Izvor - Interativa
9 Capítulo 9
Notas iniciais
– Ann, viu meu cinto por aqui?
A garota olhou para Luna enquanto abotoava a parte de trás do vestido.
– Acredito que o tenha visto pendurado no banheiro.
– Ah, é mesmo! Valeu – correu até o cômodo e coletou o acessório, voltando em seguida para perto da cama. – Quer ajuda? – perguntou após verificar a dificuldade, e grande paciência – não teria a mesma calma nunca -, da companheira em acertar o botão.
Terminando de ajudá-la, olhou para o horário que o despertador na cômoda marcava. Eram cinco e meia da tarde, dando-lhe meia hora livre até saírem em direção a Hampton; costumava demorar para se arrumar em qualquer ocasião e, como essa exigia responsabilidade para com a Rainha, programou-se de modo que possíveis imprevistos não a atrapalhassem.
Antes de descer para curtir um pouco do ar fresco daquela tarde no pergolado, avisou Ann que deveria chamá-la se precisasse de mais apoio. Com as sandálias de salto na mão, atravessou o quintal com cuidado para não sujar as barras do longo vestido azul escuro, que possuía uma fenda lateral até metade da coxa e um leve decote em V entre as alças finas nos ombros. Silenciosamente se sentou em um dos sofás e olhou ao redor, avistando Python deitado em um dos colchões do “cinema ao ar livre”. Achava que o rapaz era imaturo e não gostava de ficar em sua presença, mas não sairia do local e se impediria de aproveitar o clima apenas por causa do adolescente tosco, que parecia estar adormecido. Conectou os fones de ouvido que trouxera no celular e ficou ali, escutando Zedd, até Dust aparecer e convocá-la para partirem.
No final, optaram por permanecer com a sugestão de Python em pegar carona com um de seus conhecidos. Um homem, de aparentemente vinte e cinco anos, levara-os em um Grand Santa Fe – ninguém, exceto o garoto platinado, parecia estar acostumado com automóvel tão espaçoso. Viajaram até o fim de Hampton, na beira do mar, deparando-se com uma igreja feita de tijolos estreitos e cimento branco. A fachada não era larga, transmitindo a ideia de que a construção fosse pequena, porém, ao verem sua lateral de dentro do carro, impressionaram-se com a extensão.
– Tenham uma boa festa! – o amigo de Python estacionou e se despediu rapidamente.
– Obrigada pela ajuda, senhor Kleeman – Dust agradeceu e seguiu a equipe até a entrada, já lotada de convidados, da catedral.
A maioria das mulheres vestia peças longas e escuras – Luna deveria estar aprovando mentalmente -, enquanto os homens, tanto os jovens e mais velhos, apresentavam-se em maior parte com ternos pretos. O que se destacava na multidão parada eram as madrinhas, em torno de seis, colorindo-a com modelos iguais de cor verde escuro.
– Olha só, Ann, você pode fingir que é uma delas – Python fitou a garota, que também usava um vestido verde.
– Ah, o vestido dela é muito mais bonito que o dessas madrinhas – Luna retrucou enquanto a canadense sorria levemente.
Não apenas no tom, mas o vestido de Ann era contrário em todos os aspectos: as mangas eram compridas, possuía um fino cinto branco na cintura e uma gola polo da mesma cor, feita de renda; além disso, o tecido ia até um pouco acima do joelho.
Dentro do local, esperaram por meia hora até que a cerimônia começasse. Dust olhou brevemente para os colegas: pareciam concentrados. Nas falas do juiz (ou padre, não sabia dizer) ou em algum pensamento aleatório? Ela, independente da resposta, tentava enxergar todos os convidados secretamente. Apesar de dizer ao Vor que via a missão “como uma forma de comer doces infinitamente” – o que também era verdade — e receber uma mesada extra como recompensa, recebera o desafio mais como uma possível oportunidade de conhecer o time inimigo – com exceção de Aidan e Phenice, que a ajudariam a localizar o restante do Tyo.
A mensagem de Ed há dias atrás retornou a sua mente.
“Não é fácil de achar muitos casamentos dentro de uma semana, certo? Há muitas chances deles estarem em Hampton com vocês.”
(...)
No salão de festas, que ficava a cinco minutos a pé da igreja, estavam sentados em uma das mesas do fundo aguardando pelos discursos dos padrinhos. O local era incrível: a entrada era uma sala média com poucas cadeiras, mesas – a maior possuía diversos doces e é a que parecia de maior importância aos presentes — e um corredor com acesso aos banheiros; três entradas guiavam os visitantes a um pátio, ao salão principal e a uma sala VIP, aquela especial para pessoas cansadas – idosos e antissociais – conversarem sem a música alta interferindo. Entrando na primeira abertura, encontraram um pátio a céu aberto e com árvores iluminadas de amarelo na lateral esquerda; da estrutura de madeira no alto, objetos de vidro que pareciam pequenos vasos pendiam com velas no centro, sendo uma das únicas fontes de luz do espaço; no lado direito, portas largas transparentes mostravam o salão principal, que agora totalmente visível, formava um L, terminando no fundo do pátio. A decoração branca, marrom e azul, somada a belíssima estrutura e escolha dos materiais da construção, tornava o ambiente aconchegante.
– Ei, Rainha – Feluriel a chamou. – Algo errado?
– Hm? – Dust respondeu após um tempo e sorriu. – Não.
– Você parece cansada. Ou é tédio mesmo?
– Só um pouco de sono – mentiu.
Sua investigação oculta terminara na caminhada para aquele lugar. Antes de passarem pela recepção e pegarem o número de sua mesa, reconheceu o cabelo castanho de Aidan Zachary e, no mesmo momento, sentiu um leve frio percorrendo suas costas. Todavia, a concentração que usava até recentemente se tornou menos necessária e pôde usufruir um pouco do luxo que nunca tivera contato. Ao contrário de sonolenta, sentia-se agitada. Sua natureza competitiva, que aparentemente só se revelava em jogos virtuais, estava inquieta com o que aquela noite daria início. Antes do final da festa, ela conversaria com o Rei.
– Vou dançar um pouco – Python se levantou animado após o brinde dos noivos e saiu para o outro lado do cômodo.
– Bem, acho que vou também – Feluriel se pôs de pé. – Me dão a honra de me acompanhar, garotas?
– Vou depois de jantar – Luna respondeu com um aceno de cabeça.
Na mesa restaram, além da ruiva, Ann e Tsunaime, que também se retiravam para buscar a refeição no buffet.
– Não vai comer nada mesmo? – a inglesa de vestido azul questionou.
Dust balançou a cabeça e sorriu.
– Irei depois, não estou com fome agora.
O trio assentiu e se afastou até a frente do salão. Após conseguir distância deles, retirou-se para a sala inicial, que estava vazia, e se aproximou da mesa principal com um brilho nos olhos.
– É melhor pegarmos antes que mais alguém venha.
Dust se virou noventa graus, em direção à voz, e fitou Aidan.
– Algum modo de levarmos alguns escondidos para casa?
– Se pedir para os noivos, creio que deixarão sem hesitação – deu um sorriso fechado e continuou. – Você está muito bonita, Rainha. Qualquer pedido seria atendido.
Assim como Python, o Rei estava vestido de modo menos formal, com calça jeans escuro e camisa azul claro embaixo de um blazer marrom, que combinava com o sapato de cor igual.
Após um tempo, Dust perguntou enquanto pegava um bombom da mesa:
– E o Tyo?
– Você chamou mais a atenção dos garotos do que a noiva – respondeu distraidamente, também coletando uma minúscula torta de maracujá.
– Entendo.
A equipe inimiga também a localizara. Podiam tentar qualquer coisa para impedi-los de tirar uma foto com os noivos – para validarem a missão, deveriam enviar a imagem até domingo.
– A Phenice e a Emily gostaram daquele de cabelo branco – pegava, agora, algo parecido com biscoito wafer e frutas vermelhas.
Dust o encarou brevemente.
– Não há problemas em falar os nomes dos participantes?
– Não – sorriu, sem mostrar os dentes, gentilmente. – Nós já temos a vitória, certo? – perguntou com inocência.
Se não fosse Rei e estivesse no meio dessa confusão chamada Izvor, Dust poderia achá-lo um menino doce e educado.
– Isso aqui está incrível... – Aidan puxou, com o mesmo brilho nos olhos que Dust apresentara, outro bombom branco.
Dust sorriu, embora não devesse ter essa atitude com o adversário.
– Doces são as coisas mais maravilhosas da vida.
– Concordo integralmente com minha Rainha – curvou-se como saudação enquanto seus olhos cor de mel a fitavam amavelmente.
Horlle abaixou ligeiramente a cabeça, respondendo ao cumprimento, e viu o garoto retornar ao pátio pela primeira porta. Experimentou mais alguns doces e sorriu mentalmente. Para Aidan, assim como para a Tornkess, a Rainha era um peão desinformado e indefeso que levaria, sem saber, para eles a melhor equipe no final do projeto– isso se estivesse viva até lá; caso não, um funcionário qualquer faria o serviço. Portanto, sem querer, o garoto dera o recado que Dust imaginava, confirmando suas ideias em relação a ele. “É melhor pegarmos antes que vejam”, a frase passou por seus olhos mais cedo do que calculara.
O aviso foi dado.
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