JARDINS
14 Jogo Duplo ♟️👑
Notas iniciais
Na noite seguinte à fotografia, Theo Montenegro descobriu que o silêncio podia ser muito mais constrangedor do que qualquer comentário. No jantar, ninguém mencionou Kiran. No café da manhã, ninguém perguntou pela fotografia. No entanto, seu telefone não parava de vibrar, como se cada notificação fosse uma pequena lembrança de que, em algum lugar, alguém ainda estava olhando. Theo deixou o aparelho sobre a mesa de mármore do apartamento e terminou o espresso sem pressa. Vestia uma camiseta preta impecavelmente ajustada da The Row, calça de alfaiataria em lã fria da Loro Piana e um relógio discreto que desaparecia sob a manga. Não parecia um homem preocupado. Esse era justamente o problema: Theo havia aprendido cedo demais a parecer exatamente aquilo que esperavam dele.
No começo da tarde, encontrou Kiran em um café reservado no Jardim Europa. Kiran chegou de camisa branca de algodão, calça preta de corte reto e um casaco escuro sobre os ombros, simples o suficiente para não parecer que havia tentado impressionar ninguém. Theo sorriu quando o viu.
— Você está bem?
— Estou.
— Mentira.
Kiran riu.
— Você também.
Theo apoiou o antebraço sobre a mesa.
— Eu estou tentando entender o que acontece agora.
— Nada.
— Nada?
— Nós continuamos.
Theo ficou olhando para ele.
— É assim tão fácil?
— Não. Mas pode ser simples.
Aquilo desmontou Theo mais do que qualquer crítica poderia ter feito. Kiran não parecia interessado em esconder o que havia acontecido. Não parecia preocupado com sobrenomes, fotografias ou comentários. Talvez fosse exatamente isso que assustasse Theo.
— Meu pai pode não gostar — disse Theo finalmente.
Kiran ergueu os olhos.
— Do quê?
Theo hesitou.
— De você.
Kiran não respondeu imediatamente.
— Então ele vai ter que me conhecer antes.
A frase parecia simples. Para Theo, não era.
Naquela mesma tarde, a poucos quilômetros dali, Dante entrou em uma sala reservada de um clube privado no Jardim América. Não estava ali para beber. Vestia um terno escuro de corte italiano, camisa branca sem gravata e um relógio que Theo reconheceria imediatamente. Sobre a mesa havia apenas duas coisas: um café intocado e um envelope fechado. Eduardo Montenegro entrou sozinho fazendo Dante se levantar.
— Obrigado por vir.
Eduardo tirou o casaco e o entregou ao funcionário antes de se sentar.
— Você disse que era sobre o Theo.
— É.
— Então fale.
Dante respirou fundo.
— Ele está envolvido demais.
Eduardo não demonstrou surpresa.
— Com o rapaz?
— Com tudo.
Silêncio.
— Você quer que eu faça alguma coisa?
Dante sustentou o olhar dele.
— Quero que o senhor entenda que, se não fizer, alguém vai fazer por nós.
Eduardo observou o envelope. Não o abriu.
— E o que exatamente você sugere?
Dante recostou-se.
— Primeiro, nada.
Eduardo arqueou uma sobrancelha.
— Nada?
— Deixe que eles acreditem que ninguém está interferindo.
Foi a primeira vez que Eduardo sorriu.
— Você aprendeu isso onde?
— Observando sua família.
O sorriso desapareceu.
— Cuidado, Dante.
— Estou tendo.
Os dois ficaram em silêncio. Nenhum deles confiava no outro. Talvez fosse exatamente por isso que aquela conversa pudesse funcionar.
Enquanto isso, Noah estava sentado sozinho em uma mesa afastada de um bar discreto nos Jardins, olhando para um copo que não havia tocado. Vestia uma jaqueta de couro preta sobre uma camiseta cinza e mantinha o telefone virado para baixo. O baseado estava no bolso interno da jaqueta. Ele havia prometido a si mesmo que não usaria. Ainda não havia decidido se acreditava na própria promessa.
O telefone vibrou. Uma mensagem.
"Você ainda tem aquilo?"
Noah fechou os olhos. Outra mensagem chegou.
"Eu sei que você tem."
Ele levantou imediatamente e olhou ao redor. Ninguém parecia observá-lo. Esse era o problema. Quando alguém quer ser discreto demais, qualquer pessoa parece suspeita.
Noah deixou algumas notas sobre a mesa e saiu. No estacionamento, abriu a porta do carro e parou. O telefone vibrou novamente. Dessa vez, uma fotografia. Noah olhou. Seu rosto perdeu a cor. Não era a fotografia que ele esperava. Era uma imagem dele entrando em algum lugar na noite anterior. E, no canto inferior da fotografia, havia uma segunda pessoa. Alguém que Noah conhecia. Alguém que não deveria estar ali. Ele apagou a tela imediatamente. Pela primeira vez, não pensou em usar o baseado; Pensou em fugir.
No mesmo instante, em outro ponto da cidade, Eduardo finalmente abriu o envelope. Dentro havia apenas uma folha. Um nome. Kiran Alves. E, abaixo dele, uma segunda linha. Descobrir quanto custa fazê-lo desaparecer. Eduardo dobrou o papel.
— Ainda não — disse.
Dante observou.
— Ainda não?
— Dinheiro é a última coisa que se oferece quando se quer descobrir o preço de alguém.
Dante sorriu.
— Então qual é a primeira?
Eduardo levantou-se.
— Descubra o que ele não pode perder.
E nenhum dos dois percebeu que, do lado de fora da sala, alguém havia parado por alguns segundos diante da porta fechada. Helena. Ela não ouvira tudo, mas sim, o suficiente. E, pela primeira vez, percebeu que o problema talvez não fosse Kiran: Talvez fosse Dante. E talvez Theo fosse o único naquela cidade que ainda não soubesse disso.
Helena esperou até que a porta do elevador se fechasse antes de pegar o celular. Não ligou para Theo. Ainda não. Se havia aprendido alguma coisa observando aquela família durante tantos anos, era que certas informações ficavam mais valiosas quando não eram entregues imediatamente. Caminhou até o estacionamento do clube com a bolsa sobre o ombro, os saltos ecoando sobre o piso de pedra, e só quando entrou no carro permitiu-se reler a mensagem que recebera minutos antes. Era do Dante.
"20h. Preciso falar com você."
Nada além disso. Helena ficou alguns segundos olhando para a tela. Depois sorriu sem humor. Ele sabia que ela havia escutado. Talvez até quisesse que ela tivesse escutado. E isso significava que aquela conversa não tinha terminado naquela sala.
Enquanto o carro deixava o Jardim América, Theo estava do outro lado da cidade, atravessando o saguão silencioso de um hotel nos Jardins ao lado de Kiran. Theo havia trocado a roupa do início da tarde por uma camisa de seda preta da The Row, aberta apenas o suficiente para deixar o colarinho naturalmente relaxado, calça escura de alfaiataria e o casaco leve da Loro Piana novamente sobre os ombros. Kiran mantinha a mesma elegância despretensiosa: camisa branca de algodão, calça preta e o casaco escuro de corte simples. Eles tinham ido até ali para jantar, mas acabaram sentados no bar, dividindo uma sobremesa que nenhum dos dois realmente queria terminar.
Kiran apoiou o cotovelo no balcão e observou Theo por alguns segundos.
— Você está pensando demais.
— É um defeito antigo.
— Não. É um mecanismo de defesa. Theo virou o rosto para ele.
— Desde quando você me conhece tão bem?
— Desde que você começou a me olhar como se estivesse tentando descobrir se eu vou embora.
A resposta atingiu Theo em cheio. Ele desviou os olhos, mas Kiran aproximou-se apenas o suficiente para que a distância entre os dois voltasse a parecer uma escolha, não uma necessidade.
— Eu não vou embora porque alguém tirou uma foto — disse Kiran.
— E se alguém decidir que você deveria ir?
— Então essa pessoa vai ter que falar comigo.
Theo quase sorriu.
— Você não faz ideia de quem está mexendo com isso.
— Talvez você também não.
O telefone de Theo vibrou sobre o balcão. Uma mensagem de Laura.
"Seu pai quer falar com você amanhã. Sem horário definido."
Theo leu duas vezes. Kiran percebeu.
— Problema?
Theo bloqueou a tela.
— Meu pai. Kiran ficou em silêncio.
Não perguntou o que Eduardo queria. Talvez porque soubesse que Theo ainda não tinha uma resposta.
Naquela mesma noite, Dante entrou no restaurante onde Helena o esperava. Ela havia escolhido uma mesa lateral, longe dos olhares mais curiosos, e usava um vestido preto de corte impecável, blazer estruturado sobre os ombros e joias discretas. Dante sentou-se diante dela.
— Você ouviu.
— O suficiente.
— Então sabe que não era sobre destruir o Theo.
— Ainda não sei o que era.
— Era sobre protegê-lo.
Helena inclinou a cabeça.
— Essa é uma palavra muito conveniente.
Dante sustentou o olhar.
— Você faria diferente?
Helena sorriu de leve.
— Eu faria melhor.
O garçom se aproximou. Ela pediu água. Dante recusou qualquer coisa.
— Você está apaixonada por uma versão do Theo que precisa de você — disse ele. Helena ficou imóvel.
— E você está obcecado por uma versão do Theo que precisa ser salva.
Nenhum dos dois desviou o olhar.
— Cuidado — Dante disse.
— Com você?
— Com o que você acha que está fazendo.
Helena pegou a bolsa.
— O aviso vale para os dois.
Ela se levantou e foi embora, deixando Dante sozinho. Pela primeira vez naquela noite, ele pareceu menos seguro. Porque Helena não havia ameaçado contar nada a Theo. E isso era muito pior. Ela estava pensando.
Em outro ponto da cidade, Noah entrou no próprio apartamento, trancou a porta e verificou duas vezes as janelas. O telefone continuava silencioso. Isso o assustava mais do que as mensagens. Abriu a gaveta. O baseado continuava ali. Pegou. Ficou alguns segundos segurando-o entre os dedos. Depois ouviu um ruído no corredor. Guardou novamente. O celular vibrou. Uma única mensagem apareceu.
"Você não precisa ter medo de mim, Noah. Precisa ter medo do que eu vou contar."
Ele sentou-se na beirada da cama. Pela primeira vez, percebeu que não estava sendo perseguido por alguém que queria alguma coisa dele. Estava sendo observado por alguém que já tinha conseguido exatamente o que queria: fazê-lo esperar pelo próximo movimento.
E, naquela mesma hora, enquanto São Paulo começava a desacelerar sob as luzes dos prédios, um e-mail chegou à caixa de entrada de Theo.
Assunto: Itinerário — chegada internacional.
Ele abriu sem entender. O remetente era desconhecido. O arquivo continha apenas uma passagem aérea, uma chegada no dia seguinte no aeroporto de Guarulhos e um nome que não significava absolutamente nada para ele: Luna La.
Theo franziu a testa. Abaixo do nome havia uma observação curta:
Contato em São Paulo: Theo Montenegro.
Ele ficou olhando para a tela. Não lembrava de ter autorizado aquilo. Não lembrava de ter convidado ninguém. E, pela primeira vez naquela noite, sentiu que talvez alguém tivesse acabado de mover uma peça no tabuleiro sem pedir sua permissão.
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