It Will Rain
7 Capítulo 6 - Zombie
Notas iniciais
Boa leitura.
Terceira pessoa.
A bela ruiva estava deitada de bruços na cama velha, com um lençol encardido a cobrindo até os ombros. Seus olhos azuis fitavam a parede cheia de rachaduras, perdidos, assim como seus pensamentos.
Havia medo neles; medo não só por ela, mas pelas pessoas que estavam envolvidas. Algo em sua mente dizia que nada daquilo acabaria bem, como também dizia que precisava interferir.
Mas a verdade é que Victória não sabia como agir. Ao menos agir sem que seu amante soubesse. Então o que faria, sendo que tinha até medo de dormir ao lado de Riley e correr o risco de que ele fosse matá-la a qualquer hora durante seu sono?
Maldito dia em que o conhecera. Maldito dia em que se apaixonara por ele. Maldita vida que não a deixava ser feliz. Mas se ela não fosse, então os outros seriam. Ela estava disposta a ajudar Isabella, por mais que ela não quisesse sua ajuda.
Victória passou a fitar a porta do banheiro no exato momento em que Riley a abria e saia dali com uma toalha enrolada na cintura.
– Você vai sair? – ela perguntou quase em um sussurro.
– Vou – Riley respondeu, apenas.
A ruiva suspirou frustrada. Sentou-se na cama, puxando o lençol para cobrir seu corpo nu. Encostou as costas na cabeceira da cama, provocando um rangido.
– Não aguento mais esse lugar – Victória reclamou. – Você já tem o dinheiro que queria, por que não podemos voltar pra Inglaterra?
– Porque ainda não consegui a melhor parte de tudo isso – ele respondeu distraidamente enquanto escolhia uma roupa casual em uma das várias malas encostadas ao longo da parede que parecia que iria despencar a qualquer momento.
Ela sabia o que ele queria; ela também sabia que Riley estava disposto a enfrentar qualquer um que entrasse em seu caminho. Enfrentar, não. Mas... Mas matar, sim.
Victória estremeceu, pensando que logo seria uma das pessoas que ele iria querer matar.
– Deixe Isabella em paz – ela pediu, embora sua voz fosse dura.
– Não se meta nisso.
– Então pare de persegui-la! – grunhiu, começando a se irritar verdadeiramente.
Se tinha uma coisa que a ruiva odiava, era essa persistência em algo que só levaria ao sofrimento de ambas as partes.
Ela sabia que Riley também sofreria... Assim como estava sofrendo quando os dois se conheceram após ele sair dos Estados Unidos quando Charlie lhe dera dinheiro. Victória poderia ser a melhor mulher do mundo, mas, para Riley, seria sempre a segunda opção.
– Eu vou ter Isabella, custe o que custar...
– E vai fazer o que fez na primeira vez? Você praticamente a matou! Ela está morta por dentro! MORTA! – berrou, levantando-se da cama, ainda com o lençol envolta do corpo branco e curvilíneo.
Riley trancou o maxilar enquanto vestia a calça jeans. Colocou uma camiseta branca e se virou com raiva para sua amante.
– Cale a boca, Victória!
O próximo segundo foi dedicado a um tapa no lado direito do rosto da ruiva, o que a fez cair no colchão, tamanha a força do ato.
Ele passou a fitá-la com uma expressão torturada, colocando as mãos nas têmporas. Era algo digno de pena, Victória pensou, sentindo sua face arder.
Não era, de fato, algo inusitado. Havia acontecido muitas vezes já; Victória estava acostumada, e por mais que não gostasse da situação – qual era a mulher que gostaria? –, precisava conviver com ela, uma vez que fugir estava fora de cogitação.
– Esqueça ela, Riley – Victória pediu, sussurrando em uma voz leve. – Eu te amo. Isso não basta?
E era verdade. Por mais que tentasse odiá-lo, não conseguia. Riley não tinha culpa, afinal... Afinal, ele era louco.
– Não, não basta – ele negou rapidamente, balançando a cabeça. – Me desculpe, Victória, mas... Eu amo Isabella.
Ela já sabia disso, é claro. Mas dito em voz alta era mil vezes pior. Parecia que seu coração fora reduzido ao tamanho de um grão de arroz.
Riley calçou os tênis apressadamente.
– Não me espere – falou, já abrindo a porta de saída. – Não sei quando irei voltar.
Ao ouvir o som da porta se fechando, Victória deitou de costas na cama, olhando o teto.
Seu olhar era decidido. Por mais que aquilo pudesse lhe custar a vida, iria fazer a coisa certa.
Edward Cullen.
– Entra – murmurei. Kate passou pela porta, fechando-a atrás de si. Suas bochechas estavam rosadas e ela tinha um olhar enigmático, esquisito. – Aconteceu alguma coisa?
– Eu... Não, não aconteceu nada – Kate suspirou e encolheu os ombros. – Mas eu queria que acontecesse...
– Do que está falando? – perguntei, enquanto desenrolava a camiseta que iria vestir para ir embora. Tirei o boné colorido da cabeça e passei a mão no cabelo, bagunçando-o mais do que já era bagunçado.
Kate se aproximou mais de mim, deixando nossos corpos praticamente colados. Afastei-me dois passos para trás, franzindo o cenho.
– O que sente por mim, Edward? – ela perguntou, sem prolongar o assunto. Estreitei os olhos.
Que tipo de pergunta era aquela?
– Digo... Eu sou só sua amiga? – insistiu, voltando a se aproximar. – Porque eu queria que fosse algo mais... Edward... – Kate lambeu os lábios, olhando para baixo. Segundos depois, ela voltou a olhar para mim. – Desde que você começou a trabalhar aqui, eu senti algo diferente. Sempre quis me aproximar, e acho que chegamos ao nível de amigos. Mas como você me vê?
Eu prendi a respiração e soltei-a lentamente. Mudei o peso do corpo para a perna direita, desconfortável com o rumo da conversa. Está certo que Kate sempre me jogara indiretas, mas nunca fora tão... Livre. Nós costumávamos conversar bastante, como amigos. Nós nunca saímos juntos, por escolha minha, mas isso não alterava nada em nossa... Amizade? Eu poderia mesmo dizer isso?
Talvez eu estivesse iludindo Kate. Talvez isso fosse culpa minha. Mas eu havia dito que não queria nada a mais com ela.
Por um lado, tudo o que ela dizia sobre ‘nós’, podia ser verdade. Se ela não gostasse de mim, porque iria insistir tanto? E não era coisa de uma semana. Desde que eu começara a trabalhar na lanchonete, aos quatorze anos – sob o descontentamento do Senhor Collin, que não queria me aceitar –, Kate demonstrava algo por mim. Eu achara que fosse fogo de palha, porque éramos praticamente crianças, sem contar a minha classe social, embora a dela não fosse diferente, tirando o fato de que ela, sim, tinha pais e uma casa... Normal, dentro dos padrões de uma residência domiciliar, e não um orfanato.
– Eu... Eu não sei, Kate – esquivei-me de suas perguntas. – Eu acho melhor não termos nada. Você encontrará a pessoa certa para você...
– Você é a pessoa certa para mim – interrompeu-me. Seu rosto se contorceu no que reconheci como rejeição e até desespero. – Por favor. Me dê uma chance. Apenas uma.
Esme costumava dizer que eu tinha que aproveitar minha adolescência enquanto era tempo. Segundo ela e Carlisle, eu estava sendo precoce demais em relação ao trabalho. Mas, para mim, era o certo; afinal, eu só podia garantir meu futuro até os dezoito anos – o que ainda me dava dois anos, sendo que eu tinha dezesseis – e, depois disso, não teria mais onde morar.
Eu também nunca tivera uma namorada para saber como é um relacionamento desse nível. Eu tinha medo de me magoar mais do que havia me magoado com a morte dos meus pais; eu não podia dar uma situação financeira boa a um cachorro, quem dirá a uma mulher.
No entanto, já estava na hora, certo? Carlisle sempre me incentivava a marcar um encontro com Kate, a qual ele conhecia de tanto que eu reclamava. Ele, de fato, era um pai para mim; eu não o escondia nada e sempre aceitava seus concelhos, mas nem sempre os colocava em prática, como era o caso de minha colega – ou amiga – de trabalho.
Pelo que Carlisle dizia, eu não devia ser apegado às pessoas a ponto de querer ter minha primeira vez depois do casamento – se é que um dia eu me casaria; e não, eu não tinha essa necessidade de querer ter relações sexuais só com a mulher que amasse – e ser recatado com eu era.
Após analisar todos os fatos, eu continuava sem saber o que fazer. Por um lado, namorar Kate podia ser bom; seria como uma distração – o que Carlisle queria, porque vivia dizendo que eu não era um adolescente de dezesseis anos normal, sempre cheio de problemas. Pelo outro, eu tinha receio de magoá-la e me magoar, levando em conta todas as minhas condições, prevalecendo a financeira e o meu futuro incerto.
Mas se não desse certo, poderíamos terminar, não é? É claro que poderíamos. Todo mundo fazia isso.
Kate percebeu minha dúvida e se aproveitou disso para levar sua mão ao meu rosto, em uma carícia suave. Ela me olhou por baixo dos cílios e mordeu o lábio inferior.
Se ela tinha a intenção de me fazer sentir algo, não obteve o efeito desejado, dentro dos padrões de filmes e livros de romance – se é que o quê eles mostram seja mesmo verdade; eu não acreditava.
Desviei meus olhos dos seus por um momento para ter certeza de que a porta estava fechada e que meu chefe não entraria e nos pegaria assim... Tão próximos um do outro. Quando voltei meu olhar para Kate, acabei fechando os olhos em surpresa. De repente, ela estava me agarrando, segurando minha nunca com força e esmagando seus lábios contra os meus. Suas unhas compridas fincaram em meus braços, me puxando cada vez mais para si. Eu gemi de dor, tendo a certeza de que minha pele ficaria marcada mais tarde.
Entretanto, ao invés de nos separar quando ela começava a parar o beijo por perceber que eu não estava retribuindo, agarrei sua cintura com as duas mãos e passei minha língua em seus lábios. Kate, imediatamente, abriu a boca, dando-me passagem.
Em um momento, eu não correspondia ao seu beijo; no outro, nossas línguas praticamente travavam uma batalha.
Eu não sabia quanto tempo fazia que estávamos nos beijando, mas quando o ar começou a ficar escasso, ouvimos um barulho do lado de fora e soltei Kate quase com brutalidade, me arrependendo após ser alvo de um olhar feio dela.
Ofegantes, olhamos ao mesmo tempo para a porta; não sei sobre Kate, mas eu prendi a respiração com o que vi.
Isabella não olhava para nós no momento, mas como eu ia saber se ela não estava olhando antes? E, como eu teria garantias de que ela não contaria nada ao Senhor Collin? Eu precisava desse emprego, e me sentiria ainda mais culpado se Kate fosse despedida por minha culpa.
Se eu tivesse certeza que daria tempo, teria me escondido atrás do armário velho ou, quem sabe, atrás da cadeira de metal que se encontrava enferrujada, esquecida no canto da sala. Mas, lentamente, Isabella voltou seu olhar para nós. Percebi que a posição em que ela se encontrava praticamente gritava que ela já estava nos espiando. Sem contar a reação exagerada de susto quando percebeu que a olhávamos.
– Que é? – Kate perguntou, com a voz seca e arrogante. Pelo canto do olho, vi que ela cruzou os braços e levantou o queixo.
– Que é o quê, loira chata? – Isabella devolveu, arqueando as sobrancelhas e entrando na sala onde estávamos. Ela imitou a posição de Kate, como uma provocação. – Só vim pegar minhas coisas. Não tenho culpa se vocês ficam se agarrando.
Kate bufou e encarou Isabella como se pudesse destruí-la com apenas um olhar.
– Você estava espiando, não é? – ela provocou, com um olhar cínico. Em seguida, apontou um dedo para Isabella, que se aproximou a passos lentos e com uma expressão nada simpática no rosto. – E vai fazer o que? Contar pro Senhor Collin? Conte. Tenho certeza que vai conseguir o que quer – e, em um tom mais baixo, ela completou: – Mas você nunca conseguirá Edward. Você ficou com inveja quando viu nós nos beijando, não ficou? Você pode ser riquinha e bonita, mas é chata e mal humorada o suficiente para nunca conseguir um namorado que te ame.
Franzi o cenho. De onde Kate tirou tudo aquilo? E, principalmente, a coragem. Porque ela era sempre tão medrosa.
– Primeiro, não aponte o dedo pra mim – Isabella grunhiu, agarrando o dedo de Kate. Eu podia jurar que a vi torcendo-o, até porque Kate soltou um resmungo. – Segundo, inveja do que? Acho que esse papel é seu, afinal, quem é que está sempre me dizendo o que fazer, tentando parecer melhor que eu? Tentando ser o centro das atenções? Se enxergue, Kate. Veja suas ações, e principalmente palavras, para depois falar de mim. Eu só estava conversando com os meus amigos um dia desses. E você está aqui, agarrando seu colega de trabalho.
Eu podia até ser a favor de Kate, mas tinha que concordar com Isabella.
Ela não respondeu. Eu não podia ver seu rosto, porque ela estava de costas para mim. Eu apenas podia ver Isabella, que mantinha sua expressão dura e arrogante no rosto. Vários segundos se passaram, até que vi Bella engolindo em seco; fora um gesto quase imperceptível, mas eu me encontrava olhando fixamente para ela.
Lentamente, vi quando Kate ergueu uma das mãos em direção ao rosto de Isabella. Arfei, aproximando-me dois passos, mas sem encostá-las.
– Ouse e você se arrependerá – Bella estreitou os olhos, ameaçando. Talvez fosse a hora de interferir.
– Chega – murmurei. Elas não pareceram me escutar. – Chega – repeti, com a voz mais alta e peguei o pulso de Kate, trazendo-a para perto de mim.
–Vai defendê-la, Edward? – Kate perguntou, virando-se em minha direção. – Você sabe que ela merece. Ela não gosta de nós.
Revirei os olhos.
– Isso não é uma disputa, Kate – respondi. – Não estou defendendo ninguém, até porque essa briga de vocês não tem nem propósito. Onde querem chegar?
Kate puxou seu pulso da minha mão bruscamente e olhou para Isabella, enquanto caminhava em direção à porta. Ela olhou para mim mais uma vez e saiu.
Suspirei. O que há com ela? É a segunda vez que ela começa uma briga e sai chorando, praticamente se humilhando. Olhei novamente para Bella, que continuava parada longe de mim.
– Achei que você tivesse um gosto melhor – ela comentou e fez um barulho de desaprovação.
– E você se importa com isso? – provoquei. Ela pegou suas coisas no armário, sem me olhar. – Você parecia muito incomodada quando me viu beijando Kate.
No começo, pensei que a qualquer segundo um objeto fosse voar em minha direção, mas Isabella apenas revirou os olhos para mim.
– E por que eu estaria incomodada?
Mordi o lábio inferior. Realmente, eu não podia discutir com ela. Isabella parecia ser do tipo que gostava de ter a última palavra sempre. Dei de ombros quando ela arqueou uma sobrancelha para mim, incitando-me a responder.
Ela tirou uma blusa de dentro da mochila e voltou a olhar para mim.
– Atração, talvez? – encolhi os ombros e mordi minhas bochechas por dentro, tentando olhar para qualquer coisa, menos para ela, que me fitava como se pudesse enxergar minha alma.
Isabella parecia tão intensa em tudo o que fazia... Principalmente quando, ainda me olhando, tirou a camiseta do uniforme da lanchonete para vestir a outra. Era a segunda vez que eu a via com apenas um sutiã, e foi impossível desviar meu olhar de seu corpo. Sua cintura era fina e sua pele tinha uma cor pálida de tão clara, mas mesmo assim bonita. Ela era magra, mas na medida certa. Meus olhos desceram para o cós de sua calça jeans – muito colada ao seu corpo, por sinal – e minha mente praticamente criou asas, imaginando-a sem aquela peça.
Tudo bem; eu podia ser muito inocente algumas vezes, comportado e virgem. Mas eu era homem e não podia ignorar a figura em minha frente.
Forcei meus olhos a voltarem para o seu rosto, mas falhei, parando no meio do caminho. Soltei o ar – que eu não percebi que prendia, até agora – lentamente. Seus seios eram... Perfeitos, embora parcialmente escondidos por um sutiã preto. Não eram grandes, mas sim de um tamanho médio que caberia perfeitamente em minhas mãos e... Por que eu estava pensando nisso?
Pisquei e dessa vez consegui voltar a olhar seu rosto. Isabella me olhava cinicamente. Senti minhas bochechas queimando. Ainda me olhando, ela pegou sua outra blusa e vestiu-a. Depois, pendurou a mochila no ombro e se aproximou de mim, ficando nas pontas dos pés, deixando nossos rostos próximos.
– Atração? Da parte de quem? – perguntou baixinho em meu ouvido. Estremeci e ela deu uma risada rouca, voltando a sua posição normal.
Eu a segui com os olhos até que ela saísse da sala, fechando a porta atrás de si. Engoli em seco, encostando-me na parede e fechando os olhos. Voltei a abri-los no momento em que escutei o barulho alto do ônibus do lado de fora da lanchonete e fitei o relógio.
Droga. Vou ter que ir a pé para o orfanato.
Isabella Swan.
Eu dirigia na direção da acadêmia que Alec possuía, pensando no que tinha feito minutos atrás.
Edward, com certeza, nunca mais abriria a boca para me desafiar. Eu nunca tinha feito aquilo que fiz dentro daquela sala, mas me senti melhor ao ter feito. Pelo menos, eu acho, ele pararia de ser tão prepotente ao achar que eu iria querer ter algo com ele.
Se bem que Edward era tão... Bonito.
Revirei os olhos. Será que ele sentia algo por mim? Por mais que não nos conhecêssemos direito, ele parecia muito provocante e insistente no ponto de achar que eu gostava dele de alguma forma.
Edward, ao menos, serviu como uma distração para que eu não sentisse tanta raiva de Kate. Não que eu tivesse esquecido o que ela fez e falou hoje, mas eu não ficara pensando nisso.
Estacionei o carro em frente a uma construção de dois andares, onde uma placa grande informava o nome do local e que era uma academia de dança. Eu sabia que, pelo tanto de alunos, Alec tinha mais professores para ajudá-lo, sendo que ele gostava mais da patinação no gelo.
Entrei no local, percebendo o quanto tinha mudado desde a última vez que eu estivera ali. Havia, agora, uma recepcionista, a qual pedi para que chamasse Alec. Não demorou muito e escutei seus passos pelo corredor à minha direita.
– Bella? – perguntou surpreso. Dei um meio sorriso, ao mesmo tempo em que ele me analisava. Alec era, definitivamente, o tipo de cara que mais se parecia com um modelo. Alto, musculoso, cabelos lisos e olhos castanhos. – Uau, você mudou!
Senti-me sendo erguida em um abraço forte. Forcei uma risada alegre, balançando-me para voltar ao chão.
– E você não mudou nada – comentei em tom de brincadeira. Só está mais bonito.
– Pois é. Estou ficando cada vez mais velho. Mas eu tenho que voltar para dentro. Venha – ele me puxou. – Como você está?
– Bem – foi uma resposta vazia. – Tudo na mesma...
Eu o segui, não prestando atenção no que tinha mudado. Mas uma coisa continuava a mesma: o ringue de patinação. Sorri minimamente ao vê-lo, embora não tenha me sentido empolgada como me sentiria a alguns anos atrás.
– Ela é minha aluna – Alec apontou com o queixo a menina que fazia exercícios em cima do ringue. Ela parecia desajeitada. – Eu acho que ela não consegue ganhar uma competição, mas se inscreveu no campeonato desse ano.
Assenti, sentando-me ao seu lado na arquibancada.
– É por isso que eu vim aqui... – comecei, apoiando os cotovelos nos joelhos e observando a menina. Ela ficou de pé sobre os patins, segurando-se nas cordas do ringue. – Eu me inscrevi no campeonato.
– Sério? Mas faz tempo que você não treina...
– Se você me aceitar, começarei a treinar logo.
Alec balançou a cabeça.
– A primeira fase já é em julho. Você só tem três meses para treinar – ele disse sem olhar para mim. – Acha que consegue?
– Tenho que conseguir. A menos que eu cancele a inscrição.
– Você, mais do que ninguém, deveria saber que não se pode cancelar a inscrição – Alec repreendeu-me. Dei de ombros. – Podia ter pensado melhor antes de ter se inscrito.
– É... Eu sei – admiti, bufando. – Acho que foi coisa do momento.
Ele fez um barulho de desaprovação e uma negação com a cabeça.
– E pretende fazer o quê agora?
Olhei-o como se ele estivesse falando merda. E ele estava, porque eu só tinha uma opção agora.
– Treinar – respondi com a voz firme.
– E você quer que eu te treine? – perguntou. Arqueei as sobrancelhas quando ele me olhou divertido.
– É claro. Pra que mais eu viria aqui?
Alec franziu o cenho e projetou uma expressão de magoado.
– Achei que estivesse com saudades de mim – murmurou. Eu ri baixinho; ele sempre conseguia me deixar, se não feliz, menos arrogante ou mal humorada. – E quando a senhorita quer começar?
Dei de ombros e cruzei os braços. A menina que estava no ringue conseguiu se equilibrar sem precisar de apoio. Parecia que eu estava me vendo quando voltasse a treinar.
– Semana que vem? – sugeri.
– Por mim começaríamos hoje, mas prometi a Jane que a levaria para jantar – ele lamentou.
– Jane? A mesma Jane...?
Ele riu e ergueu a mão esquerda para mim. Uma aliança grossa de ouro brilhava ali e, até três anos atrás, aquele não era seu lugar.
– Nós nos casamos. Aliás, eu te mandei o convite. Por que você não foi?
Franzi o cenho.
– Quando vocês se casaram? – perguntei.
– Em junho do ano passado, por quê?
Ah, claro. Renée e Charlie devem ter escondido o convite. Praguejei baixinho. Várias correspondências que chegaram para mim naquela época foram interceptadas por eles, incluindo cartas que alguns amigos e amigas de Phil me mandavam e pararam de mandar, não obtendo resposta.
– Charlie e Renée devem ter escondido – respondi, bufando.
– Muitas brigas ainda?
– Eu tive que sair de casa. Não estou morando mais com eles.
Alec se virou para mim, com o corpo em minha direção e me analisou. Dessa vez mais atentamente.
– Você ainda... Usa drogas? – sua voz foi cautelosa ao perguntar.
Eu não respondi e ele entendeu meu silêncio como uma afirmação. Ouvi um barulho e ergui meus olhos para o ringue, onde a menina tentava se levantar, após uma queda.
– Bella... Não faça nada que vá te prejudicar – ele pediu. – Pare com essas coisas. Vá procurar ajuda. Você vai acabar se matando desse jeito.
– Quem se importa? – devolvi, secamente.
A menina caiu outra vez.
– Acho que ela precisa de ajuda – comentei. Alec assentiu e sorriu fracamente.
– Foi bom te ver. Vou te esperar na semana que vem. Se cuide, Bella – ele levantou e me puxou para um abraço. – Existem pessoas que se importam com você. Lembre-se da sua irmã e de todos os seus amigos. Eles precisam de você, por mais que seja indiretamente.
[...]
Eu tentava a todo custo não pensar no que Alec havia me falado, mas parecia complicado demais. Em partes, ele tinha razão; tudo bem, ele tinha razão em tudo. Todos os meus amigos tinham. Mas o que nenhum deles entendia era... Eu. Eles não me entendiam. Ninguém compreendia o que tinha acontecido comigo, embora soubessem. Nem James, meu psicólogo, conseguira ao menos amenizar meus traumas – no final, ele se tornara mais um amigo do que um psicólogo.
Bufei, balançando a cabeça. Eu daria tudo para ser criança novamente, para não ter todos esses problemas... Ter meu pai ao meu lado, consolando-me após um pesadelo infantil ou uma queda no balanço da escola.
Mas o que eu desejava, acima de tudo, era nunca ter nascido.
Cheguei ao meu mais novo apartamento em dez minutos. Procurei uma roupa confortável na mala em cima da cama e fui tomar banho. Deixei que a água quente do chuveiro caísse no meu corpo, ignorando a banheira grande e convidativa. Lavei o cabelo, demorando bastante na tarefa, querendo que todos os meus músculos se relaxassem.
Sequei-me e vesti minha roupa, deixando para passar a pomada que Mary havia me dado e fizera-me prometer que a usaria nos pulsos, para curar os cortes.
Joguei todas as malas que ocupavam minha cama no chão e me deitei, após colocar meus fones de ouvido que reproduziam um rock no volume máximo. Acabei por ficar de bruços e enterrar meu rosto no travesseiro cheiroso e macio.
Sentindo aquele cheiro, perguntei-me mentalmente sobre quem lavaria e passaria minhas roupas, além de limpar o apartamento.
Oh, merda! Eu não havia pensado nisso.
Chamar Mary estava fora de cogitação, pois ela cuidava de Noah por praticamente 24 horas por dia. Contratar alguma pessoa também não era uma opção, visto que eu não teria dinheiro para tudo, já que Charlie não me bancaria mais.
Gemi em desgosto, pensando na única opção plausível: eu teria que ser autossuficiente.
Como eu limparia um apartamento inteiro, se eu nem sabia lavar louça?
Bufei repetidas vezes. Na mudança de uma música para a outra e no intervalo de minhas bufadas, ouvi a campainha tocando. Franzi o cenho; o porteiro deveria avisar antes, não deveria?
Tirei os fones de ouvido e fui atender a porta. Destranquei-a apenas um pouco, mas o suficiente para ver quem era.
Abri tudo de uma vez ao ver um entregador de pizza.
– Eu não me lembro de ter pedido pizza – falei, encarando. Parecia tão... Afeminado.
Reparei que ele engoliu em seco.
– Olá, Isabella – falou. Definitivamente, o que quer que fosse, se parecia com uma mulher.
– Como sabe meu nome? – percebi que era uma pergunta tosca, já que eu não era alguém totalmente desconhecida. Acabei por tentar novamente. – Quem é você?
Estreitei os olhos ao ver o estranho puxar a própria barba. Em seguida, tirou o boné, revelando longos e lisos cabelos ruivos.
Eu comecei a fechar a porta, mas a mulher me impediu, colocando seu pé no meio.
– Me chamo Victória – falou rapidamente e notei certo desespero em sua voz. – Por favor, é importante.
Minha mão se apertou na maçaneta da porta, segurando firme. Respirei fundo.
– Olha, diga logo o que quer e vá atormentar outro, porque eu realmente quero voltar para o conforto da minha cama e...
– É sobre Riley – ela me interrompeu.
Eu congelei, com a boca ainda aberta, sem conseguir completar o que eu falava.
Umedeci os lábios, balançando-me nos meus calcanhares. A única coisa que se passava pela minha cabeça era como a tal Victória me conhecia e conhecia Riley. Minha boca se tornou uma linha fina e arqueei as sobrancelhas.
– Desculpe...?
– Eu prometo que não irei demorar – ela falou apressada, movendo-se para frente, fazendo menção de entrar no apartamento.
Bloqueei a passagem, colocando meu corpo na frente.
– Como posso ter certeza de que você só quer conversar?
A estranha ruiva encarou-me como se implorasse por algo ao se encostar na parede.
– Como posso ter certeza – repeti – de que você não carrega uma arma dentro da bolsa?
Ela estreitou os olhos e estendeu a bolsa para mim.
– Quer conferir? – perguntou. Neguei com a cabeça. Analisei suas roupas, que eram coladas demais para que ela escondesse algo por baixo, além de que se houvesse algo suspeito em sua bolsa, ela não me deixaria ver. – Eu não vou embora antes de falar com você. Então, se não se importa de que os vizinhos ouçam nossa conversa...
Praticamente rosnei ao abrir a porta com força. Victória olhou assustada para o chão, onde eu podia jurar terem caído algumas lascas pequenas da madeira envernizada da porta.
– Vai entrar ou não? – questionei, fazendo um gesto amplo na direção do interior do apartamento. Ela corou e entrou. Seus olhos analisavam a sala inteira.
Havia um sofá grande e bege encostado numa parede. Na parede lateral, uma janela que ia do chão ao teto e que dava acesso à varanda. A sala de jantar era anexada à sala de TV, tornando-se um ambiente só. E, por fim, havia uma estante pequena comportando uma televisão de última geração na parede oposta à do sofá. Não havia uma decoração elaborada, muito menos fotografias preenchendo os espaços livres da estante. Somente um tapete felpudo marrom, sem nenhuma mesa de centro sobre ele.
– Apartamento legal – ela elogiou.
Dei de ombros e me sentei em uma das pontas do sofá. Victória se sentou no outro extremo, talvez percebendo que eu não fazia o tipo que gostava de visitas. E ela estava certa.
– Bom, nem sei por onde começar...
– Espera! Você veio aqui alegando querer conversar comigo, praticamente invadiu meu apartamento e agora fala que não sabe por onde começar?!
Victória corou.
– É uma história complicada. Vou começar contando como conheci Riley.
Assenti e esperei ela prosseguir. Victória se ajeitou melhor no sofá, lambendo os lábios e apertando fortemente sua bolsa sobre seu colo. Se seu nervosismo não fosse tão visível, eu diria que tinha algo dentro daquela bolsa.
– Meus pais morreram em um acidente de carro há quatro anos – ela contou. – Eu fiquei órfã, por não ter nenhum parente capaz de cuidar de mim. Tentei fugir ao máximo de um orfanato e comecei a me prostituir, morando na casa de uma madame na Califórnia. Eu sou naturalmente da Inglaterra e acabei ficando presa nos Estados Unidos na viagem que fizemos para cá, e foi quando meus pais morreram. Um ano depois, Riley me encontrou.
– Riley esteve esse tempo todo na Califórnia?
Ela negou com a cabeça.
– Não. Talvez nômade seja o termo certo. Nunca ficamos muito tempo em um lugar – então, ela continuou, sorrindo sonhadora, mas ao mesmo tempo triste. – Acabei me apaixonando por Riley no primeiro momento que o vi. Ele ia todas as noites na casa onde eu trabalhava e sempre me escolhia. Não demorou muito e ele me pediu em namoro, dizendo que me tiraria daquele lugar e me daria uma vida melhor. Embora fosse carinhoso comigo, eu sempre soube que Riley não me amava. Fazia mais de um ano que estávamos juntos quando nos mudamos para a Inglaterra.
Victória parou, respirando fundo. Percebi que a qualquer momento ela desabaria em lágrimas. Seu olhar se voltou para mim por alguns segundos e depois olhou para a parede.
– Ele estava mais mudado a cada dia. Riley sempre olhava a foto de uma garotinha loira que guardava em sua carteira, mas até hoje eu não descobri quem é. Em compensação, descobri quem era você quando ele... Ele disse seu nome quando estávamos... Hum...
– O que? – eu berrei, me levantando subitamente do sofá. Uma onda de medo e ódio me dominavam.
– Me deixe terminar – ela pediu, movendo-se desconfortável. – Eu não gosto desse assunto assim como você, mas é necessário para o seu próprio bem.
Bufei, passando as mãos pelo cabelo, estressada.
– Continue.
– Eu exigi que ele me contasse, porque não era a primeira vez que isso acontecia, muito menos foi a última. Sem contar que ele sempre estava atento às notícias sobre sua família. Riley acabou me contando e eu fiquei horrorizada com tudo... Eu ameacei fugir, mas ele me ameaçou de morte. Mesmo com medo, eu continuei ao lado dele, porque o amo. Nós estávamos bem, ainda na Inglaterra, quando o dinheiro que seu pai deu a ele acabou e...
– Charlie? Meu padrasto? Dinheiro? – parei de dar voltas na sala e olhei-a, não acreditando. – Que dinheiro?
Victória arregalou os olhos, me encarando assustada.
– Oh... Você não... Seu padrasto não te contou que deu dinheiro a Riley para que ele sumisse daqui logo após o que ele te fez? Quer dizer, Riley voltou porque o dinheiro acabou e ele queria mais...
– Riley voltou?! – senti as coisas ao meu redor girarem e desabei no sofá, arfando.
– Por que acha que estou aqui? Fique calma, por favor – Victória se levantou e começou a fazer vento com as mãos perto do meu rosto. Fiz uma careta e a afastei. – Riley me disse ontem que ele iria fazer de tudo para te ter de volta, porque te ama. Mas Isabella, não se engane...
– Eu sei que Riley não me ama. Se amasse não teria feito o que fez – interrompi-a pela terceira vez, com a voz seca e carregada de raiva.
– Ele se diz arrependido – Victória deu de ombros. – Eu acho que ele não vai demorar a agir. Tome cuidado. Ele realmente está disposto a tirar quem entrar no caminho dele.
Escondi meu rosto com a mão, mal acreditando. Como se eu já não tivesse problemas demais... Como se eu já não fosse um problema...!
– Seu padrasto deve gostar muito de você. A quantia que ele deu a Riley da primeira vez não foi pouca, e agora ele triplicou o valor.
Fitei Victória, desacreditando.
– Ele me odeia – murmurei.
– Eu acho que não. Se ele te odiasse, porque daria milhões de dólares para Riley, que prometeu se afastar depois que recebesse o dinheiro? Talvez ele esteja te protegendo.
Eu fiquei em silêncio, sem saber o que dizer. Realmente, não tinha uma explicação. Por que Charlie daria dinheiro a alguém por minha causa? Ainda mais para minha proteção. Eles deviam ter algum acordo que beneficiava Charlie. Do contrário, eu não via um motivo plausível para que ele fizesse o que fazia.
– Você é amante de Riley – falei, odiando aquelas palavras. – Por que está aqui me contando tudo isso? É algum plano? Pois se é, avise a ele que não há mais nada o que fazer. Ele já acabou comigo. Não sou mais nada hoje, graças a ele.
– Não – ela negou, ajoelhando-se na minha frente. Seus olhos azuis eram fortes e determinados ao me encararem. – Eu vim te fazer enxergar a vida que está levando.
– E o que você sabe sobre vida para me dizer algo? – perguntei, amargurada.
Minha raiva parecia como um vulcão em erupção, tanto que não me controlei ao levantar novamente e chutar a parede com força, mal percebendo a dor em meu pé.
– Sei o suficiente para dizer que está acabando com a sua – ela não se abalou.
Balancei a cabeça, puxando meus cabelos.
– Saia daqui – murmurei, respirando fundo várias vezes para tentar resgatar algum controle. – Você não sabe nada sobre mim. Você não me conhece.
Percebi que, em algum momento, eu havia me sentado no chão e colocado a cabeça entre os joelhos. Meu rosto estava molhado, resultado das lágrimas que escorriam silenciosamente.
Minhas costas estavam encostadas na parede e eu tremia levemente.
– Você não é difícil de conhecer com apenas um olhar, Isabella. Você criou um muro envolta de si mesma e afasta as melhores coisas que a vida tem a te oferecer – sua voz entrava em minha mente e se grudava ali, praticamente ecoando. – Isso que você acha que vive não é uma vida, porque você está se matando aos poucos; está vivendo como... Como um zumbi. Está viva por fora, mas morta por dentro. Há muitas formas de esquecer, mas você se obriga a se trancar em sua própria concha.
Meu rosto se contorcia em uma expressão torturada conforme suas palavras eram ditas.
– Tudo aconteceu há três anos. Então, Victória, me diga você que parece tão sábia: Por que não consigo esquecer?
– PORQUE VOCÊ NÃO QUER ESQUECER! – ela gritou e me assustei. – Você é masoquista, Bella. E eu sei, sim, o suficiente, porque Riley te vigiava até três meses atrás. Claro que não ele, mas outra pessoa. E ela contava tudo para nós, tudo. Desde a hora em que você acordava para ir ao colégio, até a hora em que voltava drogada.
Um soluço irrompeu de meus lábios. Meu cérebro já não processava mais o significado de suas palavras, por mais que eu as escutasse.
– Sabe por que eu não faço questão de esquecer? – murmurei, levantando a cabeça para olhá-la. – Porque eu o amo. Por mais que eu tente esquecê-lo, meus pensamentos voltam a ele.
– Você acha que ama Riley, mas não ama. Como pode amar alguém que te fez sofrer? Isso é ilusão, Isabella.
– É claro que para você é ilusão – retruquei imediatamente. – Você é amante dele. Quer mais é que eu esqueça-o, não é?
– Sim. Sou amante dele e quero que você esqueça Riley, mas para o seu próprio bem. Eu estou do seu lado nessa história, e se estou aqui agora é pra te ajudar. Ele não demorará em te procurar, então sugiro que tome cuidado.
Assenti lentamente.
– Por que ele não me mata de uma vez? – perguntei baixinho.
Victória fechou os olhos por um momento.
– Porque ele te ama. Do jeito dele, de um modo obsessivo, mas ama.
Eu não acreditava em suas palavras. Era impossível; Riley não me amava. Nunca amou. Após tudo o que ele fez... Era impossível.
Eu estremecia só em pensar que ele voltara e que iria me procurar.
Victória se levantou e percebi que ela foi até a cozinha. Não demorou muito e ela estava de volta, trazendo um copo com água na mão.
– Tome e tente se acalmar – falou ao se abaixar ao meu lado e me entregar a água. Tomei alguns goles, tentando não engasgar em meio aos soluços. – Eu preciso ir. Se Riley voltar e não me encontrar... – ela balançou a cabeça, como se dissipasse pensamentos. – Eu deixei o número de celular anotado em um papel na geladeira. Se precisar, me ligue, ok?
Assenti, olhando para o nada e senti que ela se levantara e saíra dali. Minha cabeça doía como nunca e minha mente parecia estar entrando no estado de um torpor irrefreável.
O pior erro de Victória foi me deixar sozinha para que eu me drogasse até perder todos os sentidos. Mas também, como ela poderia abandonar seus próprios problemas para ficar com uma doente como eu?
[...]
Fazia duas semanas desde que Victória fora até meu apartamento. Eu não sabia o que pensar exatamente. Eu evitara sair nos últimos dias, sempre tomando cuidado para ver se ninguém me seguia.
Mas era inevitável. Um dia Riley viria atrás de mim.
Estremeci ao sair da lanchonete, após um dia de trabalho.
Edward e eu conversávamos sempre que possível, sobre assuntos banais. Ele e Kate pareciam quase se entender em um relacionamento, embora conturbado. Ela morria de ciúmes de nos ver juntos e, claro, eu provocava.
Eu havia deixado meu carro na rua lateral – uma rua vazia e curta, embora quase... Sombria – e fui até lá, a passos lentos com a cabeça baixa.
Destravei o alarme e levantei a cabeça. No mesmo instante, congelei no lugar. De repente, não havia mais sons a minha volta. Não havia ninguém.
Arregalei os olhos, mas não consegui sair do lugar.
– Sentiu minha falta? – Riley perguntou, parecendo bastante calmo, encostado na lateral do Volvo.
Engoli em seco, prendendo a respiração. Eu estava muito próxima dele, talvez três metros apenas, o que não me garantia muito a vantagem de correr e conseguir fugir.
– O que faz aqui? – perguntei, em um fiapo de voz.
Oh, Deus, ele estava ainda mais lindo, se isso fosse possível. Seus olhos verdes me prendiam como nunca, como se me hipnotizassem. Seus cabelos loiros estavam desordenados, e eu sentia minhas mãos formigarem de vontade de acariciá-los.
Mas ao mesmo tempo em que eu sentia essas sensações, sentia um medo sem tamanho dele. Meu coração batia mais rápido e minhas veias estavam carregadas de adrenalina. Eu tinha certeza de que se tivesse comido algo, teria vomitado tudo, tamanha era a agitação em meu estômago.
– Vim te ver. Eu estava com tantas saudades, Bells – fechei os olhos, apreciando o apelido que só ele me chamava. Quando voltei a abri-los, arfei ao vê-lo na minha frente, como se tivesse se materializado ali de um segundo para o outro.
Sua mão tocou meu rosto e não senti o que achei que sentiria quando nos reencontrássemos, se é que isso aconteceria. Senti nojo, pavor, medo. Tudo se misturando. Eu podia sentir a bile subindo por minha garganta, e forcei-me a engoli-la para não vomitar o vácuo que estava meu estômago.
– Não toque em mim – eu quis ordenar, mas saiu como um pedido de uma menininha indefesa. De fato, eu era indefesa, ao menos agora.
– Você está ainda mais bonita – ele me ignorou, me abraçando. Ofeguei, batendo meus punhos em seu peito para que ele me soltasse, mas seu aperto parecia ferro envolta do meu corpo.
A cada segundo eu sentia seus braços mais fortes a minha volta, tornando-me impossibilitada de me mexer.
– Me solta – grunhi, sentindo as lágrimas rolarem por meu rosto. – SOLTA!
Ele se afastou um pouco, e pude ver seu rosto carregando uma expressão magoada.
– Você não me ama mais, amor? Não me quer mais?
Gemi baixinho de dor quando ele agarrou meu braço apertando-o fortemente. Riley usou a outra mão para agarrar meu queixo e forçar-me a olhá-lo. Seus olhos verdes estavam mais escuros agora; mais selvagens e mais provocantes. Mais loucos.
Debati-me, tentando a todo custo soltar meu rosto de sua mão. Eu tinha certeza que ali ficaria uma marca roxa mais tarde.
– Responda, Bells – sussurrou em meu ouvido. Os sons que vinham do meu peito eram como gemidos de agonia. Eu mantinha os olhos fechados com força para não ver seu rosto, principalmente seus olhos, e temer mais ainda.
Era o mesmo pânico que eu sentira da primeira vez. A primeira vez que tive medo dele. A minha primeira vez. No entanto, agora parecia mais intensificado, porque eu sabia, de alguma forma, o que ele iria fazer.
– Solta... – implorei em voz baixa – Por favor...
Minha garganta parecia queimar como fogo, de tão seca que estava.
Abri os olhos, não aguentando mais a escuridão e o desespero. Riley estava com o rosto próximo demais ao meu, tanto que nossas respirações se misturavam. A minha ofegante e a dele calma. Eu não poderia dizer o que era a expressão no rosto dele; parecia determinação, saudades, desejo. Talvez tudo misturado.
Sua boca se aproximou da minha e ele roçou nossos lábios. Em seguida, os pressionou fortemente, tentando inutilmente colocar sua língua em minha boca. Eu desviei o rosto, não obtendo um grande sucesso. Riley firmava cada vez mais o aperto em meu queixo e, com o outro braço, passou a segurar minha cintura.
– Me beije, Isabella. Eu sei que você sentiu falta disso.
Oh, sim, eu sentira! Não era a mesma falta que meu pai me fazia, porque ele era uma pessoa boa, que eu sabia que jamais me faria mal. Ao contrário de Riley, que eu sentia falta, mesmo sabendo que ele me fazia mal. De alguma forma, eu tinha esperanças que ele mudasse e tivesse se arrependido; de que ele voltasse e dissesse que me amava, que jamais iria me abandonar novamente. Ou que, simplesmente, tivesse como me fazer voltar ao que eu era antes, há três anos.
Riley voltou a encostar sua boca na minha e senti repulsa.
– SOCORRO! – eu gritei, forçando a garganta ao máximo que conseguia para que minha voz saísse alta o bastante. – SOCORRO!
– Cala a boca, Isabella – ele mandou, colocando a mão em minha boca.
Eu tive que ficar quieta, tanto porque eu sabia que estava sem voz. Olhei desesperadamente para os lados, enquanto Riley descia os lábios para o meu pescoço. Estremeci, mas foi de medo.
Tinha que haver algo... Qualquer coisa que estivesse ao meu alcance e eu pudesse usar para bater em sua cabeça... Mas não havia. Levantei os olhos, sentindo-me extremamente exausta, mais psicologicamente do que fisicamente.
Então eu vi Edward, andando silenciosamente por trás de Riley. Ele colocou o dedo na boca, fazendo um sinal para que eu ficasse quieta, mas eu não fiquei. Passei a me debater mais forte e, em um momento de total desespero por Edward, mordi com força a mão de Riley.
– AI! – ele gritou, olhando-me assustado.
– Nunca. Mais. Encoste. Nela – Edward falou pausadamente.
Prendi a respiração e estava pronta para mandar Edward sair dali, quando ele puxou Riley pela gola da blusa e acertou um soco em seu nariz. Arregalei os olhos, desacreditando. Quem diria que Edward, o garoto que eu julgava tão inocente e com cara de menino, tinha acabado de bater no meu ex-namorado, além de quebrar seu nariz?
Riley estava jogado no chão, com as mãos no nariz.
– Quem você acha que é, garoto? – ele berrou, levantando-se e indo para cima de Edward.
Oh. Meu. Deus!
Eu não sei por que, mas temia – e tremia – por Edward. Riley, de longe, era mil vezes mais forte que aquele... Garoto totalmente impulsivo e irresponsável.
Eu continuava parada no mesmo lugar quando Riley pegou Edward pela camiseta.
Soltei a respiração lentamente quando, de uma forma muito corajosa, Edward empurrou Riley com uma mão e acertou outro soco em seu rosto, dessa vez no queixo.
E Riley voltou ao chão, com o rosto ensanguentado. Pisquei diversas vezes, e olhei para Edward. Ele não parecia machucado, mas parecia bravo. Eu nunca havia o visto assim. Já tinha presenciado momentos seus de nervosismo, mas ele parecia fora de si agora.
Só percebi que estava quase caindo de tanto que tremia quando Edward passou seus braços a minha volta e pegou a chave do carro, que continuava na minha mão. Arrastou-me – porque andar estava quase impossível para mim – até o carro e me colocou no banco do passageiro. Eu continuava ofegante e coloquei as mãos em meu rosto, tentando esconder as lágrimas.
Edward entrou no lado do motorista e saiu dali, deixando um Riley com o maxilar e o nariz quebrado.
– O que... – eu comecei falando baixo e gaguejando. – O que aconteceu com ele?
– Acho que desmaiou – percebi Edward apertar o volante com força. Ficamos algum tempo em silêncio, até que ele bufou e se virou para olhar rapidamente para mim. – Você o conhece?
Engoli em seco, encolhendo-me em meu banco e abraçando minhas pernas.
– Conheço.
Mais algum tempo em silêncio, até que Edward estacionou em frente a uma casa grande e simples.
– Você está bem? – sua voz estava mais calma agora. – Acha que consegue andar?
Assenti apressadamente e saí do carro. Mas, ao fixar meus pés no chão, minhas pernas fraquejaram e precisei me encostar na lateral do carro, em busca de algum apoio. Edward veio até mim e me abraçou apertado. Seus braços podiam ser como ferro a minha volta, mas de um modo carinhoso e reconfortante.
– Acalme-se – ele pediu. Percebi que andávamos, ou pelo menos ele andava, já que estava me arrastando atrás. Nós entramos na casa, mas eu não olhei em volta. Acabei por esconder meu rosto em seu peito, soluçando uma vez ou outra.
Ouvi passos perto de nós e uma voz alarmada.
– O que aconteceu com ela? – era uma voz feminina e parecia extremamente preocupada.
Edward ignorou sua pergunta e suspendeu-me pela cintura, para que pudéssemos subir uma escada não muito longa.
– Esme, pegue um pouco de água para ela e uma toalha limpa – pediu para a mulher.
Voltei a abrir os olhos e agora estávamos entrando em um quarto pequeno e simples, embora acolhedor. Edward me sentou na cama e se ajoelhou ao meu lado.
– Está mais calma? – perguntou. Respirei fundo diversas vezes antes de conseguir assentir sem que tremesse muito.
– Acho que sim.
– Edward? – a mesma voz feminina de segundos atrás o chamou, já entrando no quarto. Reparei ser uma mulher jovem, de corpo esguio, além de ser muito simpática. Ela trazia um copo com água, uma toalha branca e um sorriso doce nos lábios. Senti-me obrigada a sorrir fracamente de volta.
– Obrigado, Esme – Edward agradeceu, me entregou o copo e colocou a toalha ao meu lado. A mulher, Esme, sorriu novamente e saiu do quarto.
Não consegui beber muita água, apenas o suficiente para que minha garganta não ficasse mais tão seca.
– Você quer tomar um banho? Talvez te ajude a ficar mais calma – ele sugeriu.
– Quero – murmurei. Edward sorriu levemente para mim e me pediu para segui-lo. E assim o fiz, saindo do quarto e passando por um longo corredor. Havia muitas fotografias nas paredes, além das várias portas. Uma menininha estava sentada na escada no fim do corredor e percebi ser Claire, a irmã de Edward. Desviei meu olhar quando ele parou na frente de uma porta maior.
– Aqui está sua toalha... – ele falou, entregando-a para mim. – Vou buscar uma roupa mais quente para você.
Assenti e quando ele sumiu nas escadas, entrei no banheiro. Minha boca se abriu quando me deparei com algo, no mínimo, diferente. Não era um banheiro comum, e sim um longo ambiente com várias cabines e chuveiros dispostos ao longo de uma parede de azulejos brancos.
Franzi o cenho, escolhendo a última cabine. Por mais que eu devesse me importar por estar em um banheiro ‘coletivo’, fiquei mais tranquila ao ver que o Box era de um material branco e opaco que não permitia a visão tanto de fora para dentro, quanto de dentro para fora.
Liguei o chuveiro, recebendo uma grande quantidade de água fria primeiro. Após alguns segundos ela passou a esquentar e pude me deliciar com meu banho, embora não conseguisse parar de pensar no que tinha acontecido minutos antes.
– Bella? – uma voz infantil, que reconheci como sendo a de Claire, me chamou. – Suas roupas estão em cima da pia.
– Obrigada – sussurrei, sem saber se ela havia escutado. Mais alguns segundos e a porta do banheiro foi aberta e fechada em seguida.
Não me demorei muito no banho. Enrolei a toalha envolta do corpo e fui olhar as roupas que Claire havia deixado. Uma calça de moletom rosa e uma camiseta branca, que acabou ficando um pouco colada em mim. Eu não havia lavado o cabelo, o que não me faria sentir frio. Saí do banheiro descalça e olhei para os lados.
Edward não estava ali e torci para que ele estivesse no quarto de antes. Se não me engano, era a última porta do corredor... E acertei ao bater nela e ouvir sua voz murmurando um ‘entre’.
– Vá brincar, Claire – ele falou para a garotinha loira ao seu lado. Ela assentiu e saiu do quarto com os olhos fechados. Senti um aperto no peito e me encolhi. – Está melhor?
– Estou. Obrigada – respondi, fechando a porta atrás de mim. Meu peito tremia levemente pelo choro de alguns minutos atrás e vez ou outra algum soluço estava por minha boca.
Edward se levantou da cama e caminhou pelo quarto, que pude analisar melhor agora. Havia uma cama de solteiro com um colchão velho, um despertador antigo e um... Projeto de guarda roupa.
Franzi o cenho. Tudo era tão simples... Tão...
– Esme fez chocolate quente pra você – ele apontou para uma bandeja com uma xícara grande em cima da cama. – Tome.
Assenti e peguei a xícara, enquanto observava Edward cruzar os braços e voltar a se sentar na cama.
Subitamente me senti como se não pertencesse àquele lugar. Tudo parecia estranho para mim. Não porque fosse um lugar simples, mas porque só o ambiente em si parecia mais acolhedor. Parecia uma nova experiência, em anos.
Andei até a janela, tomando alguns goles do chocolate quente. Estava realmente gostoso. Perguntei-me mentalmente se Esme era mãe de Edward e, se fosse, porque ele a chamava pelo nome.
Outra coisa que eu não conseguia responder era o porquê de Edward ter me ajudado. Quer dizer, ele percebera o quanto Riley era mais musculoso que ele, não? Ele havia se arriscado por mim.
Me senti diferente, importante para ele. Importante para alguém.
Ouvi seus passos vindo em minha direção e parei, olhando para um gramado verde do lado de fora da janela. Algumas crianças corriam e brincavam ali.
Sua respiração quente batia em meu pescoço, provocando arrepios em mim. Apertei com mais força a xícara em minhas mãos e fechei os olhos brevemente, enquanto girava para ficar virada para ele.
– Quer conversar sobre o que aconteceu? – abri os olhos, encontrando os dele me olhando como se pudessem enxergar minha alma.
Estranhamente, parecia que algo havia mudado entre nós. Parecíamos mais cautelosos, e o ar de tranquilidade que construímos em algumas semanas havia sumido.
– Acho que seria bom – murmurei indo contra todas as minhas regras de nunca contar meu passado a ninguém. Algo em minha mente protestou, mas ignorei, olhando firmemente dentro dos olhos de Edward.
Tão verdes. Eram tão parecidos com os de Riley, mas diferentes ao mesmo tempo. Mordi o lábio inferior, indecisa. Como aquilo era possível?
Sem que eu percebesse, ele aproximou seu rosto o bastante do meu para que eu sentisse sua respiração quente bater em minhas bochechas. Seus olhos se fecharam e eu quase pude sentir seu gosto em meus lábios. Prendi a respiração, esperando pelo beijo.
Que não veio.
Edward se afastou, olhando para tudo, menos para mim.
– Você quer mesmo que eu conte? Se eu contar o que aconteceu mais cedo, terei que contar minha história inteira – falei melancólica.
– Conte. Não deve ser algo tão assustador – havia certo deboche em sua voz.
Umedeci os lábios, procurando as palavras certas.
– Então, Edward, o que você diria de uma garota que, aos 14 anos, foi estuprada pelo próprio namorado e ficou grávida?
Notas finais
Espero que tenham gostado. Eu adorei s2
Parabéns a todas que acertaram sobre o passado da Bella. Surpreendi vocês? ADORO, hihi!
Sabe o que eu percebi, gente? Que quanto mais eu demoro para postar, mais vocês mandam reviews... Hum, isso deve ser algum sinal, né? Há leitores demais e poucos reviews! E recomendações também, hehe. Não ligo se alguma florzinha quiser fazer uma!
É isso. Não vou demorar a postar o próximo capítulo... Mas é claro que recomendações dão um incentivo e tanto... Ok, parei.
Obrigada por comentarem e acompanharem It Will Rain!
Beijos, girls!
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N/B: Victória foi fofinha em tentar ajudar, não foi?
E esse Riley, tem vezes que não me gusta nem um pouco, rúm u.u
QUERO BEIJÃO BEWARD LOGO! ASHDIASHDHSDH. Esse Ed safadinho tendo pensamentos impróprios, adorei, haha.
Bom, o capítulo ficou lindão, certo? Então comentem muito, muito, pois a Ana merece o/
Beijos, cah_dalmuth
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