It's out of your mind palace, Sherlock
2 Capítulo dois
Notas iniciais
Depois de receber alta do hospital, John havia recebido várias ligações de pessoas que manifestavam seus pêsames pelo falecimento de Mary e que estavam ali para o que John precisasse. Isso também incluiu algumas visitas de Mrs. Hudson, Molly e Mike. Eram visitas breves, mas que de alguma forma ajudavam-no a ponderar a instabilidade sob a qual sua mente estava.
Dos vários telefonemas recebidos, um em especial teria tirado sua atenção de todo o resto: Mycroft Holmes. Ele sem dúvidas não teria ligado para lhe dar os pêsames ou chorar com ele. Na verdade, a pauta da ligação se encaixou perfeitamente no padrão do irmão de Sherlock — a parte prática da situação.
– Por que está me ligando? — Perguntou John mau-humorado, sentado de qualquer jeito em sua poltrona. Não na 221B Baker Street, mas em seu novo endereço com Mary.
– Por que mais eu lhe telefonaria, John? Primeiramente para manifestar meu lamento pelo falecimento de sua esposa. Segundo, para informar-lhe que eu estou cuidando de todos os gastos do enterro dela e do bebê. Não precisará se preocupar com nada, cortesia dos Holmes em forma de mostrar nossa tristeza, que acolhe a sua.
John colocou uma mão sobre a testa e fechou os olhos com força. Não poderia nem suportar a morte de sua esposa, quanto mais a de sua filha. Nem sequer tivera a oportunidade de segurá-la em seus braços. Nem sequer tivera a oportunidade de dar-lhe um nome. Ele, que a vida toda, em seu íntimo, sonhara em ter uma pequena criançinha em seus braços, balbuciando e aprendendo a chamá-lo de "papai". E agora jamais teria a oportunidade de vê-la crescer.
– Mycroft...
– Oh, eu sei, John, insensibilidade a minha. Sinto muito. Mas sabe...
– Mycroft.
– ...eu sei o que é passar por uma perda.
John levantou os olhos, intrigado.
– Como é?
– Bem, ou quase uma. Mas você sabe, quando Sherlock levou um tiro e estava entre a vida e a morte. Foi um dos momentos mais difíceis para mim, ver meu irmão caçula jazir em uma cama de hospital e quase vir à óbito, por todas as suas loucuras. Mas não é a primeira vez que ele me deixa preocupado desta forma. Foram tempos difíceis os de sua juventude, entregando-se às drogas e praticamente desistindo de seu futuro. É complicado para mim expressar em palavras o que eu e minha família passamos naqueles tempos, implorando à um Deus que não acreditávamos para permitir que Sherlock tivesse mais uma oportunidade. Mas parece que ele dá muitas delas ao meu irmão. Sei que ele é um adulto. Mas ainda é um adulto inconsequente, com um passado mais longo e tortuoso do que se imagina. E eu me preocupo demais com ele, constantemente.
John compartilhava desta preocupação. Tantas foram as vezes em que a vida de Sherlock estivera numa corda bamba, mas ele percebeu que não havia visto nem metade do caminho dela. Havia uma razão para Sherlock ser daquele jeito.
É impressionante como as pessoas se privam de seus sentimentos construindo barreiras psicológicas, achando que assim não serão atingidas por agressões físicas e verbais. Mas ninguém jamais conseguiu criar uma barreira forte o suficiente para deixar de sentir, e isso incluía Sherlock Holmes. E tudo isso só o deixou ainda mais ingênuo sobre o que se passava em seu coração.
– Tenho certeza de que Sherlock faz tudo isso por alguma causa, Mycroft.
– Ou por alguém, John — Mycroft contrapôs. — E nós sabemos exatamente quem esse alguém é.
Sabemos?
– Agora, se me dá licença — disse o homem -, tenho uma reunião com o Ministro da Saúde. Emergência, sabe como é. Cuide-se, John Watson.
E desligou.
As palavras de Mycroft permaneceram em sua cabeça pelos instantes seguintes. E nós sabemos exatamente quem esse alguém é. Por quem Sherlock praticamente se suicidaria, ou melhor, se importaria mais do que tudo à ponto de fazer isto?
Seu celular vibrou, e ao retirá-lo do bolso, viu três mensagens de Sherlock.
Mycroft telefonou à você, certo?
– SH
Sobre o assunto do enterro, ele só teve participação no dinheiro. Na verdade, a ideia foi da minha mãe. E do meu pai. E minha. Porque eu acredito que é o mínimo que eu poderia fazer por você e ainda acredito que não seja suficiente.
– SH
Sinto muito.
– SH
Textos. John havia perdido a esposa e a filha e tudo o que havia recebido de seu melhor amigo eram três mensagens de texto de "consolo". Esse era o máximo que Sherlock acreditava que poderia se aproximar emocionalmente de John sem se machucar, por mensagens de texto.
É só isso? Não vai me dizer por que saiu do hospital e não voltou?
– JW
Arrependeu-se de ter mandado a mensagem, mas a resposta veio alguns segundos depois.
Eu voltei, John. Eu sempre volto.
– SH
John encarou o celular por um momento, lendo e relendo a mensagem várias e várias vezes. Tanto, que mal percebeu o sorriso se formara em seu rosto.
*****
Do outro lado, na 221B Baker Street, Sherlock segurava o celular diante da boca, concentrando os olhos em qualquer canto do apartamento. Ele puxou as pernas contra o corpo e as abraçou, sentindo-se diminuído por algo maior e desconhecido. Sentindo-se uma criança outra vez.
– Sherlock... — Mrs. Hudson apareceu na porta do apartamento. Seu tom era de lamento. — Vá falar com John, por favor. Ele é seu melhor amigo.
Sherlock continuou concentrado, impassível.
– As coisas não vão mudar entre vocês se nenhum dos dois tomar uma atitude. — Ela se sentou ao lado dele no sofá, colocando as mãos sobre o colo.
– Mudar? Quem disse que precisam mudar? — Ele balançava levemente, tentando misturar as coisas em sua mente como se fosse uma urna de votação repleta de papéis.
– E quem disse que não? John está depressivo pela perda da Mary, eu o visitei esses dias. A casa está uma bagunça, ele não está trabalhando e eu sei que ele sente falta de seu melhor amigo ao lado dele. Talvez você não perceba, jovenzinho, mas John gosta muito de você. E ele já lhe disse isso, eu sei que sim.
Sherlock sabia que não poderia mudar de uma hora para outra. Estar no hospital ao lado dele não era suficiente? Ter mandado três textos (sinal claro de urgência) não era demonstrar que havia se preocupado com ele? O que deveria dizer quando estivesse defronte à John, senão "eu sinto muito"?
– E o que eu deveria dizer?
– Talvez, Sherlock, você deva parar de falar e começar a demonstrar.
Com essas palavras, a Mrs. Hudson o deixou sozinho novamente.
Mesmo assim, Sherlock voltou a usar o celular:
Você precisa de alguma coisa?
– SH
Segundos depois, John respondeu:
Nada. Por que a pergunta?
– JW
Porque você precisa sim, na verdade, de alguma coisa. Quando faço uma pergunta, você responde e em seguida pergunta a necessidade de tudo, me induzindo a dar satisfações sobre o que você quer saber e o que realmente precisa saber, e eu sei o que você quer saber.
– SH
E o que eu quero saber?
– JW
Você fez isso novamente.
– SH
Sherlock sabia o que John procurava de verdade, mas era tão estranho e incomum para Sherlock, que ele continuou pelas próximas horas, sentado no sofá, observando a claridade diminuir pela janela e a escuridão inundar o apartamento até que apenas o brilho da lua lhe desse visão.
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