no meio da floresta, banhada pelo sangue do animal, eu me senti alimentanda, o desejo de sangue por hora estava saciado. Meu pai correu ao meu encontro perguntando se eu estava ferida e eu nem havia percebido que no meu impacto com a árvore, eu havia cortado a minha cabeça e estava sangrando. Aos poucos desfaleci nos braços do meu pai e tudo que eu me lembro desde então.

Irlanda – 9 anos antes do casamento.

Heiner chegou a porta do meu apartamento 5 min antes do combinado. Desci vestida de forma simples. Um vestido floral com os cabelos presos por uma tiara. Não seria nenhuma novidade se ela me devorasse com os olhos, e foi exatamente o que ela fez. Fomos a um pub não muito longe dali. Entre uma cerveja e outra, ela foi se soltando. Dançamos, cantamos e nos divertimos muito. Não ia demorar muito atingir o objetivo que eu queria com ela. Ao chegar na porta da minha casa sugeri que ela não pegasse a direção para casa, mas, no fundo, eu não estava preocupada. Subimos ao meu apartamento e mal abri a porta quando ela me colocou contra a parede.

—Afim de uma brincadeira diferente do seu costume?

—Está muito confiante de que eu não tenho costume. Não conte com falta de experiência… Porque eu andei praticando.

Segurei ela pelos cabelos e a virei de costas. Passei a língua em seu pescoço. Ela suspirou. De fato eu não tinha experiência, mas eu andei vendo alguns filmes e visitando algumas casas de prostituição em Dublin, pude ver de perto, e tentar algumas vezes. Deixei com que a noite fluísse e o sexo rolou solto a noite toda. Eu sabia que mais algumas noites e ela seria o acessório perfeito para a terceira parte do plano.

Notas finais
Me desculpem pela demora. Mas a semana tem se mostrado um desafio e tanto. E mente cheia se torna infrutifera. Bom espero que gostem. Xoxo - Ruiva (Red).