Itazura
2 É dado o primeiro passo
Notas iniciais
— Você vai escrever cartas com pedidos de desculpa e entregar pessoalmente? Se você já via estar lá, não é mais fácil só se curvar e pedir perdão?
Ino não olhou para Sasuke apoiado na porta de seu quarto. Estava ocupada analisando os papeis de carta e envelopes recém adquiridos da papelaria do campus.
— As pessoas dizem que gestos valem mais que palavras, mas isso não é verdade. Palavras bem escritas podem mudar o rumo da história. – explicou.
Tendo crescido na família fundadora dos serviços postais do país, a loira aprendeu a dar valor a todos os mínimos detalhes de uma carta: do espaçamento das linhas ao selo usado, tudo deveria condizer com as intenções do remetente para que a mensagem intencionada fosse passada com sucesso.
Sasuke respirou fundo e enfiou as mãos nos bolsos do casaco, um pouco surpreso pelas palavras de Ino fazerem sentido. Por conhece-la há pouco tempo, tinha a impressão de que a loira não passava de uma garota mimada e burra. Talvez não fosse o caso, afinal.
— Então você realmente está arrependida do que fez? – perguntou.
Ela pensou um pouco.
A sensação ao ver os dois carros se chocarem permaneceu em sua mente por muitas noites: o barulho horrível da batida, o frio na espinha quando os policiais gritaram com ela... Mas aquilo ela não iria admitir.
— Não. – respondeu. Apesar do rumo que as coisas tomaram naquela noite, Ino não achava que nenhuma de suas ações precisava ser perdoada porque no fim das contas, nenhum mal foi causado de fato e todos os prejuízos foram pagos em troca de retirarem as queixas. – Mas não é como se eu precisasse ser sincera nos pedidos de desculpa. Só tenho que fazer a minha parte e convencer meus pais de que me tornei alguém melhor.
Sasuke não respondeu. Já esperava por esse tipo de resposta.
— O que está fazendo no meu quarto afinal? – Ino quis saber, olhando para o moreno pela primeira vez.
— Ah sim. – ele mostrou a tela do celular que estava desbloqueado e aberto no aplicativo de mensagens – Estou tendo problemas com a Sakura.
— Quem é Sakura? – perguntou desinteressada enquanto voltava a manusear sua coleção de selos prontos.
— A ex-namorada do meu irmão. – respondeu, ganhando imediatamente a atenção da loira. – Você disse que eu deveria me mostrar interessado no que ela dissesse, então eu menti dizendo que também gostava de BL*. Agora ela só tá falando disso e eu não sei como continuar a conversa.
— Nossa, eu amo BL! – respondeu empolgada. – Qual é a obra favorita dela?
— Sei lá. Ela falou de alguns títulos, mas não conheço nenhum. Não leio mangá. — Sasuke passou o celular e ela leu as mensagens anteriores com rapidez. – Acha que consegue responder por mim de novo?
Ino sorriu com um ar de superioridade.
— Digamos que eu fui presidente do fã-clube oficial de Yaoi de Konoha no Ensino Médio.
Sasuke voltou a apoiar o corpo na parede e cruzou os braços.
— Você fala como se fosse algo para se orgulhar. – implicou.
— Bata na sua boca antes que eu bata. BLs fizeram parte dos primeiros anos da adolescência de toda uma geração e... – Ino começou a defender, mas logo se lembrou de algo – Espera aí. Você já me disse que seu irmão tem 28 anos. Quantos anos ela tem para ainda ler BL?
— Sakura é da nossa idade mesmo. Estudamos juntos e foi assim que ela conheceu o Itachi.
— Então ela tem 23 anos? Achei que era uma mulher bem mais velha, pela forma que digita. – Ino passou o dedo pela tela, subindo pelas mensagens sem muitas abreviações e repleta de vírgulas bem localizadas.
Ino voltou ao pé da conversa para responder finalmente. Contou à garota sobre seus momentos favoritos da saga e Sakura não demorou a responder com as suas.
— Não se engane. Eu conheço Sakura pessoalmente e ela não é tão maneira quanto está fazendo parecer. Lembre-se de que ela acha que está me enrolando.
Ino deu de ombros.
— Ela parece legal. – insistiu.
O moreno riu.
— Quer privacidade para conversar com sua nova amiga?
Ino revirou os olhos e devolveu o telefone.
— E você? Não tem amigos com quem sair num sábado à noite? – devolveu ácida, ao que Sasuke levantou os braços em sinal de trégua e se retirou. Assim que se viu sozinha novamente, voltou a se concentrar no trabalho importante que tinha diante de si: as cartas.
Pensou bastante e decidiu que faria por fases, se preocupando com uma pessoa de cada vez, começando por quem ela imaginou ser o mais fácil de abordar. Aquele que sentou ao seu lado no banco traseiro de uma viatura naquela noite fatídica, o primeiro nome da lista: Kiba Inuzuka.
**********
"Como eu estou?" Ela perguntou.
"Assustadora." Ele respondeu.
Ino sorriu com a resposta positiva e Kiba sorriu de volta, talvez imaginando que aquilo significaria algo mais. Erro dele.
Quando pediu ao cinegrafista amador que capturasse em vídeo os momentos preciosos de sua ideia genial para uma pegadinha, Ino não pensava em nada além da própria satisfação pessoal e não poderia se importar menos com a pessoa por trás da câmera. Apenas calhou de saber que o rapaz, que por acaso era seu calouro e com quem já tinha conversado durante algumas festas da faculdade, tinha uma câmera com lentes noturnas.
"Então vamos colocar esse show na estrada!" comemorou ao levantar a parte da frente de seu vestido branco para evitar de tropeçar durante o percurso até a ruela onde tudo aconteceria.
Havia apenas um restaurante naquela rua que era alguns metros afastada da entrada do campus. De resto, lotes vazios transformados em estacionamentos e um posto de gasolina fechado para reformas compunham o cenário semiabandonado. Era o local perfeito para assustar motoristas desavisados.
Com o vestido longo decorado com sangue falso, os cabelos loiros soltos e emaranhados e a lente de contato de cobertura total que transformava seus olhos em orbes pretas e profundas, Ino estava convencida de que era a assombração perfeita.
Kiba se agachou atrás da mureta do restaurante e esperou pela ordem de começar a filmar.
Quando viu os faróis se aproximando, sentiu o coração disparar de empolgação.
Aquela seria uma boa brincadeira.
De repente, as luzes ficaram mais fortes e ela ouviu um grito agudo ao longe, que a fez despertar.
Abriu os olhos e esperou as pupilas se acostumarem à falta de iluminação. Estava no seu quarto da cobertura e aquilo tinha sido apenas um sonho. Tocou suavemente a tela de seu celular que estava na cabeceira e gemeu em desgosto por faltar menos de dez minutos para seu despertador tocar, anunciando mais uma segunda-feira.
O fim de semana demorou a passar para Ino, que ficou o fim de sábado e o domingo inteiro presa na elaboração de sua primeira carta. Encontrar as palavras em si não era difícil e também não tinha problemas com sua caligrafia ou qualquer coisa do tipo. Para Ino Yamanaka, a questão era a falta total de vontade de fazer o que tinha de fazer e uma pequena parcela de desconforto por escrever coisas que não sentia.
De qualquer forma, sabia que não havia outra saída, então no fim acabou escrevendo tudo o que precisava ser escrito e, às onze horas da noite de domingo, fechou o envelope. Sua última tarefa do dia era mandar uma mensagem para Kiba, que respondeu mais rápido do que ela esperava.
Aproveitando que já estava acordada, afastou o pensamento sobre o pesadelo e foi tomar seu banho. Depois, escolheu roupas que considerou passarem uma impressão boa e séria – blazer e calça social – e prendeu os cabelos loiros no costumeiro rabo de cavalo que já era basicamente sua marca registrada, adicionando um aplique para dar o volume desejado ao penteado simples.
— Vai pra uma entrevista de emprego? – Sasuke, que tomava café na cozinha, quis saber.
— Eu já disse que não preciso trabalhar. – respondeu dando uma última olhada no espelho do hall de entrada. Então bateu com uma das mãos na bolsa – Vou entregar a primeira carta hoje. Me deseje sorte.
A Yamanaka chegou no prédio onde suas aulas do curso de Produção Cultural aconteciam e esperou na fila da cafeteria. Quando chegou a sua vez, abriu a carteira e se surpreendeu com as poucas notas restantes. Talvez tivesse exagerado um pouco em suas compras na papelaria...
"Economizar é complicado." Pensou consigo mesma quando recebeu o café junto do sanduíche mais barato do menu. "Será que vou mesmo precisar procurar um emprego?"
Enquanto devaneava, os minutos foram passando e ela quase se atrasou para a aula inicial. A loira mal conseguia se concentrar nos power points e nas leituras propostas por professores empolgados demais para uma segunda de manhã. Estava ansiosa demais para o intervalo do meio dia, quando se encontraria com Kiba e daria o primeiro passo para ser livre de seu castigo cruel. Assim que os ponteiros marcaram meio dia, Ino se levantou e saiu da sala, incapaz de esperar pelas palavras finais do professor.
Foi para o ponto de encontro — o jardim dos fundos da faculdade — e se sentou em um banco próximo ao pequeno lago artificial onde carpas vermelhas e alaranjadas nadavam em círculos.
Desbloqueou o celular e releu as mensagens trocadas com Kiba na noite anterior. O rapaz concordou em encontra-la naquela tarde durante a pausa entre turnos, mas os dois sabiam que teriam de ser breves devido a um certo acordo assinado por eles na presença dos advogados da família Yamanaka...
— Ino! – ela ouviu seu nome sendo chamado e guardou o celular. Viu a figura do garoto há apenas alguns metros de distância que vinha em sua direção e percebeu que ele estava sem camisa e tinha os cabelos molhados.
— E aí, Kiba. – ela levantou para cumprimenta-lo.
— Desculpa a forma como eu estou. Acabei de sair do treino de natação. – ele sorriu bobo, deixando a mostra os caninos bem definidos e brilhantes – Há quanto tempo né. Confesso que fiquei surpreso quando mandou a mensagem. Não estamos infringindo a lei ou algo assim?
Quando toda a situação foi contida e abafada, todas as partes envolvidas concordaram em assinar um acordo de silêncio sobre a participação da Yamanaka no acidente. Muito dinheiro foi movimentado para que essa pequena corrupção acontecesse e, para que não houvesse pontas soltas, os advogados de sua família pediram também um segundo acordo de restrição de contato entre Ino e Kiba para não levantar a atenção da mídia.
Mesmo assim, ali estavam os dois, se encontrando em plena luz do dia. Ela por insensatez; ele por burrice. Em defesa de Ino, ela imaginou que se fossem avistados juntos na calada da noite, soaria ainda mais suspeito do que dessa forma.
— Não é uma lei. É só um contrato que em si é meio ilegal, mas enfim... – ela sacudiu a cabeça – Não foi pra falar disso que te chamei aqui hoje.
Sem querer perder mais tempo, a loira pegou o envelope em sua bolsa e estendeu em direção à Kiba, para logo depois baixar a cabeça respeitosamente.
— O-o que é isso? – o moreno deu um passo para trás, assustado com a formalidade do ato.
Ino respirou fundo. Agora não poderia voltar atrás. Abriu a boca e vomitou toda a baboseira que memorizou no dia anterior:
— Gostaria de pedir perdão pelos meus atos infantis e pela pessoa que eu era até poucos dias atrás. Estou trabalhando no meu crescimento pessoal e quero começar reparando meus erros com você, Kiba. Agradeço por ter concordado em não processar a minha família pelos danos causados e espero que possamos deixar tudo isso para trás.
Assim que terminou de falar, Ino levantou a cabeça. Foi nesse momento, enquanto sua visão subia do chão, que ela a viu: parada há poucos passos de Kiba, uma mulher de cabelos escuros e lisos assistia a cena com seus olhos perolados cheios de curiosidade.
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