Júpiter e Vênus

21 Será que tu não consegue entender nada?


Notas iniciais
Oi! Sorrisão de autora sumida. Então, rolou uns problemaa pessoaia comigo e veio desânimo casadinho com bloqueio. Maaaaaaas. Estou de volta com capítulo fresco!

PEDRO

Assim que chegou a manhã de domingo, repassei mentalmente todos os esquemas que o pessoal havia marcado no WhatsApp: churrasco com meus veteranos na casa do Valdecir, aniversário de uma menina da minha turma, ida a uma cachoeira com o povo da Engenharia Mecânica. Eu poderia escolher qualquer um.

Preferi meus veteranos. Peguei o carro e desci a avenida. O céu estava azul, o sol quente infiltrava-se através do vidro, queimando meu fabuloso braço. Eu odiava o calor, mas na região em que morava, não havia muito a se fazer a respeito do assunto. E nem podia dizer “vou embora para o Sul passar frio” porque tinha a maldita fazenda para cuidar depois da faculdade. Como cuidaria de um lugar que odiava?

Estacionei o veículo próximo a calçada e entrei na casa de Valdecir. A maioria dos eventos da Engenharia Civil era sempre ali. Já tinha muita gente espalhada em várias cadeiras. Uns dois caras mexiam com cervejas e outros três assavam carne. O cheiro subia ao nariz como o melhor manjar do mundo.

— E aí, Pedro.

Parei os passos ao ouvir a voz clara de Caio. Ele estava logo atrás de mim. Vestia uma calça jeans folgada e uma camisa cinza de feira. Chinelo branco para acompanhar. Ah sim, e o boné em cima da cabeça. Eu me perguntava se Caio tirava aquele troço ao menos para banhar. Desconfiava que não.

— Como vai?

Lembrava do iniciozinho das aulas. Caio era pobre, filho de professores. Jamais tinha andado com um cara pobre antes. Primeiro porque nem conhecia gente dessa laia, salvo Gabriel e os empregados de meu pai. No entanto, simpatizei com Caio. Gostei do jeito eternamente tranquilo do jovem e da forma como conseguia balancear bagaceira e estudos. Nem imaginava que isso era possível.

— Bem.

Eu ainda não queria aceitar que Caio também pegava macho, além das mina. Porém, estava sentindo falta dos seus tapinhas no meu ombro ou dele me acordando após uma aula fudidamente chata. Só que não pediria desculpas por me afastar. E muito menos tentaria me aproximar novamente. Okay que orgulho com Gabriel não dava mais, mas com Caio sim. Acho.

Não esperei por mais palavras de sua parte. Deixei-o e fui na direção da rodinha que beliscava os primeiros pedaços de carne assada. Ele não pareceu se importar, coisa que me irritou profundamente. Catei uma lata de cerveja no meio do caminho. Primeiro gole do santo álcool desceu delicioso na garganta.

Puxei uma cadeira vazia e sentei com o pessoal. As brincadeiras sujas rolavam soltas. Entretanto, não prestei atenção exata ao que falavam. Reparei em Caio, na beira da piscina, prestes a agarrar uma garota de cachos negros. Ele pega homem, ele pega mulher. Não consigo entender isso. Alguém cutucou-me na altura do antebraço. Ergui a cabeça. Era um cara do meu lado. Moreno, cabelo ligeiramente comprido, corpo bem... Legal. Bonito. Não, bonito não, já basta o Gabriel.

— Você é o Pedro, né?

Franzi o cenho e olhei direito o indivíduo. Mulher me conhecendo era A, homem me conhecendo era B. Talvez Gabriel estivesse me deixando maluco de pedra, mas vi algo familiar nele. Apesar de que não tinha ideia do quê. Mais um gole de cerveja para clarear as ideias.

— É. — respondi sem simpatia.

— Eu sou o Marcelo.

Marcelo, Marcelo, Marcelo. Esse nome não me era estranho.

— Ah.

Ele me encarou por uns segundos longos. Percebi que seus olhos eram escuros, mas não tanto ao ponto de as pupilas desaparecerem. Ajeitei minha postura. O tal do Marcelo me era realmente familiar, no sério. Algum colega de escola? Companheiro de cachaça? Ele não aparentava pobreza na roupa.

— Estuda o quê? — minha curiosidade me venceu.

— Engenharia de Minas. Terceiro semestre.

Não, eu não era chegado com o povo da Engenharia de Minas. Gabriel de fato estava me deixando maluco. Não deu tempo de conversar mais. Jéssica, a bonita que me jogou nos braços de Gabriel, apareceu. Usava uma bermuda jeans e blusa de alça. Ela sorriu para Marcelo.

— Ei, Pedro. Nem te vi chegando. — disse.

— Cheguei agorinha.

— E já tá se lançando no etanol.

— Qual é, Jéssica. — reclamei. — Nem alcancei a metade dessa lata.

— O Pedro é viciado em cachaça. — ela se virou para Marcelo. — Ele não consegue sobreviver sem.

Marcelo soltou uma risada.

— Eu lembro dele na festa na quarta-feira.

— Era na tua casa? — espremi a sobrancelha. Eu nunca checava o endereço da gandaia. — Não lembro de tu.

— Não, era na casa do cara que estuda comigo. Mas você se embebedou rapidinho.

— E caiu na briga. — Jéssica completou. — Mas como ele tem um guardião chamado Gabriel...

Fiz cara feia. Qualquer merda, menos citar a pessoa do gato borralheiro. Desejei ter uma faca para cortar Jéssica em vários pedaços. Apontei-lhe o dedo maior. Ela piscou o olho, cheia de tranquilidade. Marcelo apertou a ponte do nariz. Impressão minha ou sua expressão se mostrou interessada com o rumo do papo?

— Anjo da guarda? — ele riu.

— Tipo isso. — Jéssica confirmou. — Gabriel salva Pedro de brigas, dá comida, cuida quando tá de ressaca, serve de despertador. Dá banho... Ah não. Acho que não deu banho. Ainda.

Levantei rapidamente, zangado, e saí. Jéssica não possuía o direito de me provocar. Ela me alcançou numa área vazia de gente. Tocou minha bochecha. Arranquei suas mãos.

— Que foi, Pedro? — questionou.

Revirei as órbitas.

— Credo, a gente não pode nem brincar contigo.

— Vai. Se. Fuder. Com... Com qualquer um, tu pega todo mundo, não é?

Ela me fitou, orbes claros subitamente duros.

— Pedro, minha vida pessoal não é da tua conta. Eu pego quem eu quiser. Tenho mais de 18 anos. Sou solteira.

— O que não tira teu título de vadia.

Despejei a frase de uma vez, esquecendo a linha tênue de amizade que me obrigava a permanecer calado sobre o assunto. Jéssica, com o rosto vermelho de raiva, cerrou o punho. Pensei que ela fosse descê-lo na minha cara, pois o suspendeu no ar. Vi os nós que seus dedos formavam.

— ENGRAÇADO, PEDRO, TU VIVE TRANSANDO COM DEUS E O MUNDO E NINGUÉM NUNCA TE CHAMOU DE VADIO.

— Eu sou homem!

Senti o olhar de todo mundo em nós dois.

— TU É UM MERDA DE IDIOTA. — Jéssica gargalhou irônica. — Talvez eu seja vadia. Talvez. Mas vamos trazer tuas qualidades à luz! Machista, racista, filhinho de papai, metido, se acha o dono do mundo e RUIM DE CAMA. Vai TOMAR NO CU.

Um parido de prostituta aplaudiu e outros paridos de prostituta o imitaram. Que vontade de socar cada um.

— Gabriel não te merece. — ela terminou, mas agora num tom baixo.

[...]

Cheguei em casa à noite. Jéssica me tirou do sério e eu troquei de festa, fui para o aniversário da menina de minha turma. Lá, pelo menos, não tinha ninguém que batesse palma para minha humilhação pública. Abri a porta da sala na base do chute, um pouco bêbado. Gabriel não estava por ali. Tudo escuro. Pensei em acender a luz, mas a preguiça não permitiu. Joguei-me no chão e enfiei o rosto entre as canelas. Antes que me desse conta, já havia caído no sono.

Acordei com o cheiro pobre de Gabriel impregnado no meu nariz. Abri os olhos. Eu estava sendo carregado. Pelo gato borralheiro. Girei o pescoço para ver. Já havíamos entrado no meu quarto. Ele me colocou na cama cheio de delicadeza. Sentou ao meu lado. Aí que notou que eu não dormia mais. Nós nos olhamos por vários instantes, calados. Ele sorriu de canto.

— Como sempre, bebeu.

— Adivinhou sozinho ou precisou de ajuda?

Ele suspirou entediado.

— Toma um banho. Ou dorme logo, tu não tem muitas noções de higiene nessas situações mesmo.

Ele começou a levantar-se. Cerrei os dentes. Eu ainda precisava pedir para que ele ficasse depois de tanta merda? Será que ele não conseguia se tocar? Lesadice nível super extra mega power master. Segurei seu pulso com o máximo de força que pude.

— Não vai. — fiz meu melhor tom mandão. — Gato borralheiro. — complementei por motivos óbvios.

— Vai tomar banho. — ele inclinou-se e acariciou minha orelha. — Princesinha metida.

— Tira...

Eu não iria completar essa frase com “minha roupa”. Gabriel andava bem engraçadinho com minha bunda. E por mais que gostasse de suas gracinhas... Não, eu não gostava, eu odiava. Tá, chega de negar, isso cansa, eu gostava sim, eu queria de novo. Mas... Eu não sei caralho! Um mero gato borralheiro me comendo... Imaginei a cena na madrugada passada. Foi sem querer. Fiquei com um medo danado. O demônio me fez chegar a esse ponto? Eu não vou dar, eu não vou dar.

— Tira o quê? — ele perguntou com a sobrancelha arqueada.

Que porra!

— Tira minha roupa. — vontade maior que a razão.

Ele baixou a cabeça, reparei no vermelho da sua bochecha. Demorou um segundo para que subisse para minhas pernas. Começou a desabotoar os botões de minha camisa, um a um. Gabriel parecia não ter o mínimo de prática com isso. Ajudei com o final, um tanto irritado com a lentidão. O pano escorreu por meus braços. Ele hesitou no zíper, íris verdes perdidas.

— Cuida, Gabriel. — disse impaciente.

O zíper arrebentou sob seus dedos. Aquela calça era de marca, para a informação de Gabriel. Suspirei zangado e livrei-me logo da minha roupa com meu jeito. Gabriel analisou meu corpo nu durante um minuto. Então, roçou os lábios nos meus. Cuidei, inconscientemente, juro que inconscientemente, de deixá-lo igualmente nu. Rapidamente, nenhum tecido emperrava a visão.

Puxei-o da cama. Minha intenção era arrastá-lo para o banheiro. Entretanto, parei na porta quando olhei seu peito definido. O instrumento do demônio na minha vida. Instantaneamente, recostei-me à parede e trouxe Gabriel para junto de mim. Beijei-o com certa violência. Ele passou a mão na minha nuca. Deslizei as palmas nas suas costelas. Ele desceu a língua devagar do meu abdômen até meu membro.

Arqueei as costas no instante que ele colocou meu pênis na boca. Cerrei as pálpebras. Seus dentes fizeram contato, eu praguejei. Porém, logo o nível melhorou, apesar de não alcançar nem de perto as meninas com quem eu estava acostumado. Todavia, Gabriel era diferente. Melhor? Mas eu não sou gay hem. Agarrei seus cabelos assim que gozei. Ele se pôs de pé. Eu tornei a beijá-lo.

— Achei que ia... — ele mirou meus olhos, lábios semicolados. — Tomar banho?

— Não acho que eu esteja sujo, na verdade.

Ele riu e empurrou-me para debaixo do chuveiro. Ligou o registro. Foi como se uma avalanche de neve caísse sobre minha pessoa. Meus pelos se eriçaram automaticamente. Soquei o fluxo de água na direção de Gabriel, um tanto irritado. Água gelada, argh. Ele deu de ombros, não se importando. Pegou o sabonete e cuidadoso, o escorreu na minha pele. De repente, eu estava cheio de espuma. Minha boca se moveu para resmungar alguma coisa, no entanto, se calou antes que qualquer palavra saísse.

Eu estava gostando.

Abracei-o. Gabriel me apertou firme em resposta. Engoli em seco. Meu coração batia forte demais. Não havia um único tecido ou distância que impedisse Gabriel de perceber o fato. Esperava com todas as forças da minha alma que ele fosse lesado o suficiente. A espuma fugiu para o ralo. Ele segurou minha mão, testa colada na minha, nossos cabelos molhados se misturando. Nunca, nunca, nunca mesmo imaginei que estaria numa situação assim com o gato borralheiro. Logo o gato borralheiro.

— Tá limpo. — ele me soltou.

Não era pra me soltar não, ô idiota dos idiotas. Retornamos ao quarto, fazendo do chão um aguaceiro. Enxuguei-me, sombreado por seu olhar. Ele fitava minha bunda de uma forma obscena. Eu, eu, Pedro Bozza, que jamais sentia vergonha na vida, pela primeira vez conhecia o sentimento. Catei logo uma bermuda no guarda-roupa e cobri a zona. Lancei a toalha úmida no seu rumo, num acesso raro de bondade. Ele a enrolou na cintura. E filhadaputamente, se mandou.

Vai tomar no cu.

Apanhei meu celular do bolso da calça suja. Verifiquei a hora. Quase meia-noite. Passei as centenas de mensagens do WhatsApp, a maioria de grupos. Não respondi nenhuma. Sentei na cama, encarando o vazio. Acurei os ouvidos, não acredito que tô fazendo isso, para o caso de Gabriel estar assistindo. Nada, silêncio dominante. Pressionei a colcha entre os dedos. Se Gabriel não estava assistindo, ele já ia dormir. Realmente, não tenho mais dignidade. Nem um pingo. Tornei a pegar o celular subitamente. Sem refletir, mandei para Gabriel:

Volta aqui no meu quarto AGORA.

Ele não demorou. Encostou-se ao batente da porta, infelizmente vestido.

— Que foi?

— Fica aqui.

— Por quê?

Gato borralheiro desastre de lerdeza.

— Vai-te embora. — me estressei.

Dizer que o desejava debaixo do lençol é que não ia dizer.

— An?

— Vai-te embora agora, exatamente nesse segundo, desaparece.

— Princesinha, tu precisa de tratamento psiquiátrico.

— Some daqui, gato borralheiro. — arremessei o travesseiro. — Por que não sumiu já?

Gabriel se desviou. Fiz careta e mostrei todos os dedos médios. Ele apenas desenrolou um sorriso enorme. Eu odeio esse cara, de verdade. Parti para expulsá-lo do cômodo com a força. Levantei e o afastei para fora. Quer dizer, tentei. Sempre esquecia que não era páreo para o moreno. Por mais que eu detestasse essa realidade. Ele me deteve, bloqueando o movimento dos meus punhos fechados.

— Quando que a gente marca a consulta? — indagou.

— Idiota. — grunhi. — Te mandei ir embora.

— Me chamou aqui.

— Vai se fuder.

Fuzilei-o com os olhos.

E em seguida agarrei sua boca.

Gabriel rodeou os braços na minha cintura. Andamos o quarto inteiro até cairmos na cama. Mordi seu lábio com intensidade excedente. Ele parou o beijo.

— Doeu. — reclamou.

— Pra parar de ser leso. — declarei.

Virei-me de lado. Ele brincou com minha orelha. Fingi que não vi.

— Tá tarde. Eu tenho que dormir. — falou.

— DORME AQUI, JUMENTO. — esmurrei o ar. — Que porra, será que tu não consegue entender nada?

Gabriel exibiu uma expressão surpresa. Revirei as órbitas muito bem reviradas. Eu tenho mesmo que lidar com essa criatura? Ele puxou-me para perto. Resisti, ponderando se arranjava outro meio de quebrar sua cara, que não usasse necessariamente meu físico. Mas em um milissegundo, já estava com a cabeça apoiada no seu ombro. Derrotado, esvaziei os pulmões com um suspiro.

— Era só falar na hora que perguntei o porquê.

Não consigo.

— Mas tu não consegue. — ele repetiu meu pensamento. — Eu sei.

— Não abusa da minha pequena paciência.

— Tá bom. — Gabriel sorriu. — O que eu posso fazer pra tu dormir?

— Calar a boca é um bom começo.

Ele sorriu novamente e afagou o início de minhas costas. Passei a mão na sua barriga. O corpo de Gabriel era quente. Bom. Encolhi as pernas e acheguei-me ainda mais. O sono veio pouco a pouco. Mas antes que eu dormisse realmente, escutei:

— Eu gosto de ti, sabe.