Quando Izuku finalmente voltou para seu quarto, já eram quatro horas da manhã. Ele estava fedendo, e cambaleou até chegar em sua cama, onde deitou da forma como estava. Dormiu de calça jeans e tenis, a porta entreaberta, por cima das cobertas. As pedras que Toga tinha jogado em sua janela ainda estavam ali.

Sete e meia da manhã, quando perceberam que Izuku não tinha levantado ainda, Iida se ofereceu para ir no quarto dele para ver como ele estava. E ao ver a situação, Izuku praticamente desmaiado na cama, ainda com roupa de sair, com o cabelo completamente bagunçado e babando no travesseiro, e o cheiro forte de uísque no quarto.

Ele não sabia se ele acordava seu amigo ou se deixava ele dormir mais um pouco. Ochako apareceu atrás de Iida, preocupada.

— Ele está bem? — Perguntou, tentada a olhar pela porta, mas resistindo para dar à Izuku um pouco de privacidade.

— Eu... Eu não sei. — Iida disse, ainda indeciso se o acordava. Ele estava dormindo mas não parecia estar bem. — Ele vai se atrasar para a aula se não acordar logo.

— Então chama ele. — Ochako disse, praticamente empurrando Iida. Ele deu passos pelo quarto até chegar à cama dele, onde o chamou, sem muito sucesso.

Chamou-o pelo nome uma vez, duas veze, três vezes sem nenhuma resposta. Resolveu balançá-lo e então Izuku resmungou. Pelo menos ele estava vivo.

— Izuku, se você não acordar logo, você vai perder a primeira aula. — Iida disse e Izuku virou-se para o lado e disse baixinho.

— Não vou para a aula. — Disse, abraçando o travesseiro.

— Izuku, como representante da sala de aula, acredito que é meu dever te avisar das faltas ás aulas. — Disse e não recebeu nenhuma resposta. Virou-se para a porta onde agora Todoroki e Yaoyorozu também bisbilhotavam. Seus colegas estavam preocupados com ele.

— Eu escutei alguém sair ontem à noite. — Todoroki disse. — Eu achei que fosse alguém indo para o banheiro.

— Você escutou?

— Eu tenho sono leve. — Todoroki deu de ombros.

Ochako se deu licença e entrou no quarto de Izuku, parando nos pés da cama.

— Izuku, você está bem?

Ele resmungou de novo, não querendo acordar. Afinal, chegara em casa as quatro horas da manhã. Ele estava dormindo fazia menos de três horas.

Seus colegas apenas o escutaram suspirando, ainda virado contra a parede e abraçando o travesseiro.

— Não. Não estou bem. — Ele disse e se encolheu mais um pouco na cama. — Eu não vou para a aula hoje. Não estou bem.

— Izuku, você saiu ontem à noite? — Todoroki perguntou, agora tinha mais um em seu quarto. Todoroki foi o único que percebeu as pedras perto da janela. Izuku apenas suspirou fundo. — Você saiu para beber?

Cansado, estressado e irritado, Izuku se levantou, sentando-se contra a parede. O olhar irritado, somado ao cabelo bagunçado e ao ar pesado fizeram todos se assustarem. Eles nunca tinha visto Izuku daquela forma. A forma como ele encarava seus colegas com ódio fizeram todos se lembrarem de outra pessoa.

— O que eu faço ou deixo de fazer não é da conta de vocês. — Disse seco, fazendo todos ficarem em silêncio, sem saber o que dizer. — Agora, por favor, saiam do meu quarto. E me deixem em paz.

Ochako pediu desculpas antes de sair do quarto, Iida e Todoroki saíram em silêncio. Eles escutaram do corredor Izuku trancando a porta do quarto e fechando a cortina da janela. Imaginaram que ele voltou para a cama.

— Será que ele está assim por causa do que aconteceu ontem com o Bakugou? — Ochako perguntou, preocupada. — Ele não está agindo como ele mesmo.

— Eu não sei se isso tudo é só coisa deles. — Iida disse, enquanto se afastavam do quarto. — Até mesmo porque, a rixa que eles têm sempre foi mais como uma brincadeira. Eu não sei se eles chegariam à esse ponto.

Mas mal sabia Iida que tinha realmente chego à esse ponto.

Quando o professor Aizawa fez a chamada e reparou que o menino de ouro não estava na sala, perguntou.

— Alguém sabe onde está o Midoriya? — Perguntou e o clima na sala pareceu ficar um pouco mais tenso. Afinal, não era somente Iida que sabia o que tinha acontecido com o pobre Izuku.

— Ele não estava bem hoje de manhã. — Iida disse, tentando evitar falar que ele estava de ressaca.

— Já levaram ele para a enfermaria? — Aizawa perguntou e Ochako se intrometeu.

— Ainda não, mas acredito que se ele piorar, talvez ele vá. — Disse e Aizawa pareceu acreditar na história.

Katsuki Bakugou estava apenas escutando tudo sem prestar muita atenção. Pelo menos Izuku não estava ali, e ele não precisaria se estressar com ele.

Aizawa passou uma tarefa rápida, para lerem algum trecho do livro enquanto ele fazia outra coisa. Katsuki começou a ler, mas logo foi distraído por um pensamento e quando viu, Aizawa tinha saído da sala de aula. Aproveitou o momento para sair para ir ao banheiro. Quando ia passar pela sala dos professores, sentiu a necessidade de se esconder.

Afinal, ele tinha escutado o seu próprio nome.

— E você acha que o Bakugou sabe disso? — Ele tinha escutado a voz do All Might.

— Não tenho certeza. — Aizawa respondeu. — Mas acho que por precaução seria bom você ficar de olho neles.

Katsuki não estava entendendo o porque ficar de olho. Será que ele tinha feito alguma coisa? Será que Izuku tinha feito alguma coisa?

Ele não fazia ideia de como se sentir a respeito daquilo tudo.

****

Dez horas da manhã e Izuku ainda estava no quarto, com as mesmas roupas, ainda em sua cama. Ele tinha acabado de acordar, seu estômago roncava e sua cabeça doía. A luz incomodava. Ele não fazia ideia do estado em que estava, muito menos do que seus colegas tinham visto naquela manhã.

Ele queria tomar um banho e se sentir um pouco melhor, mas a única coisa que teve forças para fazer foi tirar seus tenis com o calcanhar e atirar para algum canto do quarto. Ele escutou batidas na porta. Será que era algum de seus colegas de novo?

— Jovem Midoriya? Está aqui? — Escutou a voz de All Might. Então lembrou-se que tinha trancado a porta. Levantou-se e destrancou, sentando-se novamente na cama. Ele abriu a porta, exibindo seu porte miúdo. — Eu fiquei sabendo que você não estava bem. Pensei em passar aqui para ver como que você estava.

— Obrigado, mas não precisava. — Disse tentando ser o mais gentil possível. All Might era a única pessoa que ele não queria agir de forma agressiva. Era a única pessoa que não merecia.

All Might fechou a porta atrás de si, parando para olhar as figurinhas de ação na pose de All Might. Ele sempre sorria ao ver aquilo tudo. A admiração que aquela criança tinha por ele...

— Como que você está se sentindo? — Disse sentando-se na cama.

— Com um pouco de dor de cabeça. — Izuku respondeu coçando a nuca.

— Eu imagino. Dor de cabeça é bem comum em ressacas. — All Might disse e Izuku sentiu seu peito queimando de vergonha. Seu rosto ficou vermelho. — Você achou que eu não ia perceber? Eu também já fui jovem uma vez.

Izuku não sabia como responder aquilo.

— O que foi que aconteceu? Você não me parece o tipo que sairia de madrugada no meio da semana para fazer isso.

Izuku suspirou. Ele não sabia se respondia, não sabia até onde explicar para ele. Tinha algumas coisas o incomodando já fazia algum tempo. Era esse o momento que ele tinha para aproveitar e perguntar.

— É por causa do que aconteceu no estágio?

All Might foi o único que tinha trazido aquilo à tona, desde que aconteceu. Izuku se perguntava quem seria o primeiro a perguntar sobre aquilo, mas não imaginava que fosse ser All Might.

Ele ainda se sentia culpado por causa dos eventos daquela noite. A culpa fazia ele se perguntar se ainda valia a pena.

— Você acha que eu ainda consigo ser um herói?

All Might esperava que ele fosse fazer aquela pergunta.

— Você não é menos herói só porque fez um erro. Além de herói, você também é humano.

— Mas eu deveria saber o que fazer. — Izuku disse e abraçou seus joelhos.

— Nem todos nós sabemos o que estamos fazendo. — All Might disse. — Eu acho que você é um ótimo herói.

Izuku sorriu.

— Obrigado. — Disse novamente, sentindo-se um pouco melhor, mas não o suficiente para fazer aquele sentimento de culpa passar. Ele tinha deixado algumas lágrimas escorrerem e usou sua mão para limpá-las. — Acho que deve ter sido por isso que você me escolheu.

— A gente já entrou nessa discussão uma vez. — All Might disse carinhosamente. — Mas eu sei que não é só isso que está te incomodando. Eu fiquei sabendo pelo professor Aizawa o que aconteceu ontem no treinamento.

Izuku virou o rosto para o lado. A rapidez com que seu sorriso envergonhado desapareceu incomodou All Might.

— O que aconteceu entre você e o jovem Bakugou? — Perguntou, tentando fazer com que Izuku respondesse. Ele sabia que talvez se abriria para seu herói favorito.

— Ele sempre foi assim. — Izuku disse. Ele sentia como se estivesse passando pano para ele, e de certa forma estava. Mas ele sabia que não adiantaria nada falar o que estava realmente acontecendo entre ele e Katsuki. Não é como se All Might fosse acreditar nele. — Não tem nada de novo.

All Might olhou fundo nos olhos de Izuku, tentando fazer com que ele falasse. Ele enxergava tantos sentimentos nos olhos dele, mas não sabia como faze ele se abrir a respeito do que ele estava pensando e sentindo. Talvez nem ele soubesse direito.

— Se alguma coisa estiver acontecendo e você precisar de ajuda, você pode vir conversar comigo. Você sabe disso, não é?

Izuku sorriu.

— Sei, sim. Muito obrigado. — Izuku disse e os dois trocaram um sorriso. Apesar de ter tanta coisa entre os dois que não conseguiria ser dita, Izuku sentia como se pudesse contar com ele. Talvez uma das únicas pessoas que ele conseguia sentir isso recentemente.

— Que bom. Agora, é hora de levantar e entrar para o banho, jovem! Você está fedendo demais. — Disse dando um tapinha no ombro de Izuku.

Izuku tentou diminuir a situação com uma risada sem graça, mas apenas deixou o clima um pouco mais tenso. Nada mudava o fato de que ele tinha chego no dormitório quatro horas da madrugada bêbado.

Enquanto Izuku arrumava as suas coisas para tomar banho, All Might levantou-se para dar licença. E então, parou na porta entreaberta e o encarou novamente.

— Ah, e Izuku... — Disse e tanto o tom quanto o olhar de diversão mudaram, fazendo Izuku ficar com um pouco de medo. — Nunca mais faça isso de novo. Essa vez vai passar porque eu sei que você não é um desses jovens. Mas faça isso de novo, e pode lhe custar a sua graduação inteira. — Disse e saiu do quarto, deixando Izuku com aquele aviso final.

Enquanto tomava banho, Izuku pensava se ele deveria se preocupar com aquilo. Afinal, se seu plano desse certo, talvez ele não precisaria voltar para a escola tão cedo.

Talvez All Might devesse ter se preocupado com a falta de motivação no olhar do jovem Midoriya.