Notas iniciais
Espero que gostem deste penúltimo capítulo. Boa leitura!

Para quem sempre dormiu sozinho no quarto, era quase um tormento pregar os olhos sabendo que um desconhecido dormia no seu pequeno sofá na sala.

Ed tentava encontrar razões plausíveis por ter aceito tal situação diante da discussão que tivera com Letícia.

Sabia que, no fundo, não queria acreditar nesse “fenômeno seletivo”. Mas, lá estava ele, praticamente ouvindo sua mãe dizer “coloque a coletânea pra gente ouvir, filho” e deixando cair uma lágrima no travesseiro, quase indo pedir para o ressuscitado cantar as músicas favoritas dela.

Estava arrependido, se deixou levar pela emoção que resultou no desentendimento.

Quando Ed chegara à portaria do prédio naquela noite, Lelê não se importara com qualquer coisa além de falar e olhar – e tendo de se contentar em não abraçar – aquele que ela insistiu em chamar de “Freddie”.

Freddie, por sua vez, não parecera entender o que motivava a linda moça de black power, que se apresentara tão formalmente, demonstrar tanto carinho por ele, mas, por alguma razão desconhecia por Ed, certamente a atitude dela ajudou Freddie a se sentir um pouco mais à vontade.

No elevador, porém, fora ainda mais difícil para Ed não se convencer de que aquele cara era, de fato, Freddie Mercury ressuscitado. Apesar do olhar perdido e pela insegurança quase ocultada pela máscara, Freddie conseguia transpor uma postura naturalmente impactante.

Contudo, nada preparou Edgard para o inferno que havia apenas começado na sua vida: ele dera um tremendo chilique quando Letícia entrou em seu apartamento, acompanhada de Freddie, sem tirar os sapatos como ele havia feito primeiro.

Ao menos se esperava que ela explicasse ao desmemoriado a situação atual do mundo e, principalmente, as regras que Ed impôs ao se tratar de entrar no apartamento, das quais sua amiga tinha conhecimento desde o início da quarentena.

Mas Lelê estava tão encantada com seu ídolo que ignorou completamente a repreensão do amigo, ainda que tenha tirado os sapatos, sendo copiada por Freddie, e os deixado no lado de fora.

A essa altura, Ed havia pego um borrifador, pano de chão e um rodo e limpado o piso onde os outros haviam andado com os calçados.

Letícia convidou Freddie a se sentar no sofá e iniciou uma série de perguntas, em inglês, que pudesse ajudar o sujeito a se lembrar de fatos correspondentes ao passado como vocalista do Queen. Ou até mesmo sobre o que acontecia antes dele simplesmente surgir em frente à farmácia, como Ed narrara.

Emocionada, ela deixava escapar gritinhos agudos de felicidade.

Ed achou compreensível no início, pois, não era todo dia que se podia estar tão perto de um ídolo, por isso, resolveu deixá-los por ali, já que ele mesmo não se via como útil.

Afinal, não era tiete como Letícia e saber que Freddie Mercury havia sido ressuscitado o deixava ainda mais confuso sobre o que causou esse fenômeno. E o que isso poderia trazer de consequências. De certa forma, essa situação começava a afetá-lo.

“Por que foi possível trazer Freddie Mercury e tantos outros, mas não as pessoas comuns de volta?”.

Não tinha resposta para isso, mas sentia-se injustiçado de alguma maneira. Achava que se alguém importante deveria ressurgir para si, ao menos deveria ser alguém da família, que conviveu consigo e que lhe fazia falta.

Pensando nisso, foi ao banheiro, deixando o rodo de lado e o pano dentro de um balde, lavou as mãos, tirou o face shield e a máscara para lavar e assim, seguiu para a cozinha, onde apenas uma espécie de balcão a separava da sala.

Pegava um copo d’água quando o grito de Letícia ecoou.

— Pode, por favor, não fazer isso de novo? – disse Ed ao se virar para olhar.

Freddie permaneceu sentado no sofá, com outra interrogação expressada no olhar enquanto Letícia se levantou com indignação e se aproximou de seu amigo.

— Ele disse que consegue entender o português, Ed! – disparou ela, com a voz abafada pela máscara. Detalhe para a pequena estampa do logo do Queen no pano da proteção que apenas naquele momento Ed a notou.

— Ah, bom pra vocês – respondeu com amargura inesperada antes de beber a água.

Visualizava os dois juntos, Freddie e Letícia, numa bela amizade, saltitando de mãos dadas em um campo verdejante num dia ensolarado para depois irem ao shopping, ao teatro ou num show enquanto tocava “Lazing On A Sunday Afternoon”, deixando o pobre e ansioso Edgard de lado.

Letícia reagiu franzindo a testa.

— Você entendeu o que eu disse? – ela insistiu. — Ele falou, Edgard! A propósito, ele me entendeu perfeitamente bem ao telefone. Ele não é mudo coisa nenhuma! Eu estava tão extasiada que nem me toquei que ele falou comigo. – Deu uma risada tímida. — Ele me chamou de querida.

Desta vez, foi Ed quem franziu a testa.

— Olha, ele não falou comigo... – Fez uma breve pausa e reformulou. — Quer dizer, eu não o ouvi quando ele o fez e ainda não o ouço, se quer saber.

— Isso quer dizer que o problema está em você – disse com ar pensativo, embora ela não entrasse em detalhes sobre como chegou a esta conclusão.

De repente, Ed bateu o fundo do copo no balcão, surpreendendo os presentes.

Já estava de saco cheio, ainda que não soubesse do quê. Era de ter um estranho em sua casa? Era da tietagem sem limites de Letícia? Ou estava cansado da luta interna que travou consigo mesmo para não se lembrar da falta que sua mãe fazia?

— Como isso pode ser culpa minha? – indagou ele. — Eu não escolho quem eu ouço! Pelo visto, não é possível escolher porra nenhuma!

Letícia ficou paralisada por alguns instantes antes de questioná-lo:

— Por que está tão chateado? – Sua voz amena entonava genuína preocupação.

— Por que não estaria, hein? – Ed inquiriu em alto tom. — Um cara que nem nos conhece tá sentado no meu sofá porque pôde voltar à vida ao invés da minha própria mãe! – Fez-se o silêncio por breves instantes, sendo quebrado depois pelo próprio Ed, que se desatou a falar. — Se eu pudesse escolher, não traria o cara que fez as malditas músicas que fazem me lembrar da falta que ela me faz. Eu só a tragaria de volta! Talvez, não tenha percebido a injustiça que é saber que uns podem ser ressuscitados e outros não, e de como me sinto em relação a isso, mas quer saber? Você tá bastante ocupada curtindo o seu ídolo sem memória pra se dar conta disso. Aliás, me ignorou sem pestanejar. Eu já estou cansado de você me perturbar com coisas que só me fazem perceber a ausência da minha mãe em minha vida! E você sabe o quanto isso mexe comigo e, mesmo assim, continua a me machucar. Então, eu não me importo de não ouvi-lo e acho melhor assim, pois não quero ouvir mais nada. Nem de você, nem de ninguém!

Quando Ed terminou, Letícia estava com lágrimas escorrendo pelas bochechas. Sem dizer nada, ela saiu da sala com pressa, apenas pegando o par de sapatos que havia deixado na frente da porta e seguiu pelo corredor, sendo possível ouvir o bater da porta do apartamento ao lado.

Freddie, a essa altura, estava de pé. Retirou a máscara que usava e moveu os lábios, claramente dizendo alguma coisa.

Ed caminhou pela sala enquanto dizia:

— Eu não te escuto, não perca seu tempo.

Se Freddie realmente entendia ou não a língua, Ed não estava dando a mínima.

Foi ao quarto, recolheu uma manta e um travesseiro e voltou para sala, entregou-os para Freddie. Seguiu até a porta da frente, fechou com a chave, mas deixou o chaveiro pendurado na fechadura.

— Fica à vontade – disse em voz baixa. — Pode dormir no sofá. Ou, se quiser sair, pode ir, só deixa a porta fechada.

Freddie fez gestos simulando escrita, mas Ed não parou para ver. Seguiu novamente para o quarto e se trancou lá dentro.

Então, os pensamentos permeavam sua mente até não se lembrar de quando pegou no sono. Contudo, levantou de supetão da cama para correr até a sala. Ninguém estava lá, a manta e o travesseiro estavam sobre o braço do sofá e não foram usados.

“Então, é isso...” pensou.

Letícia não pôde passar o tempo com seu ídolo, Ed não saberia a razão dessa ressureição e, ainda por cima, os dois amigos estavam tristes um com o outro.

Sentiu um aperto no peito. Precisava conversar com Letícia. Nada mais era tão importante que fazer as pazes com sua amiga. E só nesse momento que Ed notou um pedaço de papel deixado sobre o travesseiro.

“You need to talk with her, darling” estava escrito com caneta numa letra de mão impecável. “Don’t be a wanker”.

♚ ♚ ♔ ♚ ♚

Ed ajeitava a blusa quando Letícia atendeu à campainha.

O sorriso dela praticamente se desmanchou ao ver o amigo ali parado. De dentro do apartamento dela, vazava o som da tv e Letícia permaneceu atrás da brecha que abriu da porta. Era uma leitura corporal bastante óbvia para Ed, que dizia “você não é bem-vindo aqui até que me peça desculpas”.

Ele, por sua vez, engoliu em seco e demorou para falar. Apertava a barra da blusa até deixar os nós dos dedos embranquecidos.

— Que surpresa vê-lo sem máscara – disse ela para quebrar o gelo, embora nada afável.

Ed arregalou os olhos, estava tão preocupado em falar com Lelê que se esqueceu de usá-la.

— É! E-eu... não acho que precise agora... Você não mora tão longe assim. – Pôde sentir o rosto esquentar. Torceu para que a piadinha pudesse amenizar a tensão que ele mesmo sentia dominar o ambiente.

Entretanto, Letícia não riu.

— Engraçado mesmo é você dizer isso depois do chilique de ontem.

Ele sabia que Letícia ainda estava chateada e nem era de seu feitio enrolar tanto para falar sério com ela. Suspirou com pesar, relaxando os ombros, deixando a guarda baixa propositalmente.

— Podemos conversar? Freddie sumiu... – Ed se preparava para iniciar suas desculpas, mas a reação de Letícia o interrompeu.

Ela olhou para dentro de seu apartamento, como se precisasse checar algo antes, e voltou o olhar para Ed, como se o achasse doido de pedra.

— E por que se importa com isso agora? – indagou ela com evidente ironia. — Pensei que não quisesse ouvir mais nada de ninguém.

Leticia abriu um pouco mais a porta e cruzou os braços, esperando a justificativa que viria, embora Ed estivesse bastante desconfiado da visível calma diante do sumiço do músico que ela dizia gostar muito.

— Mas eu sei que ele é seu ídolo e, de certa forma, foi culpa minha que isso aconteceu. – Suspirou profundamente. — Não queria ter dito aquelas coisas pra você, Lelê.

— Mas fez mesmo assim.

— Tem razão. – Sinalou com a cabeça. — Eu me arrependo muito do que eu disse e da forma como me expressei, por isso estou aqui pra pedir desculpas. Freddie escreveu esse bilhete. – Entregou o papel dobrado para Letícia. — Não quero ser um idiota. Me desculpa, Lelê, por tudo.

Ela pegou o bilhete e o desdobrou. Enquanto lia, um sorriso enorme surgiu em seu rosto. Voltou a dobrar o papelzinho e olhou de relance para dentro do apartamento com o mesmo sorriso.

— Ah, Ed... é claro que aceito suas desculpas. Cacete, você é meu amigo! – Ela arrancou um sorriso de alívio de Ed. — E quero me desculpar, também. Achei que as músicas pudessem te ajudar a superar a dor e acabei só piorando as coisas. Me perdoa, tá? – Letícia batia o papel contra a palma da outra mão, ansiosa. — Aliás, Freddie não sumiu, seu tonto... – Riu, mas depois, cochichou a frase seguinte. — Não ainda...

De repente, Ed teve a mão puxada e acabou dentro do apartamento de Letícia, em meio aos risinhos dela, e se deparou com o dito cujo banhado pela luz do sol da manhã, vinda da varanda, sentado no sofazinho assistindo desenhos na Tv.

Freddie, por conta da movimentação na entrada, virou-se para vê-los e, assim, lançou um sorriso tão gentil que aqueceu o coração de Ed e, certamente, o de Letícia também, mas nada disso a impediu de revelar o que havia descoberto.

— Eles estão ressuscitando quase um mês antes da data que marcou suas mortes – Letícia cochichou com tristeza na voz. — Só temos esse tempo com ele.

Freddie, alheio a conversa, fez o movimento de bater palmas enquanto levantava do sofá e se aproximou do casal de amigos.

Ed ficou assustado pelo simples fato de não detectar o som que deveria ouvir das palmas do outro. Segurou a mão de Letícia num impulso e quase gritou:

— Você estava certa! O problema está em mim!

♚ ♚ ♔ ♚ ♚

Freddie falava, estralava os dedos ou batia os pés no chão, mas Edgard não ouvia uma nota sequer dos sons que deveriam soar. E por mais que tentasse leitura labial a compreensão também parecia muito mais difícil.

Letícia teve a ideia de jogar mímica, porém, com uma diferença crucial: ela repetia exatamente os mesmos gestos que Freddie usava para se comunicar, esperando que Ed também não a compreendesse.

Entretanto, ocorreu o oposto: concluiu-se que Ed não só não ouvia Freddie como também não o entendia.

E, durante as primeiras semanas após essa descoberta, não se via qualquer melhora dessa condição. Nem um simples aceno parecia normal.

A escrita se tornou a única solução viável, já que Ed conseguira ler o bilhete deixado por Freddie.

Mas até a lenda do Queen perdera a paciência em ter que escrever qualquer coisa que quisesse dizer apenas para Ed entender, recorrendo aos bilhetes já escritos mesmo quando a resposta se tornava aleatória, o que só acontecia quando Letícia não estava presente para intermediar.

Por essa razão – principalmente – Ed parou de ir ao apartamento de Letícia, mas sabia o que acontecia por lá, quando o som vazava para o seu apartamento, dos álbuns do Queen que sua amiga ouvia todos os dias com seu ídolo.

Talvez, ela tivesse contado sobre ele ser um grande artista e mostrou todas as músicas que ele já fez. Porém, Ed não quis interferir. Certamente, Lelê sabia o que estava fazendo.

Seguiu sua rotina o mais normal que conseguiu, ainda que estivesse intrigado com a “deficiência” recém descoberta.

Não tinha ideia sobre o que a causara, contudo, desde a chegada de Mercury, Ed não conseguira mais tirar as lembranças de sua mãe feliz e ouvindo suas músicas favoritas, da cabeça.

Elas martelavam com força a cada dia, como se ganhassem vida própria e quisessem sair da escuridão de onde Ed as deixou.

Nunca chorou pela morte da mãe, nem mesmo depois do enterro, quando chegara em casa e se descobriu sozinho dali em diante. Tendo de morar com um tio que não conhecia, mas sabia que ele não suportava a ideia de cuidar de uma criança.

E, diante do comportamento do próprio tio, Ed aprendeu que “não há dor emocional se esquecer o que a causa”. E seguiu por esse caminho por tempo demais.

Conseguiu se emancipar com 16 anos. E acreditava ter superado qualquer problema que tivera anteriormente. Incluindo a morte de sua mãe. Mas, como revelado depois, fora um ledo engano.

Ao descobrir que sua melhor amiga era fã da mesma banda que sua mãe gostava, Ed tivera a pior crise da vida.

A solução que encontrou foi negar-se a ouvir qualquer coisa que o levava à Amélia, afinal, nunca esteve preparado – embora não admitisse – para sentir a dor da perda que, em silêncio, crescia dentro dele durante todos esses anos.

Letícia tentava, com paciência e insistência, fazer com que a reação de Ed às músicas fosse a mais tranquila possível, sempre dizendo que ele deveria, ao menos, manter as boas lembranças que tivera com a mãe, consigo.

Mesmo assim, Ed buscava enterrar cada vez mais fundo a memória de sua mãe, quase desejando que ela nunca tivesse existido para que ele não precisasse sentir absolutamente nada.

Mas Freddie trouxe tudo à tona, mesmo sem intenção.

Ed começou a se questionar se deveria mesmo esquecer o amor que sua mãe se dedicou tanto para lhe dar, e a resposta foi óbvia.

No trabalho, uma cliente chamou sua atenção, tirando-no de seus devaneios.

— Está tudo bem, moço?

Só quando a cliente perguntou, que Ed se descobriu chorando.

Notas finais
༺ Glossário ༻ ➭ Lazing On A Sunday Afternoon: “Descansando Num Domingo À Tarde” numa tradução livre. 2ª música do 4º álbum do Queen, “A Night At The Opera”, composta por Freddie Mercury em 1975; ➭ You need to talk with her, darling: “Você precisa conversar com ela, querido” numa tradução livre; ➭ Don’t be a wanker: “Não seja um idiota/imbecil” numa tradução livre. Obrigada por ler e até o próximo.