Its Not Love, Its Gravitation
7 Capítulo 6
- Deixe-me ver se eu entendi: você quer saber mais sobre o nosso Capitão. — foi a pergunta seguida de um arquear de sobrancelha pela parte de Adam enquanto um Ryuichi com uma expressão esperançosa, e que tinha o abordado mais cedo no refeitório e pedido por um momento em particular, o mirava com os seus intensos olhos azuis. — Isto é sério?
- Por que eu brincaria?
- Por que você falaria sério? Você é Ryuichi Sakuma e Tatsuha é o... Tatsuha. — falou como se o Capitão não tivesse nada de especial e Ryuichi torceu o rosto em desagrado. Tatsuha era especial, ao menos para ele, e não admitiria que outra pessoa dissesse o contrário.
- Não há nada de errado com o Tatsuha!
- Concordo. O que há de errado é uma estrela do rock se interessar por ele.
- Por quê? — Ryuichi perguntou confuso. Ele era um mero mortal, não importava o quão famoso era, o quão idolatrado era, ainda tinha desejos e anseios como qualquer outro ser humano.
- Porque vocês são tão diferentes que nem chega a ser engraçado.
- Não pelo que eu soube de Shuichi e Tohma. Quando era mais novo o Tatsuha...
- Quando era mais novo Sr. Sakuma. Tatsuha não é mais criança. Eu entendo que a família dele ache o conceito difícil de associar, afinal, a última vez que o viram ele mal tinha chegado a maioridade, mas o que temos aqui é um homem feito que viajou o Espaço, lutou batalhas, foi treinado para aguentar e manter a cabeça no lugar durante grandes adversidades. E você? Você vive de entreter as pessoas com a sua música, de fazer o público vibrar, de perder o controle. Tatsuha tem que manter o controle sempre, pois perdê-lo significa perder a vida e a de centenas de pessoas por quem ele é responsável. Ele foi o seu grande fã quando criança? Sim, e daí? Eu também tive os meus ídolos na adolescência, pessoas que se eu cruzar na rua hoje não olharia duas vezes.
- O que você está dizendo é que Tatsuha é muito bom para mim? Muita areia para o meu caminhão?
- O que eu estou dizendo é que qualquer relação entre vocês dois está fadada ao fracasso.
- Como pode ter certeza? É vidente por um acaso?
- Realista.
- Mas nada romântico pelo que eu vejo.
- Você quer romance? Que tal isto: Eu conto tudo o que sei e mais um pouco sobre Tatsuha, seus gostos, desgostos, planos para o futuro, sua carreira e você usa isto ao seu favor e bola o seu plano de conquista. Talvez um jantar a dois para pedir desculpas pela sua gafe de ontem de ficar o seguindo para cima e para baixo. Vai agir como um homem maduro, controlar o seu charme e no final do jantar Tatsuha o verá com outros olhos e o perdoará, porque ele é legal desta maneira. Então você vê nisto a oportunidade de continuar as suas investidas, tudo na base da amizade para não assustá-lo. E então, quando perceber, estarão passando todas as horas livres do dia de Tatsuha juntos. E então ele começa a se interessar por você, não a paixonite de adolescente, mas algo maduro, algo adulto e o relacionamento de vocês evolui para um beijo sem compromissos e logo depois um beijo cheio de promessas e no fim vocês estarão nus e gemendo sob os lençóis.
Não era uma ideia de todo ruim, Ryuichi pensou com um sorriso.
- Mas então a semana vai acabar, nós vamos chegar a T-003, você e a sua trupe vão fazer o seu show e a Thunderbird vai seguir viagem. Porque é isto o que vai acontecer: nós vamos seguir viagem sob as ordens da Frota e você vai seguir o seu caminho em turnê.
- Não é bem assim.
- Não é bem assim? Me diz um momento, qualquer momento, em que vocês terão a oportunidade de se reencontrarem? Tatsuha não vai largar o posto dele na Frota por você Sakuma. Ele batalhou para chegar onde está e com a redução da nossa armada desde o ataque de Nero, estamos passando mais tempo patrulhando o Espaço do que na Terra porque ainda não temos naves o suficiente para fazerem o revezamento das rotas. E você? Por acaso vai deixar a sua carreira para se alistar na Frota? Acho que já está meio tarde.
- Tecnicamente...
- Eu sei, a sua descendência o torna ainda apto a entrar para a Frota Estelar, mas você vai querer isto? Eu tive uma namorada que era fã do Nittle Grasper e já fui a um show de vocês por causa disto. Já o vi no palco Sr. Sakuma, vi o seu rosto quando está cantando, clara demonstração de que você é apaixonado pelo que faz, que a música é a sua vida e enquanto você tiver forças irá continuar compondo e cantando. Então não queira me convencer que você largaria tudo para o alto por causa do Tatsuha.
- Tatsuha não vai ficar no comando de uma nave para sempre.
- Mas vai ficar por um bom tempo. E você vai aguentar esperar? Isso se você estiver disposto a esperar. Porque também é difícil de me convencer que em somente três dias você se apaixonou pelo Capitão o suficiente para fazer loucuras de amor por ele.
- É complicado. — Ryuichi abaixou a cabeça, escondendo as bochechas rubras.
- Ah, o dito par perfeito dos taurianos. — Sakuma ergueu a cabeça em um estalo ao ouvir isto.
- Como sabe disto? — perguntou com os olhos largos.
- Sei de várias coisas que iriam te surpreender. Assim como sei que não existe um par perfeito para os taurianos. Há vários ao redor do Universo e quando você encontra um deles, é fiel a ele até o fim dos seus dias ou dos dele, o que vier primeiro. E se o parceiro morrer, haverá outros candidatos para preencher a vaga.
- Você fala como se fosse algo tão simples.
- E não é?
- Não! Antes do Tatsuha eu nunca encontrei um par perfeito para mim e agora que encontrei um, não importa que eu cruze com outros por aí. Enquanto Tatsuha estiver vivo a minha mente e o meu corpo somente reconhecerão a ele como parceiro e irão querer a ele e meus instintos gritarão sempre para tê-lo e você não pode me negar este direito! — falou em um tom quase histérico.
Havia ouvido tantas histórias de sua avó, tantas coisas que lhe pareceram tão fantasiosas sobre pares perfeitos que o fez rir sobre o assunto. Mas agora que estava vivendo a situação, não a achava mais tão engraçada assim. A ideia de não ter Tatsuha era desesperadora.
- Verdade, não posso. Mas você também não pode me negar o direito de querer proteger um amigo, ainda mais de um coração partido. — Ryuichi estreitou os olhos na direção de Adam, detectando algo mais nas palavras dele.
- Tatsuha já teve o coração partido alguma vez?
- Não exatamente.
- Então? Ou esta é o tipo de história que é dele para contar?
- A história não é segredo para ninguém, Sakuma. Todos na Frota a conhecem, ela consta nos registros.
- Se não é nada traumático...
- É traumático. O ataque de Nero fez muitos perderem amigos, entes queridos, eu perdi muitos companheiros de Academia por causa de um romulano sem noção. — Ryuichi engoliu em seco, temendo o que ia ouvir.
- E Tatsuha? Quem ele perdeu?
- A esposa. — uma pedra de gelo desceu pelo peito de Sakuma até alojar-se dentro do estômago dele ao ouvir isto.
- Tatsuha foi casado?
- E muito feliz. Mas a esposa dele foi designada para a Farragut, uma das naves destruídas no ataque, enquanto Tatsuha estava na Akira junto com o restante da frota no sistema Laurenciano. Ter se tornado Capitão da Thunderbird foi o que o ajudou a sair do luto, isto e outras coisas. Não creio que ele vai deixar tudo para trás por sua causa. E eu acredito que ele ainda é apaixonado pela falecida esposa.
- Trocando em miúdos: eu não tenho chance alguma.
- Talvez sim, talvez não. Mas eu não apostaria todas as minhas fichas.
- Me diga uma coisa: como amigo, você não quer ver Tatsuha feliz?
- Sim.
- E você não acha que eu vou fazê-lo feliz?
- Tenho as minhas dúvidas.
- Mas nunca terá as respostas se não me deixar tentar. — Adam cruzou os braços sobre o peito largo, recostando-se na cadeira e mirando Ryuichi longamente em silêncio.
O cantor tinha razão, Hope queria ver Tatsuha feliz, ainda mais depois do baque que ele sofreu com a perda de Alyssa, mas ainda sim estava receoso em deixar que Ryuichi fosse o responsável pelo coração de seu amigo. Mas também poderia estar enganado. Isto só o tempo iria dizer.
- O que você gostaria de saber, Sakuma? — Ryuichi abriu um grande sorriso e quase deu um pulo na cadeira de felicidade antes de começar a listar tudo o que gostaria de saber sobre o Capitão Uesugi.
oOo
- Você? — o tom seco com que Ryuichi foi recebido assim que a porta da cabine se abriu indicava o tamanho da frustração de Tatsuha. Frustração esta que Sakuma estava ignorando em favor de apreciar a paisagem que se apresentava aos seus olhos.
Uesugi não estava vestindo a camisa dourada de Capitão, mas somente a blusa negra de malha que ficava por debaixo desta e que parecia ter sido costurada entorno dos músculos que ela destacava. As calças negras também deixavam pouco para a imaginação e os pés descalços adicionavam mais charme ao conjunto da obra que fazia Ryuichi querer avançar sobre o Capitão sem nenhum pudor, mas se refreando a tempo.
- Podemos conversar? — Sakuma conseguiu encontrar a sua voz em algum buraco de seu cérebro quase em curto e achar neste mesmo lugar um pouco de autocontrole para prosseguir com o seu plano. Não adiantava, depois da conversa elucidativa que teve com o Comandante Hope, destruir tudo por causa dos seus hormônios desvairados. Tatsuha lançou um longo olhar para o cantor, como se ponderando a proposta, e depois de dois minutos em silêncio finalmente deu um passo para o lado cedendo passagem para Ryuichi entrar.
Assim que pisou dentro da cabine do Capitão, os olhos de Sakuma percorreram todo o aposento com curiosidade, tentando ver na decoração algum traço da personalidade de Tatsuha.
A camisa do uniforme estava jogada sobre a cama. Havia uma pilha de PADDs sobre a mesa de trabalho ao lado de umas três canecas vazias de café. Canecas de verdade, de plástico endurecido com caricaturas e desenhos ao seu redor. Uma prateleira acima da cama continha alguns exemplares raros, em couro e papel, de livros famosos da literatura mundial e sobre a mesa do criado mudo duas coisas lhe chamaram a atenção: o relógio digital despertador de séculos atrás e uma pequena tela de LCD onde algumas fotos passavam. Todas contendo Tatsuha acompanhado de várias pessoas, provavelmente amigos da Academia, mas todas com um fator em comum: junto com Tatsuha estava uma bela mulher de pele alva, rosto pintado de sardas, longos cabelos negros e grandes olhos verdes.
Ryuichi presumiu que aquela fosse a esposa falecida dele e com isto sentiu outra pedra de gelo descer pelo seu peito e se alojar em sua barriga.
- Se veio aqui somente para apreciar a minha cabine... — a voz de Tatsuha fez Ryuichi dar um pulo no lugar e voltar os olhos para o homem perto da porta com os braços cruzados sobre o peito. De rabo de olho ele viu a tela passar mais uma foto onde Tatsuha vestia o traje de gala da Frota Estelar e abraçava a mulher que usava um belo vestido branco clássico. Ryuichi engoliu em seco ao decifrar imediatamente aquela imagem.
- Não sabia que era casado. — sutil Sakuma, realmente sutil, pensou com escárnio.
Tatsuha arqueou as sobrancelhas e desviou o olhar do rosto de Ryuichi para a moldura que ele observava, percebendo como ele tinha chegado àquela conclusão.
- Se eu soubesse, não teria...
- Se soubesse iria surtir algum efeito? Você iria parar de dar em cima de mim? — sim, pensou Ryuichi, embora todo o seu ser fosse gritar de raiva por renegar o parceiro, taurianos tinham princípios. Quando o par ideal já tinha sido clamado por outro, eles não iriam desfazer essa união. Uma união afetiva era sagrada para os integrantes da raça Tauron, fosse laços familiares, fosse laço entre conjugues.
- Sim. — vocalizou o que antes havia respondido só em pensamento. — E onde ela está? — continuou em um tom desinteressado, mesmo que já soubesse a resposta. Tatsuha estreitou os olhos na direção de Ryuichi, achando toda aquela conversa e todo aquele comportamento do cantor mais estranho do que o normal, mas resolveu arquivar esta informação no fundo da sua mente e utilizá-la novamente quando a oportunidade surgisse.
- Morta. — respondeu calmamente.
A morte de Alyssa obviamente o havia abalado, pois nenhuma pessoa com coração e sentimentos iria deixar de reagir diante da perda da amada. Foi difícil superar? Claro que foi. Mas o trabalho e os amigos o ajudaram.
Havia conhecido Alyssa na Academia e ambos tinham como prioridade em suas carreiras serem estacionados em alguma nave da Frota, portanto sabiam que a profissão que tinham escolhido era de risco. Assim como sabiam que a possibilidade de trabalharem na mesma nave era mínima. Tatsuha estava seguindo o programa de formação de oficiais de comando, Alyssa estava no programa de formação de oficiais táticos e de combate. Pelas regras da Frota, a mesma evitava colocar parentes e conjugues na mesma embarcação quando um deles fosse ser o oficial superior do outro.
Portanto, sempre souberam que jamais trabalhariam juntos, que teriam que manter um relacionamento à distância e que a chance de morrerem em missão era grande. No entanto, quando se casaram fizeram uma promessa um ao outro além dos votos de matrimônio: prometeram que se a possibilidade de jamais envelhecerem juntos surgisse, que eles iriam lamentar a perda, iriam chorar o que tinham que chorar e quando o luto encerrasse, seguiriam em frente.
Na teoria a ideia era boa, mas quando Tatsuha teve que colocá-la em prática, foi mais difícil do que imaginou. Mas ele superou. A dor da perda transformou-se em saudades e vez ou outra a depressão dava um olá quando datas especiais para o casal surgiam. Mas ele ainda era jovem, ainda tinha muito o que viver, ainda tinha uma carreira a seguir e Alyssa nunca iria querer vê-lo se lamentando pelos cantos. Porque se isso acontecesse, Tatsuha tinha certeza de que ela voltaria do mundo dos mortos somente para lhe dar uma surra para deixar de ser tão fresco.
Como mencionado antes, ao contrário de Eiri, Tatsuha sabia deixar o passado no passado e seguir em frente. Além do mais, havia outro fator na equação que deveria ser considerado, que era de grande importância para se reerguer e continuar firme e forte.
- Eu sinto muito.
- Por quê? Não foi você quem a matou.
- Sim, mas...
- Formalidades realmente são a coisa mais idiota inventada pela humanidade. — Tatsuha o cortou, indo até a moldura e a recolhendo, mirando a foto de seu casamento com um sorriso.
- Tem razão. — Ryuichi sentiu outro bolo entalar em sua garganta ao ver o sorriso do Capitão para a mulher na foto. Adam estava certo, Tatsuha ainda era apaixonado pela falecida esposa e como ele iria competir com isto? Como conseguiria em cinco dias ter aquele olhar que o Capitão estava lançando para a imagem ser lançado para a sua pessoa? — Mas ainda sim deve ter sido difícil.
- Sempre é difícil. — Tatsuha colocou a moldura novamente sobre o criado-mudo. — Me apresente uma única pessoa emocionalmente capaz que nunca tenha chorado a morte de algum ente querido.
- Mas você me parece bem... Para alguém que perdeu a mulher amada.
- Foi há dois anos, não dá para ficar me lamuriando para sempre. Chorar não vai trazer Alyssa de volta e eu tenho outras coisas com que me preocupar e me importar além disso. — Ryuichi arqueou uma sobrancelha diante dessa declaração.
- A sua tripulação? — arriscou. Capitães tinham grandes responsabilidades e Adam havia dito que receber o comando da Thunderbird ajudou Tatsuha a superar a perda da esposa.
- Também. — também? Sua mente curiosa comichou em saber mais um pouco sobre o homem na sua frente.
O Comandante Hope havia contado histórias da Academia sobre Tatsuha, mas não abordou mais a fundo em nada a relação do homem com Alyssa. Disse que a vida amorosa do melhor amigo não era assunto para ficar discutindo com pessoas que pretendiam conquistá-lo.
Tatsuha apenas mirou Ryuichi longamente, vendo no rosto do cantor a curiosidade estampada e com um sorriso apontou para a moldura sobre o criado-mudo.
Os olhos de Sakuma foram até a tela que agora tinha mudado a imagem para exibir uma nova foto. Nela havia um casal de idade com sorrisos largos em seus rostos, acentuando as linhas de expressão nos mesmos, e no colo da mulher estava uma menina. Talvez entre dois e três anos, com cabelos negros como a noite e grandes olhos verdes e sorriso de dentes de leite em um rosto arredondado e de bochechas rosadas.
- É a...
- O nome dela é Paige. — Ryuichi quis gritar. Com uma esposa morta ele conseguia lidar, mas a mesma deixou marcas permanentes na vida de Tatsuha. Havia uma criança que ligava o Capitão à mulher e isso somente complicava as coisas. — Mas não é sobre a minha família que você veio conversar Sr. Sakuma.
- Tecnicamente não. Mas você começou a falar dela, então eu aproveitei a deixa. — Tatsuha riu, sacudindo a cabeça em uma negativa.
Não tinha nada para esconder ou do que se envergonhar, por isso tagarelar sobre a sua família era algo que ele gostava de fazer, principalmente sobre a sua filha. Qualquer pessoa que perguntasse a qualquer integrante da tripulação sobre a vida pessoal do Capitão iria saber sobre esses detalhes. Afinal, de duas em duas semanas a Thunderbird se aproximava o suficiente da Terra para estabelecer contato, possibilitando assim que o Capitão conversasse com os seus sogros e com Paige que sorria para Tatsuha brilhantemente, como uma nova estrela nascendo, cada vez que via o pai.
- Mas o que o traz realmente aqui Sr. Sakuma?
- Primeiramente: será que podemos parar com as formalidades? Sr. Sakuma me faz me sentir... velho. — Tatsuha arqueou uma sobrancelha para ele. — Certo, em contagem humana eu já estou na meia idade, mas eu pareço na meia idade para você? — Ryuichi estendeu os braços ao lado do corpo como para uma melhor avaliação de Tatsuha que tinha que admitir que o cantor parecia, no máximo, dois anos mais velho do que ele.
- Sakuma então.
- Ryuichi.
- Não força.
- Okay. Segundo: eu gostaria de pedir desculpas.
- Desculpas?
- Sim... Pelas minhas atitudes de ontem e pelas de hoje.
- Ou seja, o fato de que você me seguiu como uma sombra o dia inteiro, interrompendo o meu trabalho e pondo a sua vida em risco ao entrar em áreas proibidas a civis.
- Sim. É só que... faz parte da minha genética, sabe? Você é interessante, eu quis me aproximar de você, e taurianos são flertadores por natureza, então... faça as contas.
- Realmente é uma maneira bem estranha de se aproximar das pessoas. Foi assim com o Tohma quando vocês se conheceram? — Ryuichi riu.
Basicamente também havia sido assim com Tohma, mas Seguchi nunca foi cação, já nasceu tubarão e portanto desde criança era ardiloso e manipulador. Por isso ele recebeu as cantadas de Ryuichi com a maior naturalidade do mundo e o dispensou com meia dúzia de palavras bem empregadas. E foi assim que surgiu a amizade disfuncional que eles tinham. Entretanto, Tatsuha era um caso especial, mas ele não precisava saber disso no momento.
- Estou perdoado então?
- Vai parar de flertar comigo?
- Vou tentar. Flertar é algo natural à minha pessoa. Às vezes faço sem perceber e se isto acontecer, me avise. Mas eu realmente me interessei por você Tatsuha.
- A ironia do destino é cômica.
- Por quê?
- Porque anos atrás eu daria tudo para ter você assim, a dois passos de mim, querendo me conhecer.
- Oh... Tohma comentou, você era meu fã. — Tatsuha não ficou surpreso que Seguchi tenha divulgado esta informação. Afinal, era outra coisa sobre ele que não era segredo para ninguém e que era fonte do divertimento de Adam nas horas vagas. — E aparentemente não é mais. — Uesugi riu.
- Foi uma fase que passou.
- Mas eu tenho fãs de todas as idades.
- Está sentindo o seu ego desinflar ao saber que você não prendeu o interesse de um fã por muito tempo? — brincou, puxando uma cadeira da mesa de trabalho e a oferecendo a Ryuichi. Sakuma viu nisto um progresso, pois não somente Tatsuha não o expulsou da cabine depois do seu pedido de desculpas, mas agora o estava convidando para uma conversa. Com o coração aos pulos diante desta conquista sentou-se, sendo imitado por Tatsuha que acomodou-se em outra cadeira.
- Imensamente.
- Eu ainda gosto das músicas do Nittle Grasper, mas não fico mais acompanhando qualquer notinha ou lançamento de um novo single da banda.
- Meu ego se recuperou parcialmente depois de ouvir isto, mas ainda está muito deprimido diante da notícia. — Tatsuha riu e o coração de Ryuichi falhou em uma batida ao ouvir a gargalhada que o homem deu por causa dele.
- Se eu disser que gostei do último filme que você fez, o seu ego vai melhorar?
- Talvez... Mas vai precisar de muita bajulação para ele finalmente voltar ao topo.
- Não sabia que ele era tão grande assim. — Uesugi sacudiu a cabeça em uma negativa, divertido com tudo o que acontecia. — Nunca pensei que este dia chegaria. Eu, frente a frente com Ryuichi Sakuma tendo uma conversa normal com ele. Estou surpreso.
- Por quê?
- Porque você é bem diferente do que pensei.
- Diferente...?
- Para começar: onde está o Kumaguro?
- Foi aposentado há anos, ninguém te avisou?
- Você parou de carregá-lo para cima e para baixo e ninguém desconfiou?
- Não. Foi algo gradual. Aos poucos parei de levá-lo para todos os lugares e no fim simplesmente parei.
- E por que você o levava?
- Minha mãe me deu o Kumaguro como companhia e amuleto da sorte quando eu disse à ela que iria seguir a carreira musical. Ela é uma pesquisadora, sabe? Especializada em cultura e comportamento e essa foi uma das razões para ela ter ido para a Terra. É fascinada pelo comportamento humano e as suas várias culturas. Ela me disse que com o meu talento e dedicação sabia que eu chegaria longe, que eu alcançaria o sucesso e com isto viria a idolatria. Faz parte da natureza humana endeusar celebridades, o que foi que aconteceu comigo. O Kumaguro era também uma lembrança das minhas origens, cada vez que eu fazia uma besteira ou a fama começava a subir a cabeça eu olhava para ele e lembrava dos sermões da minha mãe. Mas agora, depois de tanto tempo, já sou mais pé no chão e não preciso mais dele para me trazer a realidade.
- E quanto a atitude infantil?
- Bem, eu era infantil. Quando o Nittle Grasper começou eu só tinha dezoito anos terrestres, eu era meio crianção mesmo e deslumbrado com tudo o que estava acontecendo. Mas aí o tempo passou e eu fiquei estigmatizado com a imagem infantil, mesmo que eu tivesse amadurecido, e Tohma falou para eu continuar porque era isto que ajudava na popularidade da banda. E as pessoas começaram a esperar esta atitude de mim.
- E você continua com ela? Faz anos, como disse, que não acompanho nada relacionado a você ou ao NG, então não sei se o Sakuma com quem estou conversando agora é o mesmo que se apresenta ao público.
- É o mesmo, pode ter certeza. Chegou uma hora que eu tive que parar com o teatro porque estava ficando “velho” por assim dizer e as pessoas acham ridículo um homem de trinta, quarenta anos, agindo como uma criança. Confesso que foi um alívio. Uma vez ou outra regredir a infância é bom, ajuda a aliviar o estresse, mas ficar agindo assim toda hora, todos os dias, é cansativo.
- Confesso que estou preferindo o Sakuma de agora do que o de antes.
- Posso fazer uma pergunta pessoal? — Ryuichi começou, sentindo-se incentivado pela conversa que estavam tendo. Em poucos minutos havia descoberto coisas sobre o Tatsuha e confessado coisas para ele que levaria meses de interação para ocorrer.
Era impressionante como era fácil falar com o homem na sua frente porque simplesmente ele não o olhava com aquele brilho de adoração ou com respeito desmedido por ele ser uma pessoa famosa. Tatsuha apenas o olhava como se ele fosse mais um na multidão e falava com ele como iguais e isto era reconfortante. As únicas pessoas que o tratavam assim eram a sua família e os seus amigos mais chegados. Ou seja, Tohma e Noriko. Por isso não fazia muitas amizades fora da banda, pois as pessoas nunca o viam além do grande Ryuichi Sakuma. Mas Tatsuha não estava sendo assim e Ryuichi estava adorando cada momento.
- Depois de tantas? — o tom não era de repreensão, mas sim de brincadeira, e Ryuichi sorriu levemente.
- Por que você foi embora do Japão? — Tatsuha adquiriu uma expressão séria e Sakuma preocupou-se de que finalmente tivesse passado dos limites e em uma frase estragado tudo o que conquistou até o momento.
- Acho que ainda não estamos tão próximos assim para esta pergunta ser respondida.
- Me desculpe. Eu não queria... — falou cabisbaixo.
- Não disse que ela nunca será respondida, mas não será hoje. — isto fez o coração de Ryuichi tamborilar em seu peito, esperançoso. — Vamos apenas dizer que eu era jovem, cometi muitas burradas e uma delas teve consequências desastrosas.
- Consequências que ainda afetam a sua vida?
- Não. O problema foi resolvido, mas obviamente que deixou marcas.
- Como o fato de que você foi embora e ficou anos sem contatar a sua família.
- Foi um ato necessário.
- E um dia você irá me dizer o porquê.
- Um dia.
- Então irei aguardar este dia ansiosamente. — Ryuichi sorriu porque sabia que quando este dia chegasse, significaria que Tatsuha e ele estariam próximos o suficientes para serem grandes amigos. E, quem sabe, algo mais.
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