Júpiter e Vênus
22 Duro como pedra, duro como Pedro
GABRIEL
Não era minha intenção dizer aquilo, mas as palavras escaparam mais do que automaticamente da minha boca. Pedro retirou o braço da minha barriga no mesmo instante e afastou o corpo. Soltei um suspiro longo, já arrependido. Seu jumento. Ele sentou na beira da cama, negando-me um mínimo olhar. Massageei a nuca. Se pudesse voltar voltar no tempo para minutos antes...
— Tu é a porcaria de um pobre.
Seu tom, que poderia ser chamado até de amigável assim que se achegou a mim, agora estava duro. Duro como pedra, duro como Pedro. Um pedaço do meu coração se quebrou. Caso ele houvesse dito “gato borralheiro” não teria doído. “Gato borralheiro” quase não era insulto após tantos anos de convivência. Mas “porcaria de um pobre” deixava bem claro que Pedro continuava Pedro, apesar de tudo. E o que raios eu esperava de um cara tão preconceituoso?
— E tu é homem! — completou agora exasperado.
Fitei o teto, segurando uma risada irônica. Pedro não lembrou que eu era um homem quando me beijou ou quando tirou minha roupa. Muito menos no momento que gozou. Qual era a diferença? Pus meus pés no chão. Regressar ao meu quarto, trancar a porta, dormir e esquecer a besteira que arrumei para meus próprios sentimentos parecia uma ótima coisa a se fazer. Contudo, Pedro antecipou-se e colocou as duas mãos no meu peito. Eu poderia tirá-lo da minha frente em um segundo, porém, o toque de Pedro agia de maneiras misteriosas na minha pele.
— VOCÊ NÃO VAI EMBORA, CARALHO!
Respirei fundo. Bem fundo. O ar chegou à base dos pulmões.
— O que raios tu quer comigo? Me pegar e me pegar até enjoar? Se eu sinto alguma coisa por ti, e eu sinto, admito, não sou obrigado a ouvir isso. Eu sou humano, Pedro. Tu acha que o mundo gira ao teu redor, mas outros também têm sentimentos. E sabe? Teu desprezo dói. Dói porque não fiz nada para merecê-lo. É apenas e somente por causa desse teu preconceito do tamanho do Universo. Então, vou sair sim.
Ele hesitou e baixou os olhos. O cabelo loiro caiu por cima da testa. Pedro não costumava encarar verdades. Não esperei por outras frases do repertório de pedrices. Com um salto, saí.
[...]
Esfreguei os olhos inchados. Não dormi direito na noite anterior. Precisei usar uma carga reserva de energia para prestar atenção na aula. Iara encarou-me, metendo um dúzia de salgadinhos na boca. Ela sabia que eu tinha algo a falar e sua expressão dizia: “meu filho, tô esperando, o intervalo não dura a manhã inteira”.
— O dia tá bonito, né. — tentei fugir.
— Nossa, uma lindeza. — Iara ironizou. — Só tua cara que não. O que aconteceu depois que tu saiu lá de casa, preciso perguntar?
Iara e eu estudamos durante a tarde de domingo. Mal acabamos e ela me fez assistir uma série de filmes pornôs gays. Eu jamais havia visto essas coisas, salvo no dia que atentei Pedro por causa do controle. Quase morri de vergonha a cada cena. Ainda bem que ela me abandonou no momento. Saiu para o mercado.
— Eu acabei falando para o Pedro que gostava dele.
— Ah, Afrodite. Tu é doido, é?
— Foi sem querer. Aí ele surtou.
— Disse algo a ver com “não sou gay!”?
— Mais ou menos.
— Viadim enrustido do caralho.
Ela suspirou.
— Quer um abraço?
— Quero.
Iara rodeou os dois braços finos e pequenos na minha cintura.
— Eu já falei que tem outros bofes bem mais legais por aí. Tipo... — ela olhou ao redor, aparentemente buscando por um exemplar. — Olha aquele. Para tudo, Gabriel. Olha aquele. Dá de 10 a 0 no Pedro. Quem precisa de loiros com um moreno desse?
— An?
A índia segurou meu queixo e me obrigou a mirar o lado esquerdo, onde uma turminha tirava xerox num ritmo desesperado. Algum professor do mal provavelmente passou uma prova de última hora em benefício do mal supremo. Realmente, um moreno de cabelo um pouco comprido acabava de grampear um monte de folhas. Contudo, não enxerguei nenhum detalhe, pois ele estava de costas.
— Iara, não tá na hora de volt...
Ele virou-se e eu captei as feições de seu rosto. Era o mesmo cara que Jéssica mostrou-me no jogo e que encontrei na festa, após salvar Pedro de uma encrenca. Meu estômago revirou-se. Eu o conhecia, agora possuía certeza. Mordi o lábio. Apenas precisava lembrar-me de um nome. Mas que nome? Ele afastou-se do burburinho e pegou o caminho da ala das Engenharias.
— Ele não é gato? — Iara provocou. — Por um desse, vixe, até viraria hétero.
— Conhece ele? — indaguei já que Iara conhecia todo mundo.
— Acho que não. Por quê?
— Eu acho que conheço. Só que não lembro nome.
— Muito fácil de se resolver isso, uai.
— An?
Ela pulou do chão e correu atrás do jovem.
— Iara? O QUÊ? NÃO! — eu a segui. — ESPERA, CARALHO!
Não houve mais tempo. Ela o alcançou. Maldita bichinha magra que tem sebo nas canelas. Reduzi a velocidade dos meus passos, preferindo evitar a vergonha. Observei Iara perguntar. Ele volveu o olhar para mim e abriu um sorriso. Respondeu no ouvido de minha amiga e se foi. Desceu um desejo súbito de cavar um buraco e me enterrar. Iara regressou, balançando os braços, na maior tranquilidade.
— Eu vou te matar, sabe. — resmunguei.
— Então não vai saber que o nome dele é Marcelo e que ele faz Engenharia de Minas.
Parei. Marcelo! Claro, o amigo do Pedro! Ele estava meio diferente, cabelo cresceu, corpo também. Por isso que não o reconheci logo. Meti as mãos nos bolsos. A última vez que o vi foi quando seu pai morreu. Então, ele teve que ir embora. Recordava que ele era o único colega legal de Pedro dos tempos de escola. Iara estalou os dedos da minha frente, franzindo as sobrancelhas.
— E aí, conhece mesmo o bofe fenômeno?
Pisquei.
— Era um amigo do Pedro.
— Ah, se era amigo daquele traste, retiro tudo o que eu disse.
— Não, ele era simpático. Mas tá, acho que a aula já começou. Vamo voltar pra sala?
[...]
A aula acabou meio-dia e meia. Não sabia o que era pior no momento: o sono ou a fome. Iara e eu percorremos o caminho que levava para fora do campus. Ainda na metade, vi Pedro sentado sozinho na lanchonete, de braços cruzados, olhando o nada. Onde estavam o Caio e a Jéssica? Franzi as sobrancelhas. Iara notou a direção do meu olhar e revirou as órbitas.
— Nunca houve e nem haverá alguém tão trouxa quanto tu.
— Ele tá sozinho. — apertei a alça da mochila.
— Caio deve ter cansado da cara dele. E aquela menina divosa, a Jéssica, brigou com ele ontem. Disse umas verdades que adorei.
— Quê? Como assim? Por que não me disse isso?
— Pensei que tinha visto o grupo da turma.
— Não vi.
Ela parou e puxou o celular do bolso da calça jeans. Abriu o aplicativo reprodutor de mídia. Então, deu-me o telefone. Cobri a tela com a mão e aumentei o brilho para conseguir enxergar. O sol não colaborava. Era um vídeo de Pedro e Jéssica, ao que parecia, num churrasco da Engenharia Civil. Jéssica ergueu os punhos no ar, obviamente, zangada.
— ...VIVE TRANSANDO COM DEUS E O MUNDO E NINGUÉM NUNCA TE CHAMOU DE VADIO. — ela falou em bom som.
— Eu sou homem! — Pedro replicou.
— TU É UM MERDA DE IDIOTA. — Jéssica riu. — Talvez eu seja vadia. Talvez. Mas vamos trazer tuas qualidades à luz! Machista, racista, filhinho de papai, metido, se acha o dono do mundo e RUIM DE CAMA. Vai TOMAR NO CU.
Devolvi o aparelho para Iara. Eu não entendia a maior parte das pessoas. Se uma mulher transava com número X de homens, ela era vadia. Agora se um homem transava com o mesmo número X de mulheres, ele era o cara. E Pedro aderia ao pensamento. Preconceituoso total. Concordava com tudo que Jéssica disse, exceto na parte que Pedro era ruim de cama. Apesar de não ter exatamente transado com o garoto...
— O que aconteceu pros dois trocarem farpas assim?
— Não tenho a mínima ideia. — Iara puxou meu braço para continuarmos a andar. — Vem, meu filho, sol tá quente.
Ultrapassamos o portão e sentamos no banquinho da parada. Vazia nessa altura. Considerando a hora, eu sabia com a experiência que algum ônibus passou poucos minutos antes de chegarmos e levou o povo. Outro passaria depois de muitos anos. E poderia nem ser o nosso. Choraminguei em pensamento. Ao menos, um ventinho agradável soprava. Ao menos isso.
— Cara. — Iara balançou as canelas. — Só consigo pensar em arroz, feijão, macarrão...
— Cala a boca, Iara.
— Um pato no tucupi, Gabriel, do jeito que minha mãe faz.
— PORRA, IARA!
Ela ergueu as mãos no ar.
— Tá bom, tá bom. Mas o pato no tucupi de minha mãe é bom mesmo...
— Desisto de ti.
— Tá bom. — Iara estalou um beijo na minha bochecha. — Vamo sair nessa semana? Nunca mais fomos numa festa.
— Tu traduz isso como tu bebendo e eu de olho em ti.
— Cada um com seu ponto de vista. Bora. Vai ter sexta-feira. Química. Por favor, por favor.
— Tá, Iara.
Provavelmente Pedro iria.
— Eu te amo. — ela sorriu.
— Eu não te amo, para tua informação.
— Claro que ama. Ninguém consegue deixar de me amar.
— Anram.
[...]
Casa vazia quando cheguei. Joguei a mochila no sofá e passei para o quarto de Pedro. O cômodo estava bem bagunçado. Olhei em volta, caçando a roupa suja. Encontrei-a largada ao lado do guarda-roupa. Parei um instante, recordando da maneira selvagem que Pedro me deixou completamente nu. Balancei a cabeça. As coisas tavam tão boas e aí tudo se estragou. Apanhei tudo e joguei na máquina.
Fui para a cozinha. Estava cansado de comer miojo e qualquer coisa misturada com farinha. Hora de comer algo de verdade. Pisei uns dentes de alho e cortei cebola. Em poucos minutos, coloquei arroz no fogo. Como não dava tempo de cozinhar feijão, eu provavelmente desmaiaria de fome até lá, preferi fazer um macarrão para acompanhar. E por último, preparei uma salada.
O cheiro estava bom.
Sentei e comecei a comer. Peguei o celular ao mesmo tempo. Mandei notícias para minha mãe por mensagem, chequei o WhatsApp, pesquisei na internet um tópico da prova que faria em uns dias. Afastei o prato assim que terminei. Encostei a testa na beira da mesa. As pálpebras pesaram. Pisquei repetidas vezes. Queria ler uma apostila que pegaria minha tarde inteira. Não dava para dormir. Contudo, a vontade interior me venceu. Como um homem hipnotizado, caminhei para a cama. Tirei a camisa. Agarrei o travesseiro e me entreguei ao sono.
Acordei com certeza muitas horas depois. A casa já estava escura. Busquei o interruptor rapidamente, que graças ao deuses ficava pertinho da cama. Acendi a luz. E para meu susto total, Pedro estava ao meu lado, observando-me. Esfreguei as pálpebras, a fim de checar se não era uma alucinação ou um sonho ainda. Mas era ele de verdade, em carne e osso. O coração de besta decidiu acelerar. Sentei, dobrando os joelhos.
— O que tu quer? — perguntei.
— Nada não.
Respirei fundo. Tudo o que ele disse ainda ecoava nos meus ouvidos.
— Se tá com fome, tem arroz e macarrão no fogão, mas acho que o macarrão tá ruim agora.
— Eu não quero comer, Gabriel. — ele revirou as órbitas. — Porra.
— É só que é estranho tu não querer nada. — argumentei.
Coloquei os pés no chão e levantei. Ele me alcançou rapidamente. Então, fisgou minha boca. Eu não sou a porcaria do pobre? Ele delineou minhas costas suadas e desceu uma mão para meu membro. A excitação cutucou meus pelos, que se eriçaram. Sem que eu me desse conta, o beijo havia se aprofundado. Meu peito subiu e desceu. O que que tô fazendo com minha vida?
— Pedro. — segurei seus braços, usando o máximo do meu instinto de resistência. — Não tá agarrando um homem? Qual a diferença entre me agarrar assim e eu gostar de você?
Pedro enfiou o rosto no meu pescoço. Senti sua respiração tensa na minha nuca. Quase afaguei seu cabelo, porém, me contive.
— E então? — insisti. — Não sou o pobre?
Ele afastou-se com os punhos fechados.
— Vai perder todo mundo que se importa contigo por ser idiota?
O loiro cravou as unhas no batente da porta. Notei uma veia pulsando logo acima de sua sobrancelha direita. Previ que ouviria novamente as palavras que ele disse na noite anterior. Caminhei para a janela e a abri, a fim de ocupar-me com alguma coisa. Precisava desviar o olhar. Se eu cortasse a parte da imagem e ficasse somente com o som, quem sabe, fosse fácil. A resposta veio despejada.
— Tu é o pobre ridículo, o filho da empregada, tu é o homem, eu não sei aceitar isso, eu não posso aceitar isso, eu só sei que eu te quero sem roupa, cacete! Que merda! EU NÃO QUERO ser bicha, não quero ser viado! Não gosta de mim e pronto! Não mandei gostar!
Eu era o viado, a bicha. Descobri em um segundo que não ligava. Pela pela primeira vez na minha existência, vivenciava a liberdade da minha própria alma, após anos prendendo a verdade. Pedro estava fazendo exatamente o mesmo, no entanto, de uma forma bem mais dolorosa consigo e comigo. O perfume denunciava que ele não tinha saído do lugar. Oxigenei os pulmões e volvi os olhos.
— Meu corpo não é algo pra ser usado. — falei. — Droga, Pedro, dá licença daqui.
Necessitava ficar sozinho. Pedro moveu os lábios. Jurei que soltaria uma declaração do tipo: “saio se eu quiser”. Todavia, ele apenas socou a parede e retirou-se. Desabei no chão. Uma lágrima escorreu devagar. Enxuguei-a e puxei o celular. Digitei o número de Iara, estava gravado na memória. Liguei. Ela não custou a atender.
— Oi, Gabes.
— Posso passar a noite na tua casa?
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