Júpiter e Vênus
23 Eu preciso de você
Notas iniciais
PEDRO
Minha mente se dividia em dois sentimentos. O primeiro e mais desesperador era o meu maldito desejo por Gabriel. Ele me empurrava para voltar naquele quarto e fazer alguma merda pela qual me arrependeria... Porém, o segundo sentimento me segurava, eu não era gay, Gabriel não devia gostar de mim, pegar ok, mas, gostar implicava no termo“viado”.
Eu não sou viado, merda. Chutei a cama, arranhei o rosto, arranquei os cabelos. Inferno, inferno, fudido inferno. As lágrimas subitamente brotaram dos meus olhos. Por que, no sério, ele abriu a porra da boca ao invés de ficar calado e me deixar simplesmente beijá-lo da maneira que queria?
Então, de repente, ouvi um som discreto de passos na sala. Sem pensar o mínimo, corri para o cômodo da frente. Para meu ódio profundo e decepção cortante, Gabriel havia acabado de sair. Girei a maçaneta com raiva e disparei para o elevador. Ele estava acabando de entrar com a mochila na mão.
— GABRIEL!
Ele até me olhou, todavia, as portas se fecharam tão logo me aproximei. Caí e esmurrei o chão com toda a minha força. Alguém que passasse poderia me dar como louco, mas bem, eu estava louco mesmo. O demônio tinha feito um trabalho perfeito na minha vida. Enfiei a cabeça entre os joelhos, encarando o nada por um tempo indeterminado.
Idiota.
Idiota, Gabriel, você é um idiota. Mandei tu ir embora por acaso?
Eu preciso de você.
Mentira, preciso não.
Não, preciso sim.
O caralho que preciso. Preciso é de cachaça.
Apalpei o bolso e encontrei três notas de 100R$. Desci para o estacionamento e apanhei meu carro. Em um segundo, botei o motor para funcionar e voei na direção do bar que conhecia melhor do que a palma da minha mão. A cada curva, a cada metro que percorria, as palavras de Gabriel pareciam ecoar.
Qual é a diferença entre me agarrar assim e eu gostar de você?
— Toda, Gabriel. Você é pobre, você é homem, eu não sou viado. — resmunguei sozinho e finalmente estacionei perto do bar.
Estava um pouco vazio, afinal, dia de semana. Desabei em uma mesa e gritei por uma garrafa de qualquer porcaria. Eu odeio você, Gabriel. Enxuguei a cara enquanto um magricelo trazia uma Skol e um copo. Me servi rápido e engoli a bebida de uma vez, vezes seguidas. Pedi uma segunda garrafa, uma terceira e uma quarta. Mas a calma que tanto almejava não veio.
— Então, você aqui de novo?
Ergui o olhar. Era um homem negro, alto, ligeiramente forte, com uma tatuagem de uma árvore no antebraço esquerdo. Eu o conhecia, suas feições e sua voz não me eram estranhas. Entretanto, meu raciocínio não colaborava para lembrar exatamente quem era. Ele sentou na outra cadeira que restava na mesa.
— Quem raios é você? — murmurei.
Ele somente riu.
— Devo imaginar que tá bebendo porque... Como disse mesmo? Ah, não é essa “nojeza de viado”.
— E não sou MESMO. — pressionei o copo com raiva, o pensamento evocando o gato borralheiro. — Eu só quero ele demais, mas viado é coisa que não sou.
O homem cruzou os braços, sorriso nos lábios.
— Se quer ele... Hm. Pela lógica, você é viado.
Me indignei e soquei o vento.
— EU NÃO SOU VIADO. VIADO É QUANDO A GENTE...
— É homem e gosta de estar com outro homem. Deseja outro homem. — ele completou.
— NÃO!
— Então me diga o que é ser viado.
— Se apaixonar por outro homem. Se só pegar, não é viado.
— Okay. — ele assentiu. — Digamos que você esteja certo. Digamos. Mas você me parece já bem apaixonado por esse cara. Para beber assim... Então... Concluímos que você é viado.
Saltei da cadeira totalmente revoltado com uma afirmação infame dessa.
— NÃO! NÃO ESTOU APAIXONADO POR NINGUÉM.
Ele gargalhou irônico.
— Vai enganando a si mesmo.
— Vai tomar no cu.
Ele mostrou uma expressão de quem estava se divertindo.
— Okay. Tudo bem, Bozza.
Tornei a enfiar a bunda na cadeira, irritado. Espera. Ele sabe meu nome. Eu realmente o conheço. Esfreguei as pálpebras e tentei ao máximo focar a criatura. No entanto, apesar do esforço, a única coisa que consegui foi uma memória bastante vaga da universidade. Joguei um centésimo gole de Skol na goela.
— Quem é você? — insisti.
Ele deu de ombros.
— Menos bêbado do que da outra vez.
Outra vez?
— Que outra vez? — franzi o cenho.
— Você é um exímio frequentador desse bar. — ele sorriu. — Bem, preciso ir. Provas para corrigir. Até a próxima.
Quê? Mas ele levantou e desapareceu rapidamente. Suspirei zangadíssimo pela falta de resposta. Meu nome era Pedro Bozza e quando eu perguntava algo, exigia que me respondessem. Foda-se, é só um preto entre tantos pretos. Esvaziei a garrafa de cerveja da vez e requisitei mais outra. Esvaziei-a também.
E então, minha mente retornou à Gabriel com uma velocidade inigualável. Ele vai voltar para casa. Ele nunca passou uma noite fora. Ele não passaria a de hoje. E se ele estiver em casa agora? Pulei de repente, pernas tomadas de uma independência repentina, e larguei no ar o dinheiro da conta. Despachei-me para a calçada.
Só que na metade do caminho entre meu fabuloso SUV e eu, alguém chamou:
— Ei, playboy!
Virei. Era um ser esquisito, vestido numa camisa do Flamengo e short largo, aparelho colorido nos dentes. Pobre num nível que não merece ser nomeado. Eca. Fiz minha melhor careta de repugnância e acelerei para o meu carro, tão lindo, apenas esperando por mim. Contudo, ou eu estava bêbado demais ou o cara era rápido demais. Em um segundo, ele já havia me alcançado.
— O esquema é o seguinte... Passa o carro e o celular.
Soquei seu queixo nojento no impulso. Ninguém tocava no meu precioso Iphone, último lançamento da Apple, muito menos meu SUV, finura de primeira categoria. Mas o troco veio logo. Uma joelhada do inferno me atingiu em cheio na barriga. Desabei no chão facilmente. E antes que eu pudesse me organizar, todo o volume que levava nos bolsos escapou feito areia. O som de pneus cantou no asfalto.
— InfeeeerNOOOOOOO. — me pus de pé e segui na carreira o rastro de poeira até o pulmão não aguentar. — Inferno, inferno, inferno, inferno, inferno, porra, caralho, tomar no cu, miséria, desgraça, merda, porcaria, inferno!
Esmurrei o poste de luz aceso, raiva ardendo em cada ponto do meu corpo. Que merda, que caralho, que filho fudídissimo da puta. De que jeito iria para casa? Ela estava nesse momento a bons quilômetros de distância. Andar de ônibus é que não iria. E não tinha mesmo dinheiro para pagar a passagem, ainda que me cedesse a essa humilhação. Meu Iphone, PORRA! O que faria?
— CARALHO! Aquele carro é cem mil reais.
Minha mãe nem podia sonhar com isso. Meu pai me chamaria de incompetente como sempre... Arranquei dezenas de fios de cabelo.
— Você está bem, garoto? — escutei uma voz masculina.
— Não. — grunhi. — ME DEIXA EM PAZ.
— A gente quer ajudar...
Ajudar? Ergui a cabeça. Mas não encontrei ninguém, somente o eco de passos distantes. Puta que pariu. Cobri o rosto com a camisa, água escapando das pálpebras em modo automático. Precisava da ajuda de alguém agora para ir para casa. Precisava de um celular. Que rebaixamento horrível.
Ajuda.
Cacete, eu não sou pobre pra ficar pedindo ajuda pras pessoas.
Droga.
Fui para a esquina próxima. Uma mulher vinha, sacolas na mão.
— Ei, pode me...
Ela me fitou com uma expressão assustada e fugiu depressa, me ignorando.
— CARALHO, EU NÃO POSSO SER IGNORADO NÃO, SABIA? EU SOU RICO.
E sozinho novamente. Passei os braços na nuca. Isso não vai dar certo, eu preciso do Gabriel. Do meu gato borralheiro. Sentei no meio-fio completamente perdido, Dormir na rua? Andar quilômetros até em casa, com risco de levarem minhas roupas de marca agora? Olha meu sobrenome!
— Merda.
Arranhei a testa. Então, graças aos Céus, um casal apareceu, mãos dadas.
— EI. — gritei.
O homem parou, colocando a namorada, mulher, amante ou sei lá atrás de si.
— Fala, jovem.
— Vocês... — que humilhação. — Têm um celular?
Silêncio.
— Preciso fazer uma ligação. — insisti.
— O que aconteceu com você? — ele indagou.
Me dá a porra do telefone, caralho.
— Me assaltaram. Levaram meu carro e meu celular.
— E você bebeu também. — acrescentou. — Tudo bem.
Ele tirou um telefone do bolso e me deu. Era um modelo tijolão, nem Gabriel tinha um daquele mais. Passando do Iphone ao tijolo, nossa. Suspirei e digitei o número do gato borralheiro. Apertei em chamar. Mas ninguém atendeu. Apertei de novo e de novo. Nenhuma resposta. Quem Gabriel achava que era?
— Não tem outro número? — o homem sugeriu.
Engoli a irritação e digitei o número de Jéssica. Mesma coisa. Ninguém atendeu. Revirei as órbitas.
— Situação tá difícil pra você hem.
— Espera. — resmunguei.
Ainda havia Caio. Meu orgulho estava na privada, apelando para Caio. Digitei o número do garoto.
— Boa noite, quem fala? — ele falou do outro lado da linha.
Meu coração disparou. Ele atendeu!
— Pedro.
— Que foi, Pedro? — ouvi um suspiro. — É quase uma da manhã, tá me ligando, suponho que tá encrencado.
— Me assaltaram, caralho! — exclamei exasperado. — Eu tô no meio da rua, ninguém me atende, nem o Gabriel, nem a Jéssica, eu preciso de alguém.
— E o que quer que eu faça?
— VEM ME PEGAR AQUI!
Caio soltou uma risada.
— Tem uma palavrinha mágica, bastante usada pelas pessoas.
Parido de prostituta.
— Por favor.
— Onde tu tá?
Olhei ao redor. Não estava longe do bar, talvez uns cem, cento e cinquenta metros, no máximo. Limpei o beiço suado.
— Perto do bar que sempre venho. Mesma rua.
— Espera um pouco que chego.
Ele desligou. Devolvi o celular para o desconhecido. Ele me desejou sorte e foi embora, rapidamente se transformando em apenas um ponto na noite escura. Encostei a cabeça aos joelhos, encarando a água suja que deslizava no esgoto a céu aberto. O tempo se rastejou. Estava na verdade querendo dormir quando uma buzina tocou. Ajeitei minha postura. Enfim, Caio, dentro de um táxi. Ele abriu a porta.
— Oi, Pedro.
Me joguei no banco com um alívio. O táxi partiu.
— Oi. — falei aliviado.
— O que aconteceu mesmo? — Caio perguntou.
— Fui assaltado!
— Isso eu entendi, quero saber como. Bebeu, se distraiu e...
— Levaram meu carro, meu dinheiro e meu IPHONE!
— Então, você tem que ligar para a polícia.
— Quero dormir, caralho. — grudei o nariz na janela. — Depois.
Pela manhã, Gabriel fazia isso, oras.
— Acho que quanto mais rápido ligar, mais fácil achar de volta. — Caio levantou a sobrancelha. — Mas tá.
O caminho seguiu em silêncio. Logo chegamos no meu prédio. Desci para a calçada apressado, já imaginando minha cama e a libertação do inferno. Claramente o pior dia da minha vida. Caio falou um novo endereço para o taxista e rapidamente desapareceu. Subi então. Entrei no elevador cansado, suado e sonolento.
Assim que cheguei ao meu andar, disparei para a minha porta. Cama. Apalpei os bolsos em busca da chave. Mas, para meu terror, descobri que o filho da prostituta mais fudida tinha levado além do carro, do celular e do dinheiro, a chave também. Puta que pariu, o que universo tem contra mim hoje? Girei o maçaneta, tentando abrir aquela merda de qualquer maneira. Resultado zero.
— GABRIEL! — chamei. — Abre aqui!
Nenhuma resposta.
— GABRIEL, EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ AÍ!
— GATO BORRALHEIRO!
Novamente, nenhuma resposta.
— GABRIEL, SEU IDIOTA, POBRETÃO, FILHO DA PUTA.
Nada.
— GABRIEL, CARALHO, DEIXA DE SACANAGEM!
— GABRIEL, ABRE!
Esmurrei o batente, desesperado. Por que Gabriel não vinha?
— GABRIEL, POR FAVOR, ABRE ESSA PORTA.
— GATO BORRALHEIRO...
Colei a testa à parede. Tão perto, tão longe.
— GABRIEL, POR FAVOR, ABRE ESSA PORTA.
— Por favor, Gabriel. Eu tô sem chav... — desabei no chão, entendendo. Ele não estava em casa. Ele não me negaria entrada. Mas ele jamais havia estado uma noite fora. Gabriel, preciso de você. Agarrei os joelhos, lágrimas escorrendo.
Fale com o autor