– Eu quero registrar uma queixa contra a Comandante James. — Adam desviou os olhos do PADD ao ouvir o resmungo, vendo Tatsuha piscar as pálpebras intensamente antes de finalmente as abrir por completo e mirar o teto dolorosamente branco da Enfermaria.

– E destruir a carreira de uma grande oficial por nada?

– Ela me agrediu. — respondeu o homem contrariado.

– Segundo o regulamento da Frota Estelar número 47, parágrafo 2, alínea C: o oficial médico chefe possui autoridade sobre o Capitão em casos de inadequação do previamente mencionado em exercer o cargo, ou quando dito Capitão corre risco de vida e recusa-se a receber auxílio médico.

– Muito obrigado pelo esclarecimento meu livro de regras ambulante. — Tatsuha zombou, soltando um gemido ao tentar sentar na cama e ter como resposta a este gesto todos os músculos do seu corpo protestando de dor.

– O senhor sofreu concussão leve, fraturou três costelas e uma delas quase perfurou o seu pulmão. Acho que a Dra. James tinha mais do que autoridade em apagá-lo para assim consertar os estragos. — Adam relatou e Tatsuha grunhiu. Sabia que a explosão havia o quebrado de alguma maneira, apenas não pensou que teria sido feia a coisa. — As costelas foram reparadas e o corte na cabeça regenerado. Não vai deixar nem cicatriz.

– Estou emocionado. — soltou com azedume no tom de voz e Hope rolou os olhos. — Conseguimos contato com a Frota?

– Falei com Almirante Pike e ele informou quemandará a Enterprise nos render em nossa missão. Em 4.4 horas ela virá recolher os nossos passageiros e o carregamento que pegamos no porto 14 e levá-los para T-003. Em 8.35 horas a Sampson virá nos rebocar até a posto 3 da Frota Estelar para reparos. Também transmiti à ele o relatório sobre o ataque e ele informou que gostaria de falar com o senhor mais tarde, assim que for liberado da enfermaria. — Tatsuha gemeu. Com certeza ou viria um sermão ou perguntas incessantes sobre a sua saúde, tudo sob o olhar preocupado de Pike.

O Almirante gostava de adotar desgarrados com potencial e Tatsuha foi o primeiro caso dele um pouco antes de se envolver com a única sobrinha que o homem tinha: Alyssa Pike. James Kirk foi o segundo caso de adoção por parte de Christopher.

Um movimento perto do local onde se encontrava a cama de Tatsuha chamou a atenção do Capitão e do Comandante para Ryuichi Sakuma parado perto da cortina divisória entre os leitos.

– Bem senhor, eu somente vim ver como o senhor estava. — Adam falou, levantando-se da cadeira onde estava. — Melhoras. — desejou, afastando-se não sem antes lançar um breve olhar para Ryuichi e dando à ele um aceno de cabeça em cumprimento.

– Você ouviu? — foi a primeira coisa que Tatsuha perguntou depois que Hope o deixou sozinho com Sakuma.

– O Comandante já havia nos informado sobre essa alteração nos planos. — Ryuichi foi até a cadeira desocupada por Adam e sentou-se nela. — Como você está?

– Dolorido.

– Ficamos preocupados quando o Sr. Hope nos informou a extensão dos seus ferimentos.

– Receber o impacto direto de uma explosão realmente causa prejuízos. — Ryuichi arregalou os olhos diante do comentário.

– Explosão?

– Eu estava no deck três quando ele fez “bum”. — o cantor ofegou, com o coração quase vindo à boca ao imaginar a cena. Havia sido muita sorte Tatsuha ter escapado com tão poucos ferimentos.

– Como você consegue?

– Consigo o quê?

– Manter o sangue frio. A sua nave foi danificada, você tem tripulantes feridos, você está ferido e mesmo assim está aqui, soltando piadinhas diante do que aconteceu.

– Você quer que eu me debulhe em lágrimas? A nave tem conserto, tenho tripulantes feridos, nenhum em estado grave e, principalmente, nenhum morto. Fomos pegos de surpresa, mas saímos vitoriosos, então eu acho que no fim do dia, ao pesar tudo, o resultado é mais do que positivo.

– É só que...

– O que você acha que é ser um Capitão, sr. Sakuma? — Ryuichi encolheu os ombros e fez uma careta. Estavam de volta com as formalidades, depois de tanto progresso, depois de um beijo de tirar o fôlego? — Eu lhe disse que as pessoas contam comigo. Toda a minha tripulação é maravilhosa, são profissionais exemplares, top de linha, mas que em alguma grande adversidade irão procurar a mim por apoio e ajuda. Não estou aqui apenas para sentar naquela enorme cadeira que tem na ponte e ficar dando ordens só para parecer bem na fita.

– Eu sei. Me desculpe. Acho que cada um tem o seu próprio mecanismo de compensação. E eu, um mero mortal, ainda estrou tremendo nas bases depois do que aconteceu. — confessou e Tatsuha suspirou.

Ainda estava de mau humor. E quem não ficaria quando o seu corpo todo doía enquanto era obrigado a permanecer na Enfermaria, lugar que ele menos apreciava na Thunderbird,logo depois de ter sido apagado com um tranquilizante pela sua oficial médica de plantão? Sem contar, é claro, o fato de que o ataque surpresa dos Klingons foi devastador o suficiente para ele precisar ir para um posto da Frota, rebocado por outra USS, ao invés de realizar os reparos onde estavam como era de costume.

E isto irritava Uesugi porque cada hora ou dia gasto parado para reparo em um posto e em stand by eram horas e dias que iriam ser compensados mais tarde, anulando qualquer possibilidade de a Thunderbird poder cumprir a escala de folgas pré-programadas antes de sua partida da Terra. Folgas essas que incluíam paradas na Terra.

– Me desculpe também. É que eu... — Tatsuha deu de ombros, recostando-se no travesseiro e exalando longamente. Seu peito doeu, mas não a dor intensa de antes, o que significava que, como sempre, Joyce fez um excelente trabalho. — Hoje não deve ser o meu dia. — murmurou e Ryuichi deu um sorriso fraco.

– Com certeza, não depois da noite de ontem. — o cantor brincou e prendeu a respiração quando viu Tatsuha virar o rosto e desviar o olhar por um segundo.

– Sobre isto... — começou o Capitão, voltando-se para encarar Sakuma. — Eu queria pedir desculpas também.

– Pelo quê?

– Por ter sido indiscreto na noite passada.

– Indiscreto? — Ryuichi fez-se de inocente e Tatsuha rolou os olhos.

– Pelo beijo.

– O que há de errado com o beijo?

– Você sabe o quê. — Uesugi bufou diante do falso ataque de ignorância do outro homem.

– Não, não sei. — Sakuma rebateu entre os dentes e em um tom de desafio.

– Não deveria ter acontecido.

– Como é? — o cantor soltou esganiçado, o que o fez receber um “shh” contrariado de uma enfermeira, acompanhado de um olhar de repreensão. Com um rubor e um pedido de desculpas, Ryuichi continuou a conversa em um tom mais moderado. — Até onde eu me lembro, somos dois adultos cientes de seus atos e livres para fazermos o que bem entendermos.

– Está absolutamente certo.

– Então o que há de errado com o beijo?

– Não deveria ter acontecido.

– Não deveria... — Ryuichi queria gritar. Aqui estava Tatsuha negando um beijo que foi um dos melhores que o cantor recebeu em toda a sua vida, como se o mesmo tivesse sido um grande erro. Um crime que eles tivessem cometido. — Não me diga que isto é por causa da sua esposa? Você me falou que já tinha superado a morte dela.

– Não é por causa da Alyssa. O problema não está em Alyssa...

– Se você vier com o velho papo de “não é você, sou eu” eu não respondo por mim.

– Não é você, nem sou eu, somos nós. — silêncio veio depois desta declaração.

– Como? — Ryuichi perguntou depois de um minuto.

– Não temos como dar certo, Sakuma, você sabe disto. E ontem a noite... Não sei o que me deu. O vinho do jantar, o clima gostoso do passeio, o clima que surgiu quando voltamos, isso tudo foi um incentivo para o beijo, mas não é um incentivo para um relacionamento que tem mais contras do que prós.

– Você é sempre tão irritantemente realista? — Tatsuha deu um sorriso de escárnio para ele.

– De acordo com os meus irmãos, não.

– Não estamos falando aqui do seu passado Capitão, mas sim do seu futuro. De um futuro que podemos ter juntos.

– Que é inviável. E além do mais, nos conhecemos há poucos dias e você não pode querer me convencer que em algumas horas se apaixonou perdidamente por mim. — soltou com escárnio, o que calou qualquer protestou de Ryuichi por um tempo e o fez desviar o olhar para a tela de monitoramento na cabeceira da cama.

Tohma sempre dizia que ele era transparente e mais fácil de se ler que um livro aberto. Portanto, com certeza, se Tatsuha visse a sua expressão neste momento saberia a verdade em segundos.

– Me diz uma coisa. — ele voltou o olhar para Uesugi quando finalmente conseguiu ter o controle de suas emoções. — Me diz que quando nos conhecemos, quando nos tocamos naquele aperto de mãos, você não sentiu o Universo parar ao nosso redor por um segundo. Não sentiu um choque gostoso, do tipo que faz todos os pelos do nosso corpo se arrepiarem de prazer.

Se Tatsuha tinha sentido? Claro! Mas o porquê de ter sentido aquilo, não fazia a mínima ideia e não queria perder tempo formando conjecturas, pois tinha coisas mais importantes com o que se preocupar.

– E então? — Ryuichi perguntou quando viu o homem mais novo ficar um bom tempo em silêncio.

No fim, com uma longa exalada de ar e olhando fixamente dentro dos olhos azuis de Sakuma, Tatsuha ofereceu a sua resposta.

– Não. — Ryuichi não pôde ver no rosto tão sério se o que ele dizia era mentira, por isso não pôde evitar de seu coração partir em vários pedaços a ponto dos cacos descerem pelo seu peito e se acumularem de maneira enjoativa na boca do seu estômago, fazendo o seu café da manhã se revirar e causar um bolo em sua garganta.

– Certo então. — disse em um tom sem emoções, seguido por um breve riso de deboche. — Se os críticos me vissem agora com certeza teriam um prato feito. O dia em que o grande Ryuichi Sakuma encontrou alguém que era bom demais para ele.

– Sr. Sakuma... — Ryuichi ergueu uma mão, o interrompendo. Não queria ouvir mais desculpas, o que queria era sair dali o mais rápido possível antes que as lágrimas que brotavam em seus olhos começassem a rolar pelas suas bochechas.

– Bem Capitão Uesugi, foi um prazer conhecê-lo e agradeço imensamente pela carona. Acho que... Nos vemos por aí. — e com isto ele saiu da cadeira mais rápido que um raio e deixou a Enfermaria para ir refugiar-se em sua cabine e lamber as suas feridas.

Os olhos negros de Tatsuha acompanharam todo o progresso de Ryuichi até o momento em que ele desapareceu além das portas automáticas da ala hospitalar. E assim que as mesmas se fecharam com um sibilo, o Capitão deixou o corpo todo relaxar sobre a cama. Tinha feito uma burrada em dispensar aquele que sempre foi a sua paixão desde criança? Talvez. Mas sabia que tinha feito o certo. Ryuichi não via agora, mas perceberia mais tarde que o Capitão tinha razão. Agora Tatsuha só precisava se convencer também.

oOo

Tatsuha precisou de mais de duas horas de intenso debate para convencer Joyce de que ele estava apto a receber alta da enfermaria e que precisava fazer a vistoria nas partes afetadas da nave para relatar a Pike mais tarde (mesmo que ele soubesse que Adam provavelmente fez o mesmo com imensa destreza nas horas em que o Capitão passou desacordado nos domínios da “rainha má”). Além do fato de que em duas horas a Enterprise estaria emparelhando com a Thunderbird para realizar a transferência de passageiros e carregamento e Uesugi queria estar lá quando isto acontecesse.

Portanto, foi com um resmungo e vários xingamentos em africanês que a médica assinou a alta do Capitão, não sem antes mirá-lo com um olhar de desprezo que ele retribuiu com um sorriso maroto, e entregou à ele o seu uniforme para que o homem pudesse se trocar.

E foi quando Tatsuha estava terminando de abotoar as calças que Eiri surgiu ao lado de sua cama com a expressão de enfado que ele sempre ostentava, e recostou-se no colchão com os braços cruzados sobre o peito enquanto observava o irmão vestir a camisa negra seguida da dourada.

– Posso ajudá-lo? — Tatsuha perguntou com um toque de curiosidade na voz. Em todos os dias desde a chegada das bandas na nave, a única interação que teve com Eiri foi quando o homem lhe deu um tapinha nas costas no jantar que teve com os convidados no primeiro dia. Depois disso mal viu ou ouviu alguma coisa do irmão.

– Sabia que Mika ficou histérica quando soube da extensão dos seus ferimentos? — Tatsuha rolou os olhos, sentando-se na cama para colocar as suas meias.

– Quando Mika não fica histérica por pouca coisa? — Eiri soltou uma risada de escárnio diante do comentário.

– É do seu feitio simplesmente esquecer o fato de que está ferido e continuar como se nada tivesse acontecido? — o escritor perguntou curioso.

Tatsuha sempre foi propenso a acidentes quando era criança. Extremamente atrapalhado, ainda mais quando chegou na puberdade e cresceu demais e muito rápido, perdendo assim o centro de gravidade de seu corpo de membros longos e desajeitados. Mas a cada joelho ralado ele fazia um escândalo de doer os ouvidos de quem estivesse nas imediações. Hoje, ele simplesmente teve que ser dopado pela médica chefe para receber o tratamento necessário porque se recusava a tê-lo.

– Sim, por quê?

– Não lembro de você ser assim quando era...

– Me choca saber que você lembra alguma coisa da minha infância. — o cortou em um tom azedo.

– Mika também me falou do confronto que vocês tiveram. Estou curioso para saber o que você tem a dizer sobre mim.

– É para isso que você veio aqui? Para ouvir umas verdades? — Eiri sorriu com deboche para o irmão enquanto observava ele terminar de calçar as botas e descer da cama em um pulo.

– Por que não?

– Eu tenho mais o que fazer do que ficar listando todos os seus defeitos, Eiri. Até porque, levaria muito tempo até eu terminar. — o sorriso de escárnio de Eiri apenas se alargou.

– Você acha que mudou alguma coisa mas não mudou nada. Está fugindo de um confronto, Tatsuha? Não me surpreendo. Aparentemente, fugir é a sua especialidade. — Tatsuha rosnou baixinho. O que Eiri queira? Levar um cruzado de esquerda bem entre os olhos? Porque no jeito que ele estava indo era isto que iria receber do Capitão se continuasse o amolando.

– Por que você quer ter tanto esta conversa? — ele mirou longamente o homem mais velho, tentando ver na face tão parecida com a sua alguma pista do que tinha incitado Eiri a visitá-lo na enfermaria e começar todo aquele papo sobre resolver as diferenças entre eles. — Você se sente culpado. — declarou em um tom de triunfo quando algo nos olhos claros do irmão o denunciou. — Se sente culpado por eu ter ido embora e como Mika também quer saber o porquê, mas como é emocionalmente constipado é incapaz de simplesmente dizer um “sinto muito” e continuar com a sua vida sem precisar ouvir algumas verdades que não serão nada boas de serem ouvidas. — o silêncio prolongado de Eiri foi confirmação o suficiente.

– Há algum lugar aqui em que possamos conversar sem que ninguém ouça os nossos gritos? — Tatsuha rolou os olhos e apenas seguiu caminho até onde Joyce estava, sob o olhar atento do irmão, e murmurou algo no ouvido dela, a fazendo assentir positivamente com a cabeça.

Logo o Capitão lançou um olhar por cima do ombro para Eiri e com um meneio de cabeça pediu para o loiro segui-lo até o consultório da médica, o que o escritor fez e logo os dois se encontravam na sala, com a porta lacrada e isolando qualquer som que eles pudessem fazer de serem ouvidos pelos curiosos na ala hospitalar.

– Estamos a sós. Então?

– Você tem razão. — Tatsuha arqueou as sobrancelhas diante do que ouviu. — Eu sou emocionalmente constipado.

– Você admitindo isto, preciso verificar com a ponte se o Universo não está implodindo ao nosso redor.

– Mas você é igual ou pior do que eu.

– Como é?

– Você gritou para Mika que não lhe dávamos atenção quando criança e essa foi a razão de todos os problemas gerados em sua adolescência. Mas não somos adivinhos Tatsuha, nunca fomos, você nunca disse nada e portanto nunca fizemos nada. Ao nosso ver, tudo estava normal para você.

– Está colocando a culpa em mim?

– Estou dizendo que você tem mea culpa no que aconteceu. — Tatsuha abriu a boca para protestar, a fechando logo em seguida.

Era horrível admitir e doía em seu ego, mas Eiri tinha razão. Realmente nunca falou para ninguém da sua família como se sentia, achando que como família eles tinham a obrigação de saber. Era a regra, certo? Aparentemente não, e precisou de dez anos para ele expôr os seus sentimentos e começar um processo frágil de reconciliação.

– Certo, você tem razão... em partes. Mas o que está feito está feito, agora o jeito é seguir em frente.

– E aparentemente você quer seguir em frente sem nós.

– O quê?

– Mika também contou que você não está disposto a reatar laços.

– Mika contou o que ela entendeu. Eu disse que tínhamos muitas coisas para serem resolvidas entre nós que levaria mais do que uma simples viagem de sete dias para resolver. E que quando vocês desembarcassem em T-003 sabe-se lá deus quando iríamos nos encontrar de novo e que era, portanto, para deixar tudo como estava. Eu posso ainda ter os meus complexos Eiri, mas não guardo mais mágoa.

– Impossível, os Uesugi são famosos por guardarem rancor do tipo... para sempre. — Tatsuha riu, porque aquilo havia sido a mesma coisa que ele disse dias atrás para Adam quando soube que iria estar dando carona para a sua família em sua adorada Thunderbird.

– E por um acaso você guarda rancor? De eu ter ido embora sem aviso, de eu ter quase ferrado com a sua carreira? — Eiri suspirou, recostando-se na mesa de metal que havia no consultório. A quase destruição de sua carreira. Lembrar disto às vezes fazia uma chama de ódio surgir no peito do escritor, mas não por causa de Tatsuha, mas sim da outra pessoa envolvida no escândalo.

O caso era simples, o ápice que fez os irmãos Uesugi se desentenderem a ponto de o caçula juntar todos os seus pertences e partir na calada da noite sem dizer adeus.

Tatsuha, em uma das milhares de vezes em que passou por Eiri para adquirir favores, ou conquistar mulheres, acabou cruzando com uma que mais causou problemas do que prazeres.

Era uma menina de dezessete anos, conhecida da área onde estava o templo da família e que era fã fervorosa do escritor Eiri Yuki. Na época, Tatsuha não sabia desse detalhe e deixou-se envolver sem perceber que a menina só estava com ele pela semelhança física e depois por ter descoberto o laço consanguíneo entre o aprendiz de monge e o escritor. Mas então o relacionamento foi começando a ficar sério, e Tatsuha não era rapaz de levar nada a sério. A garota começou a se mostrar obsessiva a ponto de ficar regulando todos os passos do jovem Uesugi e foi no dia em que ela chamou Tatsuha de Eiri que o garoto viu que era hora de pular fora.

Entretanto, foi mais fácil dizer do que fazer, pois a menina simplesmente surtou quando Tatsuha quis terminar tudo.

Surtou a ponto de fazer ameaças. Ameaças essas que ele não levou a sério e que explodiram em um escândalo quando um mês depois a garota foi em todas as mídias informar que teve um caso com Eiri Yuki e que esperava um filho dele. O filho, obviamente, era mentira, o caso foi mais difícil de desmentir. Ela tinha fotos com Tatsuha, fotos que eram difíceis de atestar a sua falsidade e a semelhança entre os irmãos só fez as pessoas pensarem que para ocultar a sua identidade, Yuki havia usado lentes de contato e pintado o cabelo. A carreira do escritor quase foi para o fundo do poço por causa do escândalo. Ele não somente tinha supostamente se envolvido com uma menor de idade, mas também traído aquele que estava se tornando o mais novo queridinho do público: Shuichi Shindou.

Obviamente que tudo foi resolvido, depois de muito trabalho da parte de K e Tohma.

No fim as pessoas foram convencidas de que tudo era um boato e o aparecimento para a mídia de alguns laudos médicos atestando que a menina era psicologicamente perturbada ajudou e muito a limpar o nome de Eiri. Mas o estrago na família Uesugi já havia sido feito.

A briga que aconteceu logo que a bomba estourou foi a maior entre os irmãos. As acusações ditas no calor do momento causaram feridas profundas e os meses seguintes, enquanto tudo era resolvido, foram os mais desconfortáveis de todos. Por isso Eiri, diferente de Mika, não se surpreendeu quando na manhã de Natal a irmã lhe ligou informando que Tatsuha tinha ido embora de casa. Em algum momento, lá no fundo, ele sabia que o caçula faria alguma coisa drástica e não foi decepcionado.

Agora, anos depois, ao lembrar-se do que aconteceu, Eiri não sentia raiva de Tatsuha. Sentia raiva de si mesmo por não ter protegido o irmão melhor e raiva da maluca que o usou de tal maneira, ao mesmo tempo agradecendo que no caso de Tatsuha a coisa não escalou para o nível de um desastre como aconteceu com Eiri e a sua relação com Kitazawa.

– Não, não sinto. Fiquei furioso? Fiquei. Mas guardar rancor... Eu estaria sendo hipócrita em dizer que você precisa aprender a escolher melhor com quem anda, não estaria? — Tatsuha riu. Verdade. Eiri também tinha a sua cota de malucos aproveitadores e no caso dele a coisa terminou muito pior, deixando uma marca muito mais profunda e permanente no homem.

– Olha só, estamos nos entendendo e não está nem envolvendo gritos.

– Ah... Tatsuha?

– Hum?

– Eu sinto muito. — Tatsuha arregalou os olhos por um breve momento para depois dar um largo sorriso.

– Shuichi está lhe fazendo bem irmão. — gracejou e Eiri grunhiu, dando um passo à frente e socando o ombro do homem mais novo em um gesto afetuoso.

– Cala a boca.

O sorriso de Tatsuha se alargou e com um movimento rápido ele passou o braço sobre o ombro de Eiri, rindo ao ver que agora o irmão era alguns centímetros mais baixo do que ele, e puxou o corpo esguio contra o seu, lhe dando um meio abraço, com os dois ficando assim, em silêncio, até o momento em que o Comandante Hope chamou o Capitão pelo comunicador para informar que a Enterprise tinha chegado.