Itazura

1 Uma última brincadeira


Notas iniciais
Olá! Mais um shoujo-ai gostosinho! Dessa vez com um ship que eu nunca escrevi, mas que foi pedido no grupo FNS, então estou aqui me arriscando. No fim, acho que as personalidades da trama pediam Ino e Hinata mesmo e qualquer outro ship ficaria fora demais do personagem. A ideia é que a fanfic não seja muito longa (coisa de 10, 12 capítulos). Espero que gostem. Boa leitura!

Com a mão esquerda, Ino tateava a mesa; com a direita, rodava a caneta entre os dedos. À sua frente, a caneca favorita e uma folha de papel preenchida com alguns nomes. Lembrou então de mais uma pessoa envolvida no acidente e anotou. Não sabia seu nome, mas "Filha babaca do dono do restaurante" serviria para identificar. Percebendo que a lista já estava maior do que imaginou que seria, começou a se perguntar se a recompensa realmente valeria o esforço e a futura humilhação a qual se submeteria. Quer dizer, quantas pessoas ali realmente se lembrariam dela? Estava escuro e ninguém se machucou seriamente, então não é como se fosse grande coisa...

Deitado no sofá ao lado, Sasuke Uchiha, seu colega de apartamento cantarolava alguma coisa. Como Ino nunca foi um exemplo de foco e concentração, virou a cabeça em direção ao rapaz e se deixou ser distraída tentando adivinhar que música seria aquela. Apesar de seu esforço para ouvir e ler seus lábios, não estava chegando a nenhuma conclusão. Foi então que, sem saber que era observado, o garoto levou uma das mãos aos shorts e coçou o saco. Ino não pôde conter a cara de nojo e voltou os olhos para sua lista concluindo que, definitivamente, precisava da sua vida de volta.

Pegou a caneca com o café já frio e girou o objeto até que o dizer "itazura" gravado na porcelana estivesse virado para si.

Itazura: pegadinha, travessura, zoeira. Se há uma palavra no dicionário japonês que defina Ino Yamanaka, essa palavra é itazura. Desenvolveu o gosto pelas trollagens aos 12 anos de idade, quando os vídeos de pegadinha estavam em alta na internet. Desde então, tem dedicado seu tempo livre a importunar as pessoas ao seu redor com as mais elaboradas brincadeiras.

No entanto, por causa de um pequeno acidente no alto de seus 23 anos, teria de dar adeus ao estilo de vida.

O pensamento a fez grunhir de desgosto.

— Problemas com a lista? – perguntou Sasuke.

Ino devolveu a bebida à mesa e voltou a encarar o rapaz.

— Tem mais gente do que eu esperava. – respondeu – Como meus pais querem que eu me desculpe com todas essas pessoas se eles não me derem dinheiro pra isso?

— Como assim?

— Não posso fazer um pedido de desculpas decente sem um presente. E para dar presentes, tenho que ter dinheiro. Para ter dinheiro, preciso que meus pais descongelem a minha conta. Mas eles só vão fazer isso quando eu me tornar "uma pessoa melhor". – Ino fez aspas com os dedos enquanto imitava a voz de sua mãe em tom de deboche.

Sasuke sentou no sofá e coçou a nuca. Algumas mechas do cabelo alisado estavam amassadas, apontando para cima. Em um dia normal, só isso seria o bastante para fazer Ino rir, mas hoje se sentia deprimida demais para implicar com o emo que conhecia há menos de um mês.

— E quanto ao dinheiro que eu te pago? Não é exatamente pra isso que eu estou aqui? – quis saber.

Quando Sasuke viu o anúncio de quarto vago numa das coberturas mais bem localizadas da cidade que dava vista para o campus da faculdade por um preço tão acessível, achou perigosamente suspeito, mas não quis deixar de verificar. Até porque estava com os dias contados em sua própria casa e aquela vaga parecia ter caído do céu bem quando mais precisava.

Assim que chegou para ver o apartamento, a locatária deixou claro que não precisava de ajuda para dividir as contas e que quem quer que fosse seu novo inquilino ou inquilina estaria ali apenas para bancar os luxos ao qual estava acostumada antes de ficar repentinamente sem fundos. Disse também que aquela seria uma situação temporária e que assim que as coisas voltassem a ser como eram, ela o expulsaria imediatamente. Eram condições estranhas e totalmente inseguras, mas Sasuke sabia reconhecer uma boa oportunidade quando via, então não fez muitas perguntas e logo já estavam morando juntos.

— Você mal banca minhas idas ao cabeleireiro. – a loira respondeu – Será que vou ter que alugar seu quarto para mais uma pessoa?

Ela começou a divagar, mas logo foi cortada pelo moreno, que viu sua vida luxuosa às custas da burguesinha sendo ameaçada.

— Ino, já pensou em arrumar um emprego? Pelo que você me contou, acho que seria uma boa forma de impressionar seus pais.

— Um emprego? Por favor... Eu sou uma Yamanaka.

Sasuke suspirou.

— Eu sei, mas se for mesmo cortada da herança, será apenas Ino. O Yamanaka será apenas um enfeite no fim do seu registro. Sem a grana dos seus pais, você não vai poder bancar esse apartamento maneiro sem um trabalho.

— Eu não tenho que pagar as contas do apartamento. Eles ainda me dão dinheiro para comida e contas essenciais.

— Por enquanto né. Acha que eles vão continuar te bancando quando se formar? Porque pelas leis nacionais, basta que você apareça com um diploma e eles têm todo o direito de te largas às moscas.

Ino foi pega de surpresa com a suposição. Não havia parado para pensar nisso.

No mês passado, pouco antes das aulas de seu último semestre na Universidade Estadual de Konoha começarem, Ino pode ou não ter sido levado à polícia graças a uma de suas pegadinhas que pode ou não ter saído do controle. Essa situação pode ou não ter ido parar nos jornais locais e isso pode ou não ter deixado seus pais muito emputecidos com a exposição. A história foi toda abafada pelos advogados caríssimos contratados pela família de Ino, então ela só pode se referir dessa forma ao acontecido – que pode ou não ter acontecido.

Para ensina-la uma lição, seu pai congelou a conta corrente que era de uso exclusivo da filha, o que por si só já seria um castigo pesado para a menina mimada acostumada à um alto padrão de vida. No entanto, sua mãe não ficou satisfeita apenas com isso e elevou seu castigo para um nível que Ino jamais esperaria: para dar um basta a forma infantil e inconsequente com que a filha levava a vida, deixou claro que a fortuna Yamanaka é um privilégio do qual apenas um herdeiro digno poderia usufruir e, por isso, Ino estaria cortada da herança enquanto não aprendesse a largar suas brincadeirinhas para se tornar uma pessoa melhor.

— Mas afinal o que você fez de tão errado nessa última pegadinha? – Sasuke quis saber.

— Você sabe que eu não posso falar. – respondeu – E não foi tão ruim assim. Ninguém se feriu gravemente.

— Você machucou alguém? – perguntou incrédulo, perguntando-se mais uma vez se deveria mesmo aceitar morar barato com alguém que tem passagem pela polícia.

— Foi um acidente de carro, então tecnicamente os motoristas que machucaram um ao outro. E o dono do restaurante teve um infarto, o que tecnicamente também não é culpa minha. – respondeu como se não fosse nada. – Entendeu?

Sasuke ficou boquiaberto.

— Tem ideia de como essas informações soltas soam? — nesse momento, seu celular vibrou anunciando a chegada de uma mensagem e ele rapidamente se desinteressou pela conversa. – Nossa, que cara de pau.

— O quê? Quem? – Ino também se desconectou completamente de seu drama e foi até o sofá.

Sasuke mostrou a tela do aparelho, onde se liam algumas mensagens de um número desconhecido.

— Essa é a namorada do meu irmão. Ou ex, dependendo do dia. – explicou – Toda vez que eles terminam ela fica me mandando mensagens para saber se ele está deprimido ou se encontrando com outra garota.

— Uau. Parece uma relação saudável. – Ino ironizou.

— Nem me diga... Mas não é só ela não. Os dois são malucos. – comentou — O pior é que dessa vez ela está claramente tentando dar em cima de mim. Deve ser alguma forma nova de atingir o meu irmão... Acredita que ele já me acusou de estar me encontrando com ela em segredo? São dois paranoicos, sinceramente. Vou avisar que não estou mais morando com ele. Desse jeito pode ser que ela me deixe em paz.

Uma faísca acendeu no cérebro da Yamanaka e ela apertou os lábios tentando se segurar, mas quando viu, já estava falando:

— E se você fingir cair na conversa dela?

Sasuke levantou uma das sobrancelhas.

— Por que eu faria isso?

— Porque seria uma pegadinha incrível. – respondeu, mas logo tapou a própria boca. Não podia se deixar levar ou estaria ferrada de verdade.

Se levantou do sofá e voltou para sua lista. Tinha até o fim do semestre para provar que podia viver sem incorporar itazura ou nunca mais veria o dinheiro que era seu por direito.

O moreno, por outro lado, pareceu se animar com a ideia.

— Está me dizendo pra fingir me apaixonar pela namorada do meu irmão?

— Não estou dizendo nada. – respondeu seca enquanto sacudia as pernas por debaixo da mesa tentando conter sua empolgação – Mas se você quiser trollar ela para dar uma lição nos dois, acho que seria bem engraçado. Pra você, é claro. Eu não estou envolvida nisso.

Sasuke sorriu.

— Que ideia genial! Já sei como começar: Vou mandar uma foto do pau.

Ino pulou da cadeira e arrancou o celular das mãos do rapaz.

— Não, porra! Ela não está interessada em você de verdade e mesmo se estivesse, mandar uma foto não solicitada do pau nunca é a alternativa correta. – ela suspirou e leu as mensagens, então começou a digitar habilmente uma resposta adequada antes de devolver o aparelho ao dono – Aqui. Você tem que fingir se interessar pelas coisas que ela diz. E não basta que você pareça apaixonado. Você tem que fazê-la se apaixonar por você também. Só assim, você vai poder zoar os dois de uma forma épica!

Sasuke leu a resposta que envolvia coisas como "sinto muito pelo término", "você merece alguém que te valorize mais" e "me conte do seu dia".

— Você é maligna. – riu.

Ela então percebeu o que tinha feito e esfregou o rosto.

— Não tem como eu me livrar do meu amor por itazura de uma hora para a outra... É o meu dom na Terra!

— E se essa for a última vez? – insistiu.

— Como uma despedida? – a loira sorriu gostando da interpretação – E não seria pelo meu divertimento, mas sim para ajudar meu bom amigo Sasuke a se livrar de dois abusados. Isso, no fim das contas, não é ser uma pessoa melhor?

— Com certeza. – ele incentivou.

Ino deu um último gole em seu café frio e estendeu uma das mãos.

— Falando nisso, preciso do dinheiro do aluguel. Tenho que comprar algumas coisas para os meus pedidos de desculpas.

Sasuke fechou a cara.

— Uma pessoa melhor não cobra seus "bons amigos".

— Não exagere. Nós dois sabemos que eu falei isso da boca pra fora. Você ainda vai ter que pagar para morar aqui.

Notas finais
Prometo que é InoHina hahahaha