Júpiter e Vênus
32 Filhos da puta!
PEDRO
Eu nunca quis tanto que minha memória apagasse todos os mínimos registros da realidade. Meu mundo estava de pernas para o ar já há bons dias, mas aquilo foi a gota d’água de tudo. Jamais pensei que alguém fosse falar algum dia que eu, eu Pedro Bozza, era viado, que Gabriel de alguma maneira fudida estivesse se grosando com o filho da puta do Marcelo. Eu só precisava esquecer.
Então, fui para o bar. Outro bar, não o do assalto, um bar próximo ao meu prédio. Entrei de uma vez e sentei logo no balcão. Pedi uma garrafa de qualquer coisa, preferencialmente uma coisa forte. O menino me apareceu com uma garrafa de vodka. Abri e coloquei tudo no copo. Desci garganta abaixo. Eu não era habituado a tomar vodka, o primeiro gole ardeu, mas não demorou para que minha boca se acostumasse.
Eu devia ter jogado os dois da escada.
Eu devia ter matado os dois.
Por que eu fui embora?
Puxei os cabelos e fixei os olhos no nada. Não desejava dar as caras na faculdade em nenhum outro dia mais. Eu não era viado, EU NÃO ERA VIADO, EU NÃO ERA. Ficar com Gabriel era... A privada que entrei gostando da merda. Mas eu não era gay. Tudo bem que estava percebendo que outros garotos talvez poderiam atraentes, MAS NÃO ERA. Não era gay e pronto. Acabou a história. Caralho.
E todo mundo estava falando isso de mim! De mim! Pelas costas! Puxei o cabelo. Eu precisava quebrar a cara do primeiro idiota que começou. Gabriel... A culpa era dele! Como que iriam saber que eu estava... Enfim, merda. Como que iriam saber? Se não fosse por ele. ELE. A culpa então era dele.
POR QUE CARALHOS EU NÃO DESCI O MURRO NA CARA DE GABRIEL?
EXPLICAÇÕES!
MINHA VIDA SOCIAL OFICIALMENTE PAROU DE FUNCIONAR!
Porque ele estava... Fiz uma careta de nojo. Porque ele estava com Marcelo.
Marcelo.
De pensar, de imaginar que peguei carona com aquela criatura repugnante! Cabelinho samurai horroroso, cara de sonso que come o mingau pela beirada, idiota. IDIOTA. MAIS IDIOTA QUE GABRIEL. PORRA. De pensar que respirei o mesmo ar! TUDO BEM QUE ELE ERA GAY, MAS QUE NÃO TOCASSE NO MEU GAY! MEU GAY.
Meu gay.
Meu gato borralheiro.
Meu pobretão.
O que Gabriel viu nele?
Eu devia ter jogado os dois da escada.
Gabriel além de me abandonar... Filho da puta!
Estava tudo, absolutamente tudo, errado.
Notei de repente que já tinha bebido toda a garrafa de vodka. Pedi uma segunda.
— Não é bom beber tão rápido, tu sabe, né? — o menino falou, me dando a segunda garrafa. — Ainda mais essa vodka. Já tomou uma garrafa!
— Eu tô pagando não tô? — vociferei.
Ele deu de ombros e sumiu para atender os demais clientes. Que dane-se! Individuozinho intrometido. Pelo menos no outro bar não me atormentavam, oras, além das porcarias que aconteciam no momento, ainda teria que aturar essa? Estava pagando, eu tinha dinheiro para comprar aquele bar inteiro caso surgisse a vontade. Idiota.
— Mas que porra. — grunhi.
Servi meu corpo. Esquecer. Esquecer. Esquecer era a minha necessidade. Era além da conta tudo aquilo. Eu nem tinha ideia do que fazer! Pisar o pé na faculdade novamente estava fora de cogitação. Olhar para a fuça de todo mundo, todo mundo tendo conhecimento de que eu curtia ficar com homem... E Gabriel com Marcelo... Gabriel deixando que aquela boca imunda o beijasse. ESQUECER.
A segunda garrafa também secou. O mundo ao redor iniciou um processo giratório irritante. Esfreguei as pálpebras e foquei o olhar nos meus pés no chão. Okay, talvez vodka não fosse a cerveja para ser ingerida com várias garrafas assim. Porém, apesar do ligeiro mal estar, senti que minha cabeça estava subitamente calma como se houvesse acabado de sofrer uma anestesia. Estiquei o braço e chamei o fiscal da vida alheia.
— Uma terceira dessa.
— Tá doido?
— Me dá a porra da garrafa, seu filho da puta. Senão chamo teu chefe.
Ele revirou os olhos e trouxe a terceira.
— Tomara que morra.
Peguei o copo. Todavia, repentinamente, meu estômago se revirou enjoado. Tudo o que vi em seguida foram cacos de vidro misturados com vômito. Encostei a testa ao balcão, minha boca meio que avisando que não seria a única vez. Eu não tinha almoçado, uma lembrança vaga piscou, o café-da-manhã tinha sido um pão-de-queijo que comprei na esquina da universidade.
— Tá. — o fiscal da vida alheia bateu nas minhas costas. — Eu não falei pra tu morrer no sério. Foi só um modo de falar. Vai pra casa, vai.
— Eu vou pra casa na hora que eu quiser. Me dá outro copo.
— Tu tem problemas. Não. Bebe do gargalo se quiser.
— EU TÔ PAGANDO. CHAMO A PORRA DO DONO DESSA POCILGA.
— Ah, foda-se. Não quero que alguém morra de coma alcoólico porque deixei.
Rolei as órbitas e bebi do gargalo. No entanto, não demorou um segundo para que vomitasse de novo.
— Você não vai beber mais nada aqui. — continuou com um suspiro, me encarando igual à minha mãe.
— POIS EU VOU PRA OUTRO BAR.
— ENTÃO VAI. Você tem liberdade de locomoção nesse país.
Puxei uma nota do bolso e joguei no ar. Mas levei a garrafa quase cheia nas mãos. Saí para a calçada. Havia um bar a dois quarteirões. Iria para lá. Contudo descobri rápido que até o céu rodava ao meu redor, céu que parecia estar escuro. Apoiei as costas a um muro verde ou azul, sei lá. Mais vômito.
— Pedro! — o grito de uma voz familiar chegou aos meus ouvidos. — Meu Deus, porra, Pedro!
Virei o corpo para a direção de onde aparentemente o grito havia vindo. O rosto de Jéssica ganhou contornos não exatamente claros, mas era ela. Ela correu, me alcançando e logo apalpando meus cabelos, minhas bochechas, meus braços, minha roupa.
— Onde tu tava, criatura?
— No bar ali.
— Tu tá bêbado e muito!
— EU TÔ BEM.
— Meu cu que tu tá bem, tu tava vomitando agorinha.
Jéssica meteu as mãos nos meus bolsos. Só me toquei de queria a chave do apartamento quando já estava com ela.
— Bora pra casa.
— Jéssica, me dá a porra da minha chave.
— Tu vai morrer, criatura!
— EU NÃO VOU PRA CASA! EU QUERO BEBER!
Ela revirou os olhos e catou um celular da bolsa (ou do bolso da calça, não consegui acompanhar direito). Discou o número de alguém. Sentei no chão enquanto isso, minha barriga se remexia. Se eu não tinha comido certo nas últimas doze horas, o que diabos eu queria vomitar? As tripas?
— Caio! — Jéssica se abaixou na minha frente. — Caio, me ajuda a levar o Pedro pra casa. Eu acabei de achar ele aqui na rua, eu tava vindo da faculdade... É, eu moro no prédio do lado. Ele tá bêbado demais!
Passou a mão na minha nuca.
— Tá suando frio, esse filho da mãe. — ela prosseguiu. — Pedro, o que tu bebeu?
— Vodka, caralho.
— Comeu hoje?
Balancei a cabeça negativamente e vomitei mais uma vez. Jéssica puxou a gola da minha camisa e limpou minha boca. Eu quis mostrar o dedo para ela. Estava bem. Apenas necessitava beber. Agarrei minha garrafa e quase levei um outro gole à boca. Mas a garota agarrou o vidro das minhas mãos com a maior facilidade e o jogou no asfalto.
— Ele bebeu vodka, não comeu hoje... E ainda quer beber mais! A gente tá no bairro, são só umas cinco ruas até o prédio dele. Nossa, obrigada, Caio. Que bom.
Ela desligou.
— Eu te chamei de vadia, Jéssica, vai se fuder e me deixa em paz. — resmunguei.
— Acho melhor calar a boca senão te largo aqui mesmo.
— Tu fica com o professor de Física, me larga.
Jéssica suspirou.
— Não vou discutir contigo agora.
Tentei levantar, todavia Jéssica me segurou firmemente. Eu não estava com meus reflexos bons. Semicerrei as pálpebras, chateado. Sem demora Caio apareceu, descendo de um moto táxi, ou pelo menos, de uma moto. Ele se aproximou de nós dois. Dobrou os joelhos e me olhou.
— Como que tu some daquele jeito, Pedro? — bateu no meu rosto.
— O que aconteceu? — Jéssica perguntou.
— Não sabe? Bem, bora levar ele e depois falo.
Os dois me puseram de pé. Cada um ficou do meu lado, não soube dizer quem estava na esquerda ou na direita, e me arrastaram assim até meu prédio. Fiz algum esforço para escapar na esquina, mas em vão. Bufei, bufei e bufei. EU NÃO QUERIA IR PRA CASA, MAS QUE AMIGOS MAIS FILHOS DA PUTA ERAM AQUELES?
— Pronto. — Caio disse, abrindo a porta do apartamento. — Em casa.
— COMO SE EU QUISESSE ESTAR AQUI, QUAL É O PROBLEMA DE VOCÊS? — praticamente gritei quando eles me botaram no sofá. — Saco.
Jéssica sentou ao meu lado.
— É bom ele tomar uma água, café talvez?
— Água. — Caio confirmou. — Banho...
— O que aconteceu? — ela continuou.
— TODO MUNDO SABE QUE EU FICO COM O GABRIEL. — respondi por Caio. — TODO MUNDO. SERÁ QUE É DIFÍCIL ENTENDER QUE EU NÃO SOU VIADO? QUE SOU HÉTERO?
— Como assim? — Jéssica ergueu os olhos para o jovem. — Como assim? O Gabriel sabe disso? Como escapou? Como assim? Você sabe disso?
— A CULPA É DO GABRIEL. — falei. — E ELE AINDA TAVA BEIJANDO AQUELE FILHO DA PUTA DO MARCELO.
— Não, Pedro, a culpa não é do Gabriel. — Caio revidou. — Mas quem diabos é Marcelo?
— Um menino de Minas.
— UM MENINO DE MINAS FILHO DA PUTA. — me manifestei.
— Meu Deus... Vou pegar água pra ele. — Caio arranhou a garganta. — Acho melhor ele se aquietar para falar qualquer coisa.
— Tá.
Ele saiu para a cozinha. Jéssica puxou minha cabeça para seu colo e começou a acariciar meu cabelo. A sensação de tontura ainda estava comigo. Fechei os olhos. Falar de Gabriel, de Marcelo e das merdas da faculdade me acordou de um jeito não agradável da letargia que o álcool me mergulhou. Filho da puta, filho da puta, filhos da puta!
— O idiota do gato borralheiro tava beijando ele, Jéssica. — as palavras controlaram sozinhas meus lábios. — Ele tava beijando ele. Eu devia ter quebrado a cara dos dois.
Ela brincou com minha orelha.
— O que tu fez para que ele estivesse beijando o Marcelo? Ele não iria beijar assim, acho.
— Ele não tinha o direito!
— Pedro. — Jéssica abriu os botões da minha camisa. — O Gabriel não é tua propriedade pessoal. Ele é livre para beijar quem quiser. Até onde sei, não estavam em um relacionamento.
— EU NÃO SOU GAY! Não vou namorar homem nenhum! Namoro nem mulher.
Caio retornou com um copo cheio em mãos. Jéssica me pôs para sentar. Segurou o copo e me fez engolir a água toda. Horrível. EU QUERIA ÁLCOOL. QUE CARALHO. Então, terminou de tirar minha camisa.
— Banho, Pedro. — ela mexeu no zíper da minha calça. — Uma aguinha.
— NÃO VOU TOMAR BANHO. — botei a mão no zíper, um pouco tardiamente. — EU QUERIA BEBER, AQUELA VODKA FOI CARA.
— Pedro...
Caio tirou as mãos dela de mim e eu nunca gostei tanto de Caio.
— Deixa ele.
Ela assentiu com um suspiro e me pôs para deitar novamente, entretanto, não mais em seu colo. Ajeitou uma almofada debaixo da minha cabeça. Queriam eu dormindo. Eu não iria dormir, que isso ficasse bem claro. Eu iria esperar que dessem o fora para eu descer para meu bar.
Mas minhas pálpebras vacilaram.
— Tá, o que aconteceu? — a pergunta de Jéssica aparentou ter um tom já distante.
[...]
Ouvi o som de passos que pareciam ora ser tão intensos como uma manada de elefantes andando ao meu redor, ora ser tão longínquos que lembravam um mero eco. Me virei para alguma direção que não soube dizer. Minha boca estava carregada do gosto de limão podre, puro azedo. Percebi uma mão calejada no pescoço.
— Eu não consigo entender. — escutei a voz de Gabriel. Me forcei com isso a despertar um pouco mais, mas minha cabeça estava pesada demais. — Como que o Nick soube disso, como isso se espalhou...
— Eu também não consigo entender. — Caio falou. — E desculpa. Eu fiquei muito confuso com isso tudo. Eu tinha que ter te falado antes, droga...
— Teve um dia que ele... Ele falou algo sobre você saber... Mas pensei que fosse um mal-entendido. Meu Deus, como sou burro.
— Já foi, já foi. — Jéssica interveio.
— Tá, mas o que a gente pode fazer? Pode-se nem falar que foi homofobia? — Gabriel perguntou.
— Não. — Caio respondeu. — Não houve nenhuma agressão física, então acho que a universidade não considera. Na verdade, ele quem quis brigar com os caras. Deus, nunca tive tanto nojo da Engenharia.
— Se preocupa com isso amanhã, Gabriel. — Jéssica disse.
— Vou tentar. Bem, vocês podem ir para casa. Eu fico com ele. Obrigado por me chamarem e por me contarem.
— Mas... — Caio e Jéssica começaram.
— Vocês já fizeram muito trazendo ele pra cá. — Gabriel interrompeu. — Sério.
— Tá, mas qualquer coisa fala pra gente. — Jéssica suspirou.
— Falo sim.
Silêncio e uma batida na porta. A mão calejada deu lugar a dois braços, que me seguraram e me ergueram no ar. Me remexi, percebendo o calor de um peito. Logo a superfície do sofá foi trocada por uma outra superfície tão macia quanto. Um lençol cobriu meu corpo.
— Gabriel? — balbuciei, tropeçando em cada sílaba.
Ele passou os dedos no meu cabelo.
— Oi, princesinha. Dorme.
Tentei mover as pernas e abrir os olhos de vez, um pensamento distante gritando lá no fundo que eu precisava dar uns tapas em Gabriel, entretanto, uma força maior atuou sobre mim. Me afundei no que devia ser o travesseiro. Só senti que seus dedos continuavam nos meus fios. Não custei a apagar novamente.
[...]
Esfreguei o pulso na testa, esticando as pernas, e apalpei o que estava debaixo de mim. Minha cama. Desci as mãos para meu corpo. Sem camisa, calça okay. Abri então as pálpebras lentamente e girei o pescoço para o lado. A luz do sol entrava através da janela sem cortinas. E Gabriel estava na beirinha do colchão, braços cruzados, olhar no teto. Meu coração se remexeu no modo automático. Ele virou o rosto para mim.
— Acordou?
Levantei os dedos no ar para tocá-lo. Como eu queria fazer isso. No entanto, de súbito, antes que eu o fizesse, senti as marteladas intensas na cabeça e lembrei de tudo o que havia acontecido no dia anterior: ele com a coisa repugnante e execrável do Marcelo, o povo da faculdade falando de mim por culpa DELE com certeza, o bar e algo sobre Jéssica e Caio. O sangue ferveu nas veias.
— FILHO DA PUTA! — gritei alto demais para a dor consequente da ressaca.
Ele se pôs de pé, se afastando.
— Pedro, eu não sei como aquilo começou, eu juro que não sei.
— CLARO QUE VOCÊ SABE QUE NÃO COMEÇOU COMIGO!
Me pus de pé também. O chão não ficou certo sob meus pés, alguma tontura ainda me atormentava, mas Gabriel se adiantou e me segurou pelos ombros. Minha pele formigou na região. Parei um segundo, feito um bobo, aproveitando a maldita sensação que ele me dava. Porém, o ódio me tirou da inércia logo. Empurrei-o para a parede, ele se deixou levar sem resistência, o que me irritou.
— FILHO DA PUTA!
— Pedro, eu juro que vou resolv...
— EU NÃO POSSO NEM PISAR NAQUELA UNIVERSIDADE MAIS. NÃO ADIANTA. — joguei. — E TU TAVA COM AQUELE SONSO DO MARCELO!
Gabriel franziu o cenho.
— A Jéssica e o Caio não me disseram isso... — falou baixo. — Como assim?
— ASSIM QUE VOCÊS DOIS TAVAM SE AGARRANDO NAQUELA DROGA DE ESCADA. PODIAM TER CAÍDO E MORRIDO.
Soquei seu peito uma, duas, três, quatro, cinco, seis, cem vezes, soltando a raiva nos meus punhos. Idiota. Idiota. Filho da puta. Gato borralheiro de merda. Ele não tinha o direito. Ele era meu. Quem mandou sujar a boca na boca de Marcelo? O garoto me fez sentar na cama à força.
— Pedro, eu nunca te namorei.
— NÃO IMPORTA! DESDE QUANDO TÁ COM AQUELA CRIATURA NOJENTA?
— PEDRO! — Gabriel aumentou o tom. — Eu nunca te namorei, tá? Eu posso beijar qualquer um. Eu falei pra você ir pegar as meninas que sempre pegou, não foi?
— O QUE TU FEZ COM ELE?
Ele colocou a mão na boca, me encarando, instantaneamente em silêncio.
— Não importa, Pedro.
— TU TRANSOU COM ELE?
— Eu vou embora. — Gabriel deu cinco passos atrás. — Vou pra faculdade. Deixei um remédio na cozinha...
Saiu para a sala. Pulei e o segui. Não o permitiria ir embora. ELE TINHA TRANSADO COM AQUELE MERDA? ENTÃO AINDA TINHA TRANSADO? QUE PORRA DE INFÂMIA ERA AQUELA? Ele estava com a mão no trinco da porta da sala.
— Seu filho da puta! — disparei. — Volta aqui, covarde!
Ele pôs as duas mãos no rosto.
— Quer saber, Pedro? Eu transei com ele, tá? Transei. E foi bom até eu me lembrar que não era tu.
Uma faca entrou violenta no meu peito com a confirmação. EU NÃO QUERIA A CONFIRMAÇÃO, EU QUERIA QUE ELE DISSESSE QUE NÃO, CARALHO, AINDA QUE FOSSE VERDADE! Minha mente viajou, imaginando o gato borralheiro, meu gato borralheiro, MEU, pelado com a porcaria do Marcelo. Marcelo! Além da boca, ele sujou o pau. Agarrei o sofá, zonzo. As palavras se perderam dos meus lábios.
Gabriel desviou os olhos verdes.
— Eu queria que fosse tu.
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