Janeiro de Gelo
2 O primeiro dia
Capítulo 1
O Primeiro Dia
Sexta-feira, 06 de janeiro
O despertador tocou às seis da manhã.
Durante alguns segundos, permaneci olhando para o teto, tentando convencer meu cérebro de que ainda existia alguma possibilidade de continuar dormindo.
Não existia. A escola começava naquele dia. Meu primeiro dia. Nova cidade. Nova casa. Nova escola. A mesma velha sensação. Levantei da cama com a animação de alguém que acabara de receber uma sentença. Não era exatamente medo. Eu já tinha passado por aquilo antes.
Era apenas cansaço. O tipo de cansaço que não vem do corpo, mas da ideia de precisar começar tudo novamente. Fui até o banheiro e liguei o chuveiro. A água quente sempre teve um efeito estranho sobre mim.
Era um dos poucos momentos em que minha cabeça ficava silenciosa. Sem pensamentos demais. Sem lembranças demais. Sem aquela necessidade constante de analisar tudo. Depois de alguns minutos, saí, me arrumei e voltei para o quarto. Escolhi uma calça jeans escura, uma camiseta branca do Maroon 5 e uma jaqueta azul de couro. Nova York em janeiro não era exatamente o tipo de lugar onde você saía sem proteção contra o frio.
Meu cabelo estava uma bagunça, mas deixei assim. Arrumar demais chamava atenção. E atenção era exatamente o que eu queria evitar. Peguei minha mochila e desci as escadas. Quando cheguei à cozinha, minha mãe estava preparando café. Ela olhou para o relógio e depois para mim. Uma expressão divertida surgiu no rosto dela.
— Milagre. Você conseguiu acordar antes de sair atrasado.
Revirei os olhos.
— Bom dia para você também.
Ela riu.
— Vai comer alguma coisa?
Olhei rapidamente para o relógio.
— Se eu comer, meu pai provavelmente vai chegar atrasado na reunião.
Como se tivesse sido chamado pelo próprio comentário, ouvi o som da chave do carro vindo da garagem. Peguei uma maçã da fruteira.
— Isso conta como café da manhã.
Minha mãe cruzou os braços.
— Uma maçã?
— Uma maçã muito eficiente.
Ela balançou a cabeça, sorrindo.
— Você é impossível.
— Eu prefiro “consistente”.
Antes que ela pudesse responder, ouvi meu pai chamar.
— Chris!
— Já estou indo!
Desci para a garagem.
Meu pai estava ao lado do carro, olhando o relógio. Ele tentou fazer uma expressão séria, mas não conseguiu sustentar por muito tempo.
— Você sabe que eu tenho horário, certo?
— Bom dia para você também.
Ele suspirou, segurando um sorriso.
— Entra logo.
Entrei no carro e seguimos pelas ruas de Park Slope. Pela janela, observei a cidade passando. Árvores sem folhas. Prédios antigos misturados com construções modernas. Pessoas andando apressadas carregando cafés nas mãos. Era bonito.
Eu odiava admitir isso. Mas era.
Quando chegamos próximo à escola, meu pai diminuiu a velocidade.
— Boa sorte hoje.
Olhei para ele. Era uma frase simples.
Mas vindo dele, significava mais do que parecia.
— Obrigado.
Saí do carro antes que aquele momento ficasse sentimental demais.
Meu pai era ótimo em demonstrar carinho.
Eu era péssimo em receber.
Caminhei em direção ao prédio.
E foi assim que começou meu primeiro dia na Pelotas High School.
Sem imaginar que aquele lugar, que eu tinha certeza que seria apenas mais uma escola…Seria o lugar onde tudo mudaria.
A primeira coisa que percebi ao atravessar o portão da Pelotas High School foi que escolas tinham um talento especial para parecerem iguais. Não importava a cidade.
Não importava o país. Sempre existiam os mesmos grupos espalhados pelos corredores. Os que falavam alto demais.
Os que riam de qualquer coisa. Os que pareciam ter nascido sabendo exatamente onde pertenciam. E os que, como eu, caminhavam tentando descobrir o caminho sem chamar atenção. O prédio era grande, construído em concreto cinza com alguns detalhes em amarelo que denunciavam uma reforma recente. Não era exatamente bonito, mas também não era feio. Era apenas uma escola. Um lugar onde milhares de adolescentes passariam alguns dos anos mais importantes de suas vidas fingindo que não se importavam com nada.
A ironia era que todos se importavam. Demais. Alguns alunos estavam reunidos próximos à entrada principal, conversando em pequenos grupos. Outros ocupavam os bancos espalhados pelo pátio, aproveitando os últimos minutos antes do sinal. Eu mantive o olhar baixo. Não por vergonha.
Por estratégia. No primeiro dia, sempre existia uma regra silenciosa: Não dê motivos para as pessoas lembrarem de você. Pelo menos era assim que eu funcionava. Quanto menos perguntas, menos respostas. Quanto menos respostas, menos problemas. Entrei no prédio e fui até os armários tentando encontrar o meu número. A escola parecia maior por dentro.
Corredores longos. Fileiras intermináveis de armários metálicos. Cartazes coloridos anunciando clubes, eventos e atividades que eu provavelmente nunca participaria.
Finalmente encontrei o meu armário.
O problema era que eu ainda precisava descobrir como abrir aquela coisa.
Depois de algumas tentativas frustradas, consegui. Peguei meu horário e conferi a primeira aula.
Literatura.
Sala 07.
Professora Elizabeth Jensey.
Olhei para os corredores. Ótimo.
Primeira manhã e eu já estava perdido.
— Perfeito, Christopher. Excelente começo.
Guardei o papel no bolso e comecei a procurar a sala. O corredor estava ficando cada vez mais cheio. Alunos passavam por todos os lados, alguns correndo, outros conversando sem prestar atenção no caminho. Foi quando ouvi passos rápidos.
Muito rápidos. Virei o rosto. Tarde demais.
Uma garota surgiu na minha direção carregando uma pilha de folhas.
— Cuidado!
Minha tentativa de aviso chegou exatamente no momento do impacto.
Nós dois batemos um no outro e fomos parar no chão. As folhas voaram pelo corredor. Por alguns segundos, fiquei parado. Minha primeira reação foi imaginar todos olhando. Todos rindo. Todos esperando para transformar aquele momento em alguma piada. Mas quando levantei o olhar…Ninguém estava prestando atenção. Mas pessoas continuavam andando. Vivendo suas próprias vidas.
Era estranho. Depois de tanto esperar pelo julgamento dos outros, perceber que ninguém estava realmente preocupado comigo era quase libertador.
— Meu Deus, me desculpa.
A voz dela me tirou dos pensamentos.
A garota estava ajoelhada no chão recolhendo os papéis desesperadamente.
— Eu sinto muito. Eu estava distraída e…
Ela parou. Respirou fundo. Parecia tentar organizar não apenas as folhas, mas também os próprios pensamentos. Ajoelhei e comecei a ajudá-la.
— Está tudo bem.
Ela levantou os olhos rapidamente.
Foi quando eu reparei nela pela primeira vez. Cabelos ruivos. Olhos verdes. Não era apenas beleza. Era uma expressão difícil de explicar. Como se ela estivesse sempre a um passo de pensar em cinco coisas diferentes ao mesmo tempo.
— Você se machucou?
Perguntei. Ela piscou, surpresa.
— O quê?
— Você perguntou tanto se eu estava bem que esqueci de perguntar se você estava.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Então sorriu. Um sorriso pequeno. Quase tímido.
— Não. Estou bem.
Voltamos a juntar os papéis.
Quando peguei uma das folhas, percebi que estava cheia de falas e marcações.
Parecia um roteiro.
— Você atua?
A pergunta saiu antes que eu pensasse.
Ela olhou para o papel na minha mão.
Depois para mim.
— Isso?
Ela riu sem graça.
— É só uma coisa do clube de teatro.
— Então você atua.
Ela inclinou a cabeça.
— Tecnicamente, sim.
— Isso parece uma resposta de quem está tentando fugir da pergunta.
Pela primeira vez, ela riu de verdade.
— Talvez eu esteja.
Entreguei as últimas folhas.
— Por quê?
Ela pareceu surpresa com a pergunta.
— Por quê o quê?
— Por que esconder?
Ela ficou alguns segundos pensando.
Então deu de ombros.
— Não sei. Acho que é mais fácil dizer que é uma distração do que admitir que eu gosto.
Aquilo chamou minha atenção. Não pela resposta. Mas pela sinceridade.
Poucas pessoas admitiam gostar de alguma coisa sem tentar parecer indiferentes. Ela juntou os papéis contra o peito.
— Obrigada pela ajuda.
— Não foi nada.
Eu me levantei e peguei minha mochila.
Estava prestes a seguir caminho quando ela falou:
— Espera.
Olhei para trás. Ela parecia estar tentando decidir se deveria perguntar algo.
— Posso fazer uma pergunta?
— Pode.
Ela mordeu levemente o lábio.
— Você é novo, não é?
— Isso está tão óbvio assim?
Ela sorriu.
— Um pouco.
— Ótimo. Meu plano de passar despercebido falhou antes mesmo da primeira aula.
Ela riu.
E aquele riso me pegou de surpresa.
— Eu nunca vi você aqui antes.
— Primeiro dia.
— Imaginei.
— Como?
Ela apontou para o papel na minha mão.
— Pessoas que estudam aqui há tempo suficiente sabem onde ficam as salas.
Olhei para o papel. Ela tinha razão.
— Certo. Talvez eu esteja um pouco perdido.
— Um pouco?
Ela arqueou a sobrancelha.
— Tudo bem. Muito.
Ela sorriu.
— Qual sua primeira aula?
Mostrei o horário.
Ela olhou.
— Literatura.
Depois olhou para mim novamente.
— Eu também.
Coincidência. Pelo menos era o que eu pensei naquele momento.
— Posso te mostrar onde fica.
Hesitei por alguns segundos.
Normalmente eu recusaria.
Era mais simples. Mais seguro.
Mas havia algo nela.
Talvez fosse o jeito desajeitado.
Talvez fosse o fato de ela parecer tão desconfortável quanto eu em algumas situações. Ou talvez eu apenas estivesse cansado de começar tudo sozinho.
— Eu aceito.
Ela sorriu.
— Ótimo.
Começamos a andar pelo corredor.
Depois de alguns passos, ela percebeu algo.
— Espera.
— O quê?
Ela me olhou.
— Nós estamos andando juntos há quase um minuto e eu nem sei seu nome.
Ela tinha razão.
Estendi a mão.
— Christopher Valiate.
Ela apertou minha mão.
— Lucy West.
— Prazer.
— Prazer, Christopher.
Fiz uma careta.
— Chris.
Ela sorriu.
— Tudo bem, Chris.
E naquele momento, sem que eu percebesse…Pela primeira vez desde a mudança…Eu não estava tentando escapar de alguém. Lucy caminhava ao meu lado pelo corredor como se conhecesse cada centímetro daquele lugar. Talvez conhecesse. Ela apontava portas, corredores e escadas enquanto explicava onde ficava cada coisa, mas fazia isso sem aquele tom de guia turística que algumas pessoas usavam quando tinham orgulho demais de saber alguma coisa. Era natural.
— Ali fica a biblioteca.
Ela apontou para uma porta de vidro no final do corredor.
— É o lugar mais silencioso da escola.
— Finalmente uma informação útil.
Ela olhou para mim, fingindo indignação.
— Você está dizendo que todas as outras informações não eram úteis?
— Estou dizendo que uma biblioteca silenciosa é uma das poucas coisas que realmente importam.
Ela riu.
— Você sempre é assim?
— Assim como?
— Meio… sério.
Pensei por alguns segundos.
— Acho que depende da situação.
— E qual é a situação agora?
Olhei ao redor. Alunos passando apressados. Barulho. Conversas.
Gente demais.
— Um pouco desesperadora.
Ela segurou uma risada.
— Você sabe que isso é só uma escola, né?
— Eu sei. Esse é justamente o problema.
Ela balançou a cabeça, divertida.
— Você é estranho.
— Obrigado.
Ela parou de andar por um instante.
— Eu não estava tentando ofender.
— Eu sei.
Voltei a caminhar.
— Foi um elogio.
Ela pareceu surpresa.
— Você considera isso um elogio?
— Pessoas comuns são facilmente substituíveis.
Lucy ficou me olhando por alguns segundos. Não como alguém julgando.
Mais como alguém tentando entender.
Era uma sensação incomum. Normalmente as pessoas decidiam quem eu era antes mesmo de conversar comigo. Ela parecia estar realmente prestando atenção.
— Você fala coisas muito estranhas.
— Eu escuto isso bastante.
— Aposto que sim.
Nós chegamos em frente à sala 07.
Lucy abriu a porta. A sala já estava parcialmente cheia. Escolhi uma carteira próxima à janela, na primeira fileira.
Não porque queria participar. Muito pelo contrário. Era o lugar onde eu poderia prestar atenção sem precisar interagir.
Lucy observou a escolha.
— Primeira fila?
— É mais fácil não conversar.
Ela riu.
— Você realmente planeja tudo para evitar pessoas?
— Agora você está começando a entender.
— Isso é triste.
— Isso é eficiente.
Ela balançou a cabeça.
— Nos vemos depois, Chris.
Ela foi até o fundo da sala e sentou na última fileira. Observei por alguns segundos.
Ela parecia completamente diferente de mim. Eu tentava desaparecer.Ela parecia existir sem pedir desculpas por isso.
Poucos minutos depois, a professora entrou.
Era uma mulher de aproximadamente sessenta anos, cabelos loiros já quase completamente grisalhos e uma postura que fazia a sala inteira ficar em silêncio sem que ela precisasse pedir. Ela colocou alguns livros sobre a mesa e analisou os alunos.
— Bom dia.
A turma respondeu de forma desanimada.
Ela suspirou.
— Vamos tentar novamente.
Dessa vez um pouco mais alto:
— Bom dia.
— Bom dia, professora.
Ela assentiu satisfeita.
— Muito melhor.
Pegou uma prancheta e começou a chamada. Eu fiquei olhando para o caderno.
Até ouvir:
— Christopher Valiate?
Levantei a mão.
— Presente.
Ela parou. Olhou para a lista. Depois para mim. Era aquele olhar. O olhar que significava que alguma coisa estava prestes a acontecer. Eu conhecia. Eu odiava.
— Senhor Valiate?
— Sim?
— Você é novo, correto?
— Sim.
Ela fechou a prancheta.
— Interessante.
Essa palavra nunca significava algo bom.
— Nossa escola raramente recebe alunos transferidos durante o ano.
Algumas pessoas começaram a olhar.
Eu senti.
— Talvez o senhor pudesse se apresentar para a turma.
Meu cérebro imediatamente respondeu:
Não. Minha boca, infelizmente, não teve a mesma velocidade.
— Não acho necessário.
Alguns alunos riram baixo.
A professora ergueu uma sobrancelha.
— Não?
— Quero dizer… não quero interromper a aula.
Ela sorriu levemente.
Aquele sorriso de quem já tinha decidido.
— Cinco minutos não vão destruir nosso aprendizado.
Perfeito. Minha primeira aula. Meu primeiro dia. E eu já era o centro da atenção. Levantei lentamente. Caminhei até a frente da sala. Cada passo parecia mais alto do que deveria. Eu podia sentir os olhares.
Era exatamente o que eu queria evitar.
A professora apontou para a turma.
— Pode começar.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Meu cabelo caiu sobre o rosto.
Pelo menos isso ajudava.
— Meu nome é Christopher Valiate.
Pausa.
— Vim de Toronto.
Alguns alunos pareceram interessados.
Continuei.
— Meus pais trabalham com advocacia.
Eu poderia parar ali. Deveria parar ali.
Mas a professora continuou esperando.
— E… espero ter um bom ano aqui.
Pronto. Simples. Objetivo.
Mas ela ainda parecia insatisfeita.
— Só isso?
Respirei fundo.
— O que mais a senhora gostaria de saber?
Algumas pessoas riram.
A professora tentou esconder um sorriso.
— Alguma coisa sobre você.
Pensei. Sobre mim. Essa era uma pergunta mais difícil do que parecia.
— Eu gosto de música.
Pausa.
— Livros.
Outra pausa.
— E prefiro lugares tranquilos.
A professora assentiu.
— Muito bem.
Voltei para meu lugar.
Quando sentei, ouvi um sussurro vindo do fundo da sala.
— Ele é muito bonito.
Não precisei olhar para saber que não era um comentário sobre minha personalidade.
Ignorei. A atenção das pessoas sempre vinha pelos motivos errados. A aula continuou. Literatura sempre foi uma das poucas matérias que eu realmente gostava.
Talvez porque livros fossem uma forma de conhecer pessoas sem precisar lidar com elas. Você podia entender alguém através das palavras. Sem interrupções. Sem máscaras. Quando o sinal tocou, guardei minhas coisas rapidamente. Eu só queria sair antes que alguém tentasse conversar.
Mas quando me levantei… Lucy estava parada ao lado da minha mesa.
— Você fugiria se eu não tivesse vindo aqui, não fugiria?
Olhei para ela.
— Talvez.
Ela sorriu.
— Eu sabia.
— Você parece gostar muito de descobrir coisas sobre mim.
— Não.
Ela colocou a mochila no ombro.
— Eu só acho interessante alguém que tenta tanto não ser percebido acabar sendo exatamente a pessoa que chama atenção.
Fiquei em silêncio. Porque, pela primeira vez naquele dia…Eu não tinha uma resposta pronta. O problema de pessoas observadoras é que elas percebem coisas que você tenta esconder. Lucy parecia ser uma dessas pessoas. E isso me incomodava. Não porque ela estivesse errada. Mas porque ela estava certa.
Eu sempre achei que passar despercebido era uma habilidade. Um tipo de proteção invisível. Só que naquele dia eu estava começando a perceber uma coisa:
Às vezes, tentar desaparecer demais faz as pessoas olharem.
— Você está pensando demais de novo, não está?
A pergunta de Lucy me puxou de volta.
Estávamos caminhando pelo corredor em direção à próxima aula.
— Como você sabe?
Ela deu de ombros.
— Você fica com essa expressão.
— Que expressão?
Ela estreitou os olhos, tentando imitar meu rosto.
— Essa cara de quem está analisando a existência humana e decidindo se vale a pena continuar participando dela.
Não consegui evitar um pequeno sorriso.
— Essa foi bem específica.
— Acertei?
Fiquei em silêncio.
Ela abriu um sorriso vitorioso.
— Eu sabia.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Presta atenção demais.
Ela pensou por um momento.
— Acho que sim.
— Deve ser cansativo.
A resposta dela demorou alguns segundos.
— Às vezes é.
Aquilo mudou um pouco o tom da conversa.
Porque pela primeira vez ela não estava brincando. Ela olhou para frente.
— Mas também é útil. Você percebe coisas que outras pessoas ignoram.
Entendi o que ela queria dizer. Talvez por isso ela tivesse percebido que eu era diferente. Talvez ela também soubesse como era sentir-se deslocada. As próximas aulas passaram mais rápido do que eu esperava. Não porque fossem interessantes. Mas porque Lucy estava sempre por perto. Descobri que tínhamos várias matérias juntos.
Matemática.
História.
Química.
Era estranho. Em qualquer outra situação, eu teria considerado isso uma coincidência irritante. Mas com ela era diferente.
Lucy não tentava preencher todos os silêncios. Ela não fazia perguntas invasivas.
Ela não parecia interessada em descobrir minha vida inteira em cinco minutos.
Ela simplesmente estava ali. E talvez fosse justamente isso que tornava a presença dela confortável. No intervalo, fomos para o refeitório. Um lugar que parecia ter sido projetado para causar ansiedade.
Centenas de adolescentes falando ao mesmo tempo. Mesas cheias. Risadas.
Barulho de bandejas. Eu olhei ao redor.
— Você está pensando em fugir, não está?
Lucy perguntou.
— Estou considerando.
Ela segurou meu braço antes que eu desse um passo para trás.
— Nem pense.
— Você acabou de impedir fisicamente uma fuga.
— Sim.
— Isso é preocupante.
— Você agradece depois.
Ela me puxou até uma mesa mais afastada.
Sentamos. Por alguns segundos, apenas observamos o movimento.
— Então…
Ela apoiou o queixo na mão.
— O que você achou da escola?
Pensei antes de responder.
— Honestamente?
— Sempre.
— Parece uma prisão com armários melhores.
Ela riu.
— Eu sabia que você ia dizer algo assim.
— E você?
Ela olhou para o refeitório.
— Eu acho que depende do dia.
— Como assim?
— Alguns dias parece uma prisão.
Pausa.
— Outros parece um lugar onde coisas inesperadas podem acontecer.
Olhei para ela.
— Você é otimista.
Ela fez uma expressão de dúvida.
— Eu?
— Sim.
— Eu não sou.
— É sim.
Ela riu.
— Você me conhece há algumas horas.
— Tempo suficiente.
Ela ficou me olhando por um instante.
Então sorriu.
— Você é muito convencido.
— Talvez.
— Talvez?
— Tenho certeza.
Ela riu novamente. E eu percebi uma coisa estranha. Eu estava rindo também. Depois do almoço, seguimos para a aula de química. Foi quando aconteceu. A primeira tentativa. Eu estava colocando alguns livros no armário quando ouvi uma voz atrás de mim.
— Ei.
Ignorei. Não era comigo. Provavelmente.
— Ei, novato.
Dessa vez era. Virei lentamente.
Três garotos estavam parados ali.
O tipo de grupo que parecia existir em todas as escolas do mundo. Atletas. Casacos de time. Confiança exagerada. O garoto no meio era mais alto que os outros, loiro, com postura de quem estava acostumado a ser notado.
— Você é o cara novo, certo?
— Sim.
Ele sorriu. Não era um sorriso amigável.
— Está gostando da Pelotas?
— Sim.
Respondi sem emoção.
Ele pareceu esperar uma resposta maior.
— Só isso?
Dei de ombros.
— Você perguntou se eu estava gostando.
Os amigos dele riram.
O garoto inclinou a cabeça.
— Você sempre responde assim?
— Assim como?
— Como se não se importasse.
Pensei por um momento.
— Talvez porque eu não me importe.
Silêncio.
Até os amigos dele ficaram surpresos.
Eu sabia que aquela não era a resposta mais inteligente. Mas também sabia que não tinha paciência para jogos.
O garoto deu um passo mais perto.
— Você sabe com quem está falando?
Olhei para ele.
— Não.
Pausa.
— Deveria?
Um dos amigos segurou uma risada.
O garoto fechou um pouco a expressão.
— Eu sou Kendall West.
O nome parecia familiar.
Antes que eu respondesse, Lucy apareceu atrás dele.
— Kendall.
O garoto olhou para ela.
— Lucy.
Então eu entendi.
Irmãos.
— Você está incomodando o garoto no primeiro dia?
Ela perguntou.
— Estou apenas conversando.
— Kendall, você nunca apenas conversa.
Ele revirou os olhos.
— Relaxa.
Depois olhou para mim novamente.
— A gente se vê por aí, novato.
Eles saíram.
Lucy ficou olhando para o irmão.
— Ignore ele.
— Ele sempre é assim?
— Sim.
— Parece cansativo.
Ela suspirou.
— Você não faz ideia.
Continuei olhando para o corredor. Primeiro dia. Primeira escola nova. E eu já tinha conseguido chamar atenção de duas pessoas completamente diferentes. Lucy.
E Kendall. Talvez aquele ano fosse mais complicado do que eu imaginava.
O resto das aulas passou sem grandes acontecimentos. O que, para mim, era uma vitória. Eu tinha sobrevivido ao primeiro dia.
Nenhuma apresentação inesperada.
Nenhum desastre social. Nenhuma situação em que eu precisasse explicar minha existência para estranhos. Era o máximo que eu poderia pedir. Quando o último sinal tocou, senti aquela sensação familiar de alívio. O prédio inteiro pareceu acordar de repente. Portas abrindo. Passos apressados. Conversas aumentando. Todos queriam sair dali. Eu também. Guardei meus livros e saí pelo corredor. Dessa vez, porém, não estava completamente sozinho. Lucy caminhava ao meu lado.
— Então…
Ela colocou a mochila nas costas.
— Primeiro dia concluído.
— Tecnicamente.
— Tecnicamente?
— Ainda falta chegar em casa sem nenhum problema.
Ela riu.
— Você realmente espera problemas em todos os lugares?
— Não.
Pensei.
— Só na maioria.
Ela balançou a cabeça.
— Você é uma pessoa muito positiva, Christopher.
— Obrigado.
— Isso não foi um elogio.
— Eu sei.
Ela sorriu.
Chegamos à entrada principal.
O céu começava a escurecer, e o frio de janeiro parecia aumentar a cada minuto.
Alunos saíam em grupos. Alguns entravam em carros. Outros esperavam ônibus.
Eu procurei pelo meu pai. Como sempre, ele estava atrasado. Cinco minutos. Depois dez. Depois quinze.
Lucy percebeu.
— Seu motorista está atrasado?
— Meu pai.
— Ah.
Ela olhou para o estacionamento.
— Ele costuma atrasar?
— Não.
Pausa.
— Só quando está ocupado demais.
Ela ficou em silêncio. Não perguntou mais.
Eu agradeci mentalmente por isso. Finalmente, um carro conhecido apareceu.
Meu pai estacionou próximo ao portão.
Antes de entrar, olhei para Lucy.
— Então…
— Então?
— Até amanhã.
Ela sorriu.
— Até amanhã, Chris.
Entrei no carro. Meu pai olhou pelo retrovisor.
— Amiga nova?
— Colega.
Ele sorriu.
— Claro.
— Pai.
— Eu não disse nada.
— Mas pensou.
Ele riu. Era irritante admitir, mas meu pai tinha um talento especial para me provocar.
O caminho até casa foi tranquilo. Nova York tinha uma beleza estranha no inverno.
As árvores cinzas, sem vida. As luzes dos prédios refletindo nas ruas molhadas. O contraste entre o frio e a movimentação constante. Era uma cidade que nunca parecia ir de encontro ao sossego.
Quando chegamos em casa, minha mãe estava na cozinha. O cheiro da comida tomou conta do ambiente antes mesmo de eu entrar completamente.
— Chris?
— Oi, mãe.
Ela apareceu sorrindo.
— Como foi?
A pergunta parecia simples. Mas eu sabia que ela realmente queria saber. Pensei por alguns segundos.
— Foi diferente.
Ela pareceu surpresa.
— Diferente bom ou diferente ruim?
Tirei a mochila.
— Ainda não decidi.
Ela riu.
— Isso já é uma resposta melhor do que eu esperava.
Meu pai entrou logo depois.
— E então, sobreviveu ao primeiro dia?
— Por pouco.
Ele riu.
— Drama.
— Realidade.
Minha mãe colocou a comida na mesa.
— Vamos jantar.
Sentamos.
Por alguns minutos, tudo ficou normal. Uma família jantando. Conversando. Rindo. E eu sempre achei estranho como aquilo parecia tão fácil para eles. Meus pais eram pessoas completamente diferentes de mim. Eles planejavam. Eles construíam. Eles tinham certeza do caminho. Eu sempre senti que estava andando por uma estrada coberta de neblina. Mas ainda assim…Eu gostava daqueles momentos. Mesmo que nunca admitisse. Depois do jantar, assistimos a um filme juntos. Era uma coisa simples. Mas talvez justamente por isso fosse importante.
Quando acordei no dia seguinte, algo estava errado. Muito errado. Primeiro senti alguma coisa fria no meu rosto. Depois ouvi vozes.
— Parabéns para você…
Abri os olhos lentamente. Minha visão estava embaçada. Minha mãe e meu pai estavam ao lado da cama. Minha mãe segurava um pequeno bolo. Meu pai segurava um prato com um pedaço de doce.
— O que está acontecendo?
Minha mãe riu.
— Feliz aniversário!
Demorei alguns segundos para entender.
Então olhei para o relógio. Depois para eles.
— Meu aniversário?
Meu pai sorriu.
— Dezesseis anos.
Suspirei.
— Vocês sabem que eu não tenho cinco anos, certo?
— Sabemos.
Minha mãe colocou o bolo na mesa.
— Mas ainda é seu aniversário.
Olhei ao redor. Eles tinham preparado tudo.
Não era exagerado. Era apenas…Eles.
E por mais que eu reclamasse, uma parte de mim gostava.
— Obrigado.
Meu pai sorriu.
— Só isso?
— O que você quer que eu faça?
— Um abraço.
— Pai…
Ele abriu os braços.
— Chris.
Suspirei.
Mas abracei.
Porque algumas batalhas não valiam a pena lutar. Após o café, meu pai apareceu com um sorriso suspeito.
— Agora falta o presente.
— Pai, não precisa.
— Precisa sim.
Ele apertou um botão em uma pequena caixa. Uma chave apareceu. Eu fiquei olhando.
— Não.
Ele sorriu.
— Sim.
— Pai…
Descemos até a garagem. E quando o tecido que cobria o carro caiu… Eu fiquei parado. Um Mustang branco. Novo. Perfeito. Por alguns segundos eu não consegui dizer nada. E isso era raro.
Muito raro.
— Você gostou?
Olhei para ele.
— Você está brincando?
Ele começou a rir. Eu também. E antes que pudesse impedir…Abracei meus pais.
— Obrigado.
Minha mãe sorriu.
— Feliz aniversário, filho.
Naquele momento, por alguns segundos…
Eu esqueci de todas as coisas que me incomodavam. A escola, mudança. A sensação constante de não pertencer.
Era só minha família. E talvez aquilo fosse suficiente. Até que uma ideia surgiu. Lucy.
Eu ainda não tinha amigos naquela cidade.
E talvez…Só talvez fosse hora de tentar.
Peguei o telefone. Procurei o número que ela tinha me passado. Respirei fundo. E liguei.
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