JARDINS
13 Exposição 📸🥂
Notas iniciais
SOUNDTRACK DO CAPÍTULO:
Secret by The Pierces
São Paulo parecia diferente quando ninguém estava tentando impressionar ninguém. Talvez fosse apenas a ausência de fotógrafos, assessores e listas de convidados, ou talvez aquela casa modernista escondida entre as árvores do Pacaembu tivesse o raro privilégio de fazer seus convidados esquecerem, por algumas horas, que a cidade inteira parecia construída sobre reputações. O jantar daquela noite não tinha nome, patrocinador ou imprensa. Apenas uma mesa comprida sob a varanda, música baixa atravessando os ambientes abertos e algumas das pessoas que Helena considerava interessantes o bastante para dividir uma noite sem precisar explicar por quê.
Theo chegou pouco depois das nove, vestindo uma camisa preta de seda da The Row, calça escura de corte impecável e um casaco leve de Loro Piana sobre os ombros. O relógio quase desaparecia sob a manga. Nada nele gritava dinheiro. Não precisava. Aquelas pessoas sabiam reconhecer. Helena o viu antes que ele a alcançasse. Por um instante, os dois apenas se olharam. Depois dos últimos dias, aquele simples gesto já carregava mais coisas do que deveria.
— Você veio.
Theo parou diante dela.
— Você me convidou.
— Isso nunca foi garantia.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.
— E você continua achando que sabe tudo sobre mim.
— Não tudo.
Helena sustentou o olhar.
— Só o suficiente.
A resposta poderia ter provocado uma discussão em qualquer outro momento. Naquela noite, apenas abriu um silêncio cuidadoso entre os dois.
— Ainda estamos pisando em ovos? — Theo perguntou.
— Você está.
— E você?
— Eu estou tentando não quebrá-los.
Theo desviou os olhos por um instante. A sinceridade dela era mais difícil de enfrentar do que uma provocação.
— Eu não quero continuar assim com você.
Helena respirou devagar.
— Então não continue.
— Não é tão simples...
— Eu sei.
Ela tocou de leve o braço dele antes de se afastar.
— Mas pelo menos agora você está falando comigo.
Theo ficou olhando enquanto ela se afastava. Ainda não era uma reconciliação. Talvez estivesse longe disso. Mas havia alguma coisa ali que não existia alguns dias antes: uma disposição mútua para não deixar que o silêncio decidisse o destino dos dois. Dante apareceu logo depois, segurando uma taça.
— Que bom. Vocês dois conversando sem ameaçar destruir a vida um do outro. Estou orgulhoso.
Theo olhou para ele.
— Impressionante como você sempre chega na hora errada.
— Não te contei? É um dom.
Theo revirou os olhos. Dante sorriu debochadamente, e então, olhou por cima do ombro do Montenegro e seu sorriso desapareceu. Kiran havia acabado de entrar.
Ele vestia uma camisa branca de algodão, aberta no colarinho, calça preta e um casaco escuro de corte simples. Não parecia deslocado. Esse foi provavelmente o primeiro detalhe que incomodou Dante. O segundo foi perceber que Helena estava esperando por ele.
— Você convidou o Kiran? — Dante perguntou após se achegar até ela.
— Convidei.
— Para cá?
Helena virou-se.
— Dante.
— Não, estou perguntando.
— E eu estou respondendo.
Dante olhou para Theo. Theo não respondeu. Kiran aproximou-se e cumprimentou Helena.
— Obrigado pelo convite.
— Eu queria que você conhecesse algumas pessoas, disse a Albuquerque.
— Estou percebendo.
Os olhos dele encontraram os de Theo.
— Oi.
— Oi.
Dante observou o encontro silencioso dos dois.
— Eu não gosto disso.
Helena arqueou uma sobrancelha.
— De quê?
— Da cara que vocês estão fazendo.
Kiran riu. Theo passou a mão pelo bolso da calça.
— Você está imaginando coisas.
— Eu espero que sim.
Dante se afastou antes que pudesse ouvir qualquer resposta. O jantar começou pouco depois. Conversas cruzaram a mesa, vinho foi servido, risadas surgiram em diferentes pontos e, por alguns minutos, Theo conseguiu se convencer de que a noite seria apenas uma noite. Até perceber que Kiran estava sentado duas cadeiras à sua frente. A primeira vez que seus olhos se encontraram, Kiran sorriu. A segunda, Theo desviou. A terceira, não conseguiu. Helena percebeu e não comentou. Talvez justamente por isso Theo tenha ficado ainda mais consciente de cada olhar.
Depois do jantar, os convidados se espalharam pela casa e pelo jardim. Alguns foram para perto da piscina. Outros permaneceram na varanda. A música aumentou um pouco, e a noite ganhou aquela atmosfera perigosa das festas intimistas, quando ninguém sabe exatamente em que momento uma conversa se transforma em alguma coisa que não deveria acontecer. Theo encontrou Helena sozinha perto de uma das portas de vidro.
— Você fez isso de propósito.
Ela olhou para ele.
— Convidei Kiran?
— Sim.
— Talvez.
Theo soltou uma risada curta.
— Você está impossível.
— Não. Estou cansada.
— De mim?
— De tentar proteger você de você mesmo.
A frase o fez parar. Helena cruzou os braços.
— Você não precisa gostar de todas as minhas decisões. Assim como eu não preciso gostar das suas.
— Eu confio em você.
— Então comece por aí.
Theo aproximou-se.
— E você confia em mim?
Ela demorou.
— Estou tentando.
Aquilo doeu. Ele deixou escapar um suspiro.
— Justo.
Helena tocou o braço dele.
— Theo...
— Não.
Ele sorriu de leve.
— Está tudo bem.
— Não está.
— Eu sei.
Os dois permaneceram em silêncio. Havia afeto ali. Antigo, profundo, quase familiar demais para ser explicado. E talvez justamente por isso a distância dos últimos dias tivesse doído tanto.
— Não quero perder você, Albuquerque — disse Theo.
Helena baixou os olhos por um instante.
— Então não transforme tudo em uma guerra, Montenegro.
Ele assentiu. Foi tudo o que conseguiram naquela noite. E talvez fosse suficiente. Theo deixou a sala e caminhou em direção ao jardim. Kiran estava perto da piscina. Sozinho, ou pelo menos parecia.
— Você sempre foge das pessoas? — perguntou Theo. Kiran olhou para ele.
— Só quando quero que alguém venha atrás.
Theo parou.
— Funcionou.
Kiran sorriu.
— Eu sei.
A música parecia mais distante ali. Theo colocou as mãos nos bolsos.
— Você está gostando?
— Da festa?
— Da noite.
Kiran o observou.
— Agora estou.
Theo não respondeu. Kiran se aproximou.
— Você fica nervoso comigo?
— Não.
— Mentira.
— Você gosta de me contradizer.
— Gosto.
Mais um passo. Theo não recuou.
— Você sabia que eu estaria aqui?
— Helena me convidou.
— Não foi isso que perguntei.
Kiran sorriu.
— Talvez eu soubesse.
Theo balançou a cabeça.
— Você é um problema.
— E você continua vindo atrás.
Kiran ficou perto o suficiente para que Theo pudesse sentir seu perfume.
— Você está fazendo de novo.
— Fazendo o quê?
— Olhando para mim como se estivesse tentando decidir se vai me beijar.
Theo sustentou o olhar.
— E se eu estiver?
Kiran não respondeu. Apenas levantou a mão e tocou a nuca de Theo. O gesto foi lento e deliberado. Uma escolha. Theo poderia ter recuado. Não recuou. Kiran o beijou.
Dessa vez não havia o jardim do do instituto, nenhuma dúvida sobre o que os dois estavam fazendo ou quanto tempo ainda conseguiriam fingir que aquilo não existia. O beijo começou com a segurança de quem já havia tomado uma decisão antes mesmo de se aproximar. Theo permaneceu imóvel apenas por um instante, como se uma parte dele ainda tentasse compreender o que estava acontecendo.
Então sua mão encontrou a cintura de Kiran. E tudo mudou. Ele o puxou para mais perto, aprofundando o beijo com uma intensidade que surpreendeu até a si próprio. Kiran segurou sua nuca com mais força. Theo esqueceu a casa, os convidados, a música e a possibilidade de alguém aparecer. Pela primeira vez em muito tempo, não havia cálculo. Não havia estratégia. Apenas a certeza incômoda de que queria continuar. Quando se afastaram, permaneceram próximos. Kiran respirou fundo.
— Isso vai complicar tudo.
Theo ainda segurava sua cintura.
— Já estava complicado.
Kiran sorriu.
— Você sempre tem uma resposta pronta?
— Quase sempre.
— Essa não pareceu pronta.
Theo olhou para a boca dele.
— Não foi.
Kiran voltou a beijá-lo e, dessa vez, Theo não esperou sequer um segundo.
Do outro lado da varanda, Dante parou. Ele havia saído à procura de Theo depois de Helena perguntar onde ele estava. Não esperava encontrar aquilo. Ficou imóvel. Theo e Kiran estavam perto da piscina, completamente alheios ao resto da casa. Kiran mantinha uma das mãos na nuca de Theo. Theo segurava a cintura dele. Não havia como interpretar errado. Dante soltou uma pequena risada.
— Eu sabia.
Tirou o celular do bolso e enquadrou. A fotografia capturou os dois no instante exato em que se afastavam do beijo. Dante olhou para a imagem. Por um segundo, hesitou. Depois, abriu a conversa com a Gossip Girl e anexou a fotografia. Não escreveu uma palavra. Apenas enviou. A mensagem foi entregue e recebida com sucesso. Ele guardou o telefone. Helena estava logo atrás. Dante virou-se.
— Há quanto tempo você está aí?
— Tempo suficiente.
Ela olhou para o jardim. Depois para Dante.
— Você mandou?
Ele não respondeu.
— Dante.
— Mandei.
Helena fechou os olhos.
— Por quê?
— Porque ele estava beijando o Kiran.
— Isso eu percebi.
— E porque ele precisava parar de controlar tudo.
— Então você resolveu entregar o controle para ela?
Dante ficou em silêncio. Helena olhou para ele com uma mistura de incredulidade e preocupação.
— Você não faz ideia do que acabou de colocar em movimento.
— Talvez eu saiba.
— Não, você não sabe.
O telefone de Dante vibrou. Os dois olharam para a tela. A Gossip Girl havia respondido.

SPOTTED.
"Parece que alguém finalmente decidiu parar de fingir que não quer aquilo que olha há semanas.
Algumas quedas começam muito antes de alguém perceber que já está no chão.
E, T, se serve de consolo: você não é o único que perdeu o equilíbrio esta noite."
XOXO,
GG. 💋
Dante leu em silêncio. Helena tomou o telefone da mão dele.
— Ela publicou.
— Eu percebi.
— Isso vai chegar nele em segundos.
— Eu sei.
No jardim, o telefone de Theo vibrou. Ele se afastou de Kiran apenas o suficiente para olhar a tela. Seu rosto mudou. Kiran percebeu a mudança.
— O que foi?
Theo virou o telefone. Kiran leu. Por alguns segundos não disse nada.
— Ela viu?
— Não sei.
— Alguém mandou.
Theo olhou em volta do seu eixo. Dante estava parado na varanda. Os dois se encararam por alguns incontáveis segundos e finalmente, Theo entendeu. Dante levantou as mãos em um gesto que dizia que não havia muito o que explicar. Theo balançou a cabeça.
— Eu vou matar ele.
Kiran riu.
— Pelo menos ele não está negando.
Theo olhou novamente para a fotografia.
— Não.
— Então não apaga.
Theo ergueu os olhos.
— O quê?
Kiran sustentou seu olhar.
— A gente fez.
E havia alguma coisa naquela frase que fez Theo bloquear o telefone. Não era desafio, tampouco provocação. Era aceitação. Ele guardou o aparelho no bolso.
— Você tem certeza?
Kiran aproximou-se novamente.
— Tenho.
Antes que Theo pudesse responder, o telefone de Helena vibrou dentro da casa. Ela olhou para a tela. Uma nova publicação. Dessa vez, não havia fotografia de Theo. Nem de Kiran. Era uma imagem distante de um aeroporto. Uma mulher sentada diante de uma janela, vista apenas de costas. Uma mala ao lado dos pés. Um casaco sobre os ombros. Nenhum rosto. Nenhum nome.
A legenda era curta.
SPOTTED.
"Enquanto alguns finalmente descobrem o que acontece quando param de resistir, alguém, a milhares de quilômetros daqui, acaba de decidir que está na hora de parar de olhar de longe. Ainda não sabem quem ela é, mas ela já sabe exatamente para onde está indo."
XOXO,
GG. 💋
Helena ficou imóvel e Dante finalmente aproximou-se.
— O que foi?
Ela mostrou a tela. Ele leu, depois olhou para a fotografia.
— Quem é?
Helena balançou a cabeça.
— Não faço ideia.
No jardim, Theo ainda estava com Kiran. Nenhum dos dois sabia da nova publicação. Nenhum dos dois sabia que, enquanto a fotografia daquele beijo começava a circular pelos telefones da elite paulistana, uma pessoa que ainda não tinha rosto, nome ou lugar naquela cidade acabava de dar o primeiro passo em direção a ela e talvez fosse justamente isso que tornava aquela noite tão perigosa. Porque Theo finalmente tinha feito alguma coisa que não conseguia controlar. Dante acabara de transformar um beijo em informação. Helena percebera que não conseguiria proteger todos eles para sempre. E, em algum lugar muito distante dali, uma garota que ainda não pertencia àquela cidade já havia decidido que pertenceria. A noite ainda nem tinha acabado, mas São Paulo já tinha começado a olhar.
Theo atravessou a sala sem pressa, embora cada passo carregasse uma irritação que ele fazia questão de manter sob controle. Dante estava perto do bar, conversando com alguém que claramente não tinha percebido que ele acabara de se tornar o homem mais procurado daquela casa. Theo parou diante dele.
— Foi você?
Dante olhou para ele. Não perguntou do quê.
— Foi.
Theo assentiu uma única vez.
— Você quer me explicar?
— Posso tentar.
— Não tente. Explique.
Dante largou a taça sobre o balcão.
— Eu vi vocês.
— Isso eu imaginei.
— E mandei a foto.
— Também imaginei.
Dante respirou fundo.
— Theo...
— Você sabe que ela não apaga nada depois que publica.
— Eu sei.
— Sabe que agora existem dezenas, senão milhares de pessoas com essa fotografia.
— Sei.
— E sabe que, a partir deste momento, qualquer pessoa pode fazer o que quiser com ela.
Dante sustentou o olhar.
— Sei.
Theo ficou alguns segundos em silêncio, ainda absorto em tudo o que estava acontecendo.
— Então por quê?
Dante não desviou.
— Porque você nunca faria isso se tivesse tempo para pensar.
Theo franziu a testa.
— Isso não é uma justificativa.
— Não. É a verdade.
— Você decidiu por mim.
— Não. Você decidiu. Eu só registrei.
A resposta fez Theo apertar discretamente a mandíbula. Dante continuou:
— Você passou anos controlando tudo. Quem entra, quem sai, quem sabe, quem não sabe, o que aparece, o que desaparece. E eu vi você beijar o Kiran sem pensar em nenhuma dessas coisas.
Theo ficou imóvel.
— E achei que talvez fosse importante deixar pelo menos uma coisa acontecer sem você tentar controlar depois.
— Você transformou uma coisa minha, uma particularidade minha, em notícia.
— Não. A Gossip Girl transformou.
Theo deu uma risada curta, sem humor.
— Você está se ouvindo?
— Estou.
— E ainda acha que está certo?
Dante demorou um segundo.
— Acho que fiz uma coisa idiota.
Theo esperou.
— Mas não acho que tenha sido a pior coisa que você fez esta noite.
Theo o encarou.
— Qual seria?
Dante apontou discretamente para o jardim.
— Fingir que aquele beijo não significou nada.
A frase ficou entre os dois. Theo não respondeu. Dante pegou novamente a taça.
— Eu conheço você.
— Às vezes acho que esse é o meu maior problema.
— E eu conheço o suficiente para saber que você não está bravo porque eu mandei a foto.
Theo arqueou uma sobrancelha.
— Não?
— Está bravo porque agora não consegue mais fingir que aquilo não aconteceu.
Theo ficou em silêncio. Dante sorriu de leve.
— Acertei.
— Não se acostume.
— Jamais.
Helena apareceu ao lado deles antes que a conversa pudesse continuar.
— Vocês terminaram?
Dante olhou para ela.
— Tecnicamente.
— Ótimo.
Ela virou-se para Theo.
— Posso falar com você?
Theo assentiu. Os dois se afastaram alguns passos, deixando Dante sozinho. Helena permaneceu em silêncio até estarem longe o suficiente.
— Você está bem?
— Estou.
— Não está.
— Estou irritado.
— Com Dante?
Theo pensou.
— Também.
— Com Kiran?
Ele olhou para ela.
— Não.
Helena assentiu lentamente.
— Então com você.
Theo não respondeu.
— É estranho — disse ela. — Você consegue enfrentar uma sala inteira quando todo mundo quer alguma coisa de você. Mas basta alguém chegar perto demais e você começa a agir como se tivesse perdido o mapa.
— Talvez eu tenha perdido.
Helena sorriu de leve.
— Finalmente.
Theo olhou para ela.
— Você parece satisfeita.
— Não estou satisfeita.
Ela fez uma pausa.
— Estou aliviada.
— Por quê?
— Porque você está sentindo alguma coisa.
Theo ficou quieto.
— Eu estava com medo de que você passasse a vida inteira confundindo controle com segurança.
A frase o atingiu. Helena tocou de leve o braço dele.
— Só não faça isso comigo.
Theo olhou para a mão dela.
— O quê?
— Não me obrigue a descobrir as coisas sobre você pela Gossip Girl.
Ele levantou os olhos. Aquela era a verdadeira ferida. Não a fotografia. Não Dante. Ela.
— Eu não quero isso.
— Então não faça comigo o que você faz com todo mundo.
— Eu estou tentando.
— Eu sei.
Helena afastou a mão.
— E talvez seja por isso que ainda estou aqui.
Ela saiu antes que Theo pudesse responder. Do jardim, Kiran observava os dois. Quando Theo voltou, ele estava encostado no muro baixo próximo à piscina.
— Vocês brigaram?
— Não.
— Parece.
Theo parou diante dele.
— Helena é complicada.
— Você também.
— É o que parece.
Kiran sorriu.
— Então vocês combinam.
Theo soltou uma risada.
— Não comece.
— Só estou dizendo.
O telefone de Theo vibrou novamente. Ele olhou. Mais mensagens. Nomes conhecidos. Alguns perguntavam se era verdade. Outros apenas enviavam emojis. Um deles não tinha texto algum, apenas a fotografia circulando novamente. Theo bloqueou a tela.
— Quer ir embora? — perguntou Kiran.
Theo olhou para ele.
— Você quer?
— Perguntei primeiro.
— Não.
Kiran pareceu surpreso.
— Não?
Theo aproximou-se.
— Não quero ir embora.
— Por causa da festa?
— Não.
Kiran ficou em silêncio. Theo segurou sua mão.
— Por sua causa.
A expressão de Kiran mudou. Não foi um sorriso imediato. Primeiro veio a surpresa. Depois algo mais discreto, quase vulnerável, antes que ele entrelaçasse os dedos aos dele.
— Você sabe que isso vai ficar mais complicado, não sabe?
— Sei.
— E ainda assim...
— Ainda assim.
Kiran olhou para as mãos unidas.
— Então fica.
Theo ficou. Não precisou dizer mais nada. Voltaram para a casa juntos. Foi quando os primeiros olhares começaram. Não eram discretos o suficiente. Uma conversa cessou quando passaram. Uma mulher olhou para as mãos deles e imediatamente pegou o celular. Dois homens próximos à mesa trocaram um comentário baixo. Alguém sorriu. Alguém fingiu não olhar. Kiran percebeu. Theo também, mas nenhum dos dois soltou a mão do outro.
Dante, ainda perto do bar, viu a cena e balançou a cabeça. Helena apareceu ao lado dele.
— Você está orgulhoso de si mesmo?
— Um pouco.
— Não deveria.
— Eu sei.
Ela olhou para Theo.
— Mas acho que ele precisava disso.
Dante virou-se para ela.
— Você também acha?
— Acho que Theo precisava escolher alguma coisa sem consultar o resto do mundo.
Dante sorriu.
— E você?
Helena olhou para ele.
— Eu preciso de um drink.
— Isso eu consigo resolver.
— Pelo menos alguma coisa.
Os dois caminharam até o bar. Naquela noite, pela primeira vez, Theo não se preocupou com quem estava olhando. Kiran permaneceu ao seu lado e a sensação era estranha. Não porque fosse ruim. Porque era boa demais.
Mais tarde, quando a casa começou a esvaziar, Theo acompanhou Kiran até a área externa. A música já havia diminuído. O jardim estava quase vazio e as luzes da piscina refletiam no rosto dos dois.
— Então isso aconteceu mesmo — disse Kiran.
Theo sorriu.
— Aparentemente.
— E amanhã?
Theo ficou olhando para ele.
— Amanhã ainda não chegou.
Kiran aproximou-se.
— Você sempre foge assim?
— Só quando não tenho resposta.
— E agora?
Theo segurou seu rosto.
— Agora eu tenho.
Beijou-o novamente. Mais breve. Mais íntimo. Sem pressa. Quando se afastaram, Kiran encostou a testa na dele.
— Boa noite, Theo.
— Boa noite.
Kiran caminhou até o portão. Theo permaneceu ali até vê-lo desaparecer. Só então pegou o celular. Havia uma nova notificação. Não era uma mensagem. Era um e-mail. O remetente estava parcialmente oculto pela tela bloqueada.
Reserva confirmada.
Theo abriu. Passagem aérea.
Origem: Nova Iorque.
Destino: São Paulo.
Data de chegada: amanhã.
Ele franziu a testa. Não havia nome visível na primeira tela. Apenas o código da reserva e o horário. Theo fechou o aplicativo. Talvez fosse trabalho. Talvez alguém da família. Talvez absolutamente nada. Naquela noite, entretanto, ele já havia aprendido que coincidências estavam ficando caras demais.
Em outro lugar, muito longe dali, uma mala foi fechada. Um passaporte desapareceu dentro de uma bolsa. Um telefone foi colocado sobre uma mesa. A tela acendeu. Uma mensagem enviada:
“Chego amanhã.”
A resposta demorou poucos segundos.
“São Paulo está exatamente como você imaginava?”
A pessoa diante da tela sorriu. Digitou:
“Não.”
Apagou. Tentou novamente.
“Está melhor.”
O telefone foi bloqueado. E, pela primeira vez, a cidade que ainda não sabia seu nome estava a menos de vinte e quatro horas de descobrir que algumas pessoas não chegam para conhecer um lugar. Chegam para mudar o equilíbrio dele.
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