Janeiro de Gelo
3 Uma Noite de Possibilidades
Capítulo 2
Uma Noite de Possibilidades
O telefone chamou algumas vezes.
Durante aquele pequeno intervalo, eu quase desliguei. Era ridículo. Eu não conseguia responder professores, enfrentar corredores cheios, discutir com desconhecidos no primeiro dia de aula…E ligar para uma pessoa que eu conhecia há pouco mais de vinte e quatro horas ao que parece. Talvez porque aquilo fosse diferente. Não era uma obrigação. Não era uma situação em que eu precisava fingir segurança. Era uma escolha. E escolhas sempre foram mais complicadas.
— Alô?
A voz dela surgiu do outro lado. Parei por um segundo.
— Lucy?
Houve uma pequena pausa.
— Chris?
Um sorriso involuntário apareceu no meu rosto.
— Sim.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não.
Pensei.
— Quer dizer… não.
Ela riu.
— Você parece confuso.
— Talvez eu esteja.
— Isso é uma novidade.
Revirei os olhos, mesmo sabendo que ela não podia ver.
— Engraçadinha.
— Obrigada.
Fiquei alguns segundos em silêncio. Ela percebeu.
— Chris?
— Eu queria saber se você…
Parei. Por que aquilo era tão difícil?
— Se eu?
Respirei fundo.
— Se você queria sair hoje.
Silêncio. Um silêncio longo demais.
Por um instante, pensei que tinha feito alguma coisa errada. Então ouvi uma risada baixa.
— Você está me chamando para sair?
— Sim.
— Tipo…
Ela parecia se divertir com a situação.
— Um encontro?
— Eu não disse isso.
— Mas também não negou.
Fiquei sem resposta. Ela riu novamente.
— Tudo bem.
— Tudo bem?
— Sim, Chris.
A voz dela ficou mais suave.
— Eu aceito.
Não sei por quê, mas aquela simples resposta fez meu peito ficar mais leve.
— Então…
Olhei para o relógio.
— Passo aí às sete e meia?
— Sete e meia está ótimo.
— Certo.
— Certo.
Mais alguns segundos de silêncio.
Estranho. Mas não ruim.
— Até mais tarde, Chris.
— Até, Lucy.
Desliguei. E fiquei olhando para o telefone.
Como se ele tivesse acabado de fazer algo extraordinário. Meu pai apareceu na porta.
— Tudo bem?
Guardei o celular rapidamente.
— Tudo.
Ele sorriu. Aquele sorriso de pai que sabia mais do que deveria.
— Claro.
— Pai.
— Eu não falei nada.
— Mas está pensando.
Ele levantou as mãos em rendição.
— Vou deixar você se preparar.
Passei o resto da tarde tentando decidir uma coisa extremamente simples: O que vestir. Era engraçado. Eu nunca me importei muito com roupas. Sempre escolhi algo confortável. Algo que não chamasse atenção. Mas naquele dia eu estava analisando cada opção como se fosse uma decisão de vida ou morte. No final, escolhi algo simples. Uma calça preta. Uma camisa branca. Uma jaqueta escura. Nada exagerado. Apenas eu. Ou pelo menos a versão de mim que eu deixava as pessoas verem. Antes de sair, minha mãe apareceu.
Ela me observou por alguns segundos.
— Você está diferente.
— Diferente como?
Ela sorriu.
— Mais animado.
Neguei imediatamente.
— Não estou.
Ela riu.
— Claro que não.
Peguei a chave do carro.
— Volto depois.
— Divirta-se.
Essa palavra ficou ecoando na minha cabeça. Divirta-se. Eu nem lembrava a última vez que tinha feito isso. Cheguei ao prédio de Lucy alguns minutos antes do horário. Fiquei esperando encostado no carro. O frio da noite tocava meu rosto.
As luzes dos prédios refletiam nas ruas.
Então a porta do elevador abriu. E ela apareceu. Por alguns segundos, esqueci completamente o que ia dizer. Lucy usava um vestido preto simples, um casaco e botas. Mas não era a roupa. Era a maneira como ela parecia confortável sendo ela mesma. Ela caminhou até mim.
— Oi.
Minha resposta demorou mais do que deveria.
— Uau.
Ela sorriu.
— Isso foi um elogio?
— Foi a única palavra que consegui encontrar.
Ela riu.
— Então vamos considerar um elogio.
Abri a porta do carro para ela.
— Cavalheirismo?
— Não se acostume.
Ela entrou.
— Você é impossível.
— Já ouvi isso antes.
Entrei no carro e liguei o motor.
O som fez Lucy olhar para o painel.
— Esse carro é realmente seu?
— Sim.
— Você tem dezesseis anos.
— Eu sei.
— E dirige isso?
— Tecnicamente, ainda estou esperando minha licença. Ela arregalou os olhos.
— Chris.
Sorri.
— Calma. Eu sei dirigir.
Ela colocou a mão no rosto.
— Eu não sei se fico tranquila ou preocupada.
— As duas opções parecem adequadas.
Ela riu. E seguimos pela cidade.
Pela primeira vez em muito tempo…
Eu não estava pensando em fugir.
Eu estava apenas indo. Saímos do bairro em direção ao coração de Manhattan.
Durante os primeiros minutos ninguém falou muita coisa. O rádio tocava baixo. As ruas passavam diante do para-brisa como uma sequência interminável de luzes refletidas pelo asfalto úmido. Foi Lucy quem quebrou o silêncio.
— Então…
Olhei rapidamente para ela.
— Então?
— Você sempre dirige assim?
— Assim como?
— Como se estivesse fazendo uma prova prática.
Sorri.
— Prefiro chegar inteiro.
— Que decepção.
Olhei para ela.
— Você esperava o quê?
— Não sei…
Ela apoiou o rosto na janela.
— Um pouco mais de emoção.
— Achei que você fosse a responsável por evitar que eu fizesse besteira.
Ela abriu um sorriso.
— Eu disse isso?
— Não.
— Então ainda dá tempo de mudar de ideia.
Acabei rindo. Era curioso. Lucy tinha um jeito muito próprio de conversar. Ela fazia piadas sem tentar ser engraçada. E quando percebia que eu ria, parecia satisfeita. Como se aquilo fosse uma pequena vitória.
Pouco depois, os primeiros painéis luminosos começaram a surgir entre os prédios. Eu diminuí a velocidade quase sem perceber.
Lucy olhou para mim.
— O que foi?
Continuei olhando para frente.
— Eu nunca vi isso de perto.
Ela sorriu discretamente.
— Achei que fosse dizer isso.
Conforme avançávamos, as ruas pareciam ganhar vida. Os outdoors gigantes iluminavam a noite como se fosse dia.
Turistas caminhavam por todos os lados.
Artistas de rua. Táxis amarelos. Ônibus.
Música escapando de lojas abertas.
Era impossível olhar para um único lugar.
Nova York parecia acontecer inteira ao mesmo tempo.
— Caramba…
Foi tudo o que consegui dizer. Lucy cruzou os braços.
— Gostou?
— Eu achava que as fotos exageravam.
— E exageram?
Balancei a cabeça.
— Não. Nem um pouco.
Ela observou minha reação por alguns segundos. Depois voltou a olhar pela janela.
— Sabia que eu adoro trazer pessoas aqui pela primeira vez?
— Faz isso com frequência?
Ela riu.
— Não.
— Então por que disse “adoro”?
Ela pensou por um instante.
— Porque imaginei que adoraria.
O trânsito ficou praticamente parado.
Ficamos cercados por carros. Um grupo de turistas passou ao lado do Mustang.
Alguns apontaram discretamente. Um garoto parou para fotografar o carro.
Olhei para Lucy.
— Eles estão fotografando.
Ela deu uma olhada rápida.
— Não é você.
— Ainda bem.
— É o carro.
— Que alívio.
Ela deu uma gargalhada.
— Seu ego acabou de sobreviver.
— Nunca tive um.
— Mentiroso.
Parei alguns segundos. Depois apertei um botão. O teto começou a recolher lentamente.
Lucy arregalou os olhos.
— Chris…
— O quê?
— Não faz isso.
— Já fiz.
O conversível terminou de abrir. O ar gelado invadiu o interior do carro. Os turistas começaram a acenar.Uma criança apontou animada.
Lucy escondeu o rosto com as mãos.
— Eu vou fingir que não conheço você.
— Covarde.
Ela começou a rir.
— Você chama atenção até tentando evitar.
— Estou percebendo.
Seguimos lentamente entre os prédios.
Sem pressa. Só observando a cidade.
Por alguns minutos, nenhum dos dois falou nada. Não era necessário. Depois de algum tempo, Lucy apontou para uma rua menor.
— Vira aqui.
— Tem certeza?
— Confia em mim.
Entrei. As ruas ficaram mais tranquilas.
As luzes diminuíram. Os prédios altos deram lugar a construções menores. Era como atravessar duas cidades completamente diferentes em poucos minutos.
— Para ali.
Estacionei próximo a uma pequena lanchonete. As luzes de néon piscavam na fachada. O lugar parecia ter parado nos anos noventa. Entramos. O cheiro de pão tostado, batata frita e café ocupava todo o ambiente. Sentamos em uma cabine perto da janela. Uma garçonete se aproximou.
— Boa noite. Já decidiram?
Lucy fechou o cardápio imediatamente.
— Dois cheeseburgers.
Ela olhou para mim.
— Tudo bem?
Assenti.
— Batatas grandes para dividir.
Olhou outra vez para mim.
— Refrigerante?
— Pode ser.
A garçonete anotou tudo e foi embora.
Olhei para Lucy.
— Você decidiu muito rápido.
Ela sorriu.
— Eu sempre peço a mesma coisa.
— Medo de experimentar?
Ela fingiu indignação.
— Não.
— Então por quê?
Ela apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Porque às vezes a gente encontra uma coisa que funciona.
Sorriu.
— E não precisa complicar.
Aquilo ficou ecoando na minha cabeça.
Talvez ela não estivesse falando apenas de comida. Talvez estivesse falando da vida.
Ou talvez eu estivesse analisando tudo demais. Como sempre.
Lucy percebeu meu silêncio.
— O quê?
— Nada.
— Você fez aquela cara de filósofo de novo.
Ri baixo.
— Essa cara existe mesmo?
Ela confirmou com a cabeça.
— Infelizmente.
E, pela primeira vez naquela noite…
Eu ri alto. Sem pensar. Sem medir.
Sem medo de chamar atenção.
Foi nesse instante que percebi uma coisa curiosa. Eu não estava apenas conhecendo Nova York. Estava conhecendo uma versão de mim que fazia muito tempo que eu não via. A garçonete voltou poucos minutos depois equilibrando uma bandeja. Dois cheeseburgers. Uma porção generosa de batatas fritas. Dois copos grandes de refrigerante.
— Bom apetite.
— Obrigada. — respondeu Lucy.
Assim que a mulher se afastou, ela pegou uma batata. Depois outra. Mais uma.
Olhei para ela.
— Você pretende deixar alguma pra mim?
Ela parou com a terceira batata na mão.
— Achei que você ainda estivesse pensando na existência humana.
— Eu consigo filosofar e sentir fome ao mesmo tempo.
Ela sorriu.
— Impressionante.
Peguei uma batata antes que ela continuasse.
Ela fez uma expressão indignada.
— Ei!
— Justiça.
— Isso foi um roubo.
— Foi uma redistribuição de recursos.
Ela começou a rir.
— Você consegue transformar batatas fritas em discussão política.
— Eu estudo rápido.
Lucy balançou a cabeça.
— Definitivamente você não é normal.
— Você continua dizendo isso como se fosse um defeito.
— Porque ainda não decidi.
Os lanches chegaram logo depois.
Por alguns minutos ficamos em silêncio.
Aquele silêncio confortável. Sem obrigação de conversar. Sem constrangimento.
Só duas pessoas dividindo uma refeição.
Foi ela quem voltou a falar.
— Posso fazer uma pergunta?
Engoli o último pedaço do hambúrguer.
— Pode.
Ela brincava com o canudo do refrigerante.
Parecia escolher cuidadosamente as palavras.
— Você sempre foi assim?
Franzi o cenho.
— Assim como?
— Fechado.
Respirei devagar. Era uma pergunta simples. Mas carregava muito mais coisas do que parecia.
Olhei pela janela.
As pessoas passavam depressa do lado de fora. Cada uma vivendo uma história completamente diferente.
— Acho que não.
Ela permaneceu em silêncio.Esperando.
Não pressionando. Esperando.
— Quando eu era criança…
Parei. Era estranho falar sobre mim.
Fazia tanto tempo que eu evitava isso que as palavras pareciam enferrujadas.
— Eu acreditava que todas as mudanças eram aventuras.
Sorri de leve.
— Cidade nova.
Casa nova. Escola nova. Eu achava divertido.
Lucy continuava ouvindo.
— Depois de um tempo…
Passei o dedo pela borda do copo.
— Você percebe que não vale a pena começar amizades que vão acabar alguns meses depois.
Ela abaixou o olhar.
— Então você desistiu antes.
Assenti.
— É menos doloroso.
Ela ficou alguns segundos pensando.
— Sabe…
Sua voz saiu baixa.
— Eu nunca saí de Nova York.
Olhei para ela.
— Nunca?
Ela negou.
— Meu mundo sempre foi esse.
A escola. Meu prédio. Meu irmão. As mesmas ruas. As mesmas pessoas.
Ela sorriu sem muito entusiasmo.
— Engraçado, né?
Você passou a vida indo embora.
Eu passei a vida inteira sem conseguir sair.
Aquilo me fez pensar. Nunca tinha visto por esse lado.
Ela continuou.
— Acho que nós dois somos especialistas em solidão.
A frase ficou entre nós. Pesada. Mas verdadeira. Depois de alguns segundos, respondi:
— Talvez. Acho você não. Tinha opção de sair daqui. Mas aqui estão suas raízes. Nunca houve esse impulso de fato, pois sempre sentiu pertencer.
Ela sorriu de lado.
— Só talvez? Mas sim, talvez você esteja certo..
— É talvez…
Ela estendeu a mão sobre a mesa.
— Trégua?
Olhei para aquela mão por um instante.
Depois apertei de leve.
— Trégua.
Ela soltou minha mão devagar. Sorriu.
Foi um gesto pequeno. Mas curiosamente parecia importante. Quando saímos da lanchonete, o frio havia aumentado.
Lucy esfregou as mãos.
— Esqueci minhas luvas.
Sem pensar muito, tirei a jaqueta.
Ela arregalou os olhos.
— Chris, você vai congelar.
— Não tanto quanto você.
Estendi a peça.
Ela hesitou.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela vestiu. As mangas ficaram um pouco compridas. Sorriu.
— Obrigada.
— Ficou melhor em você.
Ela desviou o olhar.
— Você fala isso para todas?
— Você é a primeira garota para quem empresto minha jaqueta.
Ela riu.
— Que honra.
Começamos a caminhar sem rumo pelas ruas iluminadas. Nenhum dos dois parecia preocupado com o horário. Às vezes comentávamos sobre alguma vitrine.
Um músico tocava saxofone na esquina.
Um casal dançava perto de uma praça.
Uma criança tentava alcançar os flocos finos de neve que começavam a cair.
Lucy levantou a cabeça.
— Está nevando.
Olhei para o céu. E realmente estava.
Muito pouco. Quase imperceptível.
Mas suficiente para transformar a cidade inteira. Ela estendeu a mão. Um pequeno floco pousou. Derreteu quase imediatamente.
— Bonito…
Ela sussurrou. Olhei para ela. Não para a neve. Para ela. O brilho dos letreiros refletia em seus cabelos ruivos. Os olhos verdes pareciam ainda mais claros sob a iluminação da avenida. Foi a primeira vez que pensei que talvez…Talvez eu estivesse começando a gostar daquela garota.
Não pela aparência. Mas porque, pela primeira vez em muitos anos…Eu não sentia vontade de estar sozinho. E isso me assustava mais do que qualquer mudança de cidade. Lucy percebeu que eu estava olhando.
Sorriu.
— O quê?
Balancei a cabeça.
— Nada.
Ela estreitou os olhos.
— Mentira.
— Talvez.
Ela cruzou os braços.
— Você vive respondendo “talvez”.
Ri.
— É uma palavra segura.
— Não existe nada seguro.
Ela deu um passo à frente.
Depois virou de costas para mim.
— Vem.
— Para onde?
Ela apontou para uma rua mais estreita, onde as luzes da cidade começavam a desaparecer.
— Agora eu vou te mostrar a minha Nova York.
E, sem perceber, eu fui atrás dela.
As ruas movimentadas ficaram para trás.
Pouco a pouco, os letreiros luminosos deram lugar a postes antigos e árvores nuas pelo inverno. A cidade ainda respirava ao nosso redor, mas de um jeito mais discreto. As buzinas desapareceram.
As multidões também. Agora só existiam nossos passos acompanhando o som do vento. Lucy caminhava alguns metros à minha frente. As mãos escondidas nos bolsos da minha jaqueta. O cabelo ruivo dançava conforme a brisa soprava.
Ela conhecia exatamente para onde estava indo. Eu não fazia ideia. Mas, curiosamente…Não me incomodava.
Pela primeira vez desde que cheguei a Nova York, eu não precisava saber o caminho.
Bastava seguir alguém. Era uma sensação nova. E estranhamente confortável. Depois de alguns minutos, ela parou diante de uma pequena escadaria de pedra. Quase escondida entre duas construções antigas.
Se eu estivesse sozinho, provavelmente jamais perceberia que existia uma passagem ali. Ela olhou para trás.
Sorriu.
— Está cansado?
— Nem um pouco.
— Ainda bem.
Porque agora começa a parte divertida.
— Você costuma dizer isso antes ou depois de colocar pessoas em perigo?
Ela fez uma expressão inocente.
— Não existe prova nenhuma contra mim.
— Ainda.
Ela riu.
Subimos.
A escadaria parecia não terminar nunca.
Em alguns pontos, pequenas luminárias iluminavam os degraus. Em outros, apenas a luz da lua. Quando finalmente chegamos ao topo…Eu parei. Completamente.
A cidade inteira se estendia diante de nós.
Os prédios pareciam feitos de vidro e estrelas. Os rios refletiam milhares de pontos luminosos. Ao longe, era possível ver a silhueta da ponte do Brooklyn. O vento carregava um frio intenso. Mas também um silêncio raro. Lucy observava minha reação.
Não disse uma única palavra. Ela sabia que não precisava.
Respirei profundamente.
— Eu…
As palavras simplesmente desapareceram.
Ela sorriu.
— Eu sei.
Continuei olhando para o horizonte.
— Como encontrou esse lugar?
Ela caminhou até um banco de madeira próximo ao mirante.
Sentou.
— Meu avô me trazia aqui quando eu era pequena.
Aproximei-me devagar.
— Ele dizia que toda cidade tem dois rostos.
Olhei para ela.
— O que isso significa?
Ela ergueu os olhos para as luzes.
— Existe a cidade que todo mundo conhece.
A dos cartões-postais. Dos turistas. Das fotografias. Fez uma pequena pausa.
— E existe a cidade onde as pessoas realmente vivem.
Onde elas choram.
Se apaixonam.
Brigam.
Sonham.
Ela sorriu de leve.
— Essa é a minha Nova York.
Sentei ao lado dela. Por alguns minutos, nenhum de nós falou nada. O vento fazia as árvores balançarem lentamente. Lá embaixo, sirenes ecoavam ao longe.
A cidade continuava viva. Mas dali parecia pertencer a outro mundo. Foi Lucy quem rompeu o silêncio.
— Posso perguntar outra coisa?
Olhei para ela.
— Hoje você está curiosa.
— Muito.
— Pergunte.
Ela respirou fundo.
— O que você quer fazer da vida?
Sorri.
— Essa pergunta é injusta.
— Por quê?
— Porque nem os adultos sabem responder.
Ela riu.
— Mesmo assim.
Olhei novamente para o horizonte.
— Quando eu era criança…
Pensei um instante.
— Eu queria ser astronauta.
Ela arregalou os olhos.
— Sério?
— Sério.
— E agora?
— Agora eu não sei.
O silêncio voltou.
Depois continuei.
— Acho que só quero encontrar um lugar onde eu consiga ficar tempo suficiente para chamar de casa.
Ela não respondeu imediatamente.
Apenas ficou olhando para mim.
Depois disse baixinho:
— Eu nunca pensei nisso.
— Em quê?
— Você passa a vida procurando uma casa…
Enquanto eu passei a minha inteira tentando fugir da minha. As palavras dela me atingiram de um jeito estranho. Porque, pela primeira vez… Percebi que nós dois carregávamos vazios diferentes. Ela tinha raízes demais. Eu não tinha nenhuma.
Lucy sorriu.
— Engraçado.
— O quê?
— Eu passei anos querendo conhecer alguém diferente.
Você passou anos tentando não conhecer ninguém. E mesmo assim…Acabamos sentados no mesmo banco.
Ri.
— Estatisticamente improvável.
— Romanticamente interessante.
Olhei para ela.
Ela percebeu.
Desviou os olhos rapidamente.
As bochechas ganharam um leve tom rosado. Não por causa do frio. O vento aumentou. Ela encolheu os ombros.
Instintivamente, aproximei-me um pouco mais. Não o suficiente para tocá-la.
Só para bloquear parte do vento.
Ela percebeu o gesto. Não comentou.
Apenas sorriu discretamente.
Ficamos ali observando a cidade.
Sem pressa. Sem expectativas.
Às vezes, a melhor conversa era justamente aquela em que ninguém precisava dizer nada. Naquele silêncio compartilhado, comecei a entender uma coisa.
Talvez a solidão não desaparecesse quando encontrávamos alguém. Talvez ela apenas deixasse de fazer tanto barulho.
E, pela primeira vez em muito tempo…
O silêncio dentro de mim parecia um pouco menos frio. O relógio do meu celular marcava quase meia-noite. Eu nem tinha percebido. O tempo parecia correr diferente naquele lugar. Ou talvez simplesmente tivesse parado. Lucy continuava olhando a cidade. As luzes refletiam em seus olhos verdes, dando a impressão de que ela também fazia parte daquela paisagem.
Ela respirou fundo.
— Engraçado…
Olhei para ela.
— O quê?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Eu nunca trouxe ninguém aqui.
Sorri.
— Então me sinto privilegiado.
Ela balançou a cabeça lentamente.
— Não.
Sua voz saiu quase como um sussurro.
— Você não entendeu.
Franzi o cenho.
— Esse lugar…
Ela olhou ao redor.
— Sempre foi meu refúgio. Quando eu brigava com meu irmão…Quando meus pais estavam trabalhando…Quando eu queria fugir da escola…Era para cá que eu vinha.
Sorriu discretamente.
— Era o único lugar onde eu conseguia ouvir meus próprios pensamentos.
Olhei novamente para o horizonte. Agora eu entendia. Ela não estava me mostrando um ponto turístico. Estava me mostrando uma parte dela. E isso valia muito mais. Depois de alguns minutos perguntei:
— Por que eu?
Lucy riu baixinho.
— Você faz perguntas difíceis.
— Você começou.
Ri.
Ela ficou pensativa. O vento afastou uma mecha de cabelo de seu rosto. Ela a colocou atrás da orelha antes de responder.
— E você também parece precisar de um lugar para respirar.
A resposta me desmontou. Ela tinha percebido. Talvez desde o corredor da escola. Talvez desde o momento em que nos esbarramos. Talvez desde o instante em que me viu tentando desaparecer.
Respirei devagar.
— Acho que você está certa.
Ela sorriu.
— Eu sei.
— Convencida.
— Muito.
Nós dois rimos.
O frio aumentava conforme a madrugada avançava. Lucy esfregou discretamente as mãos. Sem dizer nada, sentei um pouco mais perto. Ela olhou para mim.
— Não precisa.
— Eu sei.
Mesmo assim permaneci. Ela também.
Pouco a pouco nossos ombros acabaram se encostando. Nenhum dos dois comentou.
Não era estranho. Era natural.
Ela respirou fundo.
— Posso confessar uma coisa?
— Claro.
— Hoje de manhã eu achei que você me odiava.
Olhei para ela, surpreso.
— Eu?
— Você mal falava.
Não olhava para ninguém. Parecia querer fugir de mim o tempo inteiro.
Sorri.
— Eu queria fugir de todo mundo.
— Inclusive de mim.
— Principalmente de mim mesmo.
Ela ficou em silêncio. Depois sorriu de um jeito triste.
— Eu conheço essa sensação.
Olhei para ela.
— Conhece?
Ela assentiu.
— Tem dias em que eu acordo me perguntando quem eu preciso ser para as pessoas gostarem de mim.
Aquilo me pegou completamente desprevenido. Porque, para mim, Lucy parecia exatamente o tipo de pessoa que não precisava fingir ser ninguém. Ela percebeu minha expressão.
— Todo mundo acha que pessoas extrovertidas não têm medo.
Mas têm.Sorriu sem mostrar os dentes.
— A diferença é que a gente aprende a sorrir antes de sentir coragem.
Fiquei olhando para ela durante alguns segundos. Sem perceber.
Ela notou.
Sorriu de lado.
— O quê?
Balancei a cabeça.
— Nada.
Ela estreitou os olhos.
— Você faz muito isso.
— O quê?
— Me olha como se estivesse tentando me entender.
Sorri.
— Talvez eu esteja.
Ela deu uma risadinha.
— Boa sorte.
Ficamos mais algum tempo observando a cidade. Não havia necessidade de preencher cada minuto com palavras.
Às vezes, o silêncio dizia exatamente o que precisava ser dito.
Lucy bocejou discretamente.
— Sono?
Ela confirmou com a cabeça.
— Um pouco.
— Você pode dormir.
Ela riu.
— Num banco de madeira?
— Eu faço um esforço para não deixar você cair.
Ela pensou por um instante.
Depois deu de ombros.
— Fechado.
Virou-se de lado. Apoiada primeiro no encosto. Depois, quase sem perceber…
Sua cabeça encontrou meu ombro.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Ela percebeu.
— Relaxa.
Sorriu de olhos fechados.
— Eu não mordo.
— Ainda.
Ela riu baixinho. Poucos minutos depois…
Parou de responder. Sua respiração ficou lenta. Regular. Ela havia adormecido.
Olhei para o céu. Alguns flocos de neve voltavam a cair lentamente. Muito poucos.
Quase invisíveis. Olhei para Lucy novamente. Uma mecha ruiva escondia parte de seu rosto. Com muito cuidado, afastei o cabelo. Ela nem se mexeu.
Sorri sozinho. Era estranho. Eu conhecia aquela garota havia apenas dois dias.
Mesmo assim…Parecia que fazia muito mais tempo. Quase uma hora depois, ela abriu os olhos lentamente. Piscou algumas vezes.
Depois percebeu onde estava. Levantou a cabeça imediatamente.
— Meu Deus…
Ela cobriu o rosto.
— Eu dormi.
— Dormiu.
— Por quanto tempo?
Olhei o relógio.
— Uns cinquenta minutos.
Ela arregalou os olhos.
— Cinquenta?
— Mais ou menos.
Ela parecia completamente envergonhada.
— Chris…
— Hum?
— Desculpa.
Não consegui esconder o sorriso.
— Pelo quê?
— Eu literalmente usei você de travesseiro.
Olhei para meu ombro. Depois para ela.
— Considerando todas as opções possíveis…
Essa foi uma das melhores. Ela riu.
Balançou a cabeça.
— Você definitivamente não é normal.
Levantamos do banco. A madrugada já tomava conta da cidade. Era hora de ir.
Descemos a escadaria devagar.
Nenhum dos dois parecia ter pressa de chegar ao carro. Quando finalmente paramos ao lado do carro…
Ficamos um de frente para o outro.
Silêncio.
Nenhum dos dois dizia “tchau”.
Lucy olhava para o chão.
Eu observava a neve pousando sobre seus cabelos.
Ela levantou os olhos.
Nossos olhares se encontraram.
Dessa vez…
Ninguém desviou.
Ela sorriu.
Bem de leve.
— Obrigada…
— Pelo quê?
— Pela companhia.
Respondi sem pensar.
— Eu que agradeço.
Ela deu um passo.
Ficou muito perto.
Perto o suficiente para que eu pudesse sentir seu perfume de lavanda misturado ao ar gelado da noite. Meu coração acelerou.
Pela primeira vez em muitos anos. Ela também parecia nervosa. Respirou fundo.
Sorriu outra vez. E, muito devagar…Ergueu a mão e segurou a minha. Sem força. Como quem perguntava em silêncio se podia.
Entrelacei meus dedos aos dela. Nenhum dos dois falou nada. Não precisava.
A cidade inteira continuava viva atrás de nós. Mas, naquele instante…Ela parecia muito distante. Lucy fechou os olhos por um breve segundo. Quando voltou a abri-los…
Nós dois já sabíamos o que ia acontecer.
Ela apenas diminuiu a distância. E eu fiz o resto. Nos encontramos no meio do caminho. Foi um beijo curto.Delicado.
Quase tímido. Como quem experimenta uma possibilidade antes de acreditar nela.
Quando nos afastamos…Nenhum dos dois conseguiu dizer absolutamente nada.
Lucy foi a primeira a rir. Um riso baixinho.
Nervoso.
— Acho que…
Ela interrompeu a própria frase.
Sorriu.
— Acho que estragamos a amizade.
Olhei para ela. E, pela primeira vez desde que cheguei a Nova York…Respondi sem pensar demais.
— Acho que acabamos de começar alguma coisa.
E, pela expressão dela, percebi que ela esperava qualquer resposta… Menos aquela.
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