Its Not Love, Its Gravitation
9 Capítulo 8
Agora que estava na plataforma do transportador, com roupas civis, sob o olhar curioso do Alferes responsável pelos controles, que Tatsuha se dava conta de que tudo aquilo seria um grande erro prestes a se tornar um desastre. Por um momento ele até pensou em pular fora antes que o barco afundasse – com o perdão do trocadilho – mas Adam fez questão de uma hora antes da hora combinada com Ryuichi, virar-se para Tatsuha no meio da ponte de comando e soltar:
– O senhor não tem um encontro com o Sr. Sakuma, Capitão? — Tatsuha não soube se ficava vermelho de raiva ou de vergonha e se amizades permitiam dito abuso de Imediatos em relação ao seu superior. Com certeza deveria haver alguma coisa no livro de regras da Frota referente a isto, só precisava encontrar onde. E logo que o comentário saiu da boca do Comandante, todos os olhares caíram sobre Tatsuha.
– Eu preciso...
– O carregamento está sendo efetuado conforme o cronograma e sem nenhum problema Capitão. — Mariana Novaz, sua oficial de comunicações, o interrompeu prontamente.
– Mas...
– Estamos parados em um porto Capitão, a chance de algo acontecer é mínima e se acontecer o chamaremos imediatamente. Uma simples docagem de rotina para carregamento de suprimentos não necessita do senhor para monitorar cada acontecimento. — Adam completou na sua melhor voz de “estou relatando com todo o respeito a rotina da nave no momento” e que Tatsuha sabia que se lesse nas entrelinhas veria um “estou zoando com a sua cara de maneira que ao mesmo tempo em que eu vou me divertir a beça com a sua vergonha, não haverá como você se vingar de mim usando sua posição de autoridade sem pagar mico”. Uesugi se perguntava se com tanta gente na Academia, como ele foi logo se associar com Hope.
– Certo... Comandante, a ponte é sua. — declarou, sem ter mais nada a dizer ou desculpas a arrumar e com passos quase arrastados foi para o elevador, podendo ver a expressão de triunfo de Adam e o brilho de divertimento nos olhos de sua tripulação até o último segundo antes das portas se fecharem.
Agora aqui estava ele, a ponto de começar a perambular de um lado para o outro de nervosismo, usando o seu reflexo nos painéis nas paredes do transportador para corrigir qualquer imperfeição em seu cabelo ou roupas, agindo como uma maldita adolescente em seu primeiro encontro.
– Chega Uesugi. Você é um homem adulto, você é um Capitão de uma nave estelar, já enfrentou piratas e outras ameaças espaciais. É só um almoço, um almoço entre amigos, é algo inocente. Você está almoçando com Sakuma... Mon dieu, eu realmente tenho um encontro com Ryuichi Sakuma. — e agora realmente não era uma boa hora para entrar em pânico ao perceber o peso de toda aquela situação.
– Senhor? — o chamado do Alferes o fez parar, pois Tatsuha nem tinha percebido o momento em que tinha começado a perambular. — Está tudo bem senhor?
– Tudo bem? Claro que está tudo bem, está tudo ótimo, por que não estaria? Estou perfeito, estou no topo. Estou...
– Hei Tatsuha! — Ryuichi entrou animado na sala de transporte, com um enorme sorriso em seu rosto jovem, usando uma simples calça jeans, sapato preto de couro e camisa de botões azul marinho que destacavam a cor de seus olhos.
O olhar apreciativo de Tatsuha percorreu todo o corpo do cantor até que, quando percebeu o que fazia, Uesugi desviou os olhos e virou a cabeça para esconder o rubor.
– Gostei da roupa. — o comentário provavelmente era um elogio, mas Tatsuha sentiu-se mal vestido ao lançar outro olhar para a sua calça desbotada pelo tempo, o All Star gasto, a camisa de algodão de alguma banda de rock do século vinte e a jaqueta de couro cujos punhos e lapela estavam puídos de tanto uso. A culpa não era bem dele pela falta de vestimenta adequada. O problema era que passava mais horas do seu dia dentro de um uniforme do que fora dele, por isso tinha poucas opções de roupas para uso em seus dias de folga.
E além do mais, Tatsuha não guardava em seu armário peças designadas especialmente para ocasiões como estas em que ele estava prestes a almoçar com Ryuichi Sakuma. Por Buda, ele realmente estava agindo como o adolescente idiota que um dia foi.
– Você está... apresentável. — apresentável? Por que ele não pegava logo o seu phaser e dava um tiro na própria testa? Ainda mais quando Ryuichi riu divertido diante da sua escolha inusitada de palavras. — Podemos ir então? — Tatsuha apontou para a plataforma e os olhos de Ryuichi ficaram largos.
– Sério mesmo?! — praticamente gritou, indo saltitando até o transportador e ficando sobre um dos círculos. — Eu nunca usei um transportador molecular antes. Dói? — perguntou como uma criança curiosa, o que fez Tatsuha rir.
– Se doesse as pessoas não usariam. — respondeu, parando ao lado dele em um círculo adjacente e virou-se para o Alferes que estava no console observando toda a interação com os olhos largos e confusão expressa em seu rosto. — Ativar Alferes. — a ordem pareceu fazer o pobre coitado que achava ter entrado em alguma dimensão paralela acordar de seu transe e pressionar o botão na tela do computador, vendo em seguida o Capitão e Sakuma desaparecerem em vários pontos de luz.
oOo
– Certo, eu ouvi muitas histórias sobre você, sobre a sua versão adolescente, — Ryuichi começou minutos depois que o garçom terminou de servir a entrada que Tatsuha e ele tinham pedido. — e estou curioso: como alguém que parecia ser tão avesso a ordens agora as segue e faz isto sem pestanejar.
– É a pergunta do ano, não? — Tatsuha gracejou, tomando um gole de sua bebida e depois depositando o copo sobre a mesa. — E não sigo ordens cegamente. — riu quando viu Ryuichi arquear uma sobrancelha em um gesto descrente. — As pessoas têm um esteriótipo sobre militares. Não somos tão rígidos quanto aparentamos ser e ordens são flexíveis. Às vezes precisam ser desobedecidas quando há algo maior em jogo.
– E você já desobedeceu ordens alguma vez?
– Aparentemente está na minha natureza, não? — brincou e Ryuichi riu. — Mas sim. Logo que assumi o comando da Thunderbird há um ano acabei aprendendo que a teoria nem sempre é eficaz na prática.
– Como por exemplo?
– Recebemos ordens dos Almirantes da Frota, Almirantes esses que estão estacionados na Terra ou em algum outro planeta da Federação. Muitos deles já foram Capitães de uma nave estelar, muitos não. A questão é que quando eles dão as ordens, eles as fazem contando que não haja imprevisto no caminho. Mas no espaço sempre ocorrem imprevistos. Eu sou responsável pela vida de centenas de pessoas. Centenas de pessoas que têm família, pessoas queridas os esperando em casa. Pessoas que contam comigo para garantir que eu mantenha seus filhos, pais, primos, irmãos, maridos, esposas, etc seguros e que os traga vivos de volta. Logo, quando a vida dessas pessoas está em risco, ordens tornam-se mundanas não acha?
– Verdade. E você também tem pessoas esperando para que você volte são e salvo para casa, não?
– Sim, eu tenho. — Ryuichi assentiu com a cabeça e beliscou um dos aperitivos sobre a mesa.
– É difícil?
– O quê?
– Ser pai solteiro, ter que ficar longe da sua filha, não estar ao lado dela acompanhando cada mudança, cada descoberta que ela faz. — Tatsuha ficou um bom tempo em silêncio, mirando um ponto qualquer além da janela do restaurante onde eles estavam sentados, e Sakuma achou que talvez tivesse cruzado o limite novamente, que eles ainda não tinham este tipo de relacionamento para incitar tal pergunta tão pessoal.
– É difícil, mas não é impossível. Muitos outros oficiais da Frota estão na mesma situação que eu, então me sinto menos culpado em saber que não serei o único da Federação a ganhar o prêmio de “pior pai do ano”. — brincou, mas Ryuichi pôde ver sob a piada, brilhando nos olhos de Tatsuha, a culpa por estar tão longe de sua garotinha.
– Eu acho que você é um pai incrível.
– Sua opinião veio depois de me conhecer apenas por setenta e duas horas?
– Porque tem que ter muita coragem para fazer o que você está fazendo, sacrificando o que está sacrificando, para dar à ela o melhor.
– Para, você vai me fazer chorar. — Tatsuha gracejou, mesmo que o comentário o tivesse comovido, mas não a ponto de levá-lo as lágrimas.
– Certo, outra pergunta.
– Estou me sentindo em um interrogatório.
– Como é que sendo cunhado de Tohma, eu nunca encontrei você antes? Quero dizer, a probabilidade era bem grande.
– Ah! — Tatsuha quis gargalhar. Essa era a injustiça da sua adolescência: ter todas as razões e oportunidades de conhecer Ryuichi Sakuma, mas essas serem vetadas por aquele que poderia tornar o seu sonho realidade e recusava-se a colaborar. — Tohma Seguchi é uma parede intransponível quando ele quer ser. Da mesma maneira que ele conseguiu ocultar de Mika todos esses anos o meu paradeiro, ele também moveu céus e terra para impedir que nos conhecêssemos.
– Por quê?
– Porque eu era um adolescente movido a hormônios, obcecado pela sua pessoa e que provavelmente iria molestá-lo intensamente no minuto em que pusesse os meus olhos em você. — Ryuichi tinha vontade de retornar a nave naquele exato momento e esganar Tohma. Tatsuha era um par ideal e eles tiveram a oportunidade de se encontrarem anos antes e já terem uma relação duradoura, o que diminuiria o trabalho que agora estava tendo em conquistar o Capitão, algo que não aconteceu por causa da paranoia de Seguchi.
– E isto é ruim por quê? — flertar realmente estava em seu DNA, mesmo que ele tentasse evitar, e segurou um sorriso quando, desta vez, Tatsuha não lhe chamou a atenção.
– Para mim seria ótimo. Mas para você, na época, poderia causar alguns problemas. Eu era menor de idade.
– Se ninguém soubesse...
– Tohma saberia. E a vingança de Tohma sempre é maligna.
– Mas, hipoteticamente claro, se tivéssemos nos conhecido naquela época, você poderia ter me molestado, ou não, e nós teríamos nos conhecido bem mais cedo, poderíamos ser amigos, ou poderíamos ser algo mais.
– E eu nunca viria parar na Frota, nunca conheceria Alyssa, nunca teria a Paige. Várias possibilidades, vários universos paralelos, vários “e se”. Mas de uma coisa eu tenho certeza: se tivéssemos nos encontrado naquela época e nos relacionado, não teria dado certo.
– Por que não?
– Porque eu era um garoto deslumbrado que achava que estava apaixonado. Provavelmente depois de ter conseguido o que queria, ou seja, você, o fogo iria desaparecer e o relacionamento iria terminar tão rápido quanto começou. E talvez o fim não fosse tão bonito assim porque iria ficar um clima entre nós causado pelo fato de que teríamos amigos em comum, o que nos obrigaria a nos encontrar em uma ocasião ou outra.
– É, colocando por este ângulo...
– Ou talvez o fim do nosso relacionamento hipotético seria a causa da minha briga com a minha família, em vez da causa que persiste atualmente, e o ciclo continuaria normalmente. E então nos reencontraríamos anos depois, sob as circunstâncias que estamos agora, e haveria um clima desagradável entre nós e não estaríamos aqui almoçando como duas pessoas se conhecendo e formando uma amizade. — Ryuichi gargalhou.
– Você gosta de elaborar teorias, não?
– Minha especialidade. Um oficial de comando precisa explorar todas as vertentes e possibilidades até o limite antes de tomar uma decisão que seja melhor para si e sua tripulação. Na maioria das vezes tem que fazer isto em segundos porque geralmente está sob fogo inimigo.
– Tenso isto.
– Completamente.
– Mais uma pergunta.
– Isto por um acaso é algum trauma de vida? Passou tantos anos respondendo perguntas de jornalistas que agora você quer infligir tal tortura sobre a minha pessoa? — Ryuichi riu mais uma vez. Sem as vestes de Capitão, fora do seu local de trabalho, Tatsuha adquiria uma pose muito mais relaxada, muito mais divertida, com direito a piadas inteligentes e comentários ácidos que estavam divertindo imensamente o cantor.
– Como ex-fã do Nittle Grasper...
– Nunca disse que deixei de ser, ou disse?
– Você não soltou um grito agudo quando me viu pela primeira vez e exigiu o meu autógrafo.
– É isto que todos os seus fãs fazem quando te veem? Mon dieu, acho que provavelmente já fiz isto um dia, exceto a parte do autógrafo. Mas o grito ao te ver...
– Você sabe francês? — mudou rapidamente de assunto ao perceber a exclamação que Tatsuha soltou na língua.
– A Sra. Uesugi era francesa. Afinal, de onde você acha que vieram os cabelos e olhos claros de Eiri? Certo que hoje a Terra é uma miscigenação de cultura humana e alienígena, mas no Japão a predominância genética ainda é olhos e cabelos negros. E todos os irmãos Uesugi são bilíngues de criação e talvez mais algumas outras línguas por parte da educação.
– Interessante. Mas voltando ao assunto. Como fã discreto e não histérico do Nittle Grasper...
– Nunca se sabe, eu posso estar escondendo o meu verdadeiro eu e esperando o momento certo para ter um faniquito.
– Qual foi a coisa mais vergonhosa que você já fez em nome do NG?
– Você pergunta isto a todos os fãs que conhece?
– Não, só aos especiais. — novamente o tom de flerte, seguido por um longo olhar apreciativo de Ryuichi sobre a figura de Tatsuha, com este, mais uma vez, não o repreendendo por causa de suas atitudes. Sakuma marcou mais um ponto na sua agenda com isto.
– Certo... — Tatsuha recostou na cadeira, cruzou os braços sobre o peito e rolou os olhos para o teto em um gesto pensativo. — A lista é longa.
– A coisa é tão feia assim?
– O que eu posso dizer? O meu passado me condena. Mas o meu maior mico pelo Nittle Grasper... — Tatsuha riu ao lembrar-se de uma história, descruzou os braços, os apoiando sobre a mesa, e voltou o olhar para Ryuichi, inclinando-se mais na direção dele e começando o relato. — Teve uma vez...
oOo
– Bem... Aqui estamos. — Ryuichi anunciou quando Tatsuha e ele pararam em frente a entrada de sua cabine.
O dia havia sido mais proveitoso e divertido do que ele jamais teve em um encontro. Mesmo que, tecnicamente, o que eles tiveram não foi um encontro mas sim uma saída entre amigos. Entretanto, o que era para ser somente um almoço prolongou-se para um passeio ao longo das lojas de souvenir que havia no porto, pelas pequenas praças e cafés e quando perceberam, passaram praticamente a tarde inteira na companhia agradável um do outro, contando histórias sobre as suas vidas, com Tatsuha descobrindo mais sobre a infância de Ryuichi, sobre a sua família em Tauron, sobre quando ele descobriu a paixão pela música e o que o levou a compartilhar essa paixão com o mundo.
Ryuichi descobriu que o Comandante Hope era mais que um amigo, era o irmão que Tatsuha nunca teve em Eiri, que a relação dele com os pais de sua falecida esposa era tão forte que o Capitão os chamava de pai e mãe, que Alyssa havia sido uma mulher incrível a quem Ryuichi invejava por ter conhecido todos os lados e facetas de Tatsuha.
Mas um dia ele também conheceria a fundo o homem na sua frente e o mesmo aconteceria com Tatsuha. Assim como esperava que o Capitão o amasse na mesma intensidade, ou mais, do que amou a sua falecida esposa.
– Tenho que admitir que eu me diverti como não me divirto há anos. — comentou Ryuichi, recostando-se na parede ao lado da entrada da cabine.
– Você está querendo me dizer – Tatsuha deu um passo a frente, abaixando o tom de voz. — que a maior estrela do entretenimento não consegue se entreter? — Sakuma gargalhou, uma risada alta que ecoou pelo corredor vazio, ocasionada parte pela bebida que consumiu no jantar que emendou o almoço, parte pelo fato de que o tom de Tatsuha e as suas palavras eram tudo, menos inocentes.
– Pecado, não? — suspirou, fazendo uma expressão de desentendido e dando um meio sorriso para o Capitão. — Mas mesmo assim agradeço Tatsuha. Fazia muito tempo que eu não era tratado assim tão bem.
– Apenas te tratei com consideração e respeito, como faria com qualquer outra pessoa.
– Exatamente. Me tratou como qualquer outra pessoa. Depois de anos e anos com todos me colocando em um pedestal que eu nunca tive vontade de subir, encontrar alguém que me trate como igual fora da minha roda de amigos é raro. Agradeço por isto.
– De nada. — silêncio, com somente os olhos se encarando e as respirações de ambos sendo o único som a ecoar agora pelo corredor.
– Melhor eu entrar, não? Está tarde. — Ryuichi sussurrou ao mesmo tempo em que Tatsuha deu outro passo à frente, aproximando-se ainda mais.
– Sim, está tarde. — Tatsuha inclinou um pouco a cabeça, aproximando o rosto de ambos.
– E amanhã você trabalha. — a voz de Sakuma ficou ainda mais baixa e ele ergueu uma mão para tocar no peito na sua frente, roçando as pontas dos dedos sobre a estampa da camisa de Tatsuha e que era exibida por debaixo da jaqueta de couro.
– Verdade...
– Tatsuha... — a cada palavra dita as vozes de ambos ficavam ainda mais baixas, quase sumindo.
– Ryuichi... — foi a última coisa que Tatsuha disse antes de envolver um braço em torno da cintura de Sakuma, puxar o corpo dele em um tranco contra o seu e colar os seus lábios nos do cantor.
Ryuichi não pôde, e não quis, resistir. No momento em que os lábios quentes de Tatsuha tocaram os seus, um gemido baixo brotou do fundo de sua garganta, os seus braços deslizaram pelo peito largo, subindo pelos ombros até cruzarem na nuca do Capitão, estreitando ainda mais o espaço entre eles a ponto de que quem passasse no corredor naquele momento não saberia dizer onde começava Tatsuha Uesugi e onde terminava Ryuichi Sakuma.
Com um empurrão, Tatsuha pressionou as costas de Ryuichi contra a parede da nave, o aprisionando entre o metal frio e o seu corpo quente enquanto suas bocas travavam uma batalha milenar que envolvia lábios e línguas e dentes e fôlego.
As mãos de Sakuma fecharam-se nos curtos cabelos negros enquanto as de Tatsuha subiam pelos quadris do cantor e encontravam caminho sob a barra da camisa, espalmando na pele quente da cintura de Ryuichi e a acariciando com gestos langorosos. Sakuma soltou outro gemido, desta vez mais alto e carregado de desejo, que perpassou os seus lábios, encontrando os de Tatsuha e fazendo o corpo inteiro do homem mais novo se arrepiar diante do som primitivo que o cantor emanou. Por fim, quando incontáveis minutos se passaram no relógio, quando todo o ar do pulmão de ambos pareceu se extinguir, eles se separaram. Olhos negros prenderam-se em azuis, cada um procurando alguma coisa dentro do outro sem saber direito o que seria e com um passo para trás, Tatsuha se afastou.
– Melhor eu... — disse ofegante, o rosto rubro e os lábios inchados por causa do beijo, apontando bestamente ao longo do corredor, sem palavras para explicar o que tinha acontecido ou como reagir diante do que tinha acontecido.
– É... — Ryuichi apenas concordou, sem saber direito com o que estava concordando, mas pouco se importando. Tatsuha poderia estar oferecendo uma noite tórrida de sexo selvagem que ele iria aceitar a proposta de bom grado. O beijo já havia prometido muito, Ryuichi daria toda a sua fortuna para saber o que mais o Capitão escondia por debaixo de sua pose de bom moço.
– Então... — Uesugi balbuciou, os pensamentos se embaralhando todos em sua cabeça, e com um percorrer de dedos por entre os fios curtos do cabelo e um breve perambular na frente de Ryuichi, ele chegou a sua decisão. A mais acertada e a mais sensata no momento: bater em retirada. — Boa noite. — disse seco, virando sobre os pés e desaparecendo corredor abaixo o mais rápido que pôde.
Ryuichi apenas continuou olhando na direção que Tatsuha seguiu, mesmo depois dele ter sumido uma esquina, e quando finalmente o seu cérebro voltou a se conectar, um sorriso enorme surgiu em seu rosto e ele deu um pulo e um grito de vitória.
– Ponto para Ryuichi Sakuma! — vibrou, deixando o seu corpo mole, com o coração aos pulos e completamente sóbrio e carregado de excitação, recostar na parede de metal. — Eu ainda sou bom. — soltou com um sorriso presunçoso só de pensar que se tivesse apostado com Tohma, o amigo teria ficado mais pobre neste exato momento.
E com o sorriso ainda no rosto ele entrou em seu quarto direto para o chuveiro. Porque Tatsuha sabia como beijar um homem a ponto de deixá-lo sem fôlego e necessitando rapidamente de um banho frio. E Ryuichi achava que o Capitão estava errado:
Se tivessem se conhecido mais cedo, talvez as chances deles terem um relacionamento mais duradouro fossem maiores do que Tatsuha especulou. Tal sensualidade e calor não eram adquiridas com o tempo, eram apenas aperfeiçoadas, o que significava que o Capitão Uesugi sempre foi assim e era uma pena que Ryuichi não esteve lá para vê-lo crescer e se aprimorar. Mas não fazia muita diferença, porque ele estava ali hoje, justamente aproveitando tudo de bom que a vida ensinou a Tatsuha e querendo explorar esses ensinamentos até a última lição.
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