Its Not Love, Its Gravitation
10 Capítulo 9
– Você o quê? — a pergunta foi seguida de uma longa gargalhada que foi abafada por um travesseiro sendo arremessado no rosto de Adam. Entretanto a agressão não foi o suficiente para diminuir o divertimento dele.
– Cala a boca! — grunhiu Tatsuha enquanto colocava a camisa dourada do uniforme para depois sentar-se pesadamente na cama para calçar as botas.
Era um costume desde que assumiram o comando como Capitão e Imediato: Adam e Tatsuha geralmente chegavam juntos ao turno para renderem os oficiais que ficaram em seus lugares. E como a cabine dos dois era interligada por um banheiro conjunto, Hope sempre invadia os aposentos de Tatsuha todas as manhãs para acordá-lo. O Capitão ainda tinha, depois de tantos anos, uma relação ingrata com o despertador. No entanto, naquela manhã, ao entrar no quarto de Uesugi foi para encontrá-lo desperto, andando de um lado para o outro e com uma cara como se tivesse cometido a maior burrada do século.
– Não dá! Você beijou Ryuichi Sakuma. Logo você que dias atrás estava soltando fogo pelas ventas porque Sakuma ficava te seguindo feito um cachorro sem dono.
– Eu sei, eu sei! Eu não sei o que me deu.
– Tesão?
– Adam...
– Amigo, quando foi a última vez que você transou? — Tatsuha lançou um olhar assassino para o Comandante.
– Eu sou um homem viúvo.
– Mas não morto. Se Alyssa souber que você está no celibato ela volta para te assombrar. E além do mais, uma noite de foda é apenas para saciar desejos da carne, não é como se você fosse pedir a pessoa em casamento.
– Eu sei. É só que... — o tom de Tatsuha fez Adam ficar sério em segundos.
– Você por um acaso quer pedir Sakuma em casamento?
– Não! Claro que não!
– Então qual o problema? — Tatsuha ficou quieto, desviando o olhar por um tempo, pensativo, e Adam permaneceu calado sem dizer nada, deixando o Capitão avaliar o que se passava na própria mente para ver se conseguia colocar ordem na casa.
– Acho que a paixonite de criança não era tão paixonite assim e não foi tão esquecida assim. — Tatsuha confessou depois de minutos em silêncio.
– Você está querendo me dizer que depois de todo este tempo você ainda é apaixonado por Ryuichi Sakuma. Realmente apaixonado?
– Eu não sei, talvez. Ontem quando estávamos juntos eu me diverti tanto, como nos tempos em que estava com a Alyssa, e em vários momentos, em várias situações, meu coração deu um pulo no peito cada vez que eu o via sorrindo para mim, ou olhando para mim e somente para mim. Não me entenda mal, eu amava a minha mulher...
– Você percebeu que usou o verbo no passado? Você amava a Alyssa.
– Adam...
– Não estou te criticando, Tatsuha. Eu quero que você siga em frente. Alyssa era minha amiga também e tenho certeza que ela também iria querer o mesmo para você, mas não acha que está tudo indo rápido demais?
– Talvez sim, talvez não. Eu não tenho ideia de mais nada.
– Pois é bom ter. Iremos deixar o porto hoje e em mais três dias chegaremos a T-003 e aí adeus Ryuichi Sakuma.
– A minha vida era tão fácil antes da minha família estar nela. — resmungou, levantando-se da cama depois de calçar as botas.
– Menos complicada e menos propensa a drama. A sua vida está começando a virar uma novela, isso sim.
– A vida de todos os Uesugi é uma novela. É meio que condicionamento padrão. Drama, drama, drama é tudo que acontece conosco.
– Eu gostaria de saber em que momento virá a comédia, só pra variar.
– Ou a aventura.
oOo
Tatsuha deveria ter aprendido depois de tanto tempo que desejar que alguma coisa mude somente para agitar um pouco a rotina era sinônimo de mau agouro. Quando disse à Adam pela manhã, antes de partirem do porto, que estava cansado de drama e talvez uma aventura seria algo de novo e bem vindo em sua vida, não era bem isto o que ele tinha em mente.
Os alarmes da Thunderbird soavam como uma sinfonia desafinada, com as suas luzes vermelhas criando reflexos nas paredes metalizadas da nave. O som de passos ecoava em todos os decks, acompanhados pelos tremores causados pelos torpedos que tentavam derrubar os escudos da nave ao mesmo tempo em que o alto falante anunciava:
– Todos para os postos de combate!
Uma explosão sacudiu o chão sob os seus pés ao mesmo tempo em que a parede ao seu lado estourava em vários pedaços, com a onda de impacto arremessando Tatsuha corredor abaixo. O homem gemeu quando as suas costas encontraram o chão e o ar foi expulso com força de seus pulmões. Seus olhos turvos por causa da súbita claridade miraram o buraco que agora havia na parede, reflexo de algum tiro que a fuselagem recebeu naquele local, pois agora Tatsuha podia ver os tubos, fiações e outros aparatos que formavam o esqueleto da Thunderbird.
– Uesugi para a Engenharia. — falou assim que alcançou o seu comunicador ao mesmo tempo em que girava no chão, espalmando a mão livre no mesmo e procurando por apoio para se levantar. A sua cabeça girou por causa da mudança de posição e os seus ouvidos zumbiram.
– Aqui é a Engenharia Capitão. — a resposta de Bradley soou entrecortada no alto falante do comunicador.
– Avaria no deck três. Preciso de um equipe para reparos emergenciais urgentemente.
– Sim Capi... — a resposta foi interrompida por causa de outro impacto que sacudiu a nave toda e quase levou Tatsuha novamente ao chão.
Finalmente, depois de um minuto que pareceu uma eternidade, Tatsuha conseguiu se levantar, sentindo o seu corpo latejar em dois pontos: na cabeça e no peito. Levou a mão a cabeça, esperando encontrar nela um galo se formando, mas além disso também encontrou sangue. O peito ele presumiu que ao menos uma ou duas costelas haviam se partido com a queda. O problema era que no momento ele não tinha tempo para ficar avaliando os estragos que o impacto causou em seu corpo, pois tinha uma nave para comandar. Rapidamente, o mais rápido que pôde ir enquanto ignorava as pontadas de dor em seu tórax, ele seguiu para um elevador turbo e apertou o botão direto para o deck um.
– Relatório de danos. — exigiu assim que as portas se abriram, mostrando uma ponte agitada.
– Decks quatro e três atingidos senhor. — Hope rapidamente declarou enquanto via Tatsuha sentar na cadeira de Capitão e fixar os seus olhos na enorme janela de observação na sua frente, onde as duas naves Klingons que os atacava estavam.
– E a minha família?
– Todos foram levados para o refeitório dos oficiais, com dois seguranças os acompanhando com ordens de serem evacuados assim que o senhor mandar. — continuou Adam.
– Como estão os escudos?
– A quarenta e três por cento senhor.
– Os Klingons já entraram em contato? — o Capitão virou para a sua oficial de comunicações.
– Disseram que estamos entrando em território Klingon e por isso do ataque. — Novaz respondeu. Território Klingon uma ova, pensou Tatsuha com desprezo. Os desgraçados sempre usavam dessa desculpa para descerem com um ataque sobre uma nave da Federação.
– Comandante Hope? — chamou em um tom que Adam identificou que Tatsuha estava procurando a sua orientação neste caso.
– As tentativas de cessar fogo provaram-se inúteis senhor, pois eles afirmam que estamos em território Klingon, entretanto desde a nossa saída do porto quatorze estamos mantendo a rota estabelecida pela Frota, rota esta que está dentro da jurisdição da Federação. — outra explosão sacudiu toda a Thunderbird.
– Sr. Void? — chamou pelo navegador que prontamente virou-se para mirar o Capitão. — Como estão os escudos deles?
– A quarenta e cinco por cento senhor. — Tatsuha inspirou profundamente, ignorando a dor que este gesto causou, e lançou um longo olhar para as naves flutuando no Espaço metros a frente deles. Logo em seguida voltou o olhar para Hope e Void, vendo que ambos o miravam esperando por suas ordens.
– Carregar os torpedos de fase de plasma. — um silêncio caiu sobre a ponte.
Era armamento pesado para se usar em duas simples naves de guerra Klingon. Entretanto, os Klingons também não brigavam de maneira justa e o Capitão tinha mais do que razão de querer despachá-los. A sua família estava à bordo e com certeza a Frota levaria isto em consideração. Portanto, foi com este pensamento que Adam ativou o controle de bordo e engatou os torpedos.
– Torpedos prontos senhor. — um segundo de pausa foi o tempo entre a informação e a ordem que se seguiu:
– Atirar. — o brilho dos torpedos cruzou o espaço, desaparecendo antes de chegar perto das naves Klingons. Um minuto se passou até que o efeito se mostrasse quando uma explosão surgiu no casco das outras naves.
– Os Klingons perderam os escudos senhor. — alguém informou.
– Disparar torpedos de fóton. — Tatsuha ordenou e logo o brilho vermelho dos torpedos de fóton cruzou o espaço. O embate depois disto não durou dois minutos antes dos Klingons admitirem derrota e baterem em retirada. E foi somente quando eles sumiram em velocidade de dobra que a tripulação da Thunderbird respirou aliviada. — Ponte para o refeitório dos oficiais.
– Senhor? — veio a resposta de um dos seguranças que acompanhavam o NG e o Bad Luck.
– Como estão os nossos convidados?
– Um pouco abalados senhor, mas fisicamente intactos.
– Os mantenha aí até segunda ordem.
– Sim senhor. — e a conexão foi encerrada.
– Capitão. — Adam chamou quando viu Tatsuha prestes a apertar novamente o botão de comunicação no descanso de braço em sua cadeira. Os olhos negros de Uesugi se ergueram para mirar o piloto. — O senhor está sangrando.
– Eu estou bem... Uesugi para a Engenharia.
– Thompson falando senhor.
– Relatório de danos?
– Houve uma perda de pressão no hangar dois, deck três e quatro sob reparos emergências neste momento. Houve também avaria em um dos motores de dobra.
– Qual a gravidade do estrago?
– Provavelmente não conseguiremos engatar além da dobra dois e nem aconselho a usá-la. Nossa chegada a T-003 vai ser depois do que planejamos e mesmo assim precisamos voltar a um posto da Frota para reparar os danos externos de imediato. Há o risco de vazamento em no núcleo de dobra, senhor.
– Veja o que pode fazer para garantir que ao menos consigamos chegar até T-003.
– Sim senhor.
– Uesugi desligando. — encerrou a conexão, relaxando na cadeira e passando uma mão pelo rosto. Era só o que lhe faltava no momento, uma ameaça de vazamento do plasma do núcleo de dobra. — Uesugi para a Enfermeira. — chamou com uma voz cansada.
– Enfermeira Crystal falando senhor.
– Como estamos?
– Treze feridos, um encaminhado para a cirurgia. Dra. James está com ele e irá reportar ao senhor assim que a operação terminar.
– Bom. Uesugi desligando.
– Senhor? — Adam novamente o chamou, pois duas coisas precisavam ser feitas no momento: decidir que rumo tomariam agora com o risco do vazamento e encaminhar Tatsuha para a Enfermaria, porque ele estava anormalmente pálido.
– Sim? — Tatsuha respondeu em um ofego, o estresse finalmente o alcançando a ponto de deixá-lo sem ar.
– O senhor não me parece muito bem, talvez devesse...
– Novaz, preciso que estabeleça uma comunicação com o comando da Frota. — Tatsuha prontamente cortou o amigo, erguendo-se de supetão da cadeira e vacilando por um momento sobre os próprios pés. Void e Hope trocaram um olhar preocupado ao verem o Capitão cambalear por um segundo. — Quando tiver resposta encaminhe a mim, estarei no refeitório dos oficiais.
– Sim senhor. — Adam ainda tentou dizer alguma coisa quando viu Tatsuha tropeçar levemente em uma das elevações do deck, mas manteve-se quieto e apenas observou quieto o Capitão partir.
O caminho da ponte até a sala dos oficiais pareceu o mais longo que Tatsuha percorreu na vida, pois o seu peito doía intensamente, a sua cabeça latejava para fazer par com o peito e o sangue agora já seco em sua testa fazia a sua pele comichar. Assim que se viu em frente a entrada da sala, respirou fundo, o que o fez tossir brevemente, piorando a dor em seu tórax, e inseriu o código de emergência no controle ao lado da porta.
– Tatsuha! — Mika se jogando contra ele e praticamente o sufocando em um abraço foi a primeira coisa que aconteceu assim que ele pisou dentro da sala. — Você está sangrando. — falou ao se afastar e ver o ferimento na testa dele.
– Não precisa atestar o óbvio. — Tatsuha resmungou mal humorado. Ataques Klingon e dor nunca o deixavam muito animado. — Como estão todos? — os seus olhos percorreram cada um da sala.
Viu que um Shuichi trêmulo estava nos braços de Eiri. Que Noriko, Suguru, Nakano e Sakano formavam uma roda a um canto, com Noriko segurando nas mãos de Suguru e Sakano, com certeza a procura de apoio e oferecendo conforto ao mesmo tempo. Tohma e K estavam perto da grande janela de observação da sala, com certeza tendo visto todo o embate através dela e Ryuichi, pálido e trêmulo, estava vindo em sua direção e parou na sua frente, incerto sobre o que fazer.
– Eu peço que aguardem mais um pouco aqui na sala, pois há alguns estragos ao longo da nave que oferecem riscos. — continuou Tatsuha, estapeando para longe as mãos de Mika que percorriam o seu corpo a procura de mais ferimentos, e ignorando o olhar assustado de Ryuichi sobre a sua pessoa. — Quando tudo estiver estabilizado, pedirei que os acompanhem até as suas cabines. — completou, trocando um olhar com os dois oficiais da segurança que guardavam as bandas.
– Você não deveria estar na enfermaria? — a voz falha de Ryuichi chamou a atenção de Tatsuha para ele. Sakuma ainda podia ouvir o seu coração ecoando em suas orelhas e o seu corpo todo ainda tremia.
Quando minutos atrás, ao caminhar pelo corredor da Thunderbird a procura de Tohma para contar à ele as boas novas sobre o seu relacionamento com o Tatsuha, sentiu a nave toda tremer de maneira anormal para logo em seguida uma sirene estourar dos alto falantes junto com as luzes de alarme, achou que iria ter um ataque diante do susto que levou. Por um momento ficou ali parado, sem saber o que fazer, quando a correria começou a e voz do Comandante Hope soou no sistema de comunicação ordenando que todos assumissem os postos de batalha pois eles estavam sob ataque.
Sakuma achou que fosse uma brincadeira. Até porque, nunca tendo sofrido tal experiência antes, tudo parecia mais uma cena saída de um filme de ficção científica do século vinte e um. Mas era real. Absurdamente real. Desde o momento em que sentiu a nave tremer novamente até o instante que um tripulante de uniforme vermelho parou na sua frente, segurou o seu braço e o informou que tinha ordens para levá-lo para o refeitório dos oficiais.
Ryuichi se deixou levar, ainda em choque e com os olhos largos vendo a correria ao seu redor. Encolheu-se quando um estouro ensurdecedor chegou aos seus ouvidos e alguém passou ao seu lado gritando ordens em um comunicador, algo sobre danos em um dos decks. Minutos depois ele se encontrava no refeitório, vendo que os seus amigos também estavam lá e logo viu-se sob o abraço apertado e confortador de Noriko.
E então, ao percorrer os olhos de um por um, um pensamento tolo surgiu em sua mente: por que Tatsuha não estava ali também? Ele era uma das pessoas que era querida por Ryuichi. Portanto, precisava ficar em segurança. Mas então, quando tudo sacudiu mais uma vez por causa de algum torpedo encontrando a fuselagem, é que Sakuma lembrou: Tatsuha era o Capitão e no momento o Capitão estava ocupado demais tentando mantê-los vivos.
A meia hora de batalha foi a mais longa da vida de todos naquela sala e quando o comunicador do refeitório apitou e a voz de Tatsuha soou por todo o local é que Ryuichi finalmente conseguiu respirar aliviado, isto até o momento em que o próprio Capitão entrou na sala. Sangrando, pálido e com uma expressão fechada de alguém que não estava tendo um bom dia.
– A Enfermaria está ocupada com verdadeiros feridos. — veio a resposta de Tatsuha diante da sugestão de Ryuichi. Uma resposta seca e cortante, ocasionada pela adrenalina que ainda pulsava nas veias do Capitão em modo de combate.
– Mas tem espaço para mais um. — Dra. James surgiu na sala como uma aparição, pegando todos de surpresa e trazendo consigo um enfermeiro e uma padiola anti gravitacional. E a única reação de Tatsuha diante do surgimento dela foi um arquear de sobrancelhas que quase sumiram nos limites entre a testa e o couro cabeludo quando ele viu a mulher tirar um tricoder do bolso e percorrê-lo sobre a sua pessoa.
– Eu estou bem. — falou.
– Não de acordo com o relatório do Comandante Hope. — argumentou a médica. — E o resultado do meu tricoder. — completou assim que a maquininha apitou com o diagnóstico. — Capitão, peço, por favor, que o senhor me acompanhe até a Enfermaria.
– Joyce, eu realmente estou bem. Além do mais, preciso percorrer a nave...
– Capitão, eu insisto.
– Comandante James. — soltou em um tom que não permitia contestações, mas a resposta de Joyce foi a de somente o mirar intensamente, virar-se para trocar um olhar com o enfermeiro e sem aviso sacar um hipospray e pressioná-lo no pescoço de Tatsuha. — Mas que diabos, mulher?! O que foi isso... — o Capitão não conseguiu terminar de falar, pois logo os seus olhos rolaram nas órbitas e ele quase foi ao chão se não fosse a reação rápida do enfermeiro que o segurou e o depositou sobre a padiola.
– Você... você pode fazer isto? — Mika perguntou surpresa ao ver o irmão desmaiado em cima da padiola. Joyce apenas sorriu matreira para a outra mulher.
– Tatsuha sabia no que estava se metendo quando me chamou para ser a oficial médica dele. Agora vai ter que aguentar. — completou. E ainda sorrindo deixou a sala acompanhada do enfermeiro e um Capitão desacordado.
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