It's out of your mind palace, Sherlock
1 Capítulo um
Notas iniciais
John perguntava-se em devaneios se a felicidade é algo de longa ou curta duração e se vinha de tempos em tempos; também fazia alguns questionamentos sobre quando sua vida finalmente teria alguma estabilidade, no sentido de poder acordar ao lado de Mary todas as manhãs, deixar um beijo em seu ombro, trabalhar como médico e sempre voltar para casa sabendo que ela estaria ali.
Claramente, felicidade e estabilidade são dois princípios interligados e postos em uma corda bamba. Assim, você ganha o controle deles e os conduz com cautela sem deixá-los cair. Ambos se completam, toda forma de felicidade e toda forma de estabilidade é verdadeira.
Ele não sabia mais o que era isso.
Mary havia perdido o bebê numa tarde de maio, e devido aos riscos da gravidez, veio à óbito cerca de cinco minutos depois. John foi retirado da sala de parto pelos enfermeiros, desolado, sem conseguir olhar para trás. Ainda lembrava das últimas palavras dela: "Continue sem mim. Vai dar certo."
John foi dopado com inúmeros calmantes e acordou num quarto de hospital. Virou a cabeça, ainda com a visão turva, e enxergou uma sombra de vestes negras sentada na cadeira de acompanhantes. Reconheceu imediatamente como Sherlock, por quem chamou:
– Sherl...- Tentou pronunciar seu nome, mas uma dor latejante penetrou em sua cabeça.
– Não fale, John. — O outro disse, usando um tom sério. — E sinto muito por Mary.
John sentiu uma fisgada no peito e na garganta, e as lembranças do sorriso de sua esposa retornaram à sua mente. Uma lágrima espontânea escorreu de seu rosto.
– O médico disse que terá alta depois de alguns exames — Continuou Sherlock -. Medição da pressão e coisas do tipo. Vou avisar a enfermeira que está acordado.
– Não... — John resmungou, forçando a visão para enxergá-lo e estendendo um braço. — Fique. Por favor.
John conseguiu alcançar a barra da manga do sobretudo de Sherlock assim que ele tentara levantar, e mesmo que não tivesse usado nenhum tipo de força, isso fez com que o detetive permanecesse parado.
– John, é importante que eu avise à enfermeira...
– É mais importante que você fique comigo. Agora. Mais do que nunca.
Sherlock virou-se para John, e este pôde ver com mais claridade seu rosto. Não era uma expressão arrogante ou pensativa, não era uma expressão que demonstrava ironia ou desprezava o sentimento que unia os dois; ele estava confuso. Confuso que alguém lhe quisesse por perto, confuso que alguém o considerasse a primeira pessoa entre todas que pudesse confortá-la nos momentos mais difíceis. John conseguiu ler seus sentimentos mesmo que sua mente ainda passasse por um turbilhão de choques e traumas, e com isto, ele mesmo deduziu que Sherlock não era uma pessoa tão complicada assim.
– Ahn... eu...- Sherlock tentou dizer.
Ele engasgou ao sentir que a mão de John procurava a sua, e algo que andava inteiramente por fora de seu Palácio Mental o incitou a segurá-la. Um instinto desconhecido, algo que conduzia sua mão até a dele.
As angústias de John foram apaziguadas depois que sua mão tocou a de Sherlock. Ao contrário do que esperava, era quente, firme, lhe transmitia ondas de calor pelo corpo. Ele não a soltou, como se fosse dependente do seu toque, como se Sherlock fosse a âncora que impedisse que ele fosse jogado num mar tempestuoso.
Uma batida na porta. Ambos notaram a presença de uma enfermeira com a cabeça para dentro, pedindo permissão para entrar.
– Eu havia chamado-a dez minutos atrás assim que notei que você havia começado a se mover durante seu sono. — Disse Sherlock, afastando-se de John para deixar que a enfermeira o examinasse.
John observou enquanto a enfermeira utilizava o medidor de pressão em seu braço e procurou por Sherlock. Este já se encontrava encostado na parede no outro lado do quarto, encarando o chão com o olhar triste, tentando reerguer-se depois de um mar de sensações e sentimentos totalmente inusitados. John sabia. Ele simplesmente sabia.
– Doutor Watson — chamou a enfermeira.
Ele a olhou.
– O médico informou que vai precisar passar mais algumas horas aqui, por precaução. Além disso, sua pressão está baixa, mas nada que algumas horas de descanso não o recuperem. Sinto muito por sua esposa. A família Holmes declarou que vai ajudar a custear... tudo.
John balançou a cabeça positivamente, com o olhar baixo. Não aguentava olhar para ela, pois sabia que o lamento vinha além das palavras, em seus olhos. Tudo o que menos precisava no momento era olhar nos olhos de alguém.
– O Sr.Holmes está aqui desde ontem. — Ela prosseguiu.
Ele finalmente a olhou, sem saber ainda o que dizer.
– Surpreso? Ele não saiu do seu lado, observando você. Era como desse um laudo completo só de olhá-lo.
O corpo de John foi preenchido por um alívio que aqueceu seu coração. Um leve sorriso pairou sobre seu rosto, involuntário, o primeiro sorriso em horas.
Mas ele desapareceu quando levantou o rosto para o lugar em que Sherlock estava parado, e ele não estava mais lá. John revirou o quarto com os olhos à procura dele, mas nem sinal do detetive.
– Para onde ele foi? — Perguntou com a voz rouca.
A enfermeira procurou-o também, e voltou com uma expressão um tanto indiferente: — Deve ter saído para comer alguma coisa. Relaxe, Doutor Watson, talvez devesse descansar mais um pouco.
Ela o ajudou a se encostarna cama e arrumou seu lençol, pegando os materiais consigo e se retirando do cômodo.
John tornou a sentir o mesmo mal-estar de antes. Não conseguia fechar os olhos e muito menos deixar a tensão escorrer de seus ombros. Sherlock não estava realmente com ele; sua presença era como um fantasma que apenas se dizia estar ali, mas mesmo estando no mesmo cômodo ele estava tão, tão distante. Mesmo no momento mais difícil da vida de John ele sequer ousava se aproximar.
E então ele permaneceu a encarar o teto branco do quarto, com a mente repleta de vozes que o torturavam e um coração partido duas vezes.
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