Hello there — queridos Letícia e Edgard,

Finalmente estou escrevendo mais que bilhetinhos desta vez, todavia, temo que esta carta não possa ser comparada a mais bela de minhas canções, pois, no momento, faltam-me palavras para expressar a alegria que sinto por ter encontrado vocês – ou de vocês terem me encontrado, não é?

Tive sorte, de verdade, e me sinto com sorte mesmo agora que sei que irei partir.

Considero essa minha nova e breve estadia no mundo dos vivos como mais uma chance de ser lembrado não pela doença que ceifou minha vida, mas apenas pelo meu amor completamente dedicado à música, do qual vocês trouxeram de volta em meu âmago.

Seja lá para onde eu deva ir agora ou o que irá acontecer comigo, saibam que serei eternamente grato por essa felicidade que vocês me deram. Felicidade de viver de novo ao lado de pessoas incríveis!

Minha bombom, minha Lelê, obrigado por toda a paciência que teve comigo. Por compartilhar seu teto, seu tempo e seu amor. Não fique triste com a minha partida, lembre-se de mim com carinho e da alegria que você me proporcionou, que sou muito grato. Te amo e te amarei sempre.

Ed, lembre-se de sua mãe com amor, sofra o que tiver que sofrer, mas lembre-se dela por tudo o que ela foi para você – e que você não está sozinho.

O que me deixa ainda mais feliz foi ter participado disso, de sua “reconciliação com a nossa música”. E se eu não deixei isso claro antes, agora deixo registrado para sempre — Obrigado por me deixarem fazer parte de suas vidas.

Ok, está na hora —

Fiquem bem e se amem, darlings.

Divirtam-se sempre!

Freddie —

30 anos depois, a folha de caderno usada para a carta, escrita à mão, parecia levemente amarelada, mesmo vedada. Pois sabia-se que Letícia e Edgard – que com o tempo vieram a compartilhar a vida de casados – voltavam a tê-la nas mãos para matar saudades daquele que se fora há tanto tempo.

— Se Freddie voltasse, será que ele se lembraria da gente? – Letícia, no auge de seus 54 anos, ainda nutria esperanças de rever seu ídolo.

Acarinhava a página, agora plastificava, colocando aquela preciosidade num pequeno altar na estande, onde passou a ser o seu lugar de descanso.

Ed repousou a mão sobre o ombro da esposa.

— Se te deixa feliz, posso voltar à praça e jogar uma moeda de novo.

Letícia riu.

— Você estava bêbedo, Edgard, vomitou na fonte, inclusive.

— Um mero detalhe! – Caminhou pelo cômodo, esperando a esposa o acompanhar.

Os dois estavam bem arrumados, iriam para um jantar de comemoração, embora não estivessem tão empolgados assim para sair, principalmente naquela data.

Ao saírem da casa onde vivem há mais de 20 anos, Letícia ouviu um estranho barulho. Porém, não precisou procurar o que era; um gatinho apareceu, assustado, berrando pela mãe.

Ed, que seguia até o carro, só notou tardiamente a distração de Letícia.

— Tudo bem, querida?

— Aí, Ed, um gatinho! – Ela se aproximou do filhote de pelagem preta e branca, com cuidado e sem movimentos bruscos. Quando conseguiu segurá-lo, deu um gritinho animado. — Que lindinho! Aí meu deus, Ed, ele tem bigode!

— Todo gato tem bigode, Letícia. – Deu a volta no carro para perto da esposa.

— Não esse bigode! Mas esse bigode! – Letícia apontou para a mancha no focinho do filhote que lembrava sim um bigode e não qualquer bigode, claro. — Vou chamá-lo de Frederico.

— Espera, vamos ficar com ele?! – Ed nunca teve um bicho de estimação na vida, mas não esperava que esse tipo de coisa pudesse acontecer tão aleatoriamente, sem uma séria discussão ou um acordo.

Às vezes, ele parecia esquecer que lidava com Letícia.

— Claro! – disse ela mais para o gato do que para o marido. — Vamos cuidar bem dele. Nosso Frederico merece, né, meu anjinho? – Acolheu o felino nos braços, com carinho e distribuindo beijinhos sobre as orelhinhas rosadas, voltando para dentro da casa, sendo seguida por Edgard, que, àquela altura, sabia que não sairiam mais para jantar algum.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!