It’s A Kind Of Magic
4 IV.
No centro da cidade, os três em frente à suposta fonte, com poucas pessoas circulando na praça, Letícia teve a explicação que Ed negou a dar antes de chegar ali.
— É inacreditável que logo você, Edgard, pensou numa coisa dessa – ela rebateu.
— É, também estou surpreso, mas... ninguém aqui tem uma ideia melhor. – Ed olhava para dentro da fonte onde não tinha nada além de lodo.
— Você pretende fazer o quê? – Letícia cruzou os braços. — Vomitar na fonte depois de pedir que Freddie fique? Não tô acreditando que estamos aqui.
— Meu português ainda é muito ruim – Freddie os lembrou. — Falem a língua que eu entenda, queridos.
— Não. Quero dizer... – Edgard balançou a cabeça, se referia à pergunta de Letícia. — Sim, Letícia, mas vou desejar ir no lugar dele.
Lelê arregalou os olhos.
— Tá maluco?! O que o faz pensar que essa esquizofrenia vai funcionar e que eu ficarei bem com isso, hein? Não querer perder Freddie não significa que está tudo bem perder você, cacete! Perder meu melhor amigo nunca será uma opção viável. – Sentia-se indignada.
Logo em seguida, ela fez um resumo da conversa para Freddie, que franziu a testa.
— Você mesmo disse que eu sou a anomalia aqui. Por mais estranho que isso pareça para mim, eu entendo. E, em algum momento, tudo isso vai se resolver independente do que fizermos. Claro que estou com medo de sumir e perder tudo o que eu poderia desfrutar, mas não quero que ninguém se sacrifique por mim. Já basta saber que condenei meu último parceiro à morte. Não quero carregar mais esse peso.
— Quem te contou isso, Freddie? – Letícia nunca entrou em detalhes sobre o que aconteceu com Jim Hutton, pois sabia que nada disso seria benéfico para Freddie.
— Você me ensinou bem a fuçar naquele computador — disse ele.
— Eu... não é bem assim. – O olhar que Freddie deu a Letícia foi suficiente para que qualquer discussão sobre este assunto se encerrasse antes mesmo de começar. — Eu sinto muito, Fred... – Letícia não sabia o que sentir, Ed pôde imaginar.
Freddie acarinhou o ombro dela enquanto mudava de assunto com evidente ironia:
— Por mais tentador que possa parecer, vou declinar o convite de ver você vomitando numa fonte, agora que sei que foi para isso que viemos. Foi bom o passeio, mas podemos voltar e tomar café da manhã?
Ed assistiu aos dois seguirem sem esperá-lo, depois, virou-se para fonte e continuou olhando o fundo esverdeado dela, e se sentiu tão ridículo que teve vontade de chorar, e assim o fez. A que ponto chegou? Estava tão desesperado que tentou se agarrar a uma alucinação ébria. Que infantilidade...
— Jogue uma moeda – disse alguém com voz rouca que Ed não conseguiu detectar de onde veio.
Olhou para os lados e quem circulava por ali não parava para olhar o que um rapaz chorando fazia em frente a uma fonte antiga. Caçou instintivamente uma moeda de 10 centavos no bolso, a única que tinha e que usaria em seu plano, e acabou dando um peteleco nela. Ela girou rápido e subiu bem alto. Ed fechou os olhos.
De repente, uma mão pesou em seu ombro.
Ed se assustou com o sujeito de capuz, esquecendo-se completamente da própria blusa moletom que Freddie pegara emprestada.
— Vem conosco, Edgard. A Letícia recebeu a tão esperada mensagem do fã clube.
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Ao chegarem no apê, o laptop foi ligado e o Skype aberto. A chamada foi feita e Letícia aguardou o convite ser aceito. Freddie reclamou da fome que sentia e que preferiria tomar café antes de qualquer coisa. Por isso, foi à cozinha preparar algo para comer. Edgard sentia-se deprimido e quase não conseguiu chegar perto de Letícia.
— Me desculpa – começou sussurrando. — Eu não pensei direito no que estava propondo.
Leticia suspirou.
— Olha, Ed, eu amo você e nunca trocaria a nossa amizade de anos por nada neste mundo. Fiquei fula da vida por toda essa maluquice! Mas quero que entenda de uma vez por todas que você é importante pra mim. Nunca mais faça isso. – Quando Ed se deu conta, Letícia o abraçou forte pela cintura. — Nunca mais.
A chamada foi aceita e a representante apareceu na tela.
— Olá, Letícia. Peço, primeiramente, desculpas pelo silêncio de dias. Não pude respondê-la, pois estávamos aguardando uma resposta dos senhores May e Taylor, que aceitaram o convite e estão online.
— Céus, agora?! – Letícia ajeitou seus cachos naturais para ficarem ainda mais soltos.
— Agora?! Eles estão aí agora?! — Freddie veio da cozinha, a essa altura sem máscara e sem a blusa de frio, usando uma camiseta com uma frase estampada “They call me Mr. Fahrenheit” que ganhara de Lelê, sua maior fã.
Os amigos cederam o lugar para Freddie.
— Sim, olá, Freddie! Eles estão aqui esperando, vou iniciar a conferência – disse a representante antes de dar lugar a duas telas divididas.
E, não mais que de repente, cada um dos dois senhores ocupava um lado da tela; um deles usava um óculos escuro de lente roxeada, uma barba tão branca quanto o cabelo, preenchida no rosto, com as pontas do bigode e do queixo bem trabalhadas dando um ar de aristocrata àquele que fora o mais teimoso dos quatro. E o outro, a longa cabeleira ainda resistia ao tempo, embranquecida por completa e só aumentava a aura de cientista que antes, quando escura, representava a de um genial guitarrista, embora ainda seja. Usava um óculos de grau que não escondeu o espanto na sua feição enrugada.
Freddie havia puxado uma cadeira e se sentou em frente ao laptop sem acreditar no que estava vendo. Assistiu a tantos vídeos de shows que fizeram juntos, que era quase inacreditável presenciar a essa passagem de tempo.
— Olá, pessoal... – conseguiu dizer.
— Céus... Freddie! – Brian reagiu primeiro.
— Vocês são tão garbosos! – comentou, admirado.
— O desgraçado não mudou nada, Ryan! – Roger estava em choque, ainda que fizesse piada.
— É você mesmo? – Brian insistiu, também não parecia acreditar no que estava vendo. Removeu os óculos e depois, os colocou de volta no rosto.
Freddie riu, havia presenciado essas expressões quando conheceu Edgard e Letícia.
— Acho que sim, sou eu. – Gesticulou com graça e teatralidade. — Não tenho lembranças de quando eu... é tão estranho dizer isso, bom, não tenho lembranças de absolutamente nada, nem de quando estávamos juntos, numa banda. Mas quando vejo os vídeos da gente, eu me sinto lá. Quer dizer, tudo isso parece loucura para mim.
— Para todos nós. Acredite, Rog e eu não estávamos levando essa história de ressuscitados muito a sério. Bem, olha para nós. Qualquer notícia mais emocionante pode nos levar dessa para melhor.
— Brian anda mórbido demais – rindo, Roger falou.
— Ele está de volta! – Brian apontava para a tela enquanto falava com Roger. — Eu quase desmaiei!
— Ah... quanto a isso. Não é por muito tempo. – Freddie teve a atenção dos dois, outra vez.
— O quê? — Brian quase sussurrou.
— Como assim? — Roger questionou com a voz falha.
— Ao que tudo indica, os ressuscitados têm prazo para ficar e não há nada que se possa fazer. E-eu não sei como me sentir em relação a isso... Já surtei varias vezes. E, aos poucos, percebo o quão apegado estou à vida e aos amigos que fiz aqui. Letícia e Edgard me ajudam a lidar com isso, cada qual à sua maneira. A propósito, eles são seus... quer dizer, são nossos fãs.
Letícia fez um aceno com a mão e Roger mandou um beijo, Brian acenou em resposta. Mas todos ficaram em silêncio por breves momentos para, talvez, digerir o que Freddie havia acabado de dizer, até Roger quebrá-lo.
— Eu só tenho, então, que agradecer por vocês dois cuidarem dele e por terem procurado o fã clube. Isso foi incrivelmente emocionante. – Ele tirou os óculos escuros e enxugou uma lágrima do rosto. — Não sabem a falta que esse cara ainda faz para nós.
— Rog anda muito emotivo... – Brian riu para descontrair. — Mas faço de suas palavras as minhas. Obrigado, Letícia e Edgard, por possibilitar esse encontro. Embora não seja o mais adequado, é o que se pode fazer diante dessa pandemia.
— Era o mínimo que eu podia fazer – Letícia respondeu, emocionada.
— Minha mãe era fã de vocês – Ed comentou. — Ainda é complicado ouvir suas músicas sem lembrar dela, talvez, isso nunca irá acontecer. Mas é algo bom que eu só entendi recentemente.
— Ela faleceu? – Roger indagou e com a afirmação de Ed, Brian respondeu:
— Estamos honrados por fazer parte de sua vida, espero que você tenha boas lembranças de sua mãe.
Ed se sentiu acalentado, e sabia agora como Letícia se sentia também.
Freddie ficou alguns segundos calado, como quem segura até mesmo a respiração, para então soltá-la de uma vez em forma de pergunta.
— Você é PhD em astrofísica, há alguma explicação cientifica do porquê isso aconteceu comigo?
Brian suspirou, resignado.
— Infelizmente, não tenho uma resposta para isso, Freddie. E acho pouco provável que teremos uma algum dia.
Ninguém pareceu surpreso.
— Certo... Quero que façam um favor para mim. – Assistiu aos dois acenarem com a cabeça em positivo. — Mandem todo o meu amor e carinho à minha irmã, Kashmira, à Mary e aos amigos que ainda estão vivos, certo? Certamente, não terei mais tempo para esperar por um novo encontro. Além do mais, é estranho pensar que vocês são tão importantes para mim e, ainda assim, não conseguir me lembrar... – Freddie apertou o próprio peito. — Queria poder agradecer todos aqueles que estiveram comigo. Mas confio que vocês saberão para quem mandar.
— Faremos o que desejar. – Brian foi pontual.
— Sim, pode deixar com a gente. – Roger completou.
Freddie, por algum motivo, achou graça.
— Eu era mesmo tão bajulado assim ou isso foi só porque morri? – Gargalhou.
— Não fale assim, Freddie – Letícia o censurou, embora ela mesma tentasse não rir.
Edgard não entendia esse “humor inglês”, por isso, permaneceu calado.
Mas Roger não se fez de ofendido, riu e respondeu:
— Pode ter certeza, seu desgraçado, foi só porque você morreu, sim.
— Ótimo momento para pedir dinheiro emprestado.
Brian, ainda sorrindo, coçou a cabeça e voltou a falar um pouco mais sério:
— Mas, Freddie, você precisa de alguma coisa, há algo que possamos fazer?
— Tragam mimos para esses dois, Lelê e Ed merecem. Fora isso, apenas o que já pedi. – Fez uma breve pausa. — E por onde anda John Deacon?
Brian se pronunciou:
— Ah, sim, ele anda recluso, não quis mais se envolver com a banda desde 1997, embora aprove o que fazemos até hoje. Deaky só quer sossego.
— Não posso culpá-lo. E o fato de John não estar aqui só reforça isso – complementou Roger.
— Éramos muito difíceis juntos? Brigávamos demais? – Freddie lamentava a postura do baixista, principalmente diante daquela interação tão natural que presenciava.
— Sim, tivemos os nossos momentos, você disse uma vez que não conseguia mais ficar por durante 5 minutos comigo numa sala, que queria me bater, outras vezes era no Rog. – Brian contou e riu quando notou a expressão incrédula de Freddie. — Não posso dizer que você não tinha motivos, mas, naquela época, todos nós tínhamos, então, sim, chegávamos a este nível.
— Me recuso a acreditar nisso. Sou um cara tão adorável! Palavras de Letícia. – Apontou para ela, com um sorriso maravilhoso. — Você também é adorável, Bri, principalmente agora. Rog está incrível, devo dizer. Queria ao menos dizer alguma coisa ao John, que ele soubesse o quanto eu o admiro e agradecê-lo por ter feito parte da minha vida, assim como vocês fizeram. Não precisamos mais brigar por nada.
— Estamos velhos, Freddie, nem temos pique para brigar. – Roger se ajeitou na cadeira. — Agradeço o elogio, a propósito. E, como disse antes, pode deixar com a gente, Deaky também vai receber seu recado.
— Fico feliz também de saber que vocês continuaram com a banda.
— É a nossa vida... Bem... Há alguma coisa que queira saber e que a nossa fã pode não ter contado? – Brian o instigou, apoiando o queixo nas costas da mão.
Qualquer fã do Queen que se preze conhecia as histórias que Brian e Roger se propuseram a contar, ou boa parte delas. Mas Freddie não se lembrava de nenhuma, então, para ele, todas seriam novidades.
Letícia se limitou a contar alguns fatos importantes da vida e da carreira do músico, deixando o melhor para o encontro, quando essa ideia surgiu. Nada melhor do que saber direto da fonte.
Os olhos de Freddie brilharam de curiosidade, poderia visualizar como era estar dentro de um estúdio, trabalhando horas a fio numa melodia, ou como cada álbum foi idealizado, como eram as discussões sobre qual single deveria ser lançado no lado-B.
Hoje em dia, praticamente tudo se podia assistir no YouTube, áudios raros de shows antigos ou trechos de erros de gravações nos estúdios. Contudo, haviam detalhes, situações e perrengues que apenas os envolvidos saberiam.
Ainda assim, Brian começou contando a vez que Freddie conheceu Sid Vicious.
— As bandas estavam gravando em Wessex Studios, região norte de Londres. A gente gravava no estúdio um e Sex Pistols estava no estúdio dois. Sid te perguntou se você conseguiu levar o balé às massas, por conta de uma entrevista que você havia dado. E, ao cumprimentá-lo, você chamou o sujeito de “Simon Ferocious” ou algo do tipo, claro que ele não gostou nem um pouco.
— Poxa, irritei o punk de butique – Freddie pontuou, arrancando risos até de Ed.
Ele e Letícia estavam sentados em banquinhos, próximo da mesa onde repousava o laptop. Ouviam com entusiasmo a conversa.
— Deaky, uma vez, passou o dia inteiro tocando as notas de introdução de “Under Pressure”, mas, na hora de gravar, ele as esqueceu completamente – Roger recordou.
— Melhor baixista dançarino, dou esse desconto – Freddie acrescentou, rindo. — Algum perrengue sério já aconteceu?
— Vários, mas este vale a pena contar. – Brian iniciou. — Fizemos uma grande turnê pela América do Sul, passando duas vezes pelo Brasil e depois pela Argentina. Memoráveis. Prometemos para nós mesmos que voltaríamos. E, sim, voltamos para fazer shows em lugares diferentes, chegamos à Venezuela. Jim, que você apelidou de Jim “Miami” Beach, foi nosso advogado e passou a ser nosso empresário na época, marcou para nós uma participação num programa de TV, ao vivo, e você não estava lá muito disposto a participar, mas já estávamos no estúdio. No meio do programa, um homem gritou na frente da câmera, alvoroçado, e não entendíamos nada do que estava acontecendo, porque ele gritava em castelhano. Só descobrimos o que era quando Jim contou que todos os aeroportos do país estavam fechados, pois um estadista havia morrido, e o lugar estava a ponto de explodir numa revolução. Voltamos ao hotel, apavorados. Mas conseguimos sair do país na mesma noite.
— Nunca mais voltamos lá – Roger disse com certo alívio, mas parecia se lembrar do pavor que viveu naquele dia.
Freddie engoliu em seco. Entretanto, dispersou o espanto no rosto e deu de ombros.
— Nesta história toda, descobri que sou bom em apelidos e com precognição.
Falaram da vez que Roger saiu carregado de tão bêbado num evento de corrida de carros. E da vez de Kenny Everett roubou a “The Prophet’s Song” e a tocou na rádio sem que ela estivesse pronta, o que tirou Brian do sério. Mas qualquer pergunta que Brian e Roger fizessem sobre onde estava antes da ressureição, Freddie não conseguia responder. Não havia nada em sua mente que pudesse ajudar a se lembrar.
E apesar da impressão de que a conversa duraria horas e horas, ela não se estendeu muito. As 3 horas a mais do fuso horário faziam diferença. E Freddie, a contra gosto, não tomou mais o tempo daqueles senhores.
Contudo, a despedida custou para acontecer.
— Caso ainda precise de alguma coisa da qual podemos providenciar, nos avise, Freddie. Vocês também, Letícia e Edgard. – Brian o alertou, recebendo em troca um aceno gentil e silencioso.
Entre agradecimentos, lembrete do favor pedido e declarações de amizade e saudosismo, as tentativas de adeus eram sempre postergadas, mas a chamada foi finalmente encerrada pela representante do fã clube.
Ed se levantou do banquinho e assistiu aos outros permanecerem em seus lugares, calados. Antes que Ed pudesse respirar, Freddie levantou-se da cadeira.
— Tudo que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado, certo? – disse, convicto. — Vou aproveitar o que tenho. Até onde a pandemia permitir.
Freddie seguiu até o banheiro. Não demorou para se ouvir a água do chuveiro cair.
Ed olhou para Letícia.
— Ele acabou de citar “O Senhor dos Anéis”?
Letícia limpou uma lágrima e sorriu pelo o entusiasmo de Freddie e pela pergunta.
— Culpa minha – Riu. — Eu disse isso quando ele estava deprimido. Funcionou.
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Passearam pela cidade, pararam num bar para tomar cerveja e Freddie quase foi reconhecido quando teve de tirar a máscara. Depois, foram a uma exposição ao ar livre e voltaram à noite para o apê.
A essa altura, contavam-se as horas para o dia 23 acabar.
Letícia e Freddie passaram à noite em claro, ouvindo música e reclamações de vizinhos. Ed foi vencido pela embriaguez e dormiu no colchão posto na sala. E quando acordou de manhã, se assustou com o silêncio.
Seguiu pelo cômodo e bateu levemente na porta do quarto de Letícia, que sentada na cama, segurava uma carta.
— Freddie se foi... – balbuciou ela, às lágrimas.
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