Júpiter e Vênus
31 Menino puro paraguaio
Notas iniciais
GABRIEL
Senti os lábios de Marcelo contra os meus. Sua boca era carregada de ventos suaves, não era nem um pouco como a boca de Pedro, a qual sempre vinha cheia de tempestade. Mas o mar inconstante de Pedro estava me afogando e eu precisava de calmaria. Apertei o rabo-de-cavalo de seu cabelo, o puxando contra mim. Porém, logo o soltei.
— Marcelo, olha só onde a gente tá!
Marcelo encostou-se ao corrimão com um sorriso no rosto bronzeado.
— Estamos em um prédio de Letras, não de Engenharia ou Medicina.
— Mas...
— Sai de tarde comigo e eu vou embora agora.
— Tá, tá. — falei. — Tudo bem.
Ele sorriu e desceu. Olhei ao redor assim que sumiu das minhas vistas. Aparentemente, ninguém tinha visto o que aconteceu. Bem, héteros se beijam por aí o tempo todo. Por que a gente tem que se preocupar com isso? Não é justo! Respirei fundo, recuperando o ar que Marcelo me tomou, e me virei para o corredor.
O beijo do estacionamento foi comprido. Talvez o nervosismo com Pedro houvesse enuviado minha mente, mas tudo o que eu quis de repente sentir foi apenas o corpo de Marcelo. Passei o sábado e o domingo com certo remorso por ter agido daquela forma com o garoto, ainda que ele insistisse que não nutria sentimentos por mim.
E agora, no meu intervalo, Marcelo havia aparecido ali.
Eu só não entendia o que ele queria. Eu era bonito, mas ele poderia arranjar um galã de novela.
— Ei. — Iara brotou como um fantasma na minha frente. — Voltei.
A bonita desapareceu no exato segundo que o professor liberou a turma. Claro, para agarrar alguma guria por aí. O fogo dos caras héteros não chegava perto do fogo de Iara. Se ela não tivesse sumido, Marcelo não teria me beijado agora. Filha da mãe. Ela arqueou as sobrancelhas, apertando o botão telepático que a permitia ler meus pensamentos.
— Viu o Marcelo!
— Vi. — revirei os olhos.
— AI, CARALHO!
— Vai se fuder, Iara, olha onde tu me meteu.
— Que foi?
— Ele me chamou para sair de tarde. E eu fui meio que obrigado a aceitar.
Iara abriu os braços com uma cara de “me realizei na vida”.
— Marcelo é dos meus! Ele te beijou?
Grunhi, dando de ombros. Ela soltou um gritinho agudo e deu uns pulinhos feito uma criança que acabou de receber doce, da mesma maneira que fez quando teve conhecimento do beijo de sexta-feira. Na sua cabeça, Marcelo e eu teríamos em breve um namoro longo, e em seguida, um casamento com vários filhos. Eu sinceramente não sabia como ela conseguia imaginar isso.
— Nós precisamos te produzir. — ela baixou o olhar para a minha roupa. — Hmm.
— Iara. Vai. Se. Fuder. Obrigado.
A menina gargalhou.
— Ah, tu viu a Bianca? — ela continuou. — Ela me viu mais cedo e disse que queria falar contigo.
— Hm, ela me disse isso na festa. Depois eu vejo isso.
— Então tá.
Notei que sua expressão não havia mudado por causa de Bianca. Eu estava com esperanças de que finalmente tivesse deixado para lá o crush pela loira. Bianca era hétero, uma pegação bêbada milhares de dias atrás não mudava esse fato. Iara não merecia sofrer. E bem, agora tínhamos Laura. Iara não me contou, mas eu tinha 99% de certeza de que havia pegado a jovem na festa novamente.
— Ei. — uma garota da nossa turma se aproximou. — O professor disse que a gente tá liberado da aula dele porque vai em uma reunião agora...
— Ai que merda... — falei. — Ele nem terminou o assunto ainda.
— Pois é. — ela assentiu. — Enfim. Só vim dar o recado.
E rapidamente saiu. Iara volveu as íris castanhas.
— Nem queria assistir aula mesmo.
— Mas eu queria.
— Tu é um chato. — ela deu um soco no meu ombro, soltando uma risada.
[...]
Iara reclamou, mas passei no apartamento depois da faculdade e fiquei por ali até o horário de almoço. Ele estava bastante bagunçado, visto que não pus meu pé lá no fim de semana. As probabilidades de me deparar Pedro estavam bem maiores e eu preferi evitar isso, considerando nosso encontro na sexta-feira. Dei um limpada geral e também deixei comida pronta.
Fui para a casa da índia por volta de uma hora da tarde. Já estava na porta, prestes a chamar para que Iara abrisse, quando meu celular tocou no bolso. Puxei o aparelho e olhei o remetente da chamada, colocando ao mesmo tempo a mochila no chão. Era o número que me ligou dias antes, o número que julguei ser trote. Preferi não atender.
— Iara!
Ela apareceu.
— Já fez a comida do nojento?
— Eu tenho que cuidar dele.
Entrei e sentei logo no chão frio a fim de descansar da caminhada terrível entre a parada de ônibus e a casa da garota. E as condições do tempo no momento não eram as melhores para sair assim pela rua. A temperatura devia estar entre 35 e 40 graus. Às vezes, aquela cidade era uma amostra do inferno na Terra.
— Você tem ou você quer? — Iara perguntou.
Preferi não responder essa pergunta nem em pensamento, pois eu tinha ciência de que não era só a minha obrigação de cuidar de Pedro que me empurrava para fazer o que eu fazia. Era também a minha própria vontade, eu queria cuidar de Pedro, protegê-lo, deixá-lo nos meus braços para sempre. De qualquer jeito, o som do meu celular tocando novamente me salvou de Iara. Mesmo número.
— Quem é? — a menina se abaixou ao meu lado com uma expressão curiosa. — O Marcelo, já marcando os esquemas?
— Não... Eu nem tenho o número do Marcelo. — falei. — Lembra daquele cara que me ligou duas vezes numa sexta?
— Atende, se ele não quiser falar de novo, bloqueia as chamadas.
Suspirei e deslizei o dedo no verdinho de atender.
— Olha, acho bom você falar porque não ando com muita paciência para trote. — disparei. — Quem é você?
— Que é isso, Gabriel? — levei um susto ao reconhecer dessa vez a voz de Marcelo. — Que violência.
— Marcelo?
Iara, ao meu lado, me obrigou a ativar o alto-falante do telefone.
— É. Eu.
— Você me ligou outras duas vezes?
— Digamos que sim... Eu explico depois. Só queria saber daquele lance. Cê tá no AP? Eu posso te pegar de carro...
Precisei tampar a boca de Iara para que ela não soltasse um berro.
— An, não, eu tô na casa de uma amiga. Eu posso de ir de ônibus, eu gosto de andar de ônibus, não se preocupe. Só fala o lugar.
Iara me tomou o celular e tirou do alto-falante.
— Oi, Marcelo! Aqui é a Iara, a amiga do Gabriel. Ele brigou com o Podre Bosta e ele tá dormindo na minha casa faz uns dias e o endereço é... Sabe a Cidade Nova?
Deu todo o endereço para o Marcelo na minha frente. Tentei, claro, pegar o celular de volta, mas a bichinha devia ter jogado muita queimada na infância. Se desviava de mim como um gato. No fim, fui forçado a sentar no sofá e somente observar enquanto ela exibia aquele sorriso marca Iara de vitoriosa.
— Não.... — ela continuou. — Vamos marcar algo mais tarde... Um filme! Isso. Adorei. Um filme no... Verdes Mares? Ótimo! Pode pegar ele aqui. Isso... Tchau, Marcelo... Olha, se você fosse uma Marcela, eu te pegava. Beijos.
Iara FINALMENTE me devolveu o aparelho.
— Você tem um encontro fofinho com o Marcelo às 4 horas no cinema. Lá no Verdes Mares. E ele vai te pegar aqui de carro. São 1 e 30 agora, então acho bom o senhor almoçar caso não tiver almoçado e se arrumar.
Disse tudo com um animação tão grande que parecia que o encontro era dela. Enfiei ar no pulmão. Sexta-feira Marcelo era apenas o cara de três anos atrás que reapareceu na minha vida. O que estava acontecendo? Iara bateu freneticamente no meu ombro, não me permitindo encontrar a resposta para minha pergunta silenciosa.
— Cuida, Gabriel.
— Eu já almocei. — falei.
— Então vai banhar.
— Meu Deus, isso é daqui duas horas e meia! Sou de Humanas mas sei contar.
[...]
Não deu para discutir. Iara me enxotou para o banheiro. Mas no fim, com sua obsessão para me deixar supostamente gostoso, tomou todo o tempo possível para escolher uma roupa para mim. Fiquei pronto às 3 e 55, vestido numa camisa lilás e uma calça escura, cabelo arrumado de um jeito que preferi não ver, perfume exalando em cada centímetro da minha pele. Cinco minutos depois, a buzina de um Audi soou do lado de fora.
— MEU DEUS! — Iara pulou. — Vai embora. Some. Só aparece aqui se tiver perdido a virgindade.
E me expulsou. Bateu a porta da sala na minha cara. Minha única saída foi olhar para frente, onde estava Marcelo, reclinado na janela do motorista. Seu cabelo estava parcialmente preso. Usava uma camisa cinza de manga curta e óculos escuros. Não pude negar que estava bastante atraente. Ele abriu a porta do carona. Respirei fundo, não sabendo o que esperar daquilo, e entrei.
— Ei. — falou.
— Ei.
Coloquei o cinto de segurança. Marcelo deu a partida no carro. A rua de Iara logo ficou para trás.
— Algum filme em mente? — ele perguntou.
— Não. Sou bastante eclético, o que vier serve.
— Pornô?
— Não tem pornô no cinema, acho. — minhas bochechas arderam num segundo breve. — Né?
— Não, mas você disse que o que vier serve.
— Engraçadinho.
Marcelo sorriu e trocou a marcha ao passarmos pela ponte que ligava o bairro de Iara ao bairro do cinema. Descemos em seguida numa rodovia comprida, um tanto engarrafada para a hora. Então, após um sinal vermelho, finalmente chegamos ao cinema. Ele deixou o carro no estacionamento.
— Então, menino eclético. — disse enquanto subíamos para comprar o ingresso. — Tudo bem um de ação?
— Tá.
Compramos o ingresso para o bendito filme de ação, que já estava prestes a começar. Sem pipoca. Apesar dele ter citado o assunto, eu não quis. Sentamos na última fileira, bem no fundo.
Botei uma perna em cima da outra. Minhas mãos estavam geladas, mas não era do ar-condicionado. Eu estava descobrindo que Marcelo conseguia me deixar nervoso. Talvez o fato de que ele gostava de me beijar em momentos inesperados fosse o motivo.
— Eu gosto desse ator. — ele comentou na primeira cena. — Faz uma série que gosto.
Esfreguei as mãos uma contra a outra a fim de achar algum quenturazinha no atrito.
— Com frio? — perguntou.
— Não.
Ele pegou minha mão direita e a apertou. Percebi seus dedos quentes, firmes e lisos. Não eram calejados como os meus, ainda que jamais alcançassem a maciez de Pedro. Seu indicador deslizou sorrateiro na minha palma. Na minha terra, onde nasci, aquilo era um pedido bem obsceno de sexo. Resignei o braço no meu canto. Não queria pensar em sexo com Marcelo. Eu não queria usá-lo, mesmo sabendo que ele era desejável. E o que você tá fazendo aqui então com ele, Gabriel Silva Mendes?
— Faz uns seis meses que não transo. — seu tom era de brincadeira. — Colabora, Gabriel.
— Faz 18 anos que não transo e não tô reclamando.
Ele parou e me olhou.
— É sério?
— É. — cruzei os braços, desejando me enterrar na cadeira. Era tão constrangedor falar “olá, ainda sou virgem em plenos 18 anos de idade”. — É.
— Escolheu esperar?
— Presta atenção no filme. — revidei. — Me chamou para ver o filme, presta atenção no filme.
— E quem disse que te chamei pra ver o filme?
— Presta. Atenção. No. Filme.
Marcelo sorriu e fixou os olhos na tela. Contudo, ainda assim, de algum modo senti que me observava. Não custou muito para que seu braço roçasse no meu e não demorou um segundo para que em seguida sua mão esquerda caísse no meu joelho. Meu primeiro pensamento foi de afastar as pernas para longe, porém, seus dedos rapidamente escorreram bons centímetros acima na minha coxa. Eu precisei respirar fundo. Não era nada ruim.
— Caramba! — Marcelo exclamou como se não estivesse tocando no lugar que estava tocando em mim. — Viu o que a mulher fez com ele?
— Unrum.
— Fala para eu prestar atenção no filme, mas não tá prestando...
COMO QUE EU VOU PRESTAR ATENÇÃO EM FILME SE TU TÁ COM A MÃO QUASE EM CIMA DO MEU PÊNIS?
Passei a mão no queixo, limpando umas gotinhas súbitas de suor.
— Eu tô prestando atenção no filme.
— Ah que bom. — e retirou a mão. — Porque te chamei para ver o filme né.
— Meu Deus, Marcelo.
Puxei sua nuca e o beijei, extravasando toda a agonia. Ele se deu automaticamente para meus braços, o tanto possível que a separação entre nossas poltronas permitia. Escorri as mãos nas suas costas, das costelas ao ponto mais inferior do quadril, guiado por um instinto quase selvagem de tão intenso. Sem que eu me percebesse, já apertava sua bunda, e porcaria, era bom.
— Tarde demais para mudar de ideia. — Marcelo se afastou, minhas mãos escapando instantaneamente de sua pele morena. — Preste atenção no filme.
Meus dedos dançaram no vácuo do ar frio.
— Ei! — minha boca reclamou no modo automático.
— Quê? O filme, Gabriel, olha lá. O filme.
Todo o meu corpo da cintura para baixo queimou em decepção. Eu já estava excitado. Mas ele apenas fixou os olhos na tela novamente, nem os voltando por um segundo na minha direção. Balancei as pernas, sem grandes noções do que fazer com aquela ereção (que ELE provocou).
Tentei focar o olhar no cara principal do filme, que estava matando alguém, no entanto, minha mente não colaborava. Algumas cenas ligeiramente sujas tomaram lugar principal na minha cabeça. Os personagens falavam e falavam, eu não absorvia nada. Tudo o que escutei em seguida, no máximo, foram os comentários de Marcelo:
— Essa mulher é perfeita demais, se eu fosse hétero...
— Por isso que ela ganhou...
— Que foi, Gabriel?
— Que idiota!
— Morre!
— Não vai morrer?
— Morreu.
— Caramba! Não morreu!
— Agora morreu.
— Que foi, Gabriel?
— Ah, não acredito!
— Não acredito!
— Não gostei.
— Ei, Gabriel, o filme acabou.
— Gabriel?
As luzes se acenderam de repente e eu precisei piscar os olhos para me acostumar com a claridade. Os créditos subiam. Uma fila de pessoas pegava o caminho da saída. Marcelo me fitava com as íris negras, um sorriso no cantinho dos lábios. Remexi minha camisa e coloquei as mãos nos bolsos.
— Acabou. — o garoto bateu no meu ombro. — Como é ficar duro por mais de uma hora? Se controle, Gabriel.
Olhei para seu corpo, para sua boca, para a funcionária do cinema que esperava lá embaixo que saíssemos também. A ereção doía. Era estranho ser levado só pelo lado carnal. Balancei a cabeça e levantei. Precisava do banheiro. Urgente. Ainda com as mãos nos bolsos, desci sem esperá-lo.
Graças aos Céus que o banheiro ficava perto. Seria complicado traçar um caminho longo. Estava vazio. Entrei na primeira cabine. O que tá acontecendo? Eu queria Marcelo, mas também não queria. Eu não queria, mas estava com um pau duro por sua causa. Esfreguei a testa. Eu suava.
— Gabriel. — ouvi a voz de Marcelo.
Ele puxou a porta e entrou, rápido demais para meus reflexos no momento.
— A culpa é sua, sabia?
Sem pensar, o encostei à parede. Fisguei sua boca enquanto minhas mãos já percorriam as laterais de sua camisa e se enfiavam sozinhas por baixo do pano loucas para conhecer sua pele. Toquei seus músculos definidos, seu peito, suas costas, seus ombros. A palavra gostoso poderia se aplicar a Marcelo com facilidade.
— Então é um virgem com um lado interior safado?
— Você me provocou.
Marcelo sorriu e deslizou as mãos até o zíper da minha calça, invertendo nossas posições.
— Você pediu, menino puro paraguaio.
Tirou meu pênis para fora. Nenhuma sombra de recordação que Marcelo jamais havia me tocado assim passou na minha mente. Só foquei no instante em que ele começou a me masturbar. Inicialmente com uma mão num ritmo lento, mas em seguida usou as duas numa velocidade maior. Arfei, minha respiração perdendo o compasso a cada segundo.
Então, se ajoelhou. Minha ereção se perdeu na sua boca. Segurei seu cabelo e gostei do fato dele ter deixado crescer. Sua língua... Comprimi os lábios, prendendo um gemido que no fim escapou de qualquer jeito, apesar do esforço. Minhas pernas quase perderam o chão quando gozei.
— Meu Deus, Marcelo. — meio que dobrei os joelhos, fôlego fugindo. — Meu Deus.
Marcelo pôs uma mão no meu peito, lábios no meu pescoço.
— Eu sei fazer muito mais. Sou bem experiente.
— Que quer dizer com isso?
— Descobre sozinho, se quiser.
Deu um beijinho inocente no canto da minha boca e ajeitou minha roupa. Então, se foi da cabine, me deixando só. Encarei o teto, dentes no beiço. Faltava ar nos meus pulmões. Meu interior ardia com uma sensação desconhecida. Enxuguei todo o suor do rosto com a gola da camisa. Meu Deus, Marcelo.
Saí também. Encontrei o jovem próximo à escada rolante.
— Então. Para onde vamos? — perguntou.
— Pra casa?
— Vamos para minha casa? Gostei da ideia. Moro sozinho.
Eu não falei ir para TUA casa não, viu?
— Pra casa da Iara... Quer dizer, eu vou pra lá, tu vai pra tua casa e fim.
— An. — ele mostrou um sorriso obviamente incrédulo e me puxou para descer. — Tem certeza?
Não. Sim. Sim. Não. Não. Nem um pouco de certeza.
— Vai lá comer... — Marcelo continuou. — Sou um bom cozinheiro, sabia? Sei fazer rosquinha.
— Rosquinha?
— Muito boa. Gosta?
— Gosto...
— Já sabia. — o garoto tossiu. — Então, pela rosquinha.
— Tá, tá.
Logo estávamos na rua novamente, carro a uma boa velocidade. Colei os olhos na janela. O sol ardente de mais cedo havia sido trocado por um grande céu escuro. Segundo a minha experiência na roça, a maneira que as nuvens se moviam indicava que não choveria, era um nublado passageiro. Mas de qualquer modo, a imagem de Pedro piscou nos meus pensamentos num flash. Soltei um suspiro longo.
— Que foi? — Marcelo indagou.
— Nada não. — balancei a cabeça. — Onde é tua casa?
— Perto da universidade.
Marcelo realmente tomou um caminho similar ao que eu tomava para ir à universidade. Porém, não passamos em frente a ela, no fim da estrada pegamos uma rua estreita de pedra que dava em uma rua de asfalto cheia de prédios residenciais. Ele puxou um controle do bolso e abriu o portão de uma casa pintada de rosa sálmon na esquina. Deixou o Audi na garagem. Então, descemos.
— Chegamos. — falou.
Olhei ao redor. Havia uma piscina pequena no centro do quintal, uma casinha de cachorro e uma bola largada debaixo de uma mangueira.
— Uma casa? — perguntei.
— Não gosto de apartamento. — deu de ombros.
— Por quê?
— Porque não, ué. Oxe.
Ele destrancou a porta da sala. Entramos. Era uma sala bastante parecida com a sala do apartamento onde eu morava com Pedro: paredes brancas, sofá, televisão 42 polegadas, os mesmos móveis de decoração. A única diferença eram os porta-retratos próximos à TV. Haviam dois. Nos dois, Marcelo estava com um homem moreno de cabelos lisos bem escuros. A julgar pela semelhança nos traços...
— Seu pai?
— É. Meu pai.
Mordi o beiço. Falar de pessoas mortas com as pessoas que sofreram sua perda é sempre estranho.
— Eu não lembrava dele.
— Normal. Geralmente quem me levava na casa do Pedro era minha mãe. Ele ia lá poucas vezes.
...Pedro...
— Senta. — Marcelo me empurrou para o sofá com uma boa força. — Você já tem quase uns dois metros. Não vai crescer ficando em pé.
— Eu só tenho 18 anos.
— Não importa. — ele soltou uma risada. — Espera aí, tá?
— Tá.
Ele sumiu no que devia ser o quarto. Demorou exatos quatorze minutos de acordo com meu celular. Fiquei encarando o teto durante esse tempo. Retornou então sem a camisa, vestido num short preto de pano mole, um short na verdade curto demais. Difícil não encarar suas coxas, um pouquinho mais claras que o resto do corpo.
— Demorei?
— Um pouco. — admiti.
— Desculpa.
Sentou ao meu lado.
— Cadê a rosquinha? — perguntei.
— Tu é inocente ou tu se faz? — Marcelo gargalhou.
— Uai? Me enrolou!
— Não. Eu falei no sério.
— Uai?
— Rosquinha, Gabriel. — ele subiu para meu colo. — Vem cá.
Pegou minha mão e a levou para dentro do seu short. Engoli em seco. Ele não vestia nenhuma cueca. Com os olhos nos meus, me guiou para... Sua entrada. Minhas bochechas provavelmente adquiriram um tom vermelho escarlate, entendendo todo o conteúdo atrás da conversa da rosquinha. Meus dedos quiseram se mover sozinhos e ir mais fundo, entretanto, Marcelo tirou minha mão e pulou fora.
— Não é assim que funciona, apressadinho.
TU colocou minha mão aí!
— E como é?
Ele sorriu.
— Mas já que tu tá com fome, eu posso ver o que tem na cozinha.
E levantou, se metendo num corredor logo em seguida, sem me dar resposta. Suspirei. Eu não estava com fome. Se estava, era fome de outra coisa. Puxei o cabelo. Minha pele pegava fogo novamente. Era um tesão cru, sem emoção, longe de ser o tesão que Pedro me dava, mas um tesão forte. Não pensei uma segunda vez antes de ir atrás do jovem.
Me enfiei no corredor. Descobri que acabava na cozinha. Marcelo estava com a porta da geladeira aberta.
— Ah. — ele me olhou. — A Laura veio aqui domingo e fez um bolo.
— Por que tá fazendo isso comigo?
— Porque eu gosto.
Eu o encostei na parede. Coloquei cada braço ao lado do seu corpo. Ele mordeu o lábio, o bendito sorriso selo Marcelo de qualidade na boca. Claro que ele gostava. Arranquei o prendedor do seu cabelo e o beijei. Beijei com tanta violência que até eu me assustei, a minha parte racional mínima se perguntando quem era eu no momento. Mas ele não se importou, retribuiu com a mesma intensidade.
— Mas e o bolo da Laura... — Marcelo escapou e abriu a porta da geladeira outra vez. — Sério, tá bom.
Agarrei-o pelas costas. Não foi minha intenção, mas meu pênis colou na sua bunda. Talvez nossos tamanhos equivalentes houvessem ajudado, sei lá. Ele parou um segundo. Um segundo e se esfregou na minha ereção com um rebolado que aparentemente teve por fim somente me acender mais.
— Gosta disso? — questionou com um tom irônico.
— Tenho que responder...?
— Tem.
— Para com isso, por favor, eu gosto.
— Simpatizo com os momentos que me pedem por favor.
Tornou a me beijar. Me puxou então pela camisa de volta à sala. Contudo, ao invés de pararmos no sofá, me arrastou para o quarto. Antes que eu percebesse, estávamos numa cama, ele abaixo de mim com as pernas ao redor da minha cintura. Eu sentia seu membro duro contra meu membro. Sabia que tinha perdido a cabeça, todavia não liguei.
— Eu acho que todo mundo que te conhece... — Marcelo ergueu a barra da minha camisa, sorrindo. — Quer te dar.
Minha camisa foi ao ar. Ele espalmou as mãos no meu peito, me olhando inteiro com uma malícia obviamente óbvia. Se bem que eu devia estar com um olhar bastante similar. Seus dedos escorreram nos pelos do meu abdômen por uma linha vertical que corria para dentro da minha calça. Alcançou finalmente meu zíper e pôs fora minha calça e cueca, trazendo meu membro à luz.
— E você? Fica vestido? — segurei o cós do seu short.
— Só se você deixar.
Arranquei o short. Marcelo riu e dobrou os joelhos, me levando para junto de si, a fundo. De repente, eu estava ciente de todo pedacinho de pele que rodeava sua entrada e da sua própria entrada. Eu queria estar ali dentro. Mas Marcelo segurou meu pulso, de algum modo sabendo o que ia na minha mente.
— Calma aí, garotão. Primeiro...
Esticou o braço para uma mesinha ao lado, que sinceramente eu não havia visto. Pegou um vidro, notei o nome lubrificante, e uma camisinha. Derramou o conteúdo do vidro na palma. Me afastou um pouco e se lubrificou sozinho com os dedos. Jogou em seguida a camisinha nas minhas mãos.
— Coloca.
Arqueei as sobrancelhas e rasguei o pacote. Precisei evocar as lembranças da aula de Biologia do primeiro ano para colocar no meu pênis. Marcelo me ajudou com o final.
— Agora...
Trocou nossas posições, me obrigando a sentar apoiado no travesseiro. Seu próximo movimento me fez perder completamente a respiração. Sentou em cima do meu membro sem pressa. Senti o modo como ele se encaixava, o aperto, o calor. Quando finalmente entrou tudo, passou os braços no meu pescoço, seus olhos nos meus.
— Marce...
Ele me calou com um beijo intenso enquanto movia o quadril para cima e para baixo, indo e voltando. E logo me perdi. Me perdi na sua língua, na sua pele, no seu cabelo, na sensação de suas unhas nas minhas costas. Não contei os minutos, o tempo parou de funcionar, o prazer mostrava sua melhor face.
Marcelo então gemeu alto e gozou, soltando um jato de sêmen na minha barriga. Precisei de mais uns segundos para acompanhá-lo. Saí de dentro dele e caí no colchão, uma exaustão intensa subitamente dona suprema de mim. Meu rosto e pescoço estavam molhados de puro suor.
Ele também deitou, ao meu lado. Colocou a mão no meu peito e encostou a cabeça ao meu ombro. Observei os fios do seu cabelo bagunçado, as marcas de chupada que não me percebi fazendo no seu pescoço. Minha mente se agitou, despertando da anestesia da excitação e compreendendo tudo o que eu tinha feito.
Sexo.
Eu tinha feito sexo com Marcelo.
Sexo puro no meu modo mais animal.
Ele acariciou os pelos do meu braço em meio a um suspiro dorminhoco. Eu não tive coragem de retribuir o gesto. Apenas encarei o forro branco do teto, batidas do meu coração revoltadas. Estava tudo errado. Todo a minha vontade de tê-lo por perto de momentos antes desabou no chão como um copo frágil de cristal.
O nome de Pedro ecoou mais forte do que nunca nos meus pensamentos.
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