Notas iniciais
O capítulo ficou maior do que eu esperava, portanto, teremos mais um capítulo. Capítulo, capítulo, capítulo... Boa leitura!

Ed batia freneticamente na porta do apê de Letícia. Freddie foi quem atendeu de regata preta e calça moletom.

— Eu acho que descobri o que está acontecendo comigo – disse Ed enquanto invadia a sala. Respirava ofegante por ter corrido o quarteirão inteiro, usando a máscara.

Freddie o acompanhou com os olhos antes de fechar a porta. Seguiu até o sofá para pegar um bloco de papel e uma caneta. Escreveu nele rapidamente e entregou-o para Ed, que não parava de andar de um lado pelo outro na sala.

“Stay calm, my dear” estava escritoe assim, Ed resolveu sentar-se no sofá e respirar fundo.

— Tá, preciso mesmo me acalmar. – Deixou o bloco de papel de lado.

Freddie fez o mesmo, sentou-se na outra ponta do sofá, esperando talvez a explicação que Ed disse que teria.

Como ela não veio, Freddie tomou a iniciativa de usar a SmartTV de Letícia e colocar numa plataforma de vídeos para tocar “These Are The Days Of Our Lives”, o que, inicialmente, surpreendeu Ed pela facilidade que Freddie demonstrou ao usufruir aquela tecnologia que sequer fora imaginada 35 anos atrás.

Por fim, Ed acabou prestando atenção na melodia e lembrou-se do único vinil que lhe fora entregue após a morte de sua mãe, onde guardou-o no fundo de uma caixa de papelão cheia de tralhas, na época em que passou a morar com o tio, para nunca mais tocá-lo.

E, pela primeira vez na vida, enquanto estava ali, no sofá de Letícia e ao lado do autor daquela canção, Ed sentiu arrependimento muito grande por ter deixado o vinil esquecido por lá e todo o resto, entre fitas cassetes e cds, ser dividido entre os parentes – que Ed nem sabia que existiam – depois do enterro.

O vinil fora a única coisa que restara de sua mãe, algo que ele podia chamar de seu também, como herança, mas que por sua imaturidade e covardia resolveu abandoná-lo para sempre.

Ainda recordava-se da capa, onde um palhaço malabarista manipulava inúmeras esferas coloridas, deixando cair uma banana em cima de um filósofo, enquanto uma bola similar ao globo terrestre saía de sua barriga, sendo cercado por outras idênticas a essa.

Era o álbum “Innuendo”, o último trabalho em vida de Freddie.

Não foi uma escolha aleatória, concluiu-se depois, a letra da música era praticamente a certeza de que não haveria mais um turn back na condição em que Freddie, naquela época, se encontrava. E o que o clipe em preto e branco tentava esconder.

E, agora, significava também que Freddie sabia o que havia acontecido consigo mesmo e, talvez, o que ainda iria acontecer diante de sua ressurreição inesperada.

Freddie tinha um olhar tristonho quando Ed se voltou para vê-lo, foi então que as palavras quase sumiram de sua boca quando quis reconfortá-lo.

“O que dizer nessas horas?” Ed pensou, mas acabou por seguir sua intuição.

— Minha mãe foi uma grande fã sua – iniciou em inglês, sem esperar resposta ou se importar com os erros, e continuou. — Ela tinha muitos discos do Queen e um seu, quando você seguiu carreira solo. O nome dela era Amélia. E quando ela ficava deprimida por conta do tratamento, ela colocava suas músicas pra tocar. Pra esquecer dos enjoos, das dores e de que tava morrendo. Ela se esforçou muito pra não demostrar que tava sofrendo e suas músicas ajudaram por um tempo... – Olhava para o chão, relembrando de vários momentos que passou com Amélia, bons e ruins. — Quando ela morreu, não consegui ouvi nada do que ela gostava, porque eu não queria sentir a perda. Eu não tava preparado pra sofrer a morte de minha mãe, sabe? E acho que eu era muito menino ainda pra entender que você foi muito importante pra ela e que ela só queria compartilhar comigo boas lembranças.

Freddie permaneceu calado, ouvindo com atenção.

Edgard estava novamente chorando sem perceber. Pigarreou quando a voz falhou e apenas observou Freddie se levantar do sofá e ir ao banheiro, trazendo de volta consigo um rolo de papel higiênico.

Tirou um pouco para si e entregou o rolo para Ed, que só nesse momento notou que os olhos negros de Freddie brilhavam, marejados.

Um sussurro, como um sopro de vento, parecia dizer “sinto muito pela sua perda” vindo de Freddie que não escapou de seus ouvidos.

Com isso, Ed contou sua teoria:

— E acho que foi por querer esquecê-la e de tudo o que pudesse me lembrar dela, que eu não ouvia você e apenas você. Agora, como estou falando dela e me deixando ouvir suas músicas, posso acabar te escutando também. E isso me faz pensar que, talvez, você não seja tão real quanto parece. – Freddie não pareceu espantado com a hipótese. — E nada disso explica o porquê de você e tantos outros foram ressuscitados.

— Eu me sinto real... – Freddie respondeu sem esperar que fosse entendido e, como um pregar de peças do destino, o coral tão característico de sua banda começou cantando It this the real life? Is this just fantasy? em “Bohemian Rhapsody”.

Os dois acabaram rindo daquela poética e atemporal contradição até que notaram que estavam se entendendo, finalmente. Então, calaram-se, desta vez para apreciar a canção.

Um misto de sentimentos conflitantes de felicidade e tristeza preencheu o peito de Edgard. Estava quase em êxtase por permanecer ali, ouvindo a música, sem sentir qualquer aversão. Não teve vontade de fugir das memórias que, repletas de imagens de sua mãe sorrindo, passavam em sua mente como um filme.

Quando a música acabou, Freddie desligou a tv.

Ed se pegou dizendo:

— Eu sinto muito...

Não sabia exatamente sobre o que se lamentava. Inúmeras razões surgiram para ele e parecia-se justo fazê-lo para alguém que estava de volta ao mundo dos vivos aparentemente sem propósito algum.

Freddie franziu a testa e, como se tivesse adivinhado os pensamentos de Ed, respondeu o que sentia:

— Se minha vinda para cá pôde te ajudar de alguma forma, acho que já valeu a pena, querido.

— Ajudou – Ed se apressou em responder, não queria parecer ingrato. Limpava a lágrimas com o papel higiênico. — E, por isso, estou aqui me expressando. Finalmente falando de minha mãe, sentindo minha garganta apertar, meu coração doer... espero que eu não esteja tendo um ataque.

— Cruzes, não! – Freddie se levantou do sofá, de supetão, erguendo as mãos para cima de maneira que lhe era tão característica, tão teatral, para se livrar de qualquer mal que pudesse acontecer. — Você é jovem demais pra morrer! Pior! Eu poderia ter um treco, então, não me traga essa dor de cabeça!

Por dentro, Ed ficou um pouco indignado pela real preocupação de Freddie, embora achasse tudo aquilo cômico, de certa maneira. E imaginou que ele sempre fora assim, antes da persona ou mesmo com os membros da banda... e só então que Ed se lembrou deles.

De tanto que Letícia comentava, Ed sabia que nas atuais apresentações do Queen, Brian May dedicava “Love Of My Life” para Freddie. O lendário guitarrista e o baterista brilhante, Roger Taylor, sentiam a falta do irreverente vocalista. E era no mínimo óbvio pensar que eles gostariam de se ver juntos, como Queen, ao menos uma última vez caso tivessem essa chance.

Sendo assim, era possível que a notícia dos ressuscitados havia chegado aos ouvidos dos caras que, por sua vez, poderiam ter se manifestado sobretudo à procura de Freddie Mercury caso este fosse o assunto da vez na internet.

Se Letícia estivesse certa, Freddie ainda teria uma semana e meia antes de “sumir” – fosse lá o que isso significasse.

Mas, caso o Queen não estivesse atrás do paradeiro de Mercury, esse tempo não seria suficiente para planejar uma viagem à Europa, encontrar os membros restantes da banda – ao menos aqueles que ainda estão na ativa – e realizar esse encontro épico. Fora que a pandemia impossibilitava qualquer contato físico e muito menos aglomeração num espaço fechado.

Por essa razão, Ed engoliu em seco e tentou despistar qualquer sinal de nervosismo que pudesse transparecer. Tinha para si que não poderia ajudar nesta questão, mesmo se quisesse.

Foi então que Letícia apareceu.

— Ah, finalmente consegui, Freddie! – se anunciou em inglês. Em seguida, abriu um sorrisão ao ver Ed ali e disse em português: — Veio fazer companhia, foi?

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Letícia tirou um laptop da bolsa e o colocou na mesa disposta na sala. Abriu a tela, ligou-o na tomada, mexeu no Skype e iniciou uma vídeo chamada após consultar alguma coisa no celular, provavelmente o nome ou nickname do contato.

Ed sentiu-se à deriva e Freddie, por sua vez, aproximou-se de Letícia.

— Nosso amigo está me ouvindo agora, tenho que parar de falar sacanagens – disse ele, como quem não quisesse nada.

Letícia arregalou os olhos e, então, deu alguns pulinhos de excitação.

— Sério? Cara, isso é maravilhoso! Como conseguiu? – Virou-se para Ed, aguardando a explicação.

— Acho que... – Levantou-se do sofá e foi sucinto. — Parei de negar, finalmente.

— Vem cá... – Letícia abanou a mão ao chamar o amigo até a mesa, quando ele o fez, abraçou-o forte mesmo sob protestos.

O abraço foi interrompido apenas quando o contato de Letícia chamou pelo Skype.

— Olá? — o sotaque britânico da voz feminina era forte. — Letícia?

A conversa entre as duas se iniciou com timidez, mas ao abrirem a câmera, a tensão que ainda pudesse existir entre elas se dissipou rapidamente.

Letícia fez suspense por um tempo, mas com o desespero quase palpável da moça britânica, ela cedeu o lugar para o convidado ilustre.

Ed ficou apenas observando, longe do alcance da câmera do laptop.

Freddie foi amigável, relatou o que sabia e o que desejava fazer enquanto se ouvia os suspiros de surpresa e os OMG! da moça do outro lado do Atlântico, naquela chamada.

Letícia se aproximou de Ed, quase chorando.

— Procurei o fã clube do Queen – cochichou ela —, depois que contei pra Freddie quem ele era. O bom que o desejo de fazer contato partiu dele.

Fez-se o silêncio, embora o ambiente fosse preenchido com os risos de Freddie e pela conversa virtual inusitada.

Ed percebeu que sua amiga não estava no seu estado normal.

— Você tá bem, Lelê?

— Sim! – respondeu imediatamente. — Tô super feliz por ele! E orgulhosa de mim. Poxa, os caras vão poder se ver uma última vez, entende? Isso me deixa emotiva demais... eu só... Eu... só não queria que Freddie fosse embora de novo. Acho que me acostumei com a companhia dele...

Ed abraçou Letícia, seria solidário para com sua amiga e não precisou dizer uma só palavra. Mas foi a britânica que interrompeu aquele momento afetivo.

— Vou precisar de alguns dias. – Quando Ed e Lelê se aproximaram do laptop, a moça estava cercada por mais duas crianças, provavelmente era os filhos dela. — Por conta da pandemia, o encontro deverá ser online.

— Espera – disse Letícia. — De quantos dias estamos falando?

— Não ouso estipular uma data, porque não sabemos como os senhores May e Taylor irão receber a notícia. E estamos em lockdown.

A pandemia complicava tudo.

Freddie tomou a iniciativa.

— Tudo bem, minha querida, leve o tempo necessário, sim? Apenas nos avise assim que conseguir.

— Faremos tudo para que o encontro aconteça o mais breve possível, Sr. Mercury. – A representante do fã clube do Queen tinha uma postura de confiança, tomou aquele pedido como “A” missão de sua vida.

Freddie certamente notou isso. E, com graça, repousou o queixo sobre a mão direita, com o cotovelo sobre a mesa.

— Gostei do seu entusiamo, querida. Mas nada de me chamar de “senhor”, não me sinto tão velho quanto isso faz parecer. Prefiro algum título condizente, entende? O que eu ainda preciso fazer para ser chamado de deus? – Gargalhou como quem se dá conta – apenas naquele momento – do absurdo que acabou de dizer, contagiando a todos.

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O que contagiou de verdade foi a ansiedade de Letícia durante os dias passados após a chamada via Skype.

Letícia, por exemplo, estava preocupada muito além do normal, pois, a cada dia sem notícias da representante do fã clube sobre o encontro, era um dia literalmente perdido para Freddie.

Edgard sentia-se um completo inútil, afinal, não sabia lidar nem com a própria ansiedade, como poderia ajudar alguém? Era como pensava.

E Freddie, por sua vez, acabou sendo o pior dos três e com razão.

Segundo as pesquisas que Letícia realizou pela internet, o que veio a ser confirmado numa matéria em um telejornal, os ressuscitados simplesmente sumiam na data que marcou a suas mortes reais, como passou a ser chamada.

Há poucos dias da própria, Freddie entrou em desespero. Acordava suando frio, às vezes aos berros que cortavam o coração de Letícia. Edgard passou a dormir lá após sair do emprego e presenciou a frustração de sua amiga e o pavor de Freddie.

Era como reviver um pesadelo, embora Freddie não tivesse lembranças de como a doença que o matou lhe fora tão cruel. E não havia nada que se pudesse fazer.

Até Edgard se lembrar do dia em que foi ao centro da cidade para beber com Letícia e os amigos dela, e teve o pior porre da sua vida. Lembrou-se de flashs como de ter ido até uma fonte numa praça, onde queria jogar uma moeda, mas acabou vomitando depois na água.

A partir dessa lembrança fragmentada, Ed começou a acreditar que, talvez, não só teve a vontade de fazer um pedido, fosse qual fosse, como o fez, ainda embalado pelo álcool. E depois, sem uma data definida, todos os artistas da música começaram a ressurgir.

Para um cético como Ed, pensar em tal hipótese era apenas puro desespero. Mas como explicar a ressureição dessas pessoas? Ed também fizera suas pesquisas, englobando muita ciência, astrofísica e um pouco de imaginação. E chegou às questões como; um buraco de minhoca poderia interferir na linha do tempo? Ou mesmo um buraco negro como em Interstelar? Alinhamento dos planetas pode não significar muita coisa, mas e se o tecido do espaço-tempo estiver se rasgando, criando infinitas Terras e misturando as personalidades de uma terra para outra, como já aconteceu varias vezes nos quadrinhos?

Tudo isso era muito mais grandioso e épico do que acreditar que fizera um desejo, do qual foi realizado numa fonte vomitada.

Às 7h da manhã, Edgard estava de pé e acordava Letícia aos chacoalhões.

— Precisamos ir à praça no centro.

Freddie apareceu na porta do quarto de Letícia, usando as roupas emprestadas de Edgard; blusa de moletom com capuz, calça jeans e tênis. A máscara protegeria também sua identidade.

— O quê? – indagou ela com a mente nebulosa pelo sono.

Notas finais
༺Glossário ༻ ➭ Stay calm, my dear: “Fique calmo, meu querido” numa tradução livre; ➭ These Are The Days Of Our Lives: “Estes São Os Dias De Nossas Vidas” numa tradução livre. 8ª música do último álbum do Queen com Freddie Mercury ainda em vida chamado “lnnuendo”, 1991; ➭ Innuendo: “Insinuação” numa tradução livre; ➭ Turn Back: “Retorno” numa tradução livre. No caso, usado para indicar o estado irreversível de saúde de Freddie Mercury, que morreu em 24 de Novembro de 1991, em decorrência do vírus da AIDS; ➭ It this the real life? Is this just fantasy?: “Isso é a vida real? Isso é só fantasia?” numa tradução livre. É a letra inicial de Bohemian Rhapsody; ➭ Bohemian Rhapsody: “Rapsódia Boêmia” numa tradução livre, música composta por Freddie Mercury em 1975 para o álbum “A Night At The Opera”; ➭ Love Of My Life: “Amor Da Minha Vida” numa tradução livre. Música composta por Freddie Mercury em 1975 do álbum “A Night At The Opera” dedicada à Mary Austin, sua companheira, na época; ➭ Skype: Ferramenta de vídeo chamada e chats grátis, inventado no ano de 2003; ➭ Nickname: “apelido” ou “codinome” numa tradução livre; ➭ OMG: Sigla para “Oh, My God”, “Oh, Meu Deus” numa tradução livre; ➭ Lockdown: Termo utilizado para indicar bloqueio total de um lugar, sendo este uma cidade, estado ou país, diante do aumento de casos de contaminação. ➭ Flashs: “Instantâneo” numa tradução livre. Cenas rápidas, que no caso, indicam lampejos de memórias.