Janeiro de Gelo
4 Acostumar-se
Capítulo 3 — Acostumar-se
Christopher Valiate
Segunda-feira, 06:00 AM
O despertador tocou.
Durante alguns segundos permaneci imóvel, encarando o teto, tentando convencer meu cérebro de que aquele som irritante não era real. Mas infelizmente era. As férias haviam acabado há duas semanas. Duas semanas.
Tempo suficiente para meu corpo esquecer completamente como funcionava uma rotina normal e se acostumar novamente com a ideia de não fazer nada além de existir. Suspirei. Era quase um ritual desde a primeira vez que meus pais anunciaram uma mudança. Uma nova cidade, uma nova casa, uma nova escola. O mesmo ciclo com cenários diferentes. Eu não gostava de mudanças, mas também nunca tive exatamente escolha. E reclamar de algo que você não pode alterar sempre me pareceu uma perda absurda de energia.
Charlie costumava discordar.
“Você reclama mesmo assim.”
Sorri levemente.
— Você não conta.
“Eu conto porque sou literalmente quem ouve todas as suas reclamações.”
Revirei os olhos, ainda deitado.
Era estranho pensar em Charlie como alguém. Tecnicamente, ele era apenas um caderno. Um diário velho escondido na gaveta da minha mesa de cabeceira.
Mas, em algum momento, deixou de ser apenas papel e tinta. Talvez porque fosse mais fácil conversar com páginas vazias do que com pessoas. Pessoas tinham expectativas. Pessoas julgavam.
Charlie apenas escutava. Levantei finalmente da cama e caminhei até o banheiro. Esse era, provavelmente, o meu lugar favorito naquela casa. Estranho, eu sei. A maioria das pessoas escolheria o quarto, a sala, o jardim ou algum espaço onde pudesse receber visitas. Eu escolhi um banheiro. Talvez porque ali ninguém esperasse nada de mim. As paredes eram revestidas por pequenas pastilhas azuis, uma cor que eu mesmo havia escolhido quando o arquiteto apresentou o projeto da casa. Azul sempre me passou uma sensação de calma. O banheiro parecia uma pequena bolha separada do resto do mundo. Abri a torneira, lavei o rosto e encarei meu reflexo no espelho. Cabelos negros bagunçados. Olhar cansado.
A expressão de alguém que ainda estava tentando acordar para mais uma semana.
— Animado? — perguntei ao reflexo.
Charlie respondeu antes de mim.
“Você nunca está animado antes das seis da manhã.”
— Verdade.
“Então por que perguntou?”
— Talvez eu esperasse uma resposta diferente.
“Você me conhece melhor que isso.”
Ignorei a provocação e entrei no banho.
A água quente caiu sobre meus ombros e, por alguns minutos, o mundo ficou distante.
Esse era o problema de momentos tranquilos. Eles sempre acabavam.
Depois de quase uma hora, voltei ao quarto ainda enrolado em uma toalha. Liguei a televisão enquanto escolhia uma roupa e o noticiário falava sobre conflitos entre gangues pela cidade.Não prestei muita atenção. Nova York parecia ter esse talento estranho de transformar caos em rotina.
Abri o closet. Escolhi uma calça jeans, uma camisa de flanela e um agasalho escuro.
Normalmente eu teria perdido mais tempo tentando arrumar meu cabelo, mas naquele dia simplesmente coloquei um gorro.Prático.
E escondia a bagunça. Desci para tomar café. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava no horário. Minha mãe percebeu imediatamente. Ela estava preparando panquecas quando entrei na cozinha.
— Caiu da cama? — perguntou sorrindo.
— Não.
Sentei-me e peguei uma panqueca.
— Bom, pelo menos hoje você vai comer alguma coisa antes de sair.
— Não se acostume.
Ela riu.
— Quer chantilly?
— Por favor.
Ela me entregou o frasco e cobri a panqueca com uma quantidade provavelmente exagerada.
Minha mãe observou.
— Você sabe que isso ainda é uma panqueca, não uma sobremesa, certo?
— Discordo da definição.
Ela balançou a cabeça, divertida.
— Seu pai ficaria orgulhoso dessa lógica.
Olhei ao redor.
— Falando nele… cadê o papai?
O sorriso dela diminuiu um pouco.
— Ele já saiu. Precisou pegar o helicóptero. Seu avô pediu que ele participasse de uma reunião com os acionistas brasileiros.
Assenti.
— Claro. Não podemos deixar o Brasil esperando.
O comentário saiu mais ácido do que eu pretendia.
Minha mãe percebeu.
— Chris…
Eu suspirei.
— Eu sei. Ele tem responsabilidades.
E tinha mesmo. Eu sabia disso.
Meu pai sempre foi um homem dedicado. Trabalhador. Inteligente. O tipo de pessoa que construiu uma vida que muitos desejariam ter. Mas às vezes parecia que, quanto maior o sucesso dele, menor era o espaço que sobrava para nós.
Minha mãe continuou me olhando.
— Você sabe que ele ama você.
Eu sabia. Esse era o problema. Não era falta de amor. Era falta de presença. Levantei-me.
— Desculpa. Vou pegar o carro.
Ela sorriu de leve.
— Tenha um bom dia, filho.
Antes de sair, ela completou:
— E lembre-se que a Maura vem essa semana.
Parei na porta.
Ótimo.
Maura.
A única pessoa capaz de transformar uma casa silenciosa em uma central de interrogatório. Ela ajudava minha mãe há anos e era extremamente competente.
Também era extremamente curiosa.
“Ela gosta de você.”
Charlie comentou.
— Isso não melhora a situação.
“Você sabe que ela só tenta cuidar.”
— Eu sei.
E talvez esse fosse o problema. Todo mundo tentava cuidar. Eu só nunca soube muito bem como deixar alguém fazer isso. Saí de casa e entrei no carro. Pelo menos havia uma coisa boa naquela manhã.
Lucy.
Peguei o celular e liguei para ela enquanto dirigia.
Chamando…
— Alô?
A voz dela veio sonolenta.
— Bom dia.
— Chris?
— Estou passando aí. Já está pronta?
Ouvi uma movimentação do outro lado.
— Estou sim. Espera lá embaixo que eu desço.
Desliguei sorrindo.
Charlie apareceu novamente.
“Você gosta dela.”
— Não começa.
“Eu não disse nada demais.”
— Você disse exatamente o que eu estava pensando.
“Esse é literalmente o meu trabalho.”
Revirei os olhos, mas continuei sorrindo.
E isso era irritante. Porque eu não costumava sorrir de manhã. Cheguei ao prédio de Lucy alguns minutos depois.
Estacionei o carro próximo à entrada e fiquei encostado na lateral do veículo, observando o movimento da rua.
O Park Slope tinha uma característica curiosa. Mesmo sendo uma região movimentada, ainda conseguia parecer tranquila. Pessoas caminhando com seus cachorros, crianças acompanhadas pelos pais, moradores saindo para trabalhar. Uma pequena engrenagem funcionando perfeitamente dentro da imensa máquina que era Nova York. Pouco depois, as portas do elevador da entrada se abriram.
E então ela apareceu. Lucy tinha uma habilidade impressionante de transformar uma simples caminhada até um carro em algum tipo de evento. Ela saiu olhando para os lados, segurando a mochila de qualquer jeito, quase tropeçando no próprio caminho.
E, ainda assim, parecia completamente à vontade.
Quando me viu, abriu um sorriso.
— Bom dia.
— Bom dia. Pronta para mais um dia no inferno?
Ela colocou a mão no peito, fingindo indignação.
— Christopher Valiate, são oito da manhã. Você já está sendo dramático?
— Eu prefiro chamar de realismo.
Ela abriu a porta do carro.
— Sabe, você poderia tentar enxergar a escola como uma experiência positiva.
Entrei no veículo e liguei o motor.
— Uma expectativa de que tudo dê errado continua sendo uma expectativa.
Ela ficou me encarando por alguns segundos.
Depois começou a rir.
— Você é impossível.
— Já ouvi isso antes.
— Aposto que várias vezes.
— Principalmente por pessoas que ainda assim continuam falando comigo.
Ela sorriu de canto. E eu percebi.
Aquela era uma das coisas estranhas sobre Lucy. Ela não parecia se incomodar com minhas respostas. A maioria das pessoas interpretava meu jeito como arrogância.
Lucy parecia enxergar algo além.
Charlie interrompeu meus pensamentos.
“Ela percebe você.”
Olhei para a rua.
— Você está muito observador hoje.
“Eu sempre fui.”
— Você é um caderno.
“Um caderno muito inteligente.”
Tive que segurar um sorriso.
Lucy percebeu.
— O que foi?
— Nada.
— Você sorriu.
— Não posso?
Ela estreitou os olhos.
— Pode. Só estou tentando descobrir o motivo.
— Talvez eu tenha lembrado de alguma coisa engraçada.
— E você não vai me contar?
— Talvez.
— Você é muito misterioso para alguém que reclama tanto.
— E você fala demais para alguém que se atrapalha tanto.
Ela abriu a boca, fingindo estar ofendida.
— Nossa.
— Foi uma observação científica.
— Científica?
— Sim.
— Claro. Porque atacar minha personalidade agora virou pesquisa.
— Exatamente.
Ela riu. E eu percebi que conversar com Lucy era fácil. Estranhamente fácil.
Chegamos ao fim da rua e ela olhou para frente.
— Você já tomou café?
— Já.
Ela me olhou desconfiada.
— Sério?
— Sério.
— Você comeu alguma coisa?
Pensei por um instante.
— Uma panqueca.
— Só?
— Com chantilly.
Ela suspirou.
— Você tem dezesseis anos e se alimenta como uma criança em festa de aniversário.
— Funcionou até agora.
— Isso não é argumento.
— É um fato.
Ela balançou a cabeça.
— Vamos passar em algum lugar antes da escola.
— Não precisa.
— Chris.
O tom dela mudou. Não era uma ordem.
Era aquele tipo de preocupação disfarçada que ela tentava esconder.
— Você precisa comer.
Suspirei.
— Está começando a parecer minha mãe.
— Obrigada.
— Não foi um elogio.
— Eu sei.
Ela sorriu. Poucos minutos depois, paramos em uma pequena lanchonete próxima ao caminho da escola. Era um daqueles lugares tradicionais de Nova York. Nada extravagante. Mesas de madeira, bancos acolchoados e o cheiro de café misturado com comida quente. Entramos e escolhemos uma mesa mais afastada.
Lucy pegou o cardápio imediatamente.
Eu já sabia que aquilo levaria tempo.
— Você sabe que existem pessoas que escolhem comida em menos de dez minutos, certo?
Ela continuou olhando as opções.
— Existem pessoas que fazem escolhas ruins também.
— Você está dizendo que eu escolho mal?
— Eu estou dizendo que você colocou chantilly em uma panqueca.
Silêncio.
Ela tinha um ponto.
A garçonete se aproximou.
— Já decidiram?
Lucy fechou o cardápio.
— Sim. Quero ovos, bacon, anéis de cebola e dois cappuccinos duplos com bastante chantilly e chocolate extra.
A garçonete anotou e saiu.
Eu fiquei olhando para Lucy.
Ela percebeu.
— O que foi?
— Nada.
— Chris.
— Só estou tentando entender para onde vai tanta comida.
Ela olhou para o próprio prato.
Depois para mim.
— Você está dizendo que eu como muito?
— Estou dizendo que é impressionante.
Ela sorriu.
— Eu malho bastante.
— Então é isso?
— Isso o quê?
— O segredo.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Segredo?
— Você consegue comer como se estivesse se preparando para hibernar e ainda parecer assim.
Ela riu.
— Você acabou de me chamar de urso?
— Não.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Porque pareceu.
— Foi um elogio estranho.
— Você tem muitos desses.
Eu sorri.
Era verdade.
Quando a comida chegou, Lucy começou a comer. E eu novamente fiquei impressionado.
— Você parece uma pessoa que não vê comida há três dias.
Ela apontou o garfo para mim.
— Cuidado.
— Estou apenas observando.
— Observando demais.
— Talvez.
Ela sorriu.
— E você? Aposto que é daqueles que esquece de comer quando está fazendo alguma coisa.
Fiquei em silêncio por um segundo.
Ela percebeu.
— Acertei?
Desviei o olhar.
— Talvez.
— Você é estranho.
— Já falamos isso.
— Não desse jeito.
Peguei meu cappuccino.
— O que quer dizer?
Ela deu de ombros.
— Parece que você está sempre em algum lugar distante.
A frase me pegou de surpresa. Porque era verdade. Eu estava sempre um pouco distante. Mesmo quando estava presente.
Charlie ficou em silêncio.
E, curiosamente, naquele momento eu agradeci. Porque algumas coisas eram difíceis demais para explicar até para ele.
A frase de Lucy permaneceu comigo por alguns segundos.
“Parece que você está sempre em algum lugar distante.”
Era uma observação simples.
Mas Lucy tinha esse hábito estranho de dizer coisas que pareciam atravessar algumas camadas antes de chegar até mim. A maioria das pessoas fazia perguntas esperando respostas específicas.
Lucy parecia perguntar porque realmente queria entender. Peguei o copo e tomei um gole do cappuccino.
— Talvez porque eu esteja.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Isso foi uma resposta muito Christopher Valiate.
— Existe uma resposta com meu nome?
— Existe.
— Interessante.
— Significa uma resposta meio misteriosa, meio filosófica e que normalmente me deixa querendo fazer mais perguntas.
— Então é uma resposta eficiente.
Ela riu.
— Você sempre foi assim?
Parei por um instante. A pergunta parecia simples, mas carregava mais peso do que aparentava.
— Assim como?
— Evasivo.
Olhei pela janela da lanchonete.
A rua estava começando a ficar mais movimentada. Pessoas indo para seus trabalhos, carros passando, a cidade acordando.
— Acho que sim.
Lucy ficou em silêncio. Dessa vez, ela não tentou preencher o espaço. Gostei disso.
— Eu nunca fui muito bom em criar raízes.
Ela esperou.
Continuei:
— Meus pais sempre tiveram uma vida muito movimentada. Mudanças de cidade, escolas novas… Você acaba aprendendo a não se apegar muito.
— Porque você acha que vai perder?
Olhei para ela. Lucy estava séria.
E eu não esperava aquela pergunta.
— Sim, bom eu fiquei um bom tempo entre Europa e o Canadá. Uns 5 anos mais ou menos. Fiz alguns poucos amigos e quando finalmente criei raizes. Tive que deixar todos para trás. E assim tem sido, tentei manter contato, mas eles pareceram se esquecer de mim. Então prefiro me manter reservado e sempre espero o pior para não me decepcionar.
Ela mexeu no canudo do cappuccino.
— Eu acho isso triste.
— É prático.
— Nem tudo que é prático é bom.
Charlie apareceu.
“Ela tem razão.”
Ignorei.
— Você e Charlie concordam demais.
Lucy franziu a testa.
— Charlie?
Meu corpo congelou por um segundo.
Droga.
Eu tinha falado em voz alta.
— Meu diário.
Ela piscou.
— Você deu nome para o seu diário?
— Sim.
Ela abriu um sorriso.
Não de deboche.
De surpresa.
— Isso é… estranhamente fofo.
— Não use essa palavra comigo.
Ela riu.
— Por quê?
— Porque eu não sou fofo.
— Claro.
— Estou falando sério.
— Christopher, você tem dezesseis anos, conversa com um diário chamado Charlie e fica irritado quando alguém chama isso de fofo.
Silêncio.
Ela tinha um argumento.
— Colocando dessa forma parece pior.
Ela riu novamente.
E eu também.
Pouco.
Mas ri. E isso era uma coisa que estava acontecendo com frequência demais ultimamente. Depois de terminarmos, paguei a conta e voltamos para o carro.
O caminho até a escola foi tranquilo.
Sem aquele silêncio desconfortável.
Era diferente. Eu não sentia necessidade de preencher cada segundo. Talvez porque Lucy também não sentisse. Quando chegamos ao estacionamento, ela olhou para o relógio.
— Ainda temos alguns minutos.
— Milagre.
— Você sabe que chegar atrasado todos os dias não faz parte da sua personalidade misteriosa, certo?
— Eu nunca disse que fazia.
— Você age como se fosse uma escolha estética.
Parei e olhei para ela.
— E se for?
Ela riu.
Entramos na escola pouco antes do sinal.
A Pelotas High School continuava exatamente igual. Corredores cheios.
Armários batendo. Pessoas conversando.
Uma quantidade absurda de energia para uma segunda-feira de manhã. Ainda parecia estranho pensar que aquele lugar agora fazia parte da minha rotina. Uma semana antes, eu não conhecia ninguém ali. Agora eu tinha alguém esperando por mim no estacionamento. E isso era uma sensação nova. Durante as aulas, o tempo passou mais rápido do que eu esperava.
Talvez porque eu já não estivesse completamente isolado. Ou talvez porque eu começava a reconhecer alguns rostos.
Na aula de matemática, sentei ao lado de Lucy. Ela ficava perto da janela, como se precisasse de uma rota de fuga caso a aula ficasse insuportável. Eu entendia.
Durante uma atividade em dupla, eu empurrei um papel para seu lado.
— Você faz a primeira questão.
— Por quê?
— Porque você parece gostar de matemática.
— Eu pareço?
— Sim.
— Isso é uma acusação?
— Talvez.
Peguei o lápis.
— E você?
— Eu fico responsável por reclamar.
— Excelente habilidade.
— Obrigado.
A manhã passou rapidamente.
Quando chegou o horário do almoço, eu estava guardando meus materiais quando Lucy apareceu ao lado do meu armário.
— Vou apresentar você ao pessoal.
Fechei a porta do armário.
— Tudo bem. (Não não estava tudo bem)
Ela me encarou.
— Só isso?
— O que eu deveria dizer?
— Não sei. Talvez demonstrar algum medo.
— De conhecer pessoas? (Exato, eu estava aterrizado)
— Exatamente.
Pensei por um momento.
— Eu já sobrevivi à apresentação da senhora Elizabeth. (Não sobrevivi não)
Ela riu.
— Verdade. Depois daquilo, você é praticamente invencível.
Caminhamos pelo corredor.
— Eles são legais.
— Essa frase geralmente antecede algo preocupante.
— Chris.
— Estou brincando.
Ela sorriu.
— Eles são diferentes.
Olhei para ela.
— Diferentes como?
Ela pensou.
— Eles não tentam ser outra coisa.
Essa resposta chamou minha atenção.
Porque talvez fosse exatamente o tipo de pessoa que eu procurava. Pessoas que não precisavam fingir. Chegamos ao refeitório.
Era enorme. O chão extremamente limpo carregava o brasão da escola pintado em vermelho. As mesas ocupavam o espaço em fileiras organizadas, com grupos espalhados por todos os lados. Automaticamente procurei um canto mais afastado. Velho hábito.
Lucy percebeu.
Mas não comentou.
Apenas continuou andando.
Mais à frente, vi Kendall.
O irmão dela estava sentado com um grupo grande de alunos. Ele usava o uniforme esportivo da escola e parecia exatamente o tipo de pessoa que todos conheciam.
Popular.
Confiante.
O oposto completo de mim.
Uma garota loira estava próxima dele (próxima é minha forma de atenuar ela estar pendurada ao seu pescoço como um adereço), provavelmente sua namorada.
Ela olhou para mim.
Eu sorri por educação.
Ela pareceu confusa.
Lucy puxou meu braço.
— Não provoca.
— Eu não fiz nada.
— Você sorriu daquele jeito.
— Que jeito?
— O jeito que parece que você sabe alguma coisa que ninguém sabe.
— Talvez eu saiba.
Ela revirou os olhos.
— Você é impossível.
Continuamos andando até outra mesa.
Um garoto alto de cabelos castanhos levantou a mão.
— Lucy!
Ela sorriu.
— Chegamos.
Então olhou para mim.
— Preparado?
— Para o quê?
— Para conhecer pessoas normais.
— Isso parece mais assustador do que deveria.
Ela riu.
E me puxou pela mão até a mesa.
Pela primeira vez em muito tempo, eu não estava entrando em um lugar completamente sozinho. Assim que chegamos à mesa, o garoto que havia chamado Lucy abriu um sorriso.
Ele era alto, magro e tinha aquele tipo de expressão de quem sempre parecia estar prestes a fazer uma piada.
— Então, Lucy… anda traficando modelos para a vida do crime agora?
Ela soltou uma risada.
— Cala a boca, Creg.
Olhei para ele.
Definitivamente era o tipo de pessoa que falava antes de pensar. Talvez por isso Lucy gostasse dele.
— Gente, esse é o Chris. Christopher Valiate. Ele acabou de se mudar para Nova York e é novato na escola.
Todos olharam para mim. Não era como na sala da senhora Elizabeth. Dessa vez não havia uma turma inteira esperando uma apresentação formal. Eram apenas algumas pessoas. Mesmo assim, senti aquele velho desconforto.
Charlie apareceu sorrateiro.
“Respira.”
Eu quase sorri.
As observações de Charlie sempre me desconsertavam.
— Olá.
Uma garota pequena foi a primeira a se apresentar. Ela tinha traços asiáticos, cabelos azuis e uma tatuagem de âncora no pulso.
— Prazer em conhecê-lo, Chris. Eu sou Emily.
— Prazer, Emily.
Ela sorriu.
— Ele é educado. Gostei.
— Cuidado, Emily. Ele pode estar enganando todos nós.
Era Creg novamente. Lucy pegou uma batata da bandeja dele.
— Você poderia passar cinco minutos sem provocar alguém?
— Poderia. Mas eu perderia minha essência.
Revirei os olhos. Outra garota se aproximou.
Ela era loira, com olhos azuis extremamente claros. Havia algo intenso no olhar dela.
— Eu sou Cindy Bay.
Ela apontou para Emily.
— E só para deixar claro: fique longe dela. Ela é minha garota.
Emily suspirou.
— Cindy.
A loira sorriu.
— O quê? Estou apenas estabelecendo limites.
— Você está ameaçando um garoto que acabou de chegar.
— Preventivamente.
Eu ri.
— Relaxa. Eu nem tinha percebido.
Cindy me analisou por um segundo.
Depois sorriu.
— Gostei dele.
Emily balançou a cabeça.
— Não incentiva.
Os outros integrantes da mesa foram mais discretos. Alguns apenas acenaram.
Outros disseram um simples “oi”. Mas ninguém parecia hostil. Isso já era bem mais do que eu esperava. Sentei ao lado de Lucy.
Ela parecia satisfeita.
Como se estivesse esperando aquele momento há algum tempo.
— Então? — perguntou baixinho.
— O quê?
— Minha turma é tão ruim assim?
Olhei para o grupo.
Creg discutia com Cindy sobre alguma coisa completamente sem sentido.
Emily tentava impedir uma discussão que claramente não era uma discussão de verdade. Pelo menos não parecia ser. Mas não saberia dizer.
Lucy apenas observava, sorrindo.
— Não.
Ela sorriu.
— Não?
— Acho que são suportáveis.
Ela colocou a mão no peito, fingindo estar ofendida.
— Uau. Isso vindo de você é praticamente uma declaração de amor.
— Não exagera.
— Eu vou considerar um elogio.
E, pela primeira vez, eu não discordei.
O restante do dia passou rápido.
Talvez porque eu já tivesse um lugar para ir durante os intervalos. Talvez porque eu começasse a reconhecer as pessoas pelos corredores. Ou talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não estivesse contando quanto faltava para ir embora.
Quando o último sinal tocou, caminhei até o estacionamento.
Era estranho.
Uma semana atrás, eu teria saído da escola e desaparecido no primeiro minuto possível.
Agora eu estava esperando alguém. Lucy apareceu alguns minutos depois.
— Oi.
— Você demorou.
— Cinco minutos.
— Exatamente.
Ela riu.
— Você é muito dramático.
— Você já disse isso.
— Porque continua sendo verdade.
Ela guardou a mochila no carro.
— A reunião do clube de teatro demorou mais do que eu esperava.
— Então a atriz estava trabalhando.
Ela revirou os olhos.
— Eu já disse que não sou atriz.
— Você participa de teatro.
— Isso não significa que sou boa.
— Nem que seja ruim, mas ainda assim. Uma Atriz.
Ela abriu a porta.
— Tanto faz.
Ela ri.
Entramos no carro.
— Estou com fome.
— De novo?
— Eu cresço, sabia?
— Eu também.
— Você? Não parece.
Olhei para ela.
Ela arregalou os olhos.
— Foi uma piada.
— Péssima.
— Mas você riu.
Desviei o olhar.
Ela tinha razão.
Novamente.
— McDonald’s?
Ela sorriu.
— Você sabe o caminho.
No restaurante, tudo parecia uma repetição da nossa primeira saída. O mesmo tipo de mesa. O mesmo pedido. A mesma sensação estranha de conforto. Mas havia uma diferença. Na primeira vez, Lucy era uma desconhecida. Agora ela era alguém que fazia parte do meu dia. Pedimos os hambúrgueres com cheddar. Dessa vez, eu fui mais rápido.
Lucy ficou olhando surpresa.
— Você acabou de comer isso em tempo recorde.
— Experiência.
— Você treinou?
— Talvez.
Ela riu.
Ficamos ali por horas conversando sobre coisas aleatórias.
Filmes.
Música.
Professores.
Pessoas da escola.
Nada muito profundo.
E talvez fosse justamente por isso que era tão bom.Nem toda conversa precisava revelar segredos. Algumas só precisavam existir. Quando olhei o relógio, já passava das oito.
Suspirei.
— Acho melhor eu ir.
Lucy concordou.
— Você parece cansado.
— Estou.
Mas não era exatamente um cansaço ruim.
Era aquele tipo de exaustão que aparece depois de um dia cheio. Um dia vivido.
Voltei para casa em silêncio. Minha mãe estava na sala quando entrei.
— Como foi?
Tirei o casaco.
— Normal.
Ela sorriu.
— Normal para você significa alguma coisa boa?
Pensei.
— Talvez.
Ela pareceu satisfeita com aquela pequena resposta. Subi para o quarto.
Fechei a porta.
E pela primeira vez em muito tempo, não senti vontade de fugir para outro lugar.
Peguei Charlie na gaveta. Sentei na cama.
Abri na página em branco.
Por alguns segundos, fiquei apenas olhando.
Charlie esperou.
Ele sempre esperava.
Peguei a caneta.
“Então?”
Suspirei.
— Então o quê?
“Como foi o dia?”
Olhei para o teto.
— Diferente.
“Isso é bom?”
Pensei em Lucy.
Na risada dela.
Na forma como ela conseguia tornar tudo melhor, apenas estando ali.
— Acho que sim.
Escrevi.
Querido Charlie,
Hoje aconteceu uma coisa estranha.
Eu acho que estou começando a gostar daqui. Não me sinto tão intimidado, mas acolhido. Talvez ainda existam pessoas que valham a pena conhecer.
Parei.
Observei as sentenças de hoje. Eram simples. Mas parecia comunicar mais do que deveriam. Porque significava algo que eu não queria admitir. Talvez uma parte de mim estivesse cansada de sempre partir. Fechei o diário. E, pela primeira vez em semanas, dormi sem sentir que precisava acordar em outro lugar.
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