It was all yellow
1 Bons e velhos tempos
Notas iniciais
Bill sempre gostou de amarelo.
Tanto que quando a professora da pré escola pediu para os alunos pintarem o desenho de uma flor com suas cores favoritas, Bill escolheu o lápis amarelo.
Amarelo estava em tudo em sua vida. Desde seus desenhos até suas roupas.
Era a cor da riqueza de seus pais, do sol que adorava sentir todas as manhãs e de sua fruta favorita. Em todas suas melhores lembranças o amarelo estava presente, assim como um garoto que se não fosse pelo amarelo, não teria conhecido.
Bill se lembrava muito bem daquela tarde que Dipper Pines derrubara tinta amarela em sua camiseta favorita. E se recorda melhor ainda de como não ficara nem um pouquinho bravo com o acontecimento.
O rosto choroso de Pines ao ver a bagunça que fizera fez com que qualquer partícula de seu ser tivesse vontade de abraça-lo forte e dizer que não tinha sido nada demais.
E teria feito isso se não tivesse completamente sujo de tinta amarela.
Dipper era muito maior que Bill aquela época, o que fez com que a camiseta do jovem Pinheirinho ficasse ridiculamente grande em Cipher.
Bill às vezes sentia falta de como as coisas eram no Ensino Fundamental, Dipper sempre carregando seus livros malucos sobre monstros agarrado a sua irmã Mabel, que usava os suéteres mais brilhantes que alguém já havia visto.
O jovem de cabelos amarelos se sentia tão bem quando no intervalo, Dipper o procurava para mostrar suas teorias da conspiração que nenhuma outra pessoa além de Bill poderia se interessar.
E todos os dias Bill torcia para que aquilo durasse para sempre.
Porém chegou a data fatídica em que a família de Cipher decidira se mudar para Alemanha para “cuidar de sua tia doente”, assim separando Bill da primeira pessoa que amou, sem nem mesmo saber o que era amar.
Bill era podre de rico e todas as outras formas coloquiais de dizer que alguém era bem de vida. Esse era Bill, o garoto rico que só usava amarelo.
Diferente do clichê de garoto rico, Bill nunca foi fútil e se não fosse pelo seu sobrenome, as pessoas ao seu redor iriam jurar que era apenas um garotinho normal que gostava muito de amarelo.
Em Gravity Falls todo mundo conhecia sua família, porém não imaginavam que os Ciphers eram feitos de vidro fumê.
Quem estava fora não via o que acontecia dentro.
Bill poderia ser diferente de um clichê, mas tudo em sua volta era.
Pai alcoólatra escondido atrás de uma mascara de homem de negócios ocupado com a família.
Mãe adultera e ausente que todos aplaudiam quando a viam na TV.
Irmãs que pareciam a Barbie e era um exemplo para todas as garotas, porém colecionavam transtornos psicológicos.
E havia Bill, que parecia contente com a vida que levava, porém sonhava todos os dias em andar de mãos dadas com certo garoto de cabelos castanhos.
Seis anos depois
Dipper caminhava em direção à escola lentamente, nem um pouco apressado ou ansioso pelo seu primeiro dia no Ensino Médio. Estava leve como uma pluma, ele tivera nove horas de sono maravilhosas e comera um café da manhã reforçado, nada no mundo poderia tirar seu estado zen.
Com exceção de sua irmã.
—Dippy Dopper Dupper! –O grito estridente de Mabel o alcançou e seu espírito de sobrevivência começou aflorar, apressando o passo. – Não fuja de mim, irmãozinho! Faremos a super abertura dos irmãos Pines no Ensino Médio juntos e não adianta fugir!
A gargalhada de sua irmã soara alto. Dipper pensou em correr, porém só pioraria a situação chegar todo suado no primeiro dia do ano e querendo ou não, a primeira impressão sempre é a que fica. Mabel chegava mais perto e toda tranquilidade que tinha cultivado se esvaiu, tendo medo do que aconteceria.
—Dipper! Pare de me ignorar!
— Mabel, por favor, esqueça esse negocio de “Super entrada triunfal dos gêmeos do mistério no Ensino Médio”. Você sabe que eu já tenho quinze anos e nunca tive UMA namoradinha sequer! Se você me ama, sai fora.
—Poxa, maninho... Achei que iria ficar feliz com a ideia. Fiz até camisetas! – Mabel abriu a mochila e tirou duas camisetas rosa choque com tanto glitter que quase o cegou – Olha que maravibelas! A sua é a que está escrito “Gêmeo mais baixo” e eu desenhei um dinossauro para parecer mais “másculo”, ou seja lá o que você deseja ser...
— Mabel! Eu já sou muito másculo... Já tenho até barba. – Mabel deu um grito antes de começar a rir. Muito. – Eu nem sei por que estamos falando sobre isso... Eu vou para escola, não quero chegar atrasado no primeiro dia.
A garota dos suéteres nem escutou o que Dipper dizia, sua gargalhada só aumentava e não parecia respirar devidamente. Aproveitando essa deixa, Dipper apressou seus passos para longe de sua irmã maluca.
Chegando a Escola Municipal de Gravity Falls olhou em volta e apesar de estar mais velho, não sentia nada novo como haviam lhe dito. Nenhuma sensação de maturidade, empolgação ou talvez os sinais da tão esperada puberdade. Apenas um sentimento de nostalgia por estar novamente na velha e boa EMGF com seus bons e velhos amigos.
Lembrando-se de seus amigos, Dipper pensou em procura-los onde sempre ficavam: no banco mais escondido do pátio. Seus amigos eram o que podemos chamar de “geeks”, os estranhos que sentam no fundo da sala e falam sobre cultura nerd e monstros enquanto trocam cards de Pokemon. Aqueles estranhos eram como sua segunda família, as melhores pessoas que já conhecera.
—MisteryBoy! – Wendy abraçou-o com toda sua força – Senti sua falta... Quase nem entra na Steam mais... Abandonou-nos completamente.
—Pois é. Esperava isso de todas as pessoas do mundo, menos de você. – Soos se pronunciara obviamente ofendido – Esperei por você todas as noites, cara.
— Isso soou muito estranho. – Lee gargalhou – Senti sua falta também, Sr. Diversão.
—Senti falta de todos vocês também, caras. Peço desculpas por eu ter ficado tanto tempo sem entrar, meu tivô cantou a moça do atendimento ao cliente da internet e foi processado. Estou sem internet já faz dias.
— “O tivô do Dipper é um assediador, que bad :P”... Postado! Ah, oi Dipper.
— Oi Tambry! Como vai o Robbie? – A garota só acenou com a cabeça, totalmente desinteressada na pergunta. – Ah, okay.
O sinal soou alto pelos corredores da EMGF, todos começaram a pegar suas mochilas e se encaminhar para suas respectivas salas. Dipper fazia o mesmo com seus amigos, subiu as escadas e caminhou pelo corredor até que se lembrou de algo que só um idiota esqueceria – Ele não havia consultado em qual sala estava — Bateu a mão contra a própria testa se perguntando como poderia ser tão burro, com medo de chegar atrasado, correu o máximo que pode pelos corredores e escadas da escola sem dar explicação a ninguém.
— Dipper, aonde que tu vai? – Wendy gritara, porém seu amigo já havia virado o corredor tropeçando em seus próprios pés. – Maluco!
O garoto de cabelos castanhos corria sem nem ao menos olhar para o caminho, Dipper sempre foi um aluno prodígio e chegar atrasado em seu primeiro dia está longe de ser uma conduta de alguém como ele, o quadro estava próximo só faltava virar o corredor e...
— Porra, olha por onde anda!
— Me desculpa tava com pres- Dipper parou sua sentença. Uma sensação de nostalgia muito forte rompeu por todo seu peito junto com um sentimento estranho de tristeza – Nos conhecemos? – O garoto de mechas castanhas encarou o menor que tinha os cabelos em frente aos olhos.
— Eu acho que não. E depois de me derrubar desse jeito espero não ter essa oportunidade.
— Ah... Peço milhões de desculpas! Eu não queria te derrubar, de verdade! Só estava com pressa para conferir em que sala cai. – Dipper arregalou os olhos quando se lembrou do porquê de ter tanta pressa e ignorando o garoto que ainda estava no chão, correu até o quadro. – Primeiro ano A, sala 57!
Disparou pelos corredores novamente sem ao menos olhar para trás, esquecendo-se completamente do garoto no chão. Dipper Pines nunca receberia um prêmio por ser simpático e muito menos por ser receptivo daquela escola.
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