Júpiter e Vênus
26 Poderes de stalker
Notas iniciais
GABRIEL
— Tem ideia do quanto estou orgulhosa de você? — Iara deitou a cabeça no meu colo. Estávamos no sofá da sala, “assistindo”. — Cara, era isso. Você precisa de um cara que se aceita, te aceita. De preconceito, já basta o mundo lá fora.
Suspirei e acariciei os cabelos lisos da menina. Falar para Pedro que “acabou, não posso continuar com isso” foi a coisa mais difícil que fiz em séculos. No momento, pensei que minhas pernas vacilariam e eu iria no fim de tudo passar meus braços naquele corpo branco e beijá-lo. Eu nem acreditava no quanto podia ser forte. O problema é que agora meu coração se apertava, pensando na falta daquela boca...
— E quanto ao Marcelo... — ela trocou o canal da televisão para um de clipes pop. — Já falei...
— Que ele é gay. Sério. Ele não é gay.
— ELE É GAY. — Iara sentou e mostrou um par de olhinhos brilhantes. — Eu stalkeei ele no Facebook e tive uma confirmação. Ele esteve em um relacionamento sério com um tal de Eduardo. Se isso não é o suficiente para você se convencer, se mata.
— O quê?
Arregalei os olhos, não surpreso com Iara stalkear o Facebook de Marcelo. Claro que ela faria isso. Mas surpreso com a informação que Iara tanto repetiu, agora confirmada. Nunca vi nada de gay em Marcelo. Não mesmo. Eu não acreditava que minha amiga estava realmente certa. Precisava ver isso na minha frente para crer. Ela, provavelmente lendo meu pensamento, catou o celular e abriu o Facebook.
— Marcelo, Engenharia de Minas, universidade federal do... — ela escreveu na caixa de pesquisa. — Aqui.
E me deu o telefone. Meu olhar primeiramente caiu na sua foto de perfil. Ele estava no Rio de Janeiro (bem óbvio com o Cristo Redentor atrás) ao lado de uma menina negra de cabelos curtos. Deslizei o polegar para baixo. Não havia muitas publicações públicas, contudo, de fato, lá embaixo, conferia que há três anos, ele esteve em um relacionamento sério com um Eduardo Tavares. Meu queixo desabou.
Iara mostrou um sorriso triunfante.
— Estamos aqui para jogar as coisas na cara mesmo.
— Eu... — cocei a nuca. — Eu.... Meu Deus, eu não acredito nisso.
— Sou fabulosa né?
— Vai se lascar. — ri.
Ela lascou um beijo na minha bochecha, toda cheia dos risos.
— Acho que vou fazer pipoca.
— Tá.
Ela saiu, bagunçando meu cabelo. Apanhei o celular novamente e olhei de novo: “relacionamento sério com Eduardo Tavares”. Senti uma vontade comprida de ver a reação de Pedro sabendo que o amiguinho era gay. Mirei o Eduardo. Ele era bastante branco, cabelo cacheado, não exatamente magro, na verdade, um pouco gordo. Balancei a cabeça, ainda descrente. Era estranho demais aquilo.
— Voltei. — Iara retornou com uma bacia de pipoca depois de uns minutos. — Posso não ser prendada como tu, mas sei fazer pipoca.
Ela sentou no seu lugar anterior.
— E ai? — ofereceu a pipoca. Peguei um bocado. — Agora vai fazer sequissu com o jovem?
— Já falei que não quero ninguém.
— Aff, Gabriel. Se mata.
Dei de ombros, rindo. Ela revirou as órbitas em câmara lenta. Comemos, então, ao som de Adele e depois, Drake. Iara imitou os passinhos de Hotline Bling. Bati palmas. Iara dançava bem. Quando a pipoca acabou, chequei a hora. O relógio tinha ultrapassado as três da tarde. Eu deveria ir para casa. Já estava ali desde a noite anterior, para fugir de Pedro. Iara suspirou. Era incrível como ela conhecia o que ia na minha mente.
— Me diz, o que tu vai fazer lá? — Iara perguntou.
— Cuidar da casa, talvez fazer algo para o Pedro comer...
Ela fez uma expressão entediada.
— Tá. Dorme aqui de novo. E qual é o nosso combinado?
— Não deixar o Pedro me usar.
[...]
Arranjei uma chave extra com o síndico. Para a minha sorte, Pedro não estava em casa. Arrumei a bagunça que ele fez na noite anterior, lavei a louça, pus a roupa suja na máquina e coloquei comida no fogo. Tive uma surpresa quando entrei no meu quarto e encontrei minha cama bagunçada. Pedro dormiu aqui? Passei a mão no travesseiro. O perfume dele realmente tomava conta dos lençóis.
Ele dormiu aqui.
Deitei e aspirei seu cheiro, imaginando-o ao meu lado. Não o Pedro cheio de preconceitos, que não suportava a palavra “gay”, que não suportava gente pobre. Mas um Pedro utópico, um Pedro que simplesmente me beijava sem pensar duas vezes, sem por um instante cogitar algo de errado com dois homens se amando.
Pedro, por que você é assim? Por que você machuca a si mesmo e as pessoas que estão ao teu redor?
Um arzinho de queimado me acordou do sonho. O arroz estava queimando. Corri para a cozinha e apaguei o fogo abaixo da panela. Tirei a tampa e me deparei com um resultado nada, nada agradável. Revirei os olhos. Isso nunca acontecia comigo. Suspirei um pouco irritado e peguei alho novamente no armário para tempero de outro arroz.
Meu celular tocou. Era Iara. Atendi e coloquei o aparelho entre a orelha e ombro, enquanto pisava o alho.
— Que foi?
— Sabe essa menina que tá com o Marcelo na foto de perfil?
— Sei.
— Ela é maior gata, né?
— Pensava que era alguma coisa, Iara!
— Desculpa!
Iara sendo Iara.
— Mas é, ela e bonitinha. — falei.
— Bonitinha sua vó. Gata.
— Okay. — sorri. — Gata. Mas você não sabe quem é.
— Querido, hoje estou revestida de meus poderes de stalker.
— Ui. Eu tô fazendo comida, mais tarde a gente se fala.
— Tá. Eu vou stalkear ela.
— Que bom.
Desliguei. Suspirei e cortei uma segunda cebola. Joguei então tudo para rechear de novo. Em um minuto, arroz cozinhando. Puxei uma cadeira da mesa e sentei. Eu já poderia estar indo embora. Agora estava preso ali por mais vinte minutos, no mínimo. Cruzei os braços e comecei uma maratona de encaração das paredes.
Onde que anda Pedro mesmo? Eu esperava profundamente que ele não houvesse bebido e arranjado mais encrenca. Pedro precisava de ajuda com o álcool. Beber é normal, mas beber do jeito que ele bebia, para fugir da vida, não era bom de jeito nenhum. Ele precisava de ajuda no geral, na verdade.
Meu celular outra vez com uma segunda chamada de Iara.
— Gabriel!
— O quê?
— Eu mandei solicitação pra ela. O nome dela é Laura.
— Ela já aceitou?
— Aceitou.
— E?
— Acho que ela é hétero. Merda.
— Então deixa pra lá. Outra coisa pra falar?
— Não.
— Depois a gente se fala
— Tá. — ela riu. — Juro juradinho que não ligo mais.
Cobri o rosto, soltando uma risada. Iara era terrrível. Olhei a hora no telefone. Arroz pronto. Apaguei o fogo e fui para o quarto juntar minhas coisas. Com a mochila nas costas, escrevi um bilhete para Pedro: “tem comida no fogão. Se cuida. Não faz besteira”. Deixei o papel no quarto do jovem.
Saí do apartamento, peguei o elevador, fui para fora do prédio. Mas mal andei cinco metros e um táxi de repente apareceu na calçada. Pedro desceu com a cara emburrada que era sua marca registrada. Meu coração disparou dentro do peito. Parei um segundo para olhá-lo direito. Ele não parecia bêbado, ao menos, não bêbado como sempre. Okay, ele tá bem, agora vai embora, seu trouxa. Acelerei o passo.
[...]
A casa de Iara ficava um pouquinho longe da parada, diferente do prédio em que eu vivia com Pedro. Desci do ônibus e comecei a caminhada de mais ou menos dois quilômetros que dava nas kitnets onde a índia vivia. O sol, ao invés ter esfriado com o seguir da tarde, parecia na verdade mais quente. Antes de finalmente chegar, suei pra caramba.
— Gabriel! — nem precisei tocar a campainha. Iara já abriu a porta de uma vez. — Vamos sair!
— Meu Deus, Iara, eu acabei de andar da parada até aqui. — sentei no batente da porta. — Não quero sair.
— Por favor. — ela sentou ao meu lado com uma expressão suplicante que só ela sabia fazer. — A gente pode ir lá naquela praça que tem perto do shopping da folha 27...
Fitei-a por longos segundos. Iara não me apareceria com uma ideia de sair assim. Ela estava aprontando. Eu conhecia a peça. Só esperava que não tivesse nada a ver com Marcelo. Eu realmente não queria cara nenhum. Ela piscou os olhos fofamente, na expectativa óbvia de que eu concordasse.
— O que tem por detrás disso? — indaguei.
— Que ideia você faz de mim?
— Não é bem a melhor ideia.
— Magoou.
— Iara. — arqueei uma sobrancelha. — Fala.
Ela balançou as pernas magras, expostas pelo short curto.
— Hmmm, uma crush.
— Eu vou segurar vela?
— NÃO! Que absurdo! Por favor, por favor. Eu te amo, coisinha mais fofa e trouxa.
Suspirei.
— Me dá dez minutos para respirar e nós vamos.
— Você é o melhor amigo do mundo. — Iara tascou um beijo molhado na minha bochecha.
— Eu sei.
Após dez minutos e um segundo, Iara me pôs para levantar. E todo o percurso casa da índia-parada foi feito novamente, agora no sentido inverso. Para nossa sorte, o ônibus passou tão logo colocamos o pé no ponto. O problema era que era aquele tipo de ônibus que roda a cidade inteira. Demoramos então meia hora a mais para chegarmos à bendita praça.
— Merda, chegamos tarde. — Iara checou a hora no celular.
— A chush já foi embora?
— O Marcelo saiu do cinema faz tempo...
— IARA?
Ela sorriu inocente.
— Iara, o que você está aprontando de verdade? — indaguei sério.
— Então. — Iara sentou no banquinho mais próximo. — O Marcelo marcou a Laura numa foto, os dois tavam indo assistir um filme no cinema do shopping. — apontou para o shopping no outro lado da rua, poucos metros adiante. — Há duas horas e meia atrás... Aí...
— Então graças a Deus que ninguém vai encontrar, Marcelo, né?
— Não.
Me abaixei diante da menina e segurei suas mãos.
— Iara, sério, eu sei que você não gosta de me ver sofrer por ninguém. Mas eu e o Marcelo... A gente se falou pela última vez há três ou quatro anos atrás. E eu realmente não quero ninguém.
Ninguém além do Pedro.
— Tá? — insisti.
Iara revirou os olhos.
— Tu é um chato, Gabriel.
— Eu sei. Vamos comer alguma coisa por aqui.
Pedimos dois cachorros-quentes no primeiro carrinho que encontramos. Iara se lambuzou toda enquanto comia, que nem uma criança. Mas ela tinha alma de criança, no fim das contas. Ela limpou a boca com o guardanapo, olhando ao redor com uma cara desanimada. Ainda bem. Às vezes, a cara animada de Iara me assustava.
— Já se imaginou casado? — ela perguntou.
— Quê?
— Casado com um bofe maravilha, tudo no amor é love you.
— Não, é... Sei lá. Só tenho 18.
Ela ajeitou o cabelo.
— Eu já. Quero casar com uma mina e depois adotar o máximo de criança que eu puder.
— Como vai sustentar?
— Uai, nós vamos vender arte na praia!
— Besta.
Rimos.
— Iara.
— Quê?
— Como teus pais reagiram quando se assumiu?
Iara deu de ombros.
— Tu já ouviu essa história.
— Mas eu era supostamente hétero.
Ela gargalhou.
— Minha mãe foi de boas. A aldeia onde ela vivia quando era criança não se importava se mulher preferia mulher ou se homem preferia homem. Já meu pai, criado na cidade, quase surtou em primeiro momento. Mas depois de boas. Preocupado com teus pais?
Sim, eu estava. Procurava afastar o pensamento da cabeça, mas ele continuava. Meu pai nunca nunca mesmo iria aceitar. Durante toda a minha vida, escutei ele tecendo milhares de comentários homofóbicos. Minha mãe... Também não estava otimista. Nem um pouco. Não quando a última vez que nos falamos ela disse “moda de ser gay”.
— Eu sei que dói. — Iara jogou o plástico do cachorro-quente no lixo ao lado. — Mas ficar se escondendo é pior.
Assenti.
— Bem tá quente. — mudei de assunto.
— Quase sete da noite e a cidade pegando fogo... — Iara concordou. — MEU DEUS DO CÉU, EU SOU O MÁXIMO.
Não precisei raciocinar um instante para entender o porquê do “MEU DEUS DO CÉU, EU SOU O MÁXIMO”. Marcelo estava vindo com uma menina baixa, de cabelos cacheados curtos e corpo bem feito, a Laura do Facebook, a Laura que Iara gamou. Ambos pareciam distraídos na própria conversa.
— Se aquieta. — pedi.
— Eu ODEIO você.
— Você me ama.
— Vai se catar.
Eles vão passar e vão embora. Mas uma vontade de leve de dizer algo ao jovem me cutucou. Ele era legal, ao menos, na época de sua amizade com o Pedro. Bem, passou muito tempo, eles vão passar e vão embora. No entanto, eles não passaram e foram embora. De repente, Marcelo ergueu os olhos exatamente na nossa direção. Com certeza me viu. Acenei sem graça.
— Iara, eu vou te matar uma hora dessa. — resmunguei.
— Fala com ele!
Mostrei o dedo discretamente para a garota.
— Teu cu.
— Mexo com cu não, quem mexe é tu.
Marcelo disse alguma coisa no ouvido de Laura e eles se aproximaram. Iara cantou baixo “Com quem será, com quem será, com quem será que o Gabes vai casar... Vai depender... Vai depender... Vai depender se o Marcelo vai querer...”. Rolei as órbitas para cima. Os dois nos alcançaram.
— Você é o Gabriel? — Laura falou primeiro.
— LAURA. — Marcelo murmurou. Sua voz estava mais grossa. Claro. — Oi.
— Oi. — repeti. — Lembra... De mim?
— Claro que lembro! — ele exclamou. Percebi seu cabelo preso e barba feita. — Não foram quinze anos, foram só três.
— Você mudou bastante.
— Você não. — ele replicou com um sorriso.
Laura tossiu.
— Minha digníssima pessoa pode ser apresentada antes de vocês se comerem?
— LAURA! — Marcelo virou o rosto com um vermelho ligeiro no rosto bronzeado.
— Ah desculpa.
Marcelo suspirou.
— Iara... É Iara né?
Iara assentiu cheia do riso.
— Iara e Gabriel, essa é a Laura. Ela faz Agronomia, quinto semestre.
— 22 anos, solteira, bissexual. — Laura piscou.
— MEU DEUS DO CÉU. — Iara pulou de uma vez, obviamente louca com a palavra bissexual. — MEU DEUS DO CÉU. Eu jurei que você era hétero quando vi seu Facebook.
Laura fez uma careta indignada.
— Como assim? Eu tenho cara de hétero? Marcelo, eu tenho cara de hétero?
Marcelo franziu o cenho.
— As relações estavam avançadas assim e eu não estava sabendo?
Estamos falando de Iara, moço.
— Okay, voltando ao normal. — Iara montou uma expressão séria super paraguaia. — Podem voltar ao papo.
Marcelo soltou uma risada.
— Okay. Já que a Laura já conhece a Iara...
— Ah, que merda. — Laura interrompeu. — Chega de burocracia. Quer dar uma volta comigo, Iara?
As íris castanhas de Iara brilharam como diamante.
— É. Acho que eles tem papo para colocar em dia.
Laura pegou então o braço de Iara e as duas logo sumiram de vista. Cruzei os braços, repentinamente tímido de ficar sozinho. Volta aqui, coisinha, eu sei que você tá doida para dar uns pegas na Laura, mas não me deixa! Marcelo fitou o rumo em que elas se meteram com um ar de diversão.
— Acho que elas vão se dar bem. — ele comentou.
— Eu também acho.
Ele me encarou.
— Quer sentar?
— Tudo bem.
Sentamos em um banquinho debaixo de um ipê.
— Onde andou esse tempo todo? — Marcelo indagou.
— No mesmo lugar. — respondi. — Você quem foi embora. Só saí de lá esse ano.
— Meu pai... — ele balançou a cabeça. — Você sabe. Morreu. Minha mãe quis ir embora.
— Entendo.
Silêncio.
— O Pedro mora com você, então? — Marcelo apoiou os cotovelos nas coxas.
Pedro. Mordi o lábio, gelo dentro do peito. Pedro. Por que foi falar do Pedro?
— Ele... — respirei fundo. — É, a gente mora junto. Como sabe?
— Conversei com ele hoje.
Conversou?
— Ele tava bem?
— Acho que sim. — Marcelo sorriu. — Por quê?
Para de ser idiota, Gabriel.
— Nada.
— Ele não me reconheceu.
— Eu também quase não reconhecia... Você mudou!
— Em que eu mudei?
Ele me olhou. Hesitei em falar que em relação ao corpo, que ele era magrinho antes, somente um menino, e agora estava homem. Mirei os músculos por baixo da camisa de manga comprida. Puberdade generosa. Ainda havia o cabelo grande, a barba estranha. Ele estava MUITO diferente.
— Muita coisa. — resumi.
— Como assim só muita coisa?
— Muita coisa.
Rimos.
— O Pedro... — ele disse pensativo. — Ainda é o mesmo cara.
Infelizmente. Baixei os olhos.
— O que fez da vida depois que foi embora? — troquei a matéria da conversa.
— Nada demais. Ensino Médio chato... Namorei pela primeira e última vez um cara... Só. — Marcelo enumerou.
Namorou o Eduardo.
— Você é gay.
Marcelo gargalhou.
— É. Eu sou. Se tem uma amiga lésbica, não vai ter problema com isso, né?
Como iria ter o mínimo problema se eu era gay também? Eu não era Pedro.
— Não. Claro que não. Eu... — cocei a nuca. — Eu...
— Finalmente se descobriu?
— Quê?
Ele deu de ombros.
— Se houve uma coisa que eu sempre soube é que você era gay.
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