Saber o que o Capitão fazia e onde ele estaria na nave não foi um trabalho muito difícil para Ryuichi. Bastou uma visita ao refeitório da tripulação, sentar em uma mesa com a sua bandeja de café da manhã para vários oficiais o rodearem para tecer elogios, pedir fotos e autógrafos. E entre um flash e uma assinatura, Sakuma usou de todo o seu charme para descobrir mais coisas sobre a rotina de Tatsuha e quase deu um pulo no lugar de vitória quando um tenente soltou:

- Acho que o Capitão está neste momento na sala de máquinas fazendo a revisão quinzenal... — agora Ryuichi só precisava saber onde ficava a sala de máquinas, o que também não foi difícil de descobrir com os computadores de bordo nos corredores solícitos em informar a localização de lugares e pessoas dentro da nave.

Portanto, dez minutos depois ele se viu percorrendo um labirinto de tubos, escadas, motores e conexões que eram o coração da Thunderbird e com um sorriso enorme divisou a sua presa inclinada sobre um console ao lado de um outro oficial com quem discutia particularidades técnicas.

- Nossa, nunca pensei que precisava de tanto para uma nave voar. — comentou ao aproximar-se da dupla e como se tivesse levado um choque, Tatsuha ficou ereto e virou-se em um estalo para mirar o cantor.

- Sr. Sakuma, o que faz aqui? Esta área é proibida para acesso civil.

- Pensei que o você tinha nos dado carta branca para explorarmos a nave. Ao menos foi o que disse a Shuichi e Eiri noite passada. — comentou coquete, ignorando o olhar mortífero das íris negras sobre a sua pessoa.

- Explorar áreas de acesso permitido ao público. O que não é o caso no momento. Sr. Sakuma, vou ter que solicitar que um oficial o escolte para fora daqui.

- E este oficial seria o senhor, Capitão? — Ryuichi não pôde resistir, seduzir estava em seu DNA, e o engenheiro chefe, Bradley Thompson, soltou um baixo assovio quando viu o corpo todo de Tatsuha retesar. Ryuichi Sakuma não sabia que tinha acabado de cutucar o ninho de marimbondo com vara curta.

- Tenente Dias? — a voz de Tatsuha parecia entalada na garganta e a vontade que tinha dele mesmo arrastar Ryuichi para fora dali pelos cabelos era imensa, mas não o faria por estar na presença de subordinados. Quem aquela estrela afetada do rock pensava que era? Uma coisa era paquerá-lo na sala de oficiais, na companhia apenas de parentes e amigos, outra era fazer isto abertamente em seu ambiente de trabalho, na frente de tripulantes sob as suas ordens. Era praticamente humilhante.

- Senhor? — o aparecimento do Tenente Dias ao seu lado foi a única coisa que impediu Tatsuha de enfiar Ryuichi em uma cápsula de emergência e ejetá-lo no primeiro planeta que aparecesse.

- Por favor, escolte o Sr. Sakuma de volta à cabine dele.

- Está me restringindo a minha cabine Capitão? — Ryuichi provocou e desta vez Bradley assoviou alto e longamente.

Frequentou a Academia com Tatsuha, embora o Capitão, na época, estivesse dois anos abaixo do seu, mas ao se conhecerem tornaram-se bons amigos e uma coisa que ele sabia de Uesugi era que não importava o quão “descolado” ele fosse, ainda sim Tatsuha era perfeccionista. Um homem para quem foi entregue o comando de uma nave com mais de seiscentos tripulantes. Homens, mulheres e alienígenas que embora fossem oficiais capazes de executarem o seu trabalho, em um momento de crise, iriam procurar pelo seu Capitão por apoio. E o Capitão sabia qual era o peso de tamanha responsabilidade e não gostava nem um pouco de ter alguém de fora afetando o equilíbrio perfeito que os comandantes e subordinados da Thunderbird alcançaram.

- Será preciso Sr. Sakuma? — Tatsuha perguntou em um tom seco, o tom que ele usava quando queria se fazer entender sem ser questionado, e apreciou quando Ryuichi somente respondeu com uma negativa de cabeça. — Ótimo. Tenente Dias, prossiga. — e deu as costas para o cantor e o Tenente que postou-se ao lado dele e pediu baixinho que Ryuichi o acompanhasse.

- Por um momento eu pensei que você iria arrancar a cabeça dele. — Bradley comentou quando Sakuma e Dias deixaram a sala de máquinas. Tatsuha também tinha a paciência muito curta. — E o que diabos Ryuichi Sakuma estava fazendo flertando com você?

- Por que todo mundo acha completamente impossível alguém como Sakuma se interessar por mim?

- Porque vocês são água e vinho, vinagre e óleo? Completamente diferentes e não se misturam de jeito nenhum?

- O que ele quer não me interessa. O que me interessa é saber o que diabos você andou fazendo com os meus propulsores de popa.

oOo

- Tohma! — foi todo o aviso que Tohma teve antes de uma mão fechar dolorosamente em seu braço e o puxar com força para dentro da uma sala de conferência vazia e soltá-lo da mesma maneira brusca com que o segurou.

Seguchi virou sobre os saltos somente para ver que o seu atacante era Tatsuha e ele parecia prestes a soltar fogo pelas orelhas.

- O que Sakuma quer? Arruinar a minha carreira? — Tohma quis bater com a testa na mesa de metal no centro da sala.

- O que foi que ele fez? — perguntou em um gemido, porque tinha medo de ouvir a resposta.

- Devo resumir ou dizer item por item da lista? — Tohma grunhiu. — Entrar em local de acesso proibido a civis, flertar com o Capitão diante de seus subordinados, segui-lo como uma sombra e cometer o disparate de convidá-lo para sair no meio de um refeitório lotado durante o almoço. Eu sempre soube que Sakuma era pancado das ideias, mas ou você o controla ou eu irei ejetá-lo na próxima estrela que passarmos.

Tohma sabia a que nível estava a frustração e a raiva de Tatsuha pelo simples fato de que durante toda a sua explicação, o Capitão não tinha erguido o tom de voz uma única vez. Esta era uma característica dos Uesugi: quando estavam com raiva e da pá virada, faziam um escândalo. Quando estavam furiosos e planejando a sua morte e a ocultação do corpo para ninguém jamais descobrir, detalhavam tudo em um tom impessoal, como se estivessem comentando sobre o clima.

- Acho que você percebeu que Ryuichi está interessado em você.

- Difícil não perceber. Não quando ele parece simplesmente brotar do chão onde quer que eu esteja.

- É curioso como anos atrás os papéis eram invertidos, não? — Tatsuha estreitou os olhos na direção de Tohma.

- Não me venha dizer que o karma está se fazendo conhecer, Seguchi. Você agiu como uma parede de ferro impenetrável entre Sakuma e eu, impedindo qualquer encontro. Minha adoração adolescente ficava restrita somente a shows e vídeos e outras mídias das quais tinha acesso. Mas Sakuma não, ele está me seguindo em meu ambiente de trabalho e isto nenhum profissional sério suportaria. — Seguchi dava toda a razão à Tatsuha e não queria causar ao homem mais novo mais problemas do que eles estavam causando.

- Eu irei falar com ele.

- Faça isto.

- Mas não prometo nada. — Tatsuha rosnou de raiva. — Ryuichi é teimoso, quando coloca os olhos em alguém faz de tudo para tê-lo, até o momento que se cansa e o descarta. Foi assim com vários outros amantes...

- Não será assim comigo Tohma! Não sou um objeto, não sou uma coisa, e muito menos estou disposto a ser mais um caso de Ryuichi Sakuma. Se ele quer um oficial da Frota para adicionar a lista de conquistas dele que procure um outro otário. Este daqui está fora do mercado.

- Farei o meu melhor.

- Faça o impossível! — ordenou e Tohma bufou.

Não era um dos subordinados de Tatsuha, mas não iria lembrar ao homem disto no momento, pois ele parecia uma pilha de nervos. E com um aceno de despedida para Seguchi, Tatsuha seguiu para a porta apenas para grunhir quando esta se abriu revelando o rosto surpreso de um Ryuichi que estava prestes a tocar a campainha ao lado dela.

- O que você faz aqui? — a voz de Tatsuha era mais cortante que o vento frio do Ártico.

- Eu estava... — Ryuichi começou a se explicar quando foi bruscamente interrompido pela mão de Tohma sobre a sua boca, o calando. Tatsuha empertigou-se por completo e ao passar pelos dois para deixar a sala, lançou um olhar de aviso a Seguchi que deu ao cunhado um sorriso fraco antes de puxar Sakuma sala adentro e trancar a porta.

- Você simplesmente perdeu o juízo? — Seguchi esbravejou.

- Não sei do que você está falando.

- Não sabe? Sabe por que eu estava aqui com o Tatsuha? Porque ele estava exigindo que eu colocasse uma coleira em você para que você pare de segui-lo como um cachorro sem dono.

- Não sabia que ele tinha desses fetiches. — Ryuichi sorriu matreiro enquanto se sentava à mesa.

- Eu não estou brincando Ryuichi! — Tohma esbravejou, espalmando as mãos sobre o tampo de metal da mesa. — O que você está fazendo é um disparate e um desrespeito.

- Oras, só porque eu estou flertando com ele não acho...

- Você está flertando com um Capitão da Frota Estelar dentro da nave que ele comanda, sob os olhares daqueles que lhe são subordinados! Isto, no mínimo, é humilhante. Como você se sentiria se um estranho começasse a flertar com você em seu local de trabalho? — Tohma tentou apelar para o bom senso do amigo. Sabia que Ryuichi era um profissional que quando estava nos palcos, em um estúdio ou na frente das câmeras, não deixava a vida pessoal afetar a sua carreira.

- É, olhando por esse lado.

- Sem contar que ele não está interessado em você.

- Quem disse?

- O homem está prestes a te ejetar em uma estrela se você continuar a perturbá-lo. Acho que isto já é uma grande pista dos sentimentos dele em relação a você.

- Você disse que ele era meu fã.

- Era Ryuichi, do verbo de que não é mais. — Tohma suspirou, um suspiro cansado, e puxou uma cadeira, sentando-se de frente para o amigo. — Eu não entendo por que desta súbita obsessão pelo Tatsuha. Você está agindo da mesma maneira que o Shuichi... — Ryuichi prontamente desviou o olhar, mirando os olhos em um quadro qualquer que enfeitava a sala e Seguchi franziu as sobrancelhas diante dessa reação. — Está agindo da mesma maneira que Shuichi agiu quando conheceu Eiri: insistente, sem noção de limites, fazendo de tudo e mais um pouco para conquistar Eiri... Ryuichi? — Tohma estreitou os olhos na direção do amigo. — Há algo que você precisa me contar? — as bochechas de Sakuma ficaram vermelhas e os olhos dele foram para as mãos sobre os seus joelhos.

- Você sabe que Shuichi é tauriano também, não sabe? A avó dele é uma imigrante de Tauron. — Tohma desconfiava. Afinal, a semelhança física entre Shuichi e Ryuichi era uma indicação, talvez ambos até fizessem parte até do mesmo clã, e para um homem de trinta e um anos Shuichi ainda parecia ser o garoto de dezenove que assinou um contrato com a famigerada NG Records.

- Sim, e? — Ryuichi engoliu em seco.

- Temos a fama de vaidosos, flertadores, conquistadores... Mas me diz uma coisa Tohma: você já viu algum tauriano, após ter se casado, trair o seu conjugue ou olhar para outra pessoa que não fosse ele? — agora que parava para pensar, não.

A mãe de Ryuichi era apaixonada pelo pai dele e extremamente devotada e o mesmo acontecia com Shuichi e Eiri. Mesmo com Eiri sendo um poço de indiferença, mesmo com tudo o que fez e deixou de fazer, ainda sim Shindou permanecia ao lado do escritor, firme e forte.

- Não.

- É porque quando encontramos o nosso parceiro ideal à ele seremos fieis até a nossa morte ou a dele, ou de ambos. E quando o encontramos, fazemos de tudo para conquistá-lo, tê-lo para nós.

- Não me diga... — por favor, não diga, Tohma não queria ouvir. Ryuichi poderia aprontar tudo, menos isto.

- Quando eu apertei a mão do Tatsuha no dia que nos conhecemos, eu senti a conexão. O Universo parou e voltou em um choque e agora todo o meu corpo, todo o meu ser vibra querendo estar em contato com ele, querendo a atenção dele.

- Por tudo que é mais sagrado, Ryuichi! Logo o Tatsuha?

- Não é algo que escolhemos! — Ryuichi levantou a cabeça em um estalo, mirando o amigo seriamente. — Acontece.

- E agora você está o perseguindo como uma cadela no cio. — Tohma zombou.

- TOHMA! — rebateu Ryuichi, ultrajado.

- Pois para ele é o que está parecendo!

- Eu não consigo evitar, o meu instinto por completo me força a querer clamá-lo como parceiro.

- Pois mande o seu instinto tomar um banho de água fria, porque tudo o que ele está fazendo é afastar o Tatsuha de você.

- Sério? — os ombros de Ryuichi arriaram e ele adquiriu uma expressão tão desolada que Tohma sentiu pena dele.

- Ryuichi... Se você realmente está falando sério...

- É claro que estou falando sério! — soltou ofendido. — O parceiro ideal é um assunto sério para os taurianos. Só porque agimos como agimos não significa que somos fúteis em relação a sentimentos. — Tohma não duvidava disto, pois sempre associou taurianos como a versão alienígena dos hippies.

- Certo, se é tão sério assim, você vai ter que procurar outra forma de abordagem. Pois a que você está fazendo não vai funcionar.

- Por que não? Funcionou com o Shuichi.

- Eiri é emocionalmente problemático. Quando Shuichi surgiu na vida dele como um furacão e balançou os alicerces dele, as barreiras de Eiri estavam fracas demais para resistir a tal invasão. Tatsuha, no entanto, é diferente. Posso dizer que de todos os irmãos Uesugi, ele foi o que saiu mais normal. Então se você quer fazer isto, vai ter que aprender a conhecê-lo antes de investir nele.

- E como faço isto?

- Pesquisa.

- Com quem? Com os irmãos dele com quem ele não falou por dez anos? Com você, com quem ele manteve contato?

- Não. Meu contato com Tatsuha sempre foi breve, apenas avisos de que ele estava bem. Eu iria sugerir o Comandante Hope.

- Comandante Hope?

- Um Imediato é o braço direito do seu Capitão, sua razão, seu suporte e o seu confessor.

- Poético isto. — Ryuichi disse e um tom de zombaria e recebeu um olha atravessado de Tohma por causa da interrupção, o que o fez se calar e continuar ouvindo pacientemente.

- E o fato de que Hope é o melhor amigo de Tatsuha desde a Academia é um ponto a favor. — agora sim Tohma estava falando coisa com coisa na opinião de Ryuichi.

- Então Hope e eu temos um encontro... E uma longa conversa pela frente.

Porque se a maneira tradicional de conquista tauriana não estava funcionando, Ryuichi mudaria as regras do jogo. Mas no final da semana Tatsuha seria seu ou ele não se chamava Ryuichi Sakuma.