Foi com uma surpresa absurda que ela sentiu os dedos dele entrelaçarem nos seus quando ele se virou, depois de lançar seu cartão de crédito para pagar o almoço, e sair da lanchonete.

Ela olhou para ele imediatamente e não conseguiu mais raciocinar com clareza. O calor daquele toque queimava a palma de sua mão, muito juntas, a pressão gostosa, fazendo seu coração dar piruetas de felicidade. Seus passos pareceram descoordenados por alguns segundos, depois, ele andaram no mesmo ritmo.

Enquanto caminhavam pela calçada, os olhares curiosos, indisfarçáveis, vinham de todos os lados.

Em outra surpresa, sem se importar com a plateia, ele levou a mão dela até seus lábios e beijou o dorso com delicadeza.

Ou ela estava sonhando e, a qualquer momento ele ia tocar seu ombro e dizer que estavam de volta em Las Vegas, ou alguma coisa muito divina estava conspirando para apagar todo sofrimento que os anos haviam lhe imputado!

“Misericórdia”

Ela não sabia se demonstrava deslumbramento ou se agia com normalidade. Aquilo não era real!

Diante de sua feição quase apavorada, ele logo quis saber.

_Algo errado?

Sua vontade era dizer que alguma coisa estava errada com ele sim, pela décima vez talvez, ela imaginou que não era seu supervisor, o mesmo que havia a ignorado feito um cão sarnento abandonado em uma viela imunda do subúrbio. Ele havia sido abduzido por alguma criatura vinda de não sei onde e devolvido para o lado dela, totalmente outra pessoa.

_Não! — Foi a única palavra que conseguir quase sussurrar, com medo de que o mínimo gesto pudesse desfazer aquele momento como fumaça ao vento.

A cada nova descoberta, ela aceitava outra, cada vez maior. Nutria por ele uma paixão crescente e infinita que parecia não caber em seu coração!

_Podemos comprar o que precisamos, coletar as evidências da melhor maneira possível e voltar ao hotel.

_Podemos sim …

Muitas coisas poderiam estar implícitas naquela frase.

“Voltar ao hotel, entrar na banheira, pedir o jantar e fazer amor, ou então fazer amor na banheira e pedir algo especial para jantar”. A ordem dos fatores não alterava a soma dos produtos! Tudo ia ser espetacular, em qualquer tempo, desde que compartilhassem a banheira, a comida e a cama! Nunca teve tanta vontade de abandonar tudo, esquecer que era uma mulher responsável e subir aos beijos com ele para o quarto!

“Acho que estou enlouquecendo!”

_Você está mesmo bem? Por que parece tão corada?

Em um instante ela quase deixou escapar uma gargalhada nervosa, se ele soubesse um quinhão de seus pensamentos, talvez saísse correndo apavorado! Mulheres afoitas, assustavam um homem. Ou pelo menos era isso que ela achava, mas isso seria com o Grissom antes da abdução!

Ele começou a imaginar que depois deles ficarem juntos, ela parecia tão mais calada! E ele tão mais receptivo! O que a coragem não fazia com um homem! Ele estava se sentindo diferente e bem! Aquela nova sensação de estar com ela, como um casal, era deliciosa e assustadora!

Sara sabia que precisava ser mais “normal”, mas estava travando uma batalha interna com seu consciente e seu coração, por fim resolveu que acima de tudo era uma CSI, e precisava raciocinar como uma, mesmo sentindo a proximidade flamejante daquele toque!

_Eu não sei por que, mas acho que vamos demorar mais que o previsto neste lugar, não acho que podemos encontrar tudo que precisamos!

_Tomara que esteja enganada … quem sabe … não somos surpreendidos!

Ele empurrou a porta barulhenta da loja de ferragens para ela e soltou sua mão, se aproximando da atendente.

Sara ficou prestando atenção na mulher que o encarava como se ele fosse um astro de cinema!

Tudo bem que ele era mesmo uma coisa, que chamava atenção por onde quer que fosse, mas era um exagero demonstrar daquela maneira! Por um milésimo de segundo, ela se imaginou debruçando sobre o balcão e estalando os dedos para tirar a oferecida do transe.

_Por favor … podemos procurar por alguns itens de que precisamos?

_Fique à vontade!

Grissom pediu licença e apanhou uma pequena cesta disposta no balcão, com toda certeza, ele estava percebendo todo aquele assanhamento e, parecia se divertir!

Ela ergueu as sobrancelhas parecendo que a qualquer momento dispararia um uh lá lá , e olhou descaradamente para o arredondamento traseiro dele, ignorando completamente Sara.

_Não vai me ajudar? — Grissom perguntou ainda em divertimento, se embrenhando para dentro da loja, entre as prateleiras.

Diabolicamente, ainda notando que a garota continuava a ignorando, Sara respondeu em alto e bom som, segurando a máquina fotográfica em direção a ela.

_Já estou indo … AMOR!

Num instante, ela disparou um clique para captar a reação de surpresa da morena desconhecida.

_Um souvenir!

Com um semblante sarcástico, ela foi em direção a ele, se segurando para não rir, quando notou a cabeça grisalha inclinada de lado, a encarando com uma expressão de menino surpreso e satisfeito!

“Abusada” Sara queria gritar em voz alta, mas se conteve, já estava vingada!

…....

Grissom precisava de algo para resgatar as pegadas sobre uma placa de zinco, no galpão.

Talvez Dr. Dale Sterling, o médico veterinário local que acumulava funções de legista e bom observador, pudesse lhe ajudar.

Logo estavam na clínica, eles conseguiram algumas pinças esterilizadas e luvas. O supervisor percebeu que as vidraças estavam cobertas por insulfilme.

_Foi você quem revestiu as janelas?

_Sim … por quê?

_Ainda tem mais dessas películas?

Sara olhou para ele, enquanto arrumava uma maleta improvisada, sabia que ele estava maquinando algo impressionante, pois havia comprado fios e baterias de tamanho razoável.

_Tenho … — Ela havia notado que ele tinha uma expressão muito triste.

_Poderia nos ceder uma parte?

_Pegue quanto quiser!

Assim que saíram, ela resolveu comentar.

_Ele me parece triste, você não acha?

_Parece?

_Ele tem todas as razões do mundo para isso! — Eles se viraram e deram de cara com o tenente, que por algumas horas havia desaparecido da visão deles. _Dale é um cara frustrado! Sabe a caixa da lanchonete? Eles foram casados e ele a agrediu durante uma das inúmeras brigas! Ela o traiu!

Ele olhou diretamente para Sara, que resolveu ignorar. O que eles tinham com isso?

_Soube que sua maleta sumiu!

_Ela não sumiu … tenho a impressão que sabe onde ela está. Quem está querendo proteger?- Grissom cutucou em desafio.

A resposta de Alan foi outra pergunta, bastante óbvia.

_Isso vai dificultar as coisas, não vai?

_Até que não!

O tenente entrou em seu carro de polícia e saiu em disparada

_Nos vemos no galpão, DR. GRISSOM!