JARDINS

12 Queda Livre 🪂🥀


Notas iniciais
"Algumas pessoas confundem autocontrole com abstinência. Que erro adorável. O desejo nunca desaparece. Ele apenas aprende a esperar a oportunidade certa. E São Paulo... bem... essa cidade sempre encontra uma maneira de aproximar quem jurou manter distância." XOXO, GG. 💋
Soundtrack do Capítulo: Hate The Way I Love You by Loreen.


O couro estalou tão alto que duas pessoas do outro lado da academia olharam automaticamente para o saco de pancadas. Kiran não percebeu. Girou o quadril e acertou outro cruzado ainda mais forte, fazendo a corrente vibrar contra o suporte de aço. A semana inteira havia sido assim. Sempre que fechava os olhos, voltava ao mesmo lugar: o corredor silencioso do Instituto Aster, o instante em que cruzara com Theo Montenegro e a estranha facilidade com que aquele homem parecia ocupar espaço sem fazer esforço algum. Irritava-o admitir que um encontro tão breve ainda encontrasse maneiras de atravessar seus pensamentos dias depois.


Tá brigando com quem? — perguntou o treinador, cruzando os braços ao lado do ringue. Kiran diminuiu o ritmo sem parar completamente.

Ainda não descobri.

Quando descobrir, me avisa. Porque o coitado aí já perdeu essa luta faz tempo.


Um sorriso curto escapou antes que ele retirasse as bandagens das mãos. Sentou-se no banco de madeira, pegou a garrafa d'água e bebeu quase metade de uma vez. O celular vibrou dentro da mochila.


Número desconhecido.


Kiran Alves?

— Sim.

— Bom dia. Aqui é da organização do Instituto Aster. Gostaríamos de confirmar sua presença no coquetel desta noite. O conselho fez questão de que fosse você quem apresentasse o projeto de inclusão universitária.


Kiran permaneceu alguns segundos em silêncio. Tinha esquecido completamente.


Claro. Estarei lá.


Quando a ligação terminou, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e ficou olhando para o chão. Não demorou nem cinco segundos para que outra preocupação surgisse. Não tinha um terno digno de um evento como aquele. Nem um relógio caro. Nem fazia ideia de qual era o protocolo para conversar com empresários que provavelmente movimentavam, em um único almoço, mais dinheiro do que ele veria durante anos. Passou a mão pelos cabelos ainda molhados de suor e soltou uma risada baixa, quase constrangida consigo mesmo.


Era ridículo. Entre tantas preocupações possíveis, a única imagem que insistia em voltar era a maneira como Theo Montenegro parecia atravessar qualquer ambiente como se sempre tivesse pertencido a ele. Kiran odiava admitir aquilo. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, tivesse encontrado alguém impossível de decifrar.


Na outra ponta da cidade, três vestidos permaneciam estendidos sobre o sofá do closet enquanto Helena caminhava descalça entre eles com uma taça de espumante na mão. O preto era elegante demais para um evento beneficente. O azul-marinho lembrava qualquer reunião do conselho da Albuquerque Capital. Restava o vinho, que conseguia encontrar um raro equilíbrio entre sofisticação e naturalidade.


Qual deles faz parecer que eu não pensei muito? — perguntou à stylist. A mulher riu discretamente.

Você nunca parece não ter pensado. A diferença é que algumas vezes faz parecer que não se importou.


Helena sorriu satisfeita. Era exatamente esse efeito que procurava. O celular vibrou sobre a bancada de mármore.


Dante.

"Vai ao Aster hoje?"


Ela respondeu quase imediatamente.

"Vou."


A digitação apareceu por alguns segundos antes da resposta surgir.


"Chega um pouco mais cedo. Faz tempo que a gente não conversa sem planilhas entre nós."

Helena soltou uma pequena risada.

"Você continua achando que eu só sei falar de trabalho."

"Porque continua me provando isso."


Ela bloqueou a tela ainda sorrindo. Havia poucos homens capazes de conversar com ela durante horas sem tentar impressioná-la. Dante era um deles. Talvez porque nunca tivesse sentido necessidade. A amizade dos dois sobrevivera a mudanças de país, fusões de empresas, relacionamentos fracassados e agendas incompatíveis. Era simples. E justamente por isso, rara. A stylist observava tudo em silêncio.


Alguma coisa engraçada?

— Um velho amigo.

— Velho amigo costuma dar problema.


Helena arqueou uma sobrancelha.

Não esse.


Pegou o vestido vinho do cabide e voltou-se para o espelho.

Esse só me conhece bem demais.


Enquanto isso, Noah atravessava lentamente o trânsito da Avenida Europa. O rádio permanecia desligado. Fazia dias que evitava qualquer ruído desnecessário. Abriu o console central no primeiro semáforo. O pequeno estojo de couro continuava exatamente onde o deixara. Seus dedos tocaram o fecho por reflexo. Não abriu. Fechou o console novamente.


Dois minutos depois, outro semáforo. A mão voltou sozinha. Dessa vez abriu e observou os dois baseados cuidadosamente enrolados. Respirou fundo e fechou outra vez. Chegou até a rir de si mesmo. Era absurdo.


Durante anos fumara apenas quando queria desligar a cabeça por algumas horas. Nunca escondido. Nunca como desafio. Nunca como vício. Agora bastava olhar para aquele pequeno cilindro de papel para sentir um incômodo novo, quase infantil. Não tinha medo da cannabis. Tinha medo da próxima fotografia.

Ligou para a Galatea usando o viva-voz.

Marcelo?

— Fala, Noah.

— Cancela minha agenda depois das cinco.

— Tudo bem.

— E... se algum jornalista aparecer por lá...

Do outro lado houve um breve silêncio.

Já apareceram dois hoje.

Noah apertou o volante com mais força.

Não falem absolutamente nada.

— Entendido.


Desligou a ligação. A cidade continuava exatamente igual do lado de fora. Era ele quem já não conseguia atravessá-la da mesma maneira. Na cobertura da Montenegro Holding, Theo terminava de abotoar o paletó diante do reflexo da janela quando Laura entrou carregando um tablet.

O motorista já está aguardando.

Ele apenas assentiu.

Antes... achei que gostaria de ver isso.


Laura girou a tela em sua direção. Era a lista definitiva de convidados do Instituto Aster. Theo passou os olhos pelos nomes sem demonstrar reação até encontrar três deles quase em sequência.


Helena Albuquerque.

Dante Vasconcellos.

Kiran Alves.


Seu olhar permaneceu fixo por alguns segundos. Laura percebeu.


Algum problema?

Theo devolveu o tablet.

Você acredita em coincidências?


Ela pensou antes de responder.

Acredito que algumas pessoas usam essa palavra quando ainda não encontraram uma explicação melhor.


Um sorriso discreto apareceu no canto da boca de Theo.

Continue pensando assim.


Pegou as chaves sobre a mesa e caminhou em direção ao elevador. Enquanto as portas de aço se fechavam lentamente, uma sensação estranha começou a tomar forma. Pela primeira vez desde que a Gossip Girl voltara a publicar, ele deixou de pensar apenas em quem estava observando. Passou a considerar uma possibilidade muito mais perigosa. E se alguém estivesse conduzindo todos eles exatamente para o mesmo lugar?


O Instituto Aster nunca pareceu apenas um lugar. Talvez fosse essa a intenção desde o começo. O prédio de linhas modernas, concreto aparente e enormes paredes de vidro iluminadas contra a noite paulistana tinha sido projetado para transmitir exatamente a mensagem que seus convidados gostavam de acreditar: tradição e futuro convivendo no mesmo espaço. Na prática, era apenas mais uma noite em que pessoas importantes fingiam não estar observando umas às outras.


O primeiro a chegar foi Dante. Ele nunca gostara de chegar atrasado. Não por pontualidade, mas porque preferia observar o ambiente antes que o ambiente começasse a observá-lo. Cumprimentou alguns membros do conselho, conversou brevemente com dois investidores e recusou, pela terceira vez naquela semana, uma taça de champagne oferecida por alguém que insistia em chamá-lo pelo sobrenome antes mesmo de dizer boa noite.


Dante tinha aprendido cedo que, naquele círculo, as pessoas não perguntavam quem você era. Perguntavam de onde você vinha e o sobrenome quase sempre chegava antes. Foi justamente por isso que o sorriso apareceu quando viu Helena entrando pelo salão.


Ela não precisava anunciar sua chegada. Nunca precisou. O vestido vinho atraía olhares suficientes, mas era a segurança com que ela caminhava que fazia as pessoas repararem. Helena não entrava em lugares esperando aprovação. Ela entrava como se o lugar já soubesse que deveria recebê-la.


Você continua chegando cedo demais — ela disse ao se aproximar. Dante sorriu.


E você continua chegando exatamente quando todo mundo começa a perceber que precisava da sua presença.


Helena abraçou-o rapidamente. Um gesto simples e natural. Antigo. E foi justamente essa naturalidade que chamou atenção. Não porque havia algo entre eles, mas porque existia algo que quase ninguém naquele ambiente conseguia construir: intimidade sem interesse.


Você está bem? — Dante perguntou em voz baixa. A pergunta era simples, mas Helena conhecia o suficiente para saber que ele não perguntava por educação.

Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos.

Estou.

Uma pausa.

Só estou cansada de pessoas acharem que sabem exatamente o que eu sinto.

Dante inclinou levemente a cabeça.

Isso acontece quando você passa muito tempo deixando que pensem.


Helena sorriu.

Você continua irritantemente observador.

— E você continua irritantemente previsível.

— Eu?

— Você sempre diz que não liga. Normalmente é quando mais liga.


Ela riu e, naquele exato momento, Theo Montenegro entrou no salão. Ele não procurou Helena. Pelo menos foi isso que tentou convencer a si mesmo, mas seus olhos encontraram a cena antes que pudesse impedir.


Helena sorrindo. Dante ao lado dela. A facilidade. A história compartilhada. Aquele tipo de conversa que não precisava de esforço. Theo ficou parado por um segundo a mais do que deveria. Não era ciúme. Ele sabia disso. Era outra coisa. Era a estranha sensação de perceber que existiam versões das pessoas que ele amava conhecer e outras versões que pertenciam a momentos dos quais ele não fazia parte.


Theo.


A voz de Helena interrompeu seus pensamentos. Ela se aproximou com um sorriso tranquilo.


Você veio.


Ele olhou rapidamente para Dante antes de voltar para ela.


Eu disse que viria.

— Você diz muitas coisas.


O comentário veio acompanhado de um sorriso, mas Theo percebeu a provocação.


E você continua escolhendo as palavras certas para lembrar disso.

— Alguém precisa.


Dante estendeu a mão.


Montenegro.

— Vasconcellos.


O cumprimento foi cordial e educado. Perfeito. Exatamente como duas pessoas que sabiam esconder qualquer coisa que estivesse acontecendo por baixo da superfície. E talvez fosse isso que mais incomodava Theo. Porque, pela primeira vez em muito tempo, ele não sabia se estava entrando em uma conversa... ou em uma disputa que ninguém havia anunciado.


Do outro lado do salão, Kiran atravessou as portas principais do Instituto Aster. O terno não era feito sob medida. O relógio não custava o valor de um carro, mas ele carregava algo que nenhum daqueles convidados conseguiria comprar. A sensação de que não precisava pertencer àquele lugar para merecer estar ali. E talvez tenha sido exatamente por isso que Theo o percebeu imediatamente.


Kiran diminuiu o passo por um instante. Bastou cruzar a porta principal para sentir dezenas de conversas acontecendo ao mesmo tempo, o tilintar discreto das taças de cristal e o perfume caro que parecia flutuar sobre o salão. Não era um ambiente desconhecido apenas pela sofisticação. Era desconhecido porque todos pareciam saber exatamente onde ficar, com quem conversar e quanto tempo permanecer em cada grupo. Ele ainda procurava entender aquela lógica quando uma integrante da equipe do Instituto Aster aproximou-se para cumprimentá-lo.


Kiran? Que bom que você veio. O conselho está ansioso para conhecê-lo.


Ele sorriu com educação.


Espero não decepcionar.

— Isso seria difícil depois do impacto que seu projeto causou.


Ela o conduziu pelo salão apresentando-o a empresários, conselheiros e patrocinadores. Kiran fazia questão de apertar cada mão olhando nos olhos, sem exagerar na simpatia nem tentar parecer alguém que não era. Falava do projeto com a mesma naturalidade com que conversava com qualquer colega da universidade, e talvez fosse justamente essa honestidade que despertasse tanto interesse. Em poucos minutos, havia um pequeno círculo de pessoas ouvindo atentamente enquanto explicava que oportunidades não transformavam vidas sozinhas. O que realmente mudava alguém era acreditar, pela primeira vez, que existia um lugar onde ela também podia permanecer.


Do outro lado do salão, Theo observava a cena em silêncio.


Você está olhando para o palestrante da noite ou tentando descobrir se ele decorou o discurso? — perguntou Helena, aproximando-se novamente com uma taça de espumante.

Theo desviou os olhos apenas o suficiente para encará-la.

Nenhum dos dois.

— Então está fazendo exatamente o quê?


Ele demorou alguns segundos antes de responder.


Tentando entender por que ele parece tão confortável em um lugar onde quase todo mundo passa a vida fingindo estar.


Helena acompanhou seu olhar até encontrar Kiran conversando com um grupo de patrocinadores. Sorriu discretamente.


Porque ele não tem nada para provar.


A frase permaneceu entre os dois por alguns instantes. Theo percebeu que Helena tinha razão, e isso o incomodou mais do que gostaria de admitir. Kiran não tentava impressionar ninguém. Não modulava a voz dependendo de quem o ouvia. Não alterava a postura ao conversar com empresários ou funcionários do buffet. Era exatamente a mesma pessoa em qualquer situação. Theo conhecia pouquíssimas pessoas capazes disso.


Enquanto isso, Dante observava a conversa à distância. Bastaram alguns segundos para perceber que Theo olhava para Kiran vezes demais para ser apenas curiosidade. Acompanhou discretamente a direção daquele olhar, depois voltou para Helena, que parecia divertir-se silenciosamente com alguma coisa. Aquilo bastou para despertar sua curiosidade.


Quem é ele? — perguntou.


Helena seguiu o movimento do queixo de Dante.


Kiran Alves. Universidade, projeto social... e, pelo visto, o único homem desta sala que não faz ideia de que metade das pessoas aqui está tentando impressionar a outra metade.


Dante soltou uma risada baixa.


Talvez seja exatamente por isso que todos estejam olhando para ele.


Como se tivesse sentido o peso daqueles olhares, Kiran ergueu a cabeça naquele instante. Seus olhos cruzaram o salão sem qualquer intenção específica até encontrarem Theo. Nenhum dos dois desviou imediatamente. A conversa ao redor pareceu perder volume por alguns segundos. Não havia sorriso. Não havia constrangimento. Apenas aquele reconhecimento silencioso de duas pessoas que ainda tentavam entender por que continuavam procurando uma à outra em ambientes lotados. Foi Helena quem rompeu o instante.


Theo.


Ele continuou olhando para Kiran.


Hum?

— Você acabou de ignorar uma pergunta que um conselheiro fez há quase dez segundos.

Theo piscou, como se despertasse.

Desculpe.


O conselheiro riu, acreditando tratar-se apenas de distração.


Acontece com os melhores.


Theo respondeu automaticamente, mas já não ouvia mais a conversa. Do outro lado do salão, Kiran voltava a falar com os patrocinadores, completamente alheio ao efeito que causara. Pela primeira vez em muitos anos, Theo Montenegro experimentava uma sensação rara e profundamente desconfortável. Ele queria atravessar aquele salão e não fazia a menor ideia do motivo.


Theo permaneceu imóvel por mais alguns segundos, mas a imobilidade era apenas aparente. Por dentro, alguma coisa insistia em empurrá-lo na direção oposta ao bom senso. Conhecia aquele impulso. Era o mesmo que, anos antes, o fizera comprar empresas desacreditadas enquanto todos vendiam ações em pânico. A diferença era que, desta vez, não havia planilhas para justificar a decisão. Havia apenas um homem do outro lado do salão que parecia exercer uma influência completamente desproporcional sobre sua atenção.


Com licença por um instante — disse, interrompendo a conversa com naturalidade.


Helena acompanhou o movimento apenas com os olhos.


Ele vai até lá.


Dante ergueu discretamente uma sobrancelha.


Tem certeza?


Ela sorriu de lado.


Conheço Theo Montenegro há tempo suficiente para saber quando ele para de ouvir uma sala inteira.


Theo atravessou o salão cumprimentando algumas pessoas pelo caminho. Respondeu a dois convites para reuniões futuras, aceitou um cartão de visitas e agradeceu elogios sobre uma recente aquisição do Grupo Montenegro, mas nenhuma daquelas interações conseguiu diminuir a sensação de que caminhava em direção a alguma coisa inevitável. Kiran encerrou a conversa com os patrocinadores exatamente quando percebeu Theo aproximando-se.


Achei que empresários como você esperassem ser apresentados antes de interromper uma conversa.


Theo sorriu pela primeira vez naquela noite.


Achei que universitários como você recusassem convites para eventos como este.

— Quase recusei.

— O que fez mudar de ideia?

— O projeto.


Theo inclinou levemente a cabeça.


Só o projeto?


Kiran sustentou seu olhar por alguns segundos.


Você costuma fazer perguntas esperando respostas sinceras?

— Sempre.

— Deve se decepcionar bastante.


Theo soltou um riso baixo.


Mais do que imagina.


O silêncio que se instalou entre os dois não era desconfortável. Pelo contrário. Parecia curioso. Como se ambos tentassem descobrir por que conversar um com o outro exigia tão pouco esforço.


Gostei do que você disse agora há pouco — comentou Theo.

Eu disse bastante coisa.

— Sobre oportunidades não mudarem vidas.


Kiran apoiou uma das mãos no bolso da calça.


É verdade.

— Continua acreditando nisso?

— Todos os dias.


Theo observou discretamente o movimento das pessoas ao redor antes de voltar a encará-lo.


Então o que muda uma vida?


Kiran demorou alguns segundos para responder.


Encontrar alguém que enxergue potencial em você antes de você mesmo conseguir enxergar.


A resposta atingiu Theo de um jeito inesperado. Não pela frase, mas pela convicção com que foi dita. Era impossível fingir aquela sinceridade.


E você encontrou alguém assim?


Kiran sorriu discretamente.


Encontrei algumas pessoas.


Theo percebeu que queria fazer outra pergunta. Queria saber quem. Queria entender por que aquela resposta o incomodava. Queria descobrir se ainda havia espaço para alguém naquela lista, mas não perguntou. Porque, pela primeira vez em muito tempo, teve medo da resposta.


Eu vi a publicação da Gossip Girl — disse Kiran, mudando completamente de assunto.

Theo voltou imediatamente à realidade.

Eu imaginei.

— Ela sempre sabe onde vocês estão?

— Ainda estamos tentando descobrir.


Kiran cruzou os braços.


Parece cansativo viver pensando que qualquer pessoa pode estar fotografando você.

— É.

— Vale a pena?


Theo não respondeu imediatamente. Olhou ao redor do salão mais uma vez. Empresários sorrindo para fotógrafos oficiais. Conselheiros calculando alianças. Influenciadores registrando cada detalhe da decoração. Pessoas acostumadas a controlar a própria imagem. Depois voltou os olhos para Kiran.


Até semana passada eu diria que sim.

— E agora?


Theo sorriu sem humor.


Agora eu já não tenho tanta certeza.


Antes que Kiran pudesse responder, o mestre de cerimônias anunciou o início da apresentação dos projetos apoiados pelo Instituto Aster. As conversas diminuíram gradualmente até desaparecerem. Um foco de luz iluminou o palco montado ao fundo do salão.


Senhoras e senhores, antes de iniciarmos nosso leilão beneficente, gostaríamos de apresentar um projeto que representa exatamente a razão de existirmos...


Kiran olhou para o palco e respirou fundo.


Essa é a minha deixa.

Theo deu um passo para o lado, abrindo caminho.

Boa sorte.

Kiran sorriu.

Não preciso.

Theo franziu a testa.

Não?

— Quando a história é verdadeira, ela já faz metade do trabalho.


E, pela segunda vez naquela semana, Theo Montenegro ficou observando Kiran se afastar sem conseguir encontrar uma única razão lógica para querer que ele voltasse.


Kiran subiu os três degraus do palco sem apressar o passo. Não carregava cartões de apoio, não abriu uma apresentação e tampouco procurou o texto que a organização deixara preparado sobre o púlpito. Apenas afastou as folhas para o lado. Alguns conselheiros trocaram olhares discretos. Um deles chegou a franzir a testa, claramente preocupado com a possibilidade de o jovem improvisar diante de um salão repleto de empresários acostumados a discursos impecavelmente ensaiados. Theo percebeu e, curiosamente, sorriu.


Boa noite. — A voz de Kiran ecoou pelo salão sem esforço. — Disseram que eu deveria falar sobre o projeto. Mas acho injusto falar de um projeto sem falar das pessoas que ele tenta alcançar.


O silêncio tornou-se absoluto.


Quando alguém nasce em determinados lugares desta cidade, aprende muito cedo que existem portas feitas para permanecer fechadas. Não porque estejam trancadas. Mas porque ninguém espera que você tente abri-las. Algumas pessoas largaram discretamente as taças sobre as mesas. Até os garçons diminuíram o ritmo.


Eu tive sorte. Alguém acreditou que eu podia atravessar uma dessas portas antes mesmo de eu acreditar. É isso que este projeto faz. Não entrega bolsas. Não distribui oportunidades. Ele muda a maneira como alguém passa a enxergar a própria vida.


Theo não desviava os olhos. Helena percebeu. Dante também.


Porque, depois que você entra pela primeira porta... descobre que todas as outras nunca foram feitas para pessoas especiais. Foram feitas para pessoas que tiveram coragem suficiente para empurrá-las.


Nenhum aplauso surgiu imediatamente. Não por falta de aprovação, mas porque ninguém queria interromper aquele silêncio. Foi Theo quem começou a bater palmas. Uma. Duas. Três. O som reverberou pelo salão inteiro. Em poucos segundos, todos os convidados o acompanharam. Kiran desceu do palco discretamente, como se não tivesse acabado de prender a atenção de uma das salas mais influentes de São Paulo durante quase dez minutos sem precisar mencionar um único número.


Assim que alcançou o piso do salão, um senhor de cabelos completamente brancos interceptou seu caminho.


Eduardo Montenegro.


Kiran apertou a mão estendida.


Kiran.

— Eu sei quem você é.


Theo observou a cena do outro lado da sala. O peito endureceu. Seu pai raramente tomava a iniciativa de conhecer alguém. Quando fazia isso... Era porque havia enxergado alguma coisa.

Eduardo continuou conversando com Kiran por alguns minutos. Os dois sorriam. Em determinado momento, o patriarca Montenegro colocou a mão em seu ombro num gesto espontâneo, quase paternal. Theo sentiu algo estranho atravessar seu estômago. Helena acompanhava tudo em silêncio.


Você está fazendo de novo.

Theo não olhou para ela.

Fazendo o quê?

— Observando uma pessoa como se o resto da sala tivesse desaparecido.

Ele permaneceu calado.

Isso não é do seu feitio.


Antes que pudesse responder, uma nova vibração percorreu discretamente o salão. Um celular. Depois outro. Mais três. Cinco. Dez. Como uma onda silenciosa, dezenas de telas começaram a se acender quase ao mesmo tempo. Ninguém precisava perguntar. Todos já sabiam: Gossip Girl.


Theo pegou o telefone do bolso quase por instinto. Ao redor dele, empresários, jornalistas, herdeiros e conselheiros faziam exatamente o mesmo movimento. A publicação ainda carregava. Por uma fração de segundo, o salão inteiro pareceu prender a respiração. Theo ergueu os olhos. Do outro lado, Kiran também olhava para a própria tela. Sem saber por quê...

Os dois levantaram a cabeça exatamente no mesmo instante e voltaram a se encontrar pelo olhar, como se ambos tivessem pressentido a mesma coisa. Dessa vez... A Gossip Girl não estava apenas observando. Ela acabara de escolher o alvo.

Theo desbloqueou a tela antes mesmo da notificação terminar de carregar. Ao seu redor, dezenas de convidados fizeram exatamente o mesmo movimento, e o salão, que segundos antes vibrava com conversas e brindes discretos, mergulhou em um silêncio inquietante. Era impressionante como uma única publicação conseguia paralisar algumas das pessoas mais influentes de São Paulo.

A fotografia ocupava toda a tela.

Não era Noah.

Não era Helena.

Nem Dante.

Era Kiran.

A imagem havia sido registrada poucos minutos antes, durante o discurso. O enquadramento era impecável. Kiran aparecia de perfil, iluminado pelo refletor do palco, enquanto, ao fundo, completamente desfocado para qualquer olhar desatento, Theo permanecia imóvel observando-o. Bastava ampliar a fotografia para perceber que, entre centenas de convidados, ele era o único que não olhava para o palco. O único que olhava para Kiran. A legenda tinha apenas três linhas.


SPOTTED.

"Algumas pessoas passam a vida inteira aprendendo a controlar o próprio olhar.

Outras esquecem completamente como fazer isso na pessoa errada."

XOXO,

GG. 💋


O estômago de Theo contraiu imediatamente. Não porque a publicação dissesse alguma coisa explícita, mas porque ela não precisava dizer. Ao redor do salão, os primeiros olhares começaram a se mover discretamente entre ele e Kiran. Ninguém comentava. Naquela cidade, as pessoas elegantes jamais faziam perguntas em voz alta. Preferiam guardar as respostas para os jantares do fim de semana.

Kiran releu a legenda duas vezes. Depois levantou lentamente os olhos até encontrar Theo do outro lado do salão. Não havia raiva em seu rosto. Havia surpresa. E, talvez, um desconforto ainda maior por perceber que dezenas de desconhecidos agora observavam exatamente a mesma direção que ele.

Helena respirou fundo.

Ela acabou de criar uma história que nem existe.

Dante continuava olhando para a tela.

Não.

Helena voltou-se para ele.

Como assim, não?

— Ela não criou nada.

Ele bloqueou o celular.

Só fez a cidade inteira olhar para onde ninguém estava olhando antes.

A frase atingiu Theo como um soco. Porque era verdade. Até aquele momento, apenas ele sabia o quanto seus olhos procuravam Kiran involuntariamente. Agora, qualquer pessoa suficientemente curiosa começaria a reparar no mesmo comportamento.

Kiran guardou o telefone no bolso do paletó e respirou profundamente. Pela primeira vez desde que chegara ao Instituto Aster, sentiu vontade de ir embora. Não por vergonha. Mas porque compreendeu, de forma brutal, que acabara de ser arrastado para um jogo cujas regras desconhecia completamente. Uma conselheira aproximou-se sorrindo.

Kiran, parabéns pelo discurso...

Ela hesitou por uma fração de segundo

— ...e pela popularidade.

Ele sorriu por educação, mas o comentário permaneceu ecoando na cabeça enquanto se afastava em direção ao jardim externo. Precisava de ar. Precisava de cinco minutos sem centenas de olhos tentando descobrir algo que nem ele próprio conseguia explicar.

Theo observou Kiran desaparecer pelas portas de vidro. Seu corpo reagiu antes da razão. Deu um passo. Depois outro.

Theo.

A voz de Helena o interrompeu.

Não.

Ele parou.

Se você for atrás dele agora...

Ela lançou um rápido olhar para os convidados ao redor.

Vai transformar uma legenda em prova.

Theo permaneceu imóvel. Sabia que Helena tinha razão e talvez fosse justamente isso que mais o irritasse. Porque, pela primeira vez na vida, fazer a coisa certa significava permanecer parado quando tudo dentro dele mandava correr atrás de alguém.

Theo continuou olhando para as portas de vidro mesmo depois de Kiran desaparecer do outro lado. A música voltou a preencher o ambiente lentamente, os garçons retomaram o serviço e algumas conversas recomeçaram com uma naturalidade quase ofensiva. Era assim que funcionava naquele círculo. Cinco minutos depois de um escândalo, todos fingiam que nada havia acontecido. Cinco horas depois, todos ainda estariam falando sobre ele.


Ela conseguiu — murmurou Theo.


Helena cruzou os braços.


O quê?

— Fazer com que qualquer decisão que eu tome pareça errada.


Dante aproximou-se dos dois, guardando o celular no bolso interno do paletó.


Então não tome nenhuma.

Theo voltou-se para ele.

Você realmente acredita nisso?

— Não.

A resposta veio rápida.

Mas acredito que ela espera exatamente o contrário.

Theo desviou os olhos para o jardim outra vez.

Ele não faz ideia do que está acontecendo.

— Faz, sim — respondeu Dante. — Só ainda não conhece as regras.


A frase permaneceu suspensa entre os três. Helena foi a primeira a romper o silêncio.

Theo... olha para mim.

Ele obedeceu.

Se você atravessar aquela porta agora, amanhã a cidade inteira vai jurar que existe uma história entre vocês dois.

— E se eu não atravessar?

— Ela vai publicar outra coisa.

Theo soltou um riso sem humor.

Então eu já perdi.

— Não.


Helena aproximou-se apenas o suficiente para que só ele a ouvisse.

Você perde quando começa a reagir exatamente como ela quer.


Do lado de fora, Kiran caminhava sem direção pelo jardim lateral do Instituto Aster. A iluminação indireta desenhava sombras compridas sobre o piso de pedra, enquanto o barulho do evento chegava abafado através das enormes paredes de vidro. Pela primeira vez naquela noite conseguiu respirar profundamente. Passou a mão pelos cabelos e apoiou-se no guarda-corpo de concreto.

Achei que encontraria alguém aqui.

Kiran virou-se. Eduardo Montenegro caminhava em sua direção com duas xícaras de café nas mãos.

Posso?

Kiran sorriu.

Claro.

Eduardo entregou uma das xícaras.

Você falou muito bem.

— Obrigado.

— Não. Eu não estou sendo educado. Você falou melhor do que a maioria dos executivos que conheço.

Kiran abaixou discretamente os olhos para o café.

Acho que fica mais fácil quando a gente acredita no que está dizendo.

Eduardo sorriu.

Exatamente.


Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio.

Sabe qual é o problema de ambientes como este? — perguntou Eduardo.


Kiran balançou a cabeça.

As pessoas passam tanto tempo escolhendo as palavras certas que acabam esquecendo como soa alguém falando a verdade.

Kiran soltou uma pequena risada.

Isso explica por que eu me senti um peixe fora d'água.

— Curiosamente...

Eduardo tomou um gole de café.

Foi justamente por isso que você chamou tanta atenção.


Do outro lado da parede de vidro, Theo enxergou apenas parte da cena. Não conseguia ouvir uma única palavra, mas via nitidamente o pai conversando com Kiran como se fossem velhos conhecidos. Eduardo ria. Kiran também. Havia anos que Theo não via o pai rir daquele jeito com alguém que acabara de conhecer.

Um desconforto inesperado apertou seu peito. Não era inveja. Também não era preocupação. Era algo muito mais difícil de admitir. Sentiu-se excluído de uma conversa da qual, por algum motivo, queria desesperadamente fazer parte.

Helena percebeu o movimento dos olhos dele antes mesmo de acompanhar a direção do olhar.

Ah...

Ela sorriu discretamente.

Agora entendi.

Theo franziu a testa.

Entendeu o quê?

— O problema nunca foi a publicação.

Ele permaneceu em silêncio. Helena continuou:

O problema é que você não suporta a sensação de alguém chegar perto de pessoas importantes para você antes que você consiga entender por quê.


Theo virou lentamente o rosto para encará-la. Pela primeira vez naquela noite... Helena tinha acertado sem errar uma única palavra. Theo permaneceu observando o jardim por mais alguns segundos. Eduardo dizia alguma coisa que fez Kiran rir novamente. Era uma risada discreta, curta, quase contida. Ainda assim, conseguiu provocar em Theo uma sensação completamente absurda. Percebeu que jamais o fizera rir daquela maneira. Não fazia sentido pensar nisso. Menos sentido ainda era incomodar-se.


Quando Eduardo finalmente se despediu, Kiran permaneceu sozinho, terminando o café lentamente. Não voltou imediatamente para o salão. Parecia aproveitar aqueles poucos minutos de silêncio antes de mergulhar outra vez nas centenas de conversas que o aguardavam lá dentro. Theo respirou fundo. Dessa vez, Helena não o impediu. Talvez porque também tivesse entendido que algumas decisões simplesmente deixam de pertencer à razão. Ele atravessou a porta de vidro. O ar frio da noite substituiu imediatamente o calor elegante do salão. Kiran ouviu os passos se aproximando, mas não virou o rosto.


Seu pai é diferente de você.

Theo parou ao lado dele.

Isso foi um elogio ou uma crítica?

— Ainda estou decidindo.


Os dois sorriram quase ao mesmo tempo. Nenhum deles percebeu. Durante alguns segundos, apenas observaram as luzes da cidade refletidas nas fachadas dos prédios ao redor.

Você sempre foge dos eventos? — perguntou Theo.

Só quando eles ficam barulhentos demais.

— Achei que estivesse fugindo de outra coisa.

Kiran virou o rosto.

De quê?

Theo sustentou seu olhar por tempo suficiente para tornar a pergunta perigosa.

De mim.


O silêncio que veio depois não era desconfortável. Era cheio. Pesado. Como se qualquer palavra escolhida pudesse mudar definitivamente o rumo daquela noite.

Kiran deu um pequeno passo para diminuir a distância entre os dois. Quase imperceptível. Theo não recuou nem por um segundo. Os dois agora estavam perto o suficiente para perceber detalhes que, até então, pertenciam apenas à memória. O perfume. A respiração. O jeito como o outro sustentava o olhar sem pressa. Kiran sorriu primeiro.


Você tem o péssimo hábito de fazer perguntas para as quais já acha que sabe a resposta.

Theo devolveu um sorriso igualmente discreto.

E você tem o péssimo hábito de responder olhando desse jeito.

— Que jeito?

— Como se estivesse me desafiando a chegar mais perto.


Nenhum dos dois se moveu. Não precisavam. A tensão já fazia todo o trabalho. Foi então que, do outro lado da parede de vidro, dezenas de celulares voltaram a se iluminar ao mesmo tempo. Dessa vez, nenhum dos dois olhou imediatamente. Porque, pela primeira vez naquela semana... A Gossip Girl deixara de ser a coisa mais interessante da noite.

Kiran continuou encarando Theo por mais alguns segundos, como se estivesse esperando que ele fizesse alguma coisa. Theo também esperou. Havia alguma coisa quase imprudente naquele silêncio, uma espécie de desafio que nenhum dos dois parecia disposto a verbalizar. Kiran finalmente sorriu de lado e desviou os olhos.

Acho que deveríamos voltar.

Theo olhou para dentro do salão através do vidro.

Por quê?

— Porque, se ficarmos aqui mais cinco minutos, ela vai inventar alguma coisa.

— Ela já inventou.

Kiran voltou a encará-lo.

E você está preocupado?

Theo deixou escapar um sorriso discreto.

Com você?

— Com o que vão dizer.

A pergunta parecia simples. Não era. Theo demorou alguns segundos antes de responder.

Ainda estou tentando descobrir.

Kiran sustentou o olhar dele por mais um instante, como se tivesse gostado mais daquela resposta do que deveria.

Então descubra rápido.

Ele abriu a porta de vidro e entrou. Theo ficou sozinho no jardim por alguns segundos antes de acompanhá-lo. Quando voltou ao salão, percebeu que a atmosfera havia mudado. Não era apenas a curiosidade provocada pela nova publicação. Havia uma inquietação diferente, como se a Gossip Girl tivesse deixado uma segunda história pairando sobre aquela noite. Helena foi a primeira a alcançá-lo.

Você demorou.

Theo pegou uma taça de água da bandeja de um garçom.

Estava conversando.

— Eu imaginei.

Dante aproximou-se logo depois, com aquele sorriso que Theo conhecia bem demais.

Conversando sobre o quê?

Theo lançou um olhar para ele.

Você sempre foi tão interessado na minha vida?

— Só quando ela começa a ficar interessante.

Helena riu baixo.

Não começa.

Antes que Theo pudesse responder, o celular de Helena vibrou. Ela olhou a tela e imediatamente perdeu o sorriso.

O que foi? — perguntou Dante.

Helena virou o aparelho para os dois. A Gossip Girl havia publicado novamente. Dessa vez, não havia fotografia de ninguém naquela sala. Era apenas uma imagem aparentemente banal: uma rua molhada, vista através da janela de um carro, em algum lugar que nenhum dos três reconhecia. Ao fundo, luzes desfocadas de uma cidade estrangeira. Sobre a fotografia, uma legenda curta.


SPOTTED.

"Enquanto São Paulo decide quem está olhando para quem, alguém, bem longe daqui, acaba de decidir quando olhar de volta.

Nem toda garota precisa de um convite para entrar na festa."

XOXO,

GG.💋


Theo leu em silêncio. Dante franziu a testa.

Isso é novo.

Helena não respondeu. Ela continuava olhando para a fotografia.

Ela nunca fez isso antes — disse finalmente.

Fazer o quê?

— Falar de alguém que nem está aqui.

Theo pegou o telefone da mão dela e ampliou a imagem. Não havia nada além da rua molhada, das luzes distantes e do reflexo indistinto de alguém sentado no banco traseiro do carro. Nenhum rosto. Nenhum endereço. Nenhuma pista concreta. Mas havia uma intenção e era isso que o incomodava. A Gossip Girl não estava apresentando uma pessoa. Estava apresentando uma possibilidade. Theo devolveu o aparelho.

Quem quer que seja, ela quer que a gente saiba que está chegando.

Dante soltou uma risada curta.

Ou quer que a gente pense isso.

Helena cruzou os braços.

O que, vindo dela, dá praticamente no mesmo.

Do outro lado do salão, Kiran observava os três conversando. Quando seus olhos encontraram os de Theo novamente, a publicação pareceu perder importância por alguns segundos. Theo sustentou o olhar, mas desta vez Kiran foi quem sorriu primeiro. E foi exatamente nesse momento que o telefone de Theo vibrou. Uma nova notificação. Não era da Gossip Girl. Era de Laura.

"Descobri quem enviou a fotografia."

Theo ficou imóvel. Abaixo da mensagem havia apenas um nome. Um nome que ele não conhecia. E que, por algum motivo, teve a estranha sensação de que conheceria muito bem em breve.