Janeiro de Gelo
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
Existe uma coisa curiosa sobre recomeços: as pessoas costumam tratá-los como se fossem uma oportunidade de apagar tudo o que veio antes. Como se mudar de cidade, trocar de casa ou entrar em uma escola nova fosse suficiente para transformar alguém em uma versão diferente de si mesmo. Eu nunca acreditei nisso. No fim, você pode trocar o cenário inteiro, mas continua carregando a própria mente junto.
E esse costuma ser o maior problema.
Meu primeiro dia em uma cidade nova deveria representar uma página em branco. Pelo menos era isso que meus pais diziam.
Uma nova escola. Novas pessoas. Novas possibilidades. Eu só conseguia enxergar a mesma história com uma capa diferente.
Pessoas fingindo se importar umas com as outras enquanto procuravam uma oportunidade para subir alguns degraus às custas de alguém. Alunos transformando a desgraça alheia em entretenimento. Pequenos impérios construídos em corredores de escola, onde popularidade valia mais do que caráter. Eu já tinha visto aquilo antes. Mudar o prédio não mudava as pessoas. Meu nome é Christopher Blackwood Valiate. Embora, normalmente, Christopher já seja mais do que suficiente.
Tenho dezesseis anos, nasci da mistura improvável entre dois países e cresci aprendendo que a vida raramente segue o roteiro que alguém planejou. Meu pai é brasileiro. Minha mãe é canadense.
Eu tenho dupla nacionalidade, dois idiomas fluentes na cabeça e uma quantidade considerável de mudanças de endereço no histórico. Meus pais sempre tiveram uma vida guiada por compromissos, reuniões e responsabilidades. Eles são advogados, e não do tipo que trabalha apenas para pagar as contas. Eles trabalham para a família.
A empresa do meu avô, a Blackwood Enterprises, cresceu durante décadas até se tornar uma companhia multinacional com negócios em diferentes áreas, principalmente construção civil e naval.
Para eles, a empresa nunca foi apenas um emprego. Era um legado. Um nome. Uma obrigação. Meu pai, Roberth Valiate, nasceu no sul do Brasil. Ele sempre teve aquele tipo de presença que fazia as pessoas acreditarem que ele sabia exatamente o que estava fazendo, mesmo quando provavelmente estava improvisando.
Alto, atlético, com olhos castanhos claros e um sorriso fácil, ele era o tipo de homem que parecia ter descoberto cedo como vencer o jogo da vida. Minha mãe, Clarice Blackwood, era diferente. Ela tinha uma elegância natural que não precisava ser demonstrada. Seus longos cabelos negros e olhos verdes costumavam chamar atenção, mas era sua inteligência que realmente dominava qualquer ambiente. Ela podia parecer delicada até abrir uma pasta de documentos e começar uma discussão jurídica. Nesse momento, ninguém mais via apenas uma mulher bonita. Vi várias vezes pessoas subestimarem minha mãe. Nunca vi essas mesmas pessoas cometerem o erro duas vezes. Eu admirava os dois.Esse era o problema. Admiração não significa identificação. Meus pais sabiam exatamente onde queriam chegar. Eu nunca tive tanta certeza. Eles planejavam cada detalhe da vida como se fosse uma grande partida de xadrez. Eu sempre preferi observar o tabuleiro antes de decidir se queria jogar. Talvez por isso eu nunca tenha me encaixado completamente em nenhum lugar. Não sou o garoto popular que todos querem conhecer. Também não sou aquele estereótipo de nerd isolado que passa despercebido pelos corredores.Eu fico em algum ponto entre os dois. Eu consigo conversar. Consigo sorrir. Consigo ser educado. Só não costumo deixar pessoas próximas o suficiente para perceberem quando eu paro de fingir. Alguns chamariam isso de antissocial. Eu prefiro chamar de prevenção. Depois de certo tempo, você aprende que algumas pessoas entram na sua vida apenas para descobrir onde podem machucar. Então você constrói paredes. Não porque gosta delas. Mas porque elas funcionam. Na semana anterior ao início das aulas, meus pais receberam uma transferência de trabalho para Nova York. Uma cidade enorme. Barulhenta.
Cheia de pessoas correndo atrás de alguma coisa. Eles enxergavam oportunidades. Eu enxergava mais uma mudança. Mais uma escola. Mais uma tentativa de começar algo que provavelmente terminaria antes mesmo de criar raízes. A única coisa que eu sabia era que, em algum momento, eu teria que atravessar aqueles portões. E fingir que aquele lugar poderia ser diferente. Mesmo sabendo que provavelmente não seria. A nova casa ficava em Park Slope, Brooklyn.
Meus pais chamavam de “um ótimo lugar para começar uma nova fase”. Eu chamava de mais um endereço. Não era uma casa comum. Na verdade, nada na minha vida costumava ser muito comum. Era grande demais para três pessoas. Tinha cômodos que raramente eram usados, uma cozinha que parecia ter saído de uma revista de arquitetura e janelas enormes que permitiam que a luz invadisse todos os cantos. Eu gostava do silêncio daquele lugar. Talvez porque o silêncio não esperasse nada de mim. Pessoas esperam.
Casas não.Desde pequeno eu aprendi a observar mais do que participar. Enquanto outras crianças falavam sobre seus amigos, suas festas ou seus planos para o fim de semana, eu costumava estar ocupado demais tentando entender as pessoas ao meu redor. Eu sempre achei curioso como todos diziam querer ser diferentes, mas a maioria passava a vida inteira tentando se encaixar. Talvez fosse esse o motivo de eu me sentir deslocado. Eu nunca tive muita vontade de pertencer a um grupo. Eu só queria encontrar um lugar onde não precisasse atuar. Mas isso parecia ser pedir demais. Meu quarto era provavelmente o único lugar da casa que realmente parecia meu. Não porque fosse cheio de objetos ou lembranças. Pelo contrário. Era organizado demais. Quase vazio.Uma cama, uma escrivaninha, alguns livros, meu computador e uma estante onde eu guardava algo que ninguém conhecia. Meu diário. Charlie. Eu sei que parece estranho dar nome para um caderno. Mas Charlie esteve comigo em momentos em que nenhuma pessoa esteve. Ele nunca me interrompeu. Nunca julgou. Nunca usou minhas palavras contra mim.Talvez fosse o relacionamento mais confiável que eu tinha.
Pode parecer triste. Talvez seja. Mas era a verdade.Durante anos, eu aprendi a guardar tudo dentro de mim. As pessoas gostam de dizer que conversar ajuda. Às vezes ajuda. Mas existe uma diferença entre querer desabafar e confiar em alguém.
Eu nunca fui muito bom na segunda parte.
Então escrevia. Era mais fácil. As palavras no papel não faziam perguntas. Não mudavam de opinião sobre mim. Não iam embora. Minha mãe costumava dizer que eu tinha herdado a parte mais difícil dos dois lados da família. A teimosia dos brasileiros.
E a frieza dos canadenses. Eu sempre achei engraçado. Porque, na minha opinião, eu não era frio. Eu sentia demais. Esse era justamente o problema. Eu só não sabia o que fazer com tudo aquilo. Então transformava sentimentos em ironia. Medo em indiferença. Tristeza em silêncio. Era uma estratégia imperfeita. Mas funcionava.
Na maior parte do tempo. Nova York era diferente de Toronto. Não apenas pelo tamanho. Era como se a cidade tivesse uma personalidade própria. As ruas nunca pareciam dormir completamente.
Os prédios pareciam competir para tocar o céu. As pessoas caminhavam rápido demais, como se cinco minutos perdidos fossem capazes de destruir suas vidas.
Talvez fosse por isso que eu gostasse um pouco dela. Nova York não fingia ser tranquila. Ela era caótica e assumia isso.
De certa forma, eu entendia. Naquela época, eu ainda não sabia.
Não sabia que aquela mudança seria diferente. Não sabia que aquela escola seria diferente. Não sabia que uma garota de cabelos ruivos e olhos verdes seria capaz de atravessar algumas das paredes que eu levei anos construindo. Eu ainda não sabia que algumas pessoas aparecem na nossa vida sem pedir permissão. Elas simplesmente chegam. E quando percebemos, já mudaram tudo.
Mas naquele momento…Naquele momento eu só era Christopher Valiate. O garoto novo. O garoto que não queria chamar atenção. O garoto que acreditava conhecer exatamente o tipo de história que estava prestes a viver. Eu estava completamente enganado.
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