Jane - O Outro Lado da Moeda
1 Capítulo 1 - Uma Nova Vítima
Notas iniciais
Aquele garoto foi a primeira pessoa a escapar. Aliás, a única. E ainda por cima de nós dois. Jeff, aquele psicopata infeliz. Ele sabia o quão perverso seria me fazer tirar a vida de alguém tão semelhante a quem significa tanto para mim. Maldito seja você, Jeff! Eu irei caçá-lo até o fim dos tempos. Isso, ou não me chamo Jane Everlasting. Minha máscara será a última coisa que verá em vida.
Mentes doentias pensam de forma semelhante. Não que me orgulhe disso mas qualquer coisa que me ajude a acabar com aquele bastardo sempre será bem-vinda. No fundo, todos nós somos podres e desprovidos de qualquer sentimento. Basta quem puxem o gatilho e "Bum!", nasce mais um psicopata. O meu foi puxado naquela noite, enquanto queimava e gritava, assistindo aos corpos mutilados dos que amava derreterem pelas mesmas chamas que me consumiam. Um a um eles foram reduzidos a aberrações disformes de carne queimada e tudo o que eu pude fazer foi gritar enquanto esperava o mesmo acontecer comigo. Até hoje me pergunto se foi sorte ou um azar ainda maior ter sobrevivido. Jamais esqueci a dor que sentia enquanto ouvia a risada daquele maníaco. Espero poder rir tanto quanto ele quando minha lâmina deslizar por sua garganta.
Segui o rastro de sangue atá aquela pequena cidade. Aliás, fiz com que Jeff seguisse a mim. As escolhas dele se tornaram previsíveis após algum tempo. Qualquer um que lembre alguém que Jeff conheceu antes do gatilho é uma vítima em potencial. Garotas que se dizem fãs dele e escrevem bobagens onde ele as ama também. Há quem escreve que eu e ele somos um casal. Estes eu mesma faço questão de matar. É ridículo que conheçam nossa história e façam piada disso. Então, houve a grande novidade. Nossos caminhos trilharam até aquele garoto e, mais uma vez, Jeff tentou destruir o que restara de mim.
Haviam semanas desde a última morte e, embora sem sinais mais significantes, eu sabia que ele continuava a espreita. As pessoas pensam que somos fantasmas ou coisa do tipo, mas não. Apenas somos ótimos no que fazemos, que nada mais é do que matar pessoas. Já li centenas de histórias idiotas mas algumas tem seus pontos altos. Jeff gosta de mandar suas vítimas dormirem pois isso as deixa em pânico. Fora isso não temos frases de efeito, ou poderes mágicos ou drogamos nossas vítimas. Quanto as roupas, ele segue com seu casaco branco e eu faço questão de vestir seus presentinhos, mas isso é apenas na hora da diversão. Sou muita boa em disfarces e acredito que ele também já que nunca encontro aquele maldito fora de sua roupa formal.
(...)
Haviam dias que os vislumbres de um garoto de avental preto juntando do chão um pano desses de limpar mesas ecoava em minha mente. O único detalhe relevante era que em um dos cantos desse pano havia uma estrela roxa, nada mais. Tudo indicava que Jeff estava vigiando sua próxima vítima. O grande problema era que não passava disso, era sempre a mesma coisa. Cansada de esperar por mais, decidi sair um pouco para distrair a cabeça. Andei um pouco e acabei por parar em uma lanchonete qualquer. O ambiente, mesmo tendo certeza de ser completamente desconhecido, passava algo familiar. Era como se eu fosse acostumada com as faces dos atendentes, a disposição das mesas e cadeiras, o cardápio e até mesmo o parqué solto ao lado da mesa em que eu estava. Uma garçonete com cara de que não gostava de trabalhar ali me atendeu, pedi um capuccino e um brownie e acabei por me distrair por uns instantes olhando para o cardápio sobre a mesa. De repente uma voz masculina ao meu lado disse — "Seu pedido, moça." — Sinalizei que sim com um balanço de cabeça e tirei o cardápio do caminho. O garoto deixou meu pedido ali e ao sair, tropeçou no parqué. Tentando não cair, se apoio em minha mesa, a sacudindo e derramando meu café. Afastei-me rapidamente para não acabar suja e, quando estava prestes a reclamar o garoto se pôs a limpar a mesa. Abri a boca mas fiquei em silêncio no momento em que vi aquela estrela roxa deslizando para lá e para cá enquanto o pano velho limpava a mesa. Eu havia encontrado a próxima vítima! Olhei para o garoto oferendo um sorriso, como quem diz "sem problemas, não foi nada" e o que eu vi me paralizou e levou embora toda a minha animação. Seu rosto, seu cabelo, tudo, absolutamente tudo nele me lembrava alguém cuja memória levei anos para suprimir e agora, em questão de segundos, tudo havia voltado para me assombrar. Levantei no mesmo instante e saí. Ele tentou se desculpar, me seguiu até a porta mas eu precisava sumir dali o quanto antes.
Era ele. Eu havia finalmente encontrado a próxima vítima e, pela primeira vez, eu tive medo de não conseguir ir adiante
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