Júpiter e Vênus
33 O maior ativo que o Brasil respeita
Notas iniciais
GABRIEL
Coloquei a cabeça entre as pernas enquanto o ônibus sacolejava ao passar por uma rua cheia de buracos. Eu não sabia o que estava sentindo, eu não sabia o que estava acontecendo, eu não sabia o que fazer. Era como se todo o restante do meu chão houvesse escapado dos meus pés durante as últimas 24 horas.
Marcelo ainda estava nos meus braços quando meu celular tocou distante no bolso da minha calça. Levantei da cama devagar, cuidando para não acordá-lo do sono em que entrou, e vi a chamada. Era de Jéssica. Se Jéssica me ligava, era algo a ver com Pedro, foi o que previ logo antes de atender.
— Gabriel.
— Oi, Jéssica. — falei, me afastando ao máximo de Marcelo. — O que é?
— Onde tu tá?
Meu coração meio que bateu ligeiro, como se a pergunta da garota estivesse cavando as horas que passei com Marcelo. Desviei os olhos do meu corpo nu, um sentimento de vergonha automático do jeito que perdi a cabeça e me entreguei para um sexo cru, carne pela carne. Puxei os cabelos para trás.
— Na casa de um amigo. — respondi após uns segundos.
— Hm... Tá. Eu achei o Pedro no meio da rua, passando mal de tanto beber. Eu chamei o Caio para me ajudar a levar ele em casa...
Comprimi os lábios, preocupação latente nas veias. Pedro!
— Como assim? Ele tá vomitando, tá o quê?
— Tá e... Gabriel tamb...
— Não, eu vou aí agora. — interrompi. — Espera um pouco.
Desliguei. Peguei minhas roupas no chão e me vesti apressado. Assim que terminei com a camisa, olhei para Marcelo. Eu não podia sair dessa maneira. Suspirei e sentei na cama, procurando não permitir que meus olhos caíssem sobre suas partes baixas. Mas eu também não queria chamá-lo ou encarar seus olhos. Puxei o lençol e o cobri.
— Você é um cara legal, Marcelo.
Saí e fui para a parada mais próxima. Dei um suspiro aliviado dois minutos depois, no momento em que meu ônibus chegou. Pulei para dentro. Mandei mensagem para Marcelo após pagar a passagem para o cobrador, enquanto procurava lugar no banco dos fundos: “tive uma emergência. Desculpa”.
Ao chegar no apartamento, precisei bater na porta, já que deixei a chave na casa de Iara. Caio abriu.
— Ei. — disse.
Não demorei a achar Pedro. Ele estava dormindo sem camisa no sofá. Me pus de joelhos ao seu lado e toquei seu pescoço. Ele suava frio, se remexeu instantaneamente com minha mão, mas não acordou. Mexi no seu cabelo amarelo, esquecendo da presença de Jéssica e Caio. Eram aqueles fios que desejava acariciar após ter gozado, nunca os de Marcelo.
— Ele vomitou algumas vezes. — a voz de Jéssica me trouxe para o mundo. — Não comeu hoje.
Retirei a mão de Pedro, enrubescido.
— Mas eu deixei comida pra ele! Ele deve ter ido da faculdade... Direto para o bar.
— Os alcoólicos anônimos seria uma boa para o Pedro. — Caio opinou, andando ao redor. — Ele precisa, no sério.
— O que aconteceu? — questionei.
Os dois trocaram um olhar. Franzi o cenho.
— Bem... — Jéssica começou.
Ela falou primeiro. Falou do modo que encontrou Pedro, ele tomando vodka, ele vomitando, ele teimando em não ir para casa. Levantei as sobrancelhas. Meio que okay. Entretanto, Caio seguiu com a explicação. E eu necessitei sentar no espaço do sofá que o corpo de Pedro deixava para não cair.
Aparentemente, a universidade, ou boa parte dela com foco na Engenharia Civil, sabia do lance de Pedro comigo. De acordo com o Caio, tudo teve início com Nick (Caio era bi e pegava Nick). Ele contou do surto que Pedro teve ao tomar conhecimento do assunto. Coloquei a mão na boca, olhos arregalados, a questão não entrando na minha cabeça.
Nick. Eu achava que Nick era até um cara legal. Como ele pôde fazer algo assim? Pedro estava certo no dia que veio me confrontar com a história de que alguém sabia de nós dois. Como não vi sentido naquilo e ele não insistiu depois, deixei para lá. Eu devia ter ido atrás. Eu devia ter feito alguma coisa.
E então, depois da madrugada que passei em claro olhando para o teto, olhando para Pedro, me esforçando para achar alguma razão, ainda tive que que enfrentar a raiva do garoto agora. Esfreguei os olhos secos, ônibus parando no ponto seguinte. Ele tinha me visto com Marcelo!
Eu simplesmente não soube o que dizer. E no final, perdi o controle e disse demais.
— Você tá bem, menino? — a mulher sentada ao meu lado perguntou.
— Não sei.
[...]
O campus estava bem cheio. Eu sabia que era o horário exato de início da aula de Introdução à Linguística, mas a verdade é que não conseguiria assistir porra nenhuma. Eu precisava tirar toda aquela história a limpo, saber o que estava acontecendo. Impossível com o professor falando de Fonética nos meus ouvidos.
Nick.
Começou com Nick.
Comecei a subir a primeira das várias escadas do prédio de Letras. Nick era do terceiro semestre, oficialmente devia estar no início da aula também, quase todo mundo que estudava no período da manhã naquela universidade devia estar. Cogitei tirar ele da sala e dar uns bons tapas nele. Eu não costumava sentir vontade de bater nas pessoas, eu não era Pedro, mas Nick merecia.
Qual a utilidade de ficar falando da vida alheia por aí? Céus, ele não era gay? Por que ficar falando de dois caras se pegando? Parei e respirei fundo. Não, eu estava com a cabeça quente. Primeiro tinha que entender como ele teve conhecimento do que rolava entre Pedro e eu.
— O senhor está aí! — alcancei o último degrau. Iara saía do banheiro feminino do segundo andar. — O que diabos aconteceu contigo, meu filho? Não responde minhas mensagens, some...
Agarrei a ponta do corrimão. Iara. Ela se aproximou.
— Se ficou fora porque perdeu a virgindade e dormiu com o Marcelo, tudo bem... Eu perdoo.
Eu perdi a virgindade. Eram quatro palavras estranhas na minha cabeça. Eu tinha feito sexo pela primeira vez na vida com alguém e tinha me arrependido amargamente disso. Mas agora, apesar de ser um problema em relação a Marcelo e em relação a mim mesmo, não era meu problema maior.
— Gabriel. — Iara estreitou os olhos castanhos ao chegar perto o suficiente. Provavelmente meu rosto mostrava tudo. — O que aconteceu?
— A aula começou? — perguntei.
— Começou.
— Pode matar ela por mim?
A menina deu de ombros como se eu fizesse uma pergunta estúpida e me arrastou para a luz do sol no lado de fora. Sentamos juntos na grama debaixo de um jambeiro em flor. Ela cruzou os braços, esperando que eu abrisse a boca e falasse. No entanto, Nick de repente apareceu, conversando no celular com alguém a poucos metros. Meu corpo se moveu sozinho: corri até o garoto e o agarrei pela camisa. Iara soltou um grito.
— Olá, Gabriel. — o ruivo sorriu. — Há quanto tempo?
— Como foi que soube de mim e do Pedro?
Ele arqueou as sobrancelhas em inocência.
— Como assim?
— Não. Se. Faça. De. Engraçadinho.
— Ah... — Nick sorriu. — Sabe nem brincar.
Meu sangue fervia. Meus punhos desejavam demais se fechar e esbarrar com força naquele pele macia. Apertei a gola da sua camisa em torno do seu pescoço, o sufocando um pouco para que entendesse a seriedade da minha mensagem. Entretanto, alguém me afastou do jovem. Era Iara.
— Meu Deus do céu. O QUE TÁ ACONTECENDO NESSA PORRA? — ela questionou.
— Seu amigo é gay. — Nick respirou aliviado quando se viu livre.
Iara estagnou. Ela estava claramente surpresa.
— E fica se fazendo de hétero. — ele seguiu. — Só Deus sabe o quanto odeio gay assim. Assim como o loirinho lá, se bem que aquele além de hétero fingido e um puta dum idiota.
— Ele contou para um monte de gente sobre mim e o Pedro. — respondi a pergunta.
Iara continuou estagnada por mais dois segundos. Ela me olhou. Olhou Nick. Me olhou. Olhou Nick. E então, subitamente, era ela no meu lugar, agarrando o pescoço do menino com muito mais intensidade que eu.
— E DAÍ QUE ELE É GAY, TU NÃO É GAY TAMBÉM, SEU INFELIZ DA PORRA? E DAÍ QUE ELE NÃO ASSUMIU, É PROBLEMA TEU POR ACASO? E ONDE FOI QUE TU SOUBE DISSO?
Nick tossiu sem ar.
— Para! Fui eu.
Nós três nos viramos. Era Bianca. Estava ofegante.
— Eu que contei para o Nick.
— Bianc... — Nick começou.
— Cala a boca. — a loira revirou os olhos. — Eu quis desabafar, Nick, eu não quis que começasse essa fofoca ridícula.
— Bianca? — Iara recuou uns passos.
— Eu fiquei ouvindo atrás da porta naquele domingo que tu me dispensou, Gabriel. — Bianca balançou a cabeça. — E aí eu soube que tu era... que tu era gay. Eu fiquei chateada, caramba! Nunca ninguém tinha me dispensado na vida. E aí que contei para o Nick. E...
Não completou a frase. Eu a encarei, as palavras me faltando.
— Desculpa. — Bianca disse por fim.
[...]
Iara me levou para uma praça que ficava próxima ao campus em seguida, resmungando toda hora “não acredito que tive crush na Bianca, não acredito que tive crush na Bianca”. Mas esperou que eu me acalmasse (o tanto possível dadas as circunstâncias) para que eu falasse.
Pulei a parte do Marcelo, todo o amargo que senti na hora que acordei da loucura do sexo, e fui direto para o momento em que Jéssica me ligou falando da bebedeira de Pedro e o que se seguiu depois. Quando terminei, um pouquinho do peso havia ido embora. Ela se afundou no banco em que estávamos sentados.
— Por que as pessoas são assim? — suspirou. — Olha, apesar de estar com uma pequeníssima porcentagem de pena do Podre Bosta... Tu não pode resolver nada aqui. Não dá para calar a boca do povo.
Eu aguentaria e até superaria fácil a questão de as outras pessoas saberem que eu era gay. Mas Pedro não era assim. Ele não aguentaria. Minha piores expectativas é de que nunca mais pisasse na faculdade, ele não trabalharia de engenheiro civil nem aqui nem na China mesmo.
— Iara. — umas crianças de três ou quatro anos acompanhadas de uma babá corriam atrás de uma bola poucos metros à frente. — Eu não consigo evitar. Eu gosto dele. Eu me preocupo com ele.
Não precisei encará-la para saber que segurou um revirado de olhos.
— Quer se fuder mais do que já tá fudido, não é?
— Eu transei com o Marcelo. — ignorei a pergunta.
Ela levantou um pouco os pés, prestes a pular e provavelmente comemorar a confirmação de que deixei a poeira da virgindade para trás e além disso, com Marcelo. Porém, se segurou obviamente à força. Tive a certeza clara de que a Iarinha interior lá do fundo estava gritando a plenos pulmões.
— Tá... — rolou as órbitas. — É possível deduzir com essa milésima declaração para o Podre, essa tua cara, a situação em geral, que não gostou. Mas nunca é tarde para deixar de ser virgem, não é mesmo?
Tive que rir para não chorar.
— Bem, pelo menos eu tentei. — Iara finalizou. — O que vai dizer pra ele?
— Que eu sou um trouxa.
— Vou nem me dar ao trabalho de confirmar. Um corpo daquele, pelo Marcelo eu dava um jeito de virar homem para ser gay e... Só alegria.
— Besta.
Por alguma ironia do destino, meu celular de repente tocou com mensagem dele. Era somente um “bom dia”, que visualizei a 100 mil por hora para que Iara não percebesse. Nada sobre eu desaparecer no meio da noite após ele cavalgar em mim. Iara bateu no meu ombro.
— Tá, Gabriel. Eu sei que foi ele. Tá, eu desisto oficialmente.
Soltei um suspiro.
— É, foi ele.
— Mas pelo menos me conta como foi a transa. Quem foi o passivo, o ativo, pelo amor de Deus, em respeito à nossa amizade eu não surto, mas qual foi a posição?
— Eu ativo. — murmurei.
— OOOOOOH, ELE É REALMENTE O MAIOR ATIVO QUE O BRASIL RESPEITA, NÃO É MESMO?
Eu a olhei. Ela tossiu.
— Desculpa por surtar, foi uma breve falha, continue.
[...]
Contei toda a história para Iara com a condição de que ela fosse assistir a última aula, que era de Filosofia, uma parte de mim agora se sentia culpada por fazê-la perder aula dessa maneira por causa dos meus problemas. Pensei em acompanhá-la, mas assim que me aproximei do portão e vi um pessoal com a camisa da Engenharia Civil e escutei os sussurros não tão discretos de “será que é ele?”, voltei atrás e fui para a parada de ônibus.
Me joguei no banquinho. Uma buzina apitou no mesmo instante. Ergui o olhar. Era o o carro de Marcelo.
— Ouvi dizer que a passagem do ônibus aumentou um real. — ele disse. — Ofereço serviço de carona.
Minha mão gelou. Assim como a mensagem, nada do seu tom ou de sua expressão denunciava algo da noite passada. Marcelo abriu a porta do carona. Respirei fundo, bem fundo, e rodeei o veículo para entrar. Nós precisávamos conversar, por mais que eu adorasse a ideia de fugir.
— Apartamento ou casa da Iara? — perguntou.
Coloquei o cinto de segurança.
— Apartamento. — respondi após uns dois instantes. Chega da casa de Iara. — Sabe onde é?
— Sei.
Não perguntei como. Logo havíamos percorrido mais de um quilômetro. Ele colocou uma música de uma banda que eu não conhecia para tocar. Ficamos em silêncio enquanto os versos dançavam aos ouvidos: We're singing/ Heya, heya, heya, heya/ Heya, heya, heya/ This is the safest way to go/ Nobody gets hurt.
— Então, eu sou um cara legal, Gabriel? — ele finalmente falou.
Ele tava acordado!
— Marcelo...
Ele tava acordado e o que eu digo?
— O Eduardo e eu não terminamos porque ele ganhou uma bolsa para estudar em Oxford. — ele me interrompeu.
Franzi a testa.
— E qual foi o motivo?
Marcelo pisou no acelerador.
— Ele sabia lá da minha paixonite e achava que eu não tinha esquecido, achava que eu gostava de ti no sério.
Não pude mover os lábios. A paixonite que ele tinha por mim nos meus 14 anos, lá na época da fazenda. Afundei o corpo no banco. Nem imaginava que um garotO poderia nutrir sentimentos por mim naquele tempo. Uma garotA já seria estranho o suficiente. Marcelo volveu os olhos escuros.
— Eu nunca concordei com ele. — disse. — Mas aí eu te vi naquela festa de Engenharia de Minas, eu senti algo, comecei a cogitar se ele tinha razão. Me aproximei. Arranjei teu número com a Laura, ela trabalha no CRCA*... Bem, para resumir, te levei para a cama. Só que... Apesar de ter sido ótimo no lado do tesão, não me atingiu no outro lado.
(*Centro de Registro e Controle Acadêmico)
Cruzei os braços, um calor sufocante na minha pele, mas não era a temperatura. Marcelo mentiu. Ele apenas decidiu que era só sexo no último instante. O sentimento de tê-lo usado apertou um pouco mais. O silêncio começou a dominar novamente. A música finalizava: You go back to him/ And then I'll go back to her.
— Tem uma fofoca... Rolando na engenharia sobre você e o Pedro. — Marcelo trocou o assunto. — Eu soube hoje.
— Eu sei.
Ele diminuiu a velocidade de 60 para 40.
— Como começou?
— Complicado.
Ele diminuiu a velocidade de 40 para 30.
— Ele surtou, não foi? — não esperou resposta. — Isso não é bom.
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