Júpiter e Vênus

27 Tenho um namorado


Notas iniciais
Obrigada ao carneirinho pela recomendação! ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥

PEDRO

Cruzei os braços, olhando a janela, enquanto a professora de Mecânica Geral fazia milhares de contas estranhas no quadro. Senti a respiração de Caio no meu pescoço. Ele finalmente estava sentado atrás de mim, como antes, após um monte de dias colado em Vicente.

— O bar ainda tá de pé? — ele perguntou baixo.

Não respondi. Precisava confirmar? Eu me humilhei num nível de 100%. Chega né.

— Hem?

Suspirei pesadamente e ergui o polegar para cima. Ele bateu a mão no meu ombro e tornou a atenção para a aula. Volvi um pouco os olhos. Seu caderno estava repleto de cálculos copiados numa caligrafia perfeita. Ele merecia ser engenheiro civil. Estiquei o corpo e regressei o meu olhar para a janela.

Não havia visto Gabriel no dia anterior, muito menos mais cedo. O máximo de sua presença que tive foi um bilhete na minha cama falando de comida e depois, bem cedo da manhã, um recado dizendo que a polícia ainda não sabia do meu carro e do meu celular. Eu estava muito puto com isso.

GABRIEL NÃO TINHA O DIREITO DE SUMIR.

GABRIEL NÃO TINHA O DIREITO DE ME DISPENSAR.

GABRIEL SIMPLESMENTE NÃO TINHA O DIREITO.

Ele era meu gato borralheiro. Ponto. Fim de história.

Eu queria aquele beijo outra vez, aquelas mãos no meu corpo, até aquele dedo podia dar umas voltinhas no meu cu que não ligava mais. Só desejava desesperadamente que ele parasse de frescura. Será que ele não se tocava de que não existia um segundo cara mais fabuloso do que eu?

Preciso de um psiquiatra.

Encostei a cabeça à parede e decidi me entregar a um cochilo. Não estava fazendo nada mesmo.

— Pedro. — Caio chamou. — A aula terminou.

Esfreguei as pálpebras. Sala vazia.

— Tão rápido.

— Duas horas.

— Então... — levantei da cadeira. — Vamos ao bar.

Ele assentiu com um sorriso tranquilo Caio. Saímos do prédio da faculdade. Um vento gelado soprava do lado de fora. Eu apenas esperava que não chovesse. Deve estar bem claro que não gosto de chuva. Pegamos o curto caminho entre a universidade e o bar do seu Zé, quase calados.

Sentamos na mesa próximo à porta. Fitei a calçada e me deparei com o lugar exato onde Gabriel me bateu pela primeira e única vez na vida. Filho da puta... Desviei os olhos, já arrancando uns fiapos de cabelo.

— O que foi? — Caio perguntou.

— NADA.

Chamei o menino do balcão e pedi uma garrafa de Skol. Meti a bebida no meu copo, chateado com tanta merda, não, não, emputecido. Caio também se serviu.

— Você precisa cortar esse cabelo. Pensava que tu era o cara metrossexual daqui.

— Eu sei.

— Sério. — ele sorriu. — Tu tá esquisito, Pedro.

— Amanhã eu corto.

— Amanhã é um bom dia. Tem festa.

— Tem?

— Química. — Caio franziu a testa. — Pensava que sabia.

— Não, não sabia.

— Vai? — ele continuou.

— Muito provavelmente.

Última festa que fiquei de verdade acabei beijando Gabriel. Pronto, agora vou lembrar desse merda o tempo todo. Caio apoiou os cotovelos na beira da mesa.

— Suponho que vai pegar geral lá.

— Não. — respondi automaticamente.

— E por que não? Tem algum motivo que começa com G?

Mordi o lábio, percebendo o que disse.

— CLARO QUE VOU PEGAR GERAL, SEU IDIOTA.

Ele riu.

— Desculpa.

Apontei um dedo na sua direção. Ele deu de ombros. Revirei as órbitas. Mas o pior é que não estava a fim de ficar com nenhuma menina. Simplesmente não estava. Não era como estar com Gabriel. Era totalmente... Sem graça. Não sou viado. Caio me me encarou com a expressão zen de sempre.

— Relaxa, Pedro.

Relaxa não sei como ô miséra, se tu não ajuda, parido de prostituta.

— Engraçadinho. — resmunguei.

[...]

Depois de uma hora, Caio teve que ir. Ele não fez uma segunda menção a Gabriel e não falou nada de “gostar de homens”. O resto de nossa conversa foi como nossos velhos papos idiotas. Pouco depois que ele se foi, fui também. Desci a rua na procura de um táxi. Claro que não iria andar de ônibus.

Olhei o céu. Nessa altura ele tinha ficado vermelho. Eu não acreditava que iria mesmo chover. Resmunguei alguns xingamentos do meu repertório. Precisava ao menos chegar logo em casa. Merda. Mas, de repente, um carro preto buzinou perto de mim. Virei o rosto e me deparei com o rosto de Marcelo na janela.

— Vai aonde?

Ele estava com uma camisa escura de manga comprida, gola V. Aparentemente, sozinho.

— Pra casa.

— Não vai de carro?

— Longa história. — murmurei.

— Entra aqui. — ele abriu a porta do outro lado.

Rodeei e entrei. Era uma boa hora, precisava admitir. Marcelo me fitou.

— Onde é tua casa?

Falei meu endereço. Ele deu a partida e saiu. Chequei rápido o carro, um Audi, um dos melhores da categoria. O cara tinha grana. Era óbvio que eu havia o conhecido anteriormente. Muito óbvio. Marcelo Brandão... Marcelo Brandão. No entanto, de novo, a miséria não me deixou pensar.

— Pode me contar a longa história, sabe. — Marcelo deixou a universidade para trás. — Tua casa é meio longe.

Enterrei o corpo no banco. Só de lembrar da merda que houve na segunda, eu já ficava puto.

— Fui assaltado.

— Foi assaltado? Onde?

— Perto dum bar aí.

— Ah. Você tinha bebido?

— Era...

— E então? E a polícia?

— A POLÍCIA DESSE PAÍS É UMA MERDA.

— Não exagera.

— NÃO é exagero! Já é quinta e isso foi segunda!

— Okay. — Marcelo sorriu. — Mas por que não pega outro carro com o seguro?

Porque vou ter que ligar para a minha mãe e para meu pai. E se eles souberem o que aconteceu, tô fudido até o último fio de cabelo.

— Estou esperando.

— Bem... Não foi uma história tão longa assim.

Não foi uma história tão longa porque eu não iria contar os pormenores, da merda do Gabriel me estressando até a minha noite no relento. Bastava de humilhação na minha vida. Pelo amor de Deus.

— Mora onde? — indaguei aleatório.

— Perto da universidade.

— Sozinho?

— Sozinho. — ele coçou o queixo. — E você mora com o Gabriel.

Soltei um suspiro irritado. O garoto insistia no assunto “Gabriel”. Vai tomar no cu. Ele riu.

— Não gosta de falar dele.

— Eu não gosto dele.

— Por quê?

— Ele é um babaca que se meteu na minha vida pra me atormentar.

Ele riu novamente e não disse mais nada. Então, ligou a rádio. Passou rápido por estações de notícias, esportes, pop, brega, funk, tecno mellody, forró, sertanejo universitário até chegar no sertanejo de raiz. Meus ouvidos automaticamente se aguçaram ao escutar uma velha moda que os caras sempre tocavam na fazenda: “Viajando pra Mato Grosso, Aparecida do Taboado/ Eu conheci uma morena que me deixou amarrado/ Deixei a linda pequena, por Deus, confesso desconsolado...”.

— Mudei meu jeito de ser... — minha boca continuou no modo automático. — Bebendo pra esquecer os 60 dias apaixonado...

— Gosta de sertanejo de raiz?

— Gosto. — dei de ombros. — Melhor do que esse sertanejo de hoje em dia.

Ele assentiu.

— Não é meu gênero preferido, mas às vezes eu ouço. Só não sei o nome dos caras. Essa por exemplo, não tenho a mínima ideia.

— Chitãozinho e Chororó.

— Se alguém me perguntasse, eu iria chutar Leandro e Leonardo.

— Bem longe.

Rimos.

Seu celular subitamente vibrou no bolso. Ele diminuiu a velocidade e pegou o aparelho. Vi de relance o nome de uma tal de Laura na tela.

— Oi. — Marcelo atendeu. — Depois eu falo contigo. Tô na rua. Tá.

Ele jogou o telefone sobre o porta-luvas em seguida.

— Namorada?

— Meu Deus, não. É só uma amiga da Agronomia. Eu não tenho namorada. — deu uma pausa e me encarou. — Tenho um namorado.

— MAS O QUÊ?

Fiz uma careta assustada. Marcelo balançou a cabeça.

— Brincadeira. Não tenho namorado.

Soltei um suspiro aliviado. Se eu o conheci antes, ele não é gay. Eu não andava com gente assim, agora que tô no ralo com Gabriel e Caio, mas antes não andava com gente assim. Ele arregaçou as mangas da camisa até os cotovelos, mostrando a pele bronzeada dos braços. Puxou fundo a respiração.

— Mas eu tinha.

Espera aí.

— TU É GAY DE VERDADE?

— An-ram. — Marcelo confirmou.

Ele é gay mesmo. Por ISSO que não pegou a Jéssica. Não, não, não. Eu nunca conheci esse cara. Nunca vi. Nunca esteve na minha vida. Cruzei os braços e volvi os olhos para a rua deserta do lado de fora. Aparentemente, meu destino é estar rodeado de viado agora. Mereço. Ele sorriu.

— Que foi, Pedro?

— Nada.

— Você estava de boa comigo até agorinha.

Meio que revirei as órbitas.

— Sempre fui gay.

— Não preciso saber disso.

— Nós éramos amigos na escola e eu sempre fui gay. Você estava na oitava série e eu no primeiro ano. Nos conhecemos nas aulas de Educação Física.

Uma imagem instantânea surgiu na minha mente de um menino magricelo com os cabelos pretos espevitados, uniforme da escola. Como assim ele é gay? Como assim? COMO ASSIM, PORRA? Fechei os olhos. E eu pensando que minha vida começou a ficar errada com Gabriel semanas atrás quando andei com um gay aquele tempo todo!

— Merda.

— Que bom que lembrou.

Porcaria de universo que brinca comigo mais do que brinca com cachorro.

— Eu quero ser teu amigo de novo, Pedro. Mas não dava para ficar me escondendo. Ainda mais que todo mundo sabe que sou gay. — Marcelo riu irônico. — Mas que seja. Suponho que nossa relação já esteja cancelada.

Eu já tenho o Caio na conta. Mais um tanto faz.

— Não. — falei a contra gosto. — Já tem viado demais na minha vida. Chegou atrasado.

[...]

Me joguei no chão da sala, roupa completamente molhada. Quando Marcelo estacionou o carro na frente do prédio, a chuva já começava a cair violenta e não escapei da água. Tirei calça e camisa de uma vez, ficando só de cueca. Balancei o cabelo para que o excesso de umidade escorresse. Apertei os fios para ajudar.

Odeio chuva.

Olhei para os outros cômodos com a luz apagada. Não, Gabriel não estava em casa. Claro que não. Arranhei o rosto, zangado. Eu precisava dele. Eu o queria desesperadamente. Por que ele estava fazendo isso comigo? Por quê? Você não tem o direito, Gabriel, seu gato borralheiro. Você fez da minha vida um inferno. Você não podia me dispensar e sumir. Filho da puta.

Fui para o quarto do idiota. Meus pés praticamente se guiaram sozinhos. Meu corpo inteiro não funcionava certo quando o assunto era Gabriel. Deitei na sua cama e me cobri com o lençol. Fechei os olhos e o imaginei chegando como naquele fatídico domingo em que me joguei nos seus braços por causa de uma chuva similar.

O primeiro trovão ressoou nas paredes.

O segundo trovão ressoou nas paredes.

Agarrei o travesseiro e fingi que ele estava ao meu lado. E assim fiquei até que as gotas de água parassem de embaçar a janela e o mundo lá fora silenciasse.

Notas finais
Próximo capítulo: Não percebe as pessoas dando em cima de você? Não tenho uma data certa para quando ele será postado, mas será até o domingo (16/10).