It Will Rain
4 Capítulo 3 - Memories
Notas iniciais
Me desculpem pela demora, sério! Eu juro que vou dar um jeito de compensar assim que entrar de férias!
Boa leitura (:
Isabella Swan.
No final da tarde, estacionei minha moderna moto preta na frente da casa de Jessica. Charlie nem imaginava que eu substituíra meu Volvo prata e confortável por ela, embora contra a minha vontade. Eu queria meu carro de volta!
No entanto, ele estava guardado no estacionamento grande que pertencia à S. Automobilistic. Eu podia muito bem ir lá e pegá-lo de volta, mas as chaves estavam guardadas no cofre do escritório de Charlie. Eu tentara descobrir a senha várias vezes, mas não obtive sucesso.
Eu teria que esperar um mês e, no meio de Maio, já teria meu carro de volta – esse pensamento se tornou um mantra e um consolo nos últimos dias.
Charlie, definitivamente, me odiava – e eu o odiava ainda mais.
O meu castigo teve início na manhã de quarta-feira, quando Mary me acordou dizendo que Charlie queria falar comigo. Eu não fui e, quinze minutos depois, ele estava entrando no meu quarto aos berros.
Passei metade da manhã com ele falando sobre como sou inconsequente e irresponsável.
Mais tarde, Jacob me ligara, avisando que tinha conseguido conversar com o senhor Newton e ficara sabendo que Mike estava no hospital e que Jessica tinha estado lá, mas logo recebera alta.
Eu não tinha visto nenhum dos três. No caso de Mike, o hospital não permitia visitas de pessoas que não pertenciam à família do paciente; no caso de Jessica, os pais não queriam deixar. E Jacob... Bom, eu não sabia.
Mas hoje era sexta-feira e eu ainda não sabia nada sobre o incêndio no Galpão, porque Jessica não estava indo para a escola. O senhor Stanley trabalhava e hoje a senhora Stanley tinha ido a um chá beneficente com algumas amigas. Aproveitei a deixa e dirigi até a casa de Jessica.
– Oi – ela murmurou após atender à campainha. – Entra.
Eu nunca estivera ali, mas o lugar me dera uma sensação estranha. Tudo era muito vermelho e o ar preenchido por uma essência enjoativa, que me lembrava baunilha, embora eu tivesse certeza que não era.
Ignorei o enjoo em meu estômago e a segui para a sala, onde me joguei no espaçoso sofá, sem ser convidada.
– Você está melhor? – fiz uma pergunta inútil.
Jessica tinha várias queimaduras no corpo, inclusive no lado esquerdo do rosto. As queimaduras eram avermelhadas e ainda não tinham secado, o que dava uma aparência tenebrosa na pele.
– Eu pareço bem? – perguntou retoricamente. Ela deu um riso sem humor e se sentou no sofá enfrente ao que eu estava.
Eu voltei a analisar seu corpo, sem ser discreta e sem me importar de ser pega.
– Você sabe como começou o fogo? – fui direta.
Jessica suspirou e mexeu em seus cabelos. Notei que estavam com um cumprimento menor.
– Mike... – as lágrimas escorriam por seu rosto enquanto ela se preparava para falar. – Ele foi acender um novo cigarro, mas nós estávamos bêbados e... – ela soluçou incapaz de continuar.
– Se acalme – pedi. Eu queria saber como eles tinham chegado ao hospital. Isso era o mais importante para mim, embora eu me roesse de curiosidade para saber a história inteira.
Não. O mais importante era saber como estava o meu envolvimento com a polícia. No dia em que chamei a ambulância, não pensei que isso poderia me acarretar vários problemas.
Jessica respirou fundo algumas vezes, engasgando-se com as próprias lágrimas.
– O isqueiro caiu e incendiou aquele monte de mato atrás do galpão – passou as mãos no rosto, secando as lágrimas. – O mato era alto demais e o fogo subiu por um fio de eletricidade. Então, você já sabe o que aconteceu.
– Mas não sei o que houve com vocês – apontei.
Ela balançou a cabeça.
– A ponta do fio explodiu e atingiu o Mike. As roupas dele pegaram fogo e eu tentei ajudar – balançou novamente a cabeça. – Mas deu tudo errado. Eu me desequilibrei e cai no chão, perto do mato incendiado. Minhas roupas atraíram o fogo...
– Como foram pro hospital? – eu mal esperei que ela acabasse de contar.
– Alguém chamou a ambulância. Eu estava menos queimada e consegui arrastar Mike para longe do fogo, mas aquelas chamas eram rápidas... Ele caiu diversas vezes e acho que quebrou um braço.
Inclinei-me para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e colocando a cabeça entre minhas mãos.
– E a polícia? – perguntei. Eu tinha certeza que meu rosto mostrava o quão angustiada eu estava por aquela informação.
Jessica, que olhava suas mãos cruzadas em cima de suas pernas, levantou o rosto para mim e respondeu inexpressivamente.
– Eles foram nos interrogar no hospital no dia seguinte – murmurou mais controlada. – Nós dissemos que havíamos ouvido gritos lá, enquanto passávamos na frente, e entramos. Então, o Galpão estava pegando fogo.
Eu franzi o cenho.
– Passavam lá?! – exclamei. – E não te perguntaram o que estavam fazendo em uma estrada deserta a noite?
– Não – respondeu, dando de ombros. – Só falamos que estávamos voltando para a cidade.
Suspirei e percebi o quanto minha respiração estava trêmula.
– Por que não falaram nada sobre nós? – perguntei. Minha voz soou baixa e abafada.
– Porque nós teríamos que explicar o que fazíamos lá. Seria pior... Ou você prefere que eu fale? – questionou, atordoada.
Revirei os olhos.
– Certo – sussurrei. – Você vai para a escola na semana que vem?
– Vou. Preciso de nota ou irei repetir o ano – ela respondeu. Não havia uma certeza em sua voz, porém. Assenti, esfregando as mãos na calça jeans, secando o suor que as cobria.
Eu não tinha mais nada para fazer ali. Despedi-me de Jessica quando ela foi abrir a porta para mim.
Eu ainda achava a história que ela havia contado para os policiais um pouco fraca, mas deixei isso de lado. O que importava era que eu não seria interrogada.
Terceira pessoa.
O homem loiro e de rosto bonito apoiou o cotovelo na janela do carro, passando a mão no emaranhado natural e com ar sexy que eram seus cabelos.
– Tem certeza que vai funcionar? – perguntou a mulher ruiva ao seu lado. Victória mantinha a expressão calma, mas qualquer um que a visse suspeitaria de que seu rosto e suas emoções externas eram apenas uma fachada.
Riley a encarou pelo canto do olho. Seus olhos incrivelmente verdes ostentavam uma segurança admirável, invejável e, ao mesmo tempo, nojenta para quem sabia de suas intenções e planos.
– Está preocupada, querida? – ele indagou, o tom de sarcasmo dominando sua voz rouca naturalmente.
Victória cruzou as pernas diante da provocação do amante. Ela mordeu a parte interna da bochecha, desejando que Riley fosse uma miserável mosca.
– Você acha mesmo que ela ainda te ama? – a voz fina da ruiva era o único barulho no carro e soava um tanto indignada. – Riley, já faz três anos... E depois de tudo o que você fez...
Riley bufou, revirando os olhos.
– Não há outro jeito, Victória – murmurou. Sua voz, então, ficou mais alta e mais firme: – O dinheiro que Charlie me deu está acabando. Precisamos de mais.
– Podemos achar outra pessoa – Victória argumentou rapidamente, sua voz ficando mais aguda e ofendida.
– Tsc, tsc – Riley estalou a língua e riu em seguida. – Você não está entendendo, querida. Eu quero Isabella.
Ele estava decidido: iria atrás da garota até que conseguisse o que queria. Mais uma vez. Porque ele adorava ver outras pessoas sofrerem – ainda mais quando ele era o provocador da dor.
Isabella Swan.
Voltei para casa assim que sai da casa de Jessica. Eu ainda tinha algumas coisas para absorver e era difícil ter estado tão perto da morte mais uma vez.
Minha cabeça doía levemente; havia algumas hipóteses para o meu futuro nos próximos oito meses.
Eu teria que sair de casa; viver ali estava se tornando o meu inferno particular e me xinguei por não ter pensado nessa opção antes. Eu poderia arranjar meios de chantagear Charlie.
Ou minha outra opção seria trabalhar e alugar ou comprar – o que era muito mais difícil – um apartamento.
No corredor do segundo andar, parei na porta do quarto de Noah e espiei-a. Ela estava sentada no chão, brincando com uma boneca. Cruzei os braços para observá-la. Eu tinha plena consciência de que ela não me merecia, mas eu simplesmente não conseguia deixar de ser quem eu era.
Então, por que eu não podia abaixar a guarda uma única vez? Por que não ser só eu mesma, ser a Bella que eu era há três anos?
– Bella! – ouvi minha irmã exclamando. Ela segurava a boneca ainda, mas me olhava alegre. Percebi que havia um curativo em seu braço esquerdo quando ela esticou o corpo para que eu a pegasse.
Mordi o lábio inferior, incerta. No entanto, deixei de lado todas as minhas mágoas e entrei em seu quarto.
Ela sorriu quando a puxei para meu colo. Sentei-me na cama com Noah agarrada em meu pescoço, sentando-se sobre minhas pernas.
– O que é isso no seu braço? – perguntei quando ela voltou a mexer no cabelo de sua boneca.
– Eu fui pro hospital ontem à noite – fez bico. – Mary me fez ficar lá com uma agulha no braço... Mas não doeu! – sorriu orgulhosa.
Eu ri.
– É claro que não doeu. Você é forte como sua irmã! – sorri.
Noah assentiu.
– Eu posso pintar o cabelo da Barbie? – perguntou. – Vai ficar que nem o seu!
Algo no fundo do meu peito desmoronou. Franzi o cenho, esperando que ela estivesse brincando. Mas ela não estava.
– Por quê? – perguntei, a voz baixa e oscilando. – Não é mais fácil você cortar o cabelo dela? Vai ficar igual ao da mamãe...
Eu sabia que não deveria chamar nossa mãe de Renée na frente de Noah; às vezes, eu não conseguia me controlar. A última coisa que eu queira é colocar uma contra a outra, embora Renée merecesse viver sozinha.
– Mas a mamãe não brinca de boneca comigo – murmurou, largando a Barbie ao seu lado, na cama.
Suspirei.
– Eu também não brinco.
Noah assentiu, compreendendo. Ela deu um sorriso triste.
– Mas você brincava. Mary disse que você não brinca mais comigo porque não tem tempo. É isso, né? Eu não ligo.
Fiquei alguns segundos parada, totalmente sem fala. Mary havia... Me defendido. Ela não criara uma imagem ruim de mim para minha irmã.
– É... – suspirei.
Noah deitou a cabeça em meu peito e abraçou minha cintura. Levantei a mão, hesitante, para passar em seus cabelos arrumados. Eles eram mais claros que os meus. Apenas nossos rostos eram praticamente iguais. Mary sempre dizia que Noah era a minha cópia.
Eu sentia vontade de mudar toda a vida de Noah; queria que ela tivesse uma infância como a minha, ao menos o começo. Eu não posso negar que os primeiros anos da minha vida foram bons – foram os melhores. E acho que eu nunca mais iria ter momentos tão felizes.
Phil era a pessoa mais importante que eu tinha. Morei com ele até os meus dez anos, infelizmente. Infelizmente porque eu queria que ele fosse eterno.
Meu pai morreu de câncer no sangue. Leucemia Mieloide Aguda. Fora difícil superar a perda, mas todos os momentos bons que vivi com ele valeram a pena.
Ao contrário do que muitos pensam, não sou filha de Charlie; mas sou filha de Renée. Os dois já eram casados quando ela teve um relacionamento fora do casamento e ficou grávida.
Eu não sabia muito bem sobre a história, porque nunca ninguém me contou. Mas eu tinha certeza de que fui rejeitada tanto por Renée quanto por Charlie.
Ainda bebê, fui morar com Phil, no Arizona. Eu ia poucas vezes para Nova York para ver Renée, e agradecia isso.
Phil não era casado e nunca foi. Ele também não tinha uma namorada, então eu precisava ficar com uma babá quando ele ia trabalhar. E essa babá era Mary. Ela sempre esteve comigo, e até hoje é como uma mãe.
Meu pai era a melhor pessoa que conheci. Generoso, gentil, humilde e amoroso.
Costumávamos tomar banho de chuva – as quais eram raras em Phoenix. Após nosso divertimento, ele fazia chocolate quente para mim.
Era engraçado ver sua falta de coordenação e experiência nas horas de pentear meu cabelo e me trocar. Diversas vezes eu tive que cortar o cabelo por nós exagerados ou vestir a roupa sozinha, porque de alguma maneira ele me sufocava dentro de uma camiseta.
No entanto, esses detalhes só faziam nosso companheirismo aumentar.
Eu era como um menino por volta dos seis anos. Adorava jogar bola e videogame, usar bonés, brincar na lama... Foram manias e vontades que Renée tirou de mim, alegando que eu agia como um garoto pobre.
Phil, apesar de ser simples, era médico e tinha seu próprio consultório, o que permitia que ele passasse mais tempo comigo.
Nessa época, eu já conhecia Charlie e sabia que ele era marido de Renée. Sabia, também, que ele não gostava de mim.
Mas, quando eu tinha acabado de completar nove anos, Phil descobriu que tinha câncer. Ele buscou tratamentos, mas a doença já estava em estágio avançado. Após um ano da descoberta, ele morreu.
Eu me lembro do dia como se fosse hoje: eu havia acabado de chegar da escola e sabia que meu pai estava em casa, mas Mary tinha avisado que não era para eu acordá-lo, porque ele estava muito cansado.
Concordei, claro, porque sabia que nos últimos dias ele estava ficando cada vez mais magro e mais cansado. Mas eu queria chamá-lo, porque tinha que contar as novidades para ele.
Eu tinha sido eleita como melhor aluna da classe e queria que meu pai ficasse sabendo para ficar alegre como eu estava.
Então, enquanto Mary fazia o almoço, aproveitei para subir as escadas e abrir a porta do quarto de Phil. Ele estava deitado na cama, dormindo.
Dormindo – como eu desejava que aquilo fosse verdade...
Eu o cutuquei, balancei seus ombros e gritei, mas ele continuava inconsciente. Por que simplesmente não acordava? Ele estava brincando comigo?
Mary, ao ouvir meus gritos, subiu para o quarto. Eu ainda não entendia o que estava acontecendo, e minha babá só me explicou após o enterro de Phil.
Por ser menor de idade, eu tive que ir morar em Nova York, junto com Renée. No começo fora difícil; eu não era tratada como antes. Havia muitas pessoas na casa – empregados – e todos estavam sempre com pressa. A maior parte do tempo, eu ficava trancada em meu quarto e só saia quando Charlie e Renée precisavam comparecer em algum evento.
Ainda assim, eu só saia de casa a tapas e agressões.
Era sempre Mary que me socorria após uma queimadura feita por Renée, ou um hematoma extremamente escuro provocado por Charlie.
Todas as agressões me resultaram a uma cicatriz nas costas e outra na barriga, uma queimadura na cintura e várias manchas roxas que duraram dias.
Mas meu inferno pessoal ficou pior aos quatorze anos.
Foi quando Riley entrou em minha vida, e saiu do pior jeito possível.
Um barulho de sapatos no corredor me assustou, deixando meu passado para segundo plano.
Charlie estava em casa e isso era uma grande novidade, levando em conta o horário. Delicadamente, coloquei Noah sobre sua cama. Ela se encolheu, abraçando o próprio corpo, mas não acordou. Seu semblante era triste.
Suspirei e fui até o escritório.
– Precisamos conversar, Charlie – falei, entrando sem bater.
Ele mexia em alguns papéis em cima de sua mesa e não parou para me olhar.
– Estou de saída já, Isabella – murmurou. – Só vim buscar um documento.
Ignorei o tom superior em sua voz.
– Tudo bem. Serei rápida – sentei-me na cadeira em frente à mesa, girando levemente. – Vou sair de casa – anunciei e acrescentei: – E quero um apartamento.
Charlie me lançou um olhar debochado.
– Então trabalhe e compre um.
Senti que meus olhos poderiam faiscar de ódio a qualquer momento.
– Você é responsável por mim até que eu complete 21 anos – apontei, mesmo odiando o fato.
– Então, se sou responsável por você, quero que continue aqui.
Charlie podia não ser meu pai biológico, mas, perante a lei, ele era como um. Infelizmente.
Eu não sabia se era a favor disso ou não; por um lado, eu preferia assim porque estava acomodada com todas as mordomias – o dinheiro fácil, o fato de sempre conseguir o que queria de quem fosse com simples palavras imperativas e o respeito. Pelo outro lado, o pior, era que eu dependia de Renée e Charlie.
Era algo complicado – porque eu não gostaria de ser dependente deles. Mas, se não fosse, eu não teria outro jeito de viver. Além de que eu adorava torrar o dinheiro dos dois. Nada era mais prazeroso quanto ao fato de Charlie vir tirar satisfações após receber a fatura do meu cartão.
– Charlie... – seu nome foi sibilado por mim e minha voz estava cortante. – Por que simplesmente não se livra de mim? Eu iria morar em outro lugar, e você não teria que me aguentar nessa casa. Você iria pagar minhas contas, apenas.
Ele me fitou. Seus lábios se viraram ligeiramente para cima.
– Você sabe pensar – falou com uma admiração falsa em sua voz. – Bem, não é uma má ideia. Mas eu tenho algumas objeções.
Respirei fundo. Ele tinha concordado; ótimo. Mas eu já sabia que Charlie não dava nada fácil para ninguém. Então, esperei pacientemente ele continuar.
– Você terá que trabalhar – continuou. – Eu te darei o apartamento que você escolher e metade do que você ganha como mesada. Você irá pagar as faturas dos seus cartões e comprará comida para si mesma. Ah, e terá que arranjar um namorado descente em... Hum, três meses. E irá nos apresentar.
No final de todas as regras, encarei-o surpresa. Um namorado. Como diabos eu ia arranjar alguém descente em... Três meses?
– Não preciso de um namorado – tentei manter minha voz em sua altura normal.
– Ah, precisa sim – sua voz foi, mais uma vez, debochada. – Você acha que irei deixar uma filha minha morar sozinha e levar homens para o apartamento? Você sabe como isso iria repercutir nos jornais?
Não era preocupação comigo, mas sim com sua imagem, claro. Bufei.
– Certo – murmurei, contra minha verdadeira vontade. – Até o meio da semana que vem eu venho falar sobre o apartamento.
Charlie assentiu. Pegou um papel e colocou dentro de sua pasta preta, saindo em seguida do escritório, sem dizer nada.
Girei mais uma vez na cadeira. Levantei-me e quando ia me virar para sair dali, meus olhos capturaram um papel que me deu arrepios.
Não que papéis me dessem arrepios, mas isso aconteceu por ver o que continha ali.
Na pequena folha branca e com um aspecto velho de tanto ser dobrada e desdobrada estava um número de telefone, que eu sabia que não era do país por causa dos códigos de cidade e estado. E, em cima, estava escrito ‘Riley’.
Era a caligrafia de Charlie, eu sabia. Mas eu não entendia o porquê disso. Só podia ser outro Riley.
Precisava ser.
Eu não toquei no papel e tinha o desejo de que ele não existisse. Minha mente tentava se convencer – e se acalmar – de que não era nada. Devia ser apenas mais um contato de Charlie.
No entanto, era coincidência demais.
Inconscientemente, passei as mãos no cabelo e sai dali, atordoada.
Vários sentimentos habitavam em mim. Eu não sabia qual era o maior. Eles se misturavam entre tristeza, medo, ódio, decepção, frustração e amor. Eu ainda amava Riley, mesmo depois de tudo o que ele me fizera.
Eu era masoquista, só pode!
[...]
Deixei o carro estacionado em frente ao lugar que precisava. Eu tinha uma ponta de esperança de que conseguiria um emprego ali, porque era bem mais fácil que um shopping, onde eu trabalharia até mais tarde.
Na lanchonete, no entanto, eu trabalharia só de sábado até mais tarde. E não teria que vir aos domingos, porque não abria.
Portanto, meu primeiro pensamento para arrumar um emprego fora ali. Até porque, eu conhecia Edward e ele podia me ajudar – mesmo não sabendo o quanto.
Entrei, e ninguém percebeu minha presença ali. Havia bastante gente, e os atendentes estavam todos ocupados. Uma pequena fila se formava em frente ao caixa. O ambiente não parecia tão colorido de dia, e me perguntei se isso se devia ao fato das luzes estarem quase todas apagadas.
Caminhei até o balcão, onde – pelo que pude perceber – um homem organizava copos e pratos limpos em um armário que eu não podia ver, porque era embutido no balcão do outro lado.
– Ei – chamei, sentando-me no banco alto. Quando o rapaz olhou para mim, percebi que era Edward e eu não o reconhecera porque ele usava o boné colorido.
– Oi – murmurou. Sua voz estava confusa. Edward franziu o cenho, guardando mais um copo e me encarou. – Tá fazendo o que aqui?
Eu ri.
– Vim te chamar pra sair... – respondi em tom casual. Ele pareceu surpreso.
– O que? Por que eu? – perguntou. Seus olhos estavam levemente arregalados.
– Nossa, calma. Até parece que você nunca saiu com uma garota – ri mais e ele revirou os olhos dessa vez. – Mas, na verdade, eu estava apenas tirando uma com a sua cara. Vim aqui pra ver se... Ahn... Precisam de alguém, ah, você sabe...
Edward me olhou esquisito.
Qual é o problema? Eu nunca tinha ido procurar um emprego e não fazia a menor ideia de como convencer alguém a me dar um.
Aliás, eu tinha que convencer? Sinceramente, estava achando que meus planos de sair de casa estavam indo por água a baixo.
– Acho que não sei – falou, confuso.
– Claro que sabe! – insisti. – Eu estou... Procurando um... Emprego?! – minha voz vacilou na última parte, o que fez com que parecesse uma pergunta.
– Ah, sim – sua voz foi baixa e, se não estivesse tão perto dele, eu não teria ouvido.
Vários segundos se passaram. Ele estava com as mãos apoiadas no balcão e o rosto abaixado. Franziu o cenho e olhou para mim.
– Por que você quer um emprego? – perguntou.
– Por que você é tão curioso? – devolvi, rapidamente. Na primeira vez que tínhamos nos encontrado e conversado, ele tinha feito algumas perguntas, embora nosso tempo tenha sido curto. Então, quando sua expressão mudou, me arrependi. – Quer dizer, porque sim... Quero meu próprio dinheiro.
Edward riu debochadamente e eu corei de raiva.
– O que? – guinchei praticamente.
– Nada – riu novamente. – É só que você é filha de Charlie Swan, então...
Uma súbita raiva me invadiu. Todo mundo me via desse jeito. Todos achavam que minha vida era perfeita e que eu nunca precisaria trabalhar, porque tinha uma herança suficiente para ter uma vida inteira com luxo e, quem sabe, meus filhos também.
Só que ninguém tinha culpa de pensar assim; Charlie e Renée faziam minha vida parecer perfeita para os outros, menos para mim. Entretanto, era inevitável que eu tentasse botar a culpa em alguém.
– Isso, por acaso, é da sua conta? – sibilei. – Não, não é. Agora, você poderia chamar o gerente, por favor? Eu estou usando o máximo de educação que posso, apesar de você não ser merecedor.
Um silêncio se instalou entre nós. Edward não olhava para mim, mas eu olhava para ele. Algo lá no fundo me disse que talvez eu tivesse sido um pouco rude. Há três anos eu tentarei concertar aquilo, mas eu não estava no passado.
Eu estava no presente.
Minhas constantes mudanças de humor se deviam ao fato da falta de drogas. Eu tinha certeza que era isso, porque eu não estava na época da minha TPM; então, as drogas eram a única explicação.
– Tudo bem – Edward falou. Eu fiquei um pouco surpresa por ele não me ignorar e me mandar embora dali. – Me desculpe. Vou falar com o gerente.
Ele saiu dali sem falar mais nada. Percebi que havia um corredor na parede oposta ao balcão e imaginei que ali ficasse a sala do gerente e a cozinha, porque não havia nenhum outro lugar para isso.
Do outro lado do estabelecimento, servindo mesas, estava a menina que me ‘expulsara’ da lanchonete no começo da semana. Ela foi indiferente quanto à minha presença, mal me olhando, mas não pude deixar de notar seu olhar de quem se achava superior.
Eu passei a prestar atenção no que os funcionários faziam ali, perguntando-me internamente se eu seria apta para fazer o que eles faziam; percebi que cada um tinha sua função exclusiva – os atendentes anotavam pedidos, enquanto os garçons e garçonetes os levavam já prontos, até as mesas certas.
Perguntei-me também o porquê de Edward atender, servir e arrumar alguns objetos no balcão.
– Srta. Swan? – uma voz rouca e fanha me chamou. Um homem gordo e baixinho estava parado na entrada do corredor que antes eu analisava. – Venha, sou Philip Collin.
O nome Philip me fez lembrar de Phil, embora o nome do meu pai fosse apenas o que nós chamávamos. Nada a mais que Phil.
Eu desci do banco alto e notei que Edward estava parado atrás do velho. Ele, imediatamente, voltou a fazer seu trabalho, guardando copos. Segui o Sr. Collin, dando a volta no balcão, até uma sala de estilo clean.
O lugar era simples e muito branco. Havia uma mesa retangular no centro, comportando um notebook e papéis espalhados sobre sua superfície.
Só quando o Sr. Collin se sentou em sua cadeira, notei que sua cara se parecia com uma caricatura.
Reprimi a vontade que tive de dar risada e sentei-me na cadeira em frente a ele.
– Então, senhorita, a que devo a honra de sua ilustre presença na minha humilde lanchonete? – perguntou polidamente.
Pisquei diversas vezes antes de encontrar uma resposta que não fosse... Mal educada. Sim.
– Ah, me chame de Isabella, apenas – respondi, mantendo a calma em minha voz. Lembre-se que você depende disso para morar sozinha, Bella. – Eu estou procurando um emprego, sabe? É uma forma de mostrar que sou responsável para meus pais, já que não posso ter um emprego de porte sendo menor de idade.
O Sr. Collin assentiu, afrouxando o nó da gravata. Dei um sorriso forçado.
– Claro, claro – ele parecia desconfiado, mas não comentou nada. – E... O que você sabe fazer? – sua voz parecia um tanto duvidosa.
Nada, pensei em responder, mas, ao invés disso, dei outro sorriso forçado.
– Acho que posso anotar os pedidos e, quando precisar, posso arrumar copos e todas essas coisas... Eu só não sou muito boa com equilíbrio...
De fato, eu não era. De vez em quando, eu duvidava que pudesse me manter muito tempo andando em um mesmo lugar sem cair, por mais que não houvesse obstáculos. Quando eu era pequena, minha situação era pior – eu, simplesmente, vivia coberta de manchas roxas que eram reflexos dos meus tombos.
Ainda bem que algo tinha melhorado em mim – pelo menos isso.
– Ok – murmurou. – Acho que não será ruim ter outra atendente, porque a lanchonete parece ficar mais movimentada a cada dia que passa, então... Você estuda Isabella?
– Estudo, sim. Das oito até uma e meia da tarde.
Ele assentiu novamente.
– Certo. Você entrará às duas da tarde e sairá às seis, de segunda à sexta-feira – disse, anotando algumas coisas em um papel. – De sábado, seu período irá começar às duas e irá até dez horas da noite. Seu dia de folga será no domingo.
Arqueei as sobrancelhas. Isso era exploração. Trabalho demais para uma pessoa só.
Entretanto, concordei, feliz em saber que poderia sair de casa.
– E o salário? – perguntei.
– Ah, sim, o salário – ele falou, como se não fosse nada demais e fosse um ponto sem necessidade de ser discutido. – Mil e duzentos dólares. Se você atingir uma meta de ter atendido ao menos trinta clientes por dia, serão acrescentados quinhentos dólares no fim do mês.
Ou seja, se eu atingisse a meta, meu salário aumentaria para mil e setecentos dólares. Não era grande coisa, mas era melhor do que ter que mostrar e dobrar roupas em uma loja do shopping.
– Ótimo – sussurrei e então falei mais alto: – Eu começo quando?
É claro que eu tinha que perguntar, porque não podia dar tempo para que ele percebesse que não valeria a pena me contratar. Afinal, porque uma filha de um cara rico iria querer um emprego em uma lanchonete?
– Segunda-feira – respondeu, parecendo mais sério. – Não se atrase, Isabella.
Sorri.
– É claro que não irei. Até segunda, Sr. Collin – me levantei imediatamente, saindo dali. A primeira coisa que meus olhos captaram quando sai no salão na lanchonete foi Edward servindo uma mesa.
Apressada, sai o mais rápido que pude dali.
Dirigi de volta para casa, feliz por conseguir um emprego tão fácil, embora eu achasse que minha imagem tinha ajudado muito.
E eu sabia que se quisesse um clima bom no meu novo e primeiro emprego, teria que pedir desculpas a Edward.
[...]
Na segunda-feira, eu, incrivelmente, fui para a escola. Não que eu estivesse empolgada em contar para alguém que passaria a tarde trabalhando, mas eu estava empolgada por ter achado o apartamento perfeito.
Na verdade, encontrei dois; um ficava na 5º avenida e o outro mais distante da casa de Charlie e Renée. Optei pelo segundo.
Era pequeno, mas aconchegante. Também não era como tudo o que eu estava acostumada, mas se encaixava perfeitamente com a minha personalidade. Tudo indicava que o antigo dono era um homem, já que o quarto principal tinha a maior parede pintada de preto. Os tons da sala eram claros, e o marfim predominava. Tinha um quarto de hóspedes, um banheiro social e o meu quarto seria uma suíte. A cozinha era estilo em conjunto com a sala, no qual apenas uma bancada não muita alta os separava.
Era simples e luxuoso na medida certa.
Jessica havia ido para a escola, como me dissera na sexta passada. Ela usava roupas compridas e ao menos um quilo de base para cobrir as manchas em seu rosto e pescoço, mesmo que estivéssemos prestes a entrar no verão.
Meu final de semana tinha se passado tranquilo, e eu só sai de casa para procurar um apartamento. Se passara tão tranquilo que hoje eu já não estava mais aguentando.
As drogas eram um vício forte, o qual eu ficava feliz em alimentar.
– Vai querer o que? – Jacob perguntou, encostado na parede do banheiro feminino do colégio. A porta estava trancada, para o caso de alguém abri-la e... Bom, não seria muito confortável.
– Qualquer coisa que me faça parar de ter alucinações e que me defenda de uma depressão – murmurei, colocando de volta a blusa.
Ele riu debochadamente.
– Hum, seria um prejuízo se eu desse tudo o que tenho aqui – respondeu. Sua voz tinha um tom malicioso que fiz questão de ignorar. – Maconha?
Revirei os olhos.
– É, pode ser...
Não tinha muita importância, com tanto que eu me divertisse e esquecesse que teria que aguentar uma tarde longa de trabalho.
O dia de aulas havia acabado há vinte minutos e eu tinha dez para fumar e chegar na lanchonete. Ok, era impossível. Eu iria atrasar, mas acho que não teria mal algum.
Jacob me passou um cigarro de maconha, que acendi usando um isqueiro que estava guardado em minha mochila.
O gosto da fumaça, especialmente aquela, não era bom. Mas era tão tranquilizante que tudo parecia melhor. Jacob contava piadas sem graça e eu ria de todas.
– O que você vai fazer hoje? – perguntou. – Eu e os meninos do time vamos testar alguns carros. Hoje a noite terá racha.
Bufei, irritada por saber que seria mais difícil de participar do que realmente era divertido. Dei uma última tragada no cigarro e devolvi-o para Jacob, que acabou com ele.
– Não dá – murmurei, colocando a mochila nas costas. Meu tom de voz deixou bem claro que eu não queria que ele perguntasse algo em relação ao que eu iria fazer.
Saímos dali, com Jacob segurando minha cintura possessivamente.
Esse sentimento de posse era uma das principais características de Jacob. Principalmente quando eu estava envolvida, por mais que nós não tivéssemos algo realmente sério.
Quando ele começava com essas coisas, eu rapidamente me afastava, porque pessoas possessivas me davam... Calafrios. Era como um trauma.
Despedi-me dele, e continuei meu caminho para fora do colégio.
Na saída para o estacionamento, havia um pequeno tumulto de garotas em frente a uma parede. Na frente de todas, estavam as duas que eu mais odiava: Tanya Denali e Leah Black.
Tanya era capitã das líderes de torcida do colégio; Leah era sua melhor amiga – claro que eu achava que não tivesse sentimento verdadeiro nessa relação – e co-capitã. Eu não via necessidade para esse segundo cargo, mas Tanya insistiu em implantá-lo para que Leah pudesse ser vista como uma figura mais poderosa no grupo.
Revirei os olhos quando elas olharam para mim.
– Swan – debocharam em uníssono.
Leah era o tipo de garota esnobe e insuportável – eu tinha minhas desconfianças de que nem os pais dela a suportavam. Assim como Jacob, que por uma ironia do destino era seu irmão, Leah tinha uma beleza incrível e eu tinha que admitir isso. Seus cabelos eram pretos e lisos, brilhantes e compridos, com uma franja falsa que caia reta e impecavelmente arrumada sobre sua testa. Sua pele era morena como a do irmão, com um detalhe de diferença: Leah era vários centímetros mais alta que Jake.
Já Tanya era... Esquisita, talvez essa fosse a palavra certa. Seus cabelos tinham uma oleosidade surpreendente, não que fosse falta de um bom xampu e água, mas porque isso era algo de seus hormônios. Vários centímetros mais baixa que eu – não tão baixa quanto Alice – e com rosto de bolacha amassada.
O que o dinheiro não faz com uma pessoa, não?
– Denali, Black... – murmurei, passando reto, a passos lentos.
– Você irá participar do campeonato de patinação no gelo, Swan? – Tanya perguntou. Sua frase me fez parar imediatamente e girar nos calcanhares para encará-la.
– Campeonato? – perguntei automaticamente. Elas riram e cochicharam alguma coisa, andando até mim e deixando as garotas empolgadas lendo um papel que agora eu podia ver, preso na parede.
– Sim. O 12º Campeonato Nacional de Patinação no Gelo – fora Leah quem falou dessa vez. – Nós vamos nos inscrever. Seria ótimo ser a representante de patinação dos Estados Unidos. Imagine, eu sairia em várias revistas famosas, seria entrevistada, as garotas da minha idade pediriam autógrafos...
– Você e sua mania de contar o meu futuro – Tanya revirou os olhos para sua “melhor amiga”. – Enfim, Swan, serão três etapas: a competição de patinadoras de apenas um estado. As três melhores que ganharem disputarão outra vez, e apenas uma será escolhida. E essa uma irá representar seu estado. No meu caso, irei representar Nova York – ela terminou, dando de ombros, como se fosse algo banal.
– Eu sei como funciona, loira burra – murmurei. Rosalie era loira também e dei sorte por ela não estar ali. Não que ela fosse burra, mas seu temperamento explosivo... – E não conte tanto com a sorte.
– Não é sorte, querida. É certeza. Além de que sou boa no que faço – Tanya lambeu os lábios e entendi o duplo sentido em sua frase. Ela tinha uma... Queda por Jacob. E talvez a origem de sua raiva fosse nesse ponto, embora eu achasse que ela simplesmente não iria com a minha cara de qualquer jeito. – Já você... E o campeonato em 2008?
As duas riram. Elas falavam sobre o campeonato que participei há três anos. Eu não tinha superado bem a falta que Riley me fazia. E eu estava machucada. Internamente e externamente.
Desde pequena, eu participava de campeonatos de patinação no gelo. Eu costumava ser mais fascinada por isso, mas no passado. Ganhei minha primeira competição aos dez anos, e depois perdi a segunda aos quatorze. Agora eu caminhava em direção à folha de papel grudada na parede, pegando a caneta com penas rosa da mão de Leah sem que desse tempo para ela recuar.
Elas me olharam, céticas. Apenas continuei com a minha expressão habitual, enquanto assinava meu nome na lista e os alunos a minha volta olhavam.
Virei-me novamente, deparando-me com Leah e Tanya no meu caminho. Estendi a caneta para Leah, que a pegou com nojo.
– Você não vai ganhar – ela disse. Seu olhar era carregado de ódio.
– Veremos – grunhi, esbarrando no ombro de Tanya ao andar até minha moto, pronta no estacionamento da escola. Coloquei o capacete e sai dali, desejando que pudesse prever o futuro.
Eu não estava tão certa de que ganharia; modéstia a parte, eu era muito boa. Mas fazia três anos que eu não praticava, e temia ter que perder o campeonato.
Perder para Leah e Tanya só não era pior que Charlie e Renée, porque eles me odiavam e eu tinha certeza que se conhecessem as duas vadias da escola, as amariam.
[...]
Eu cheguei na lanchonete às duas e vinte da tarde. Estava vinte minutos atrasada e não recebi olhares alegres da loira com cara de nojenta que, mesmo sem me conhecer, sabia que ela não gostava nada de mim.
– Aqui está seu uniforme – ela estendeu uma peça de roupa para mim, após me arrastar até a área dos funcionários.
O lugar era pequeno e mal iluminado, mas pelo menos ninguém entraria ali enquanto eu me trocava.
– E aqui são as coisas que você deverá colocar no cabelo todos os dias – entregou uma pequena sacola. Imediatamente, olhei o que tinha dentro.
Eu preferia muito mais toucas descartáveis, foi meu primeiro pensamento ao constatar que a sacolinha guardava elásticos coloridos e presilhas, também coloridas, no estilo “tic-tac”.
– Eu acho isso injusto – ela comentou, enquanto se olhava num espelho velho e descascado que estava preso em uma porta de um armário. – Os meninos usam aqueles bonés, e por mais coloridos e bregas que sejam, são mais descentes que parecer uma criança.
Eu continuei quieta, pensando se tinha feito uma escolha boa. Talvez um emprego em um shopping... Tudo bem. Eu admitiria: o shopping e a lanchonete tinham a mesma carga horária, praticamente, e o mesmo salário. Além de que no shopping eu não precisaria usar essas coisas. O problema era que no shopping, eu tinha mais chances de ser reconhecida.
Sim, eu tinha vergonha, e apesar de odiar isso, eu era rica e trabalhar em lojas assim era como uma humilhação...
Inspira.
Expira.
Inspira.
Soltei o ar todo de uma vez, me voltando para a loira.
– Ok. Você pode me deixar sozinha? – pedi. – Vou me trocar.
Ela assentiu, sem falar nada. Ao sair, encostou a porta. Eu não tranquei porque não havia uma chave e rezei para que ninguém entrasse aqui, especialmente Edward, que eu não vira desde que chegara.
Já que não havia uma calça, percebi que podíamos usar jeans como parte de baixo da roupa, e agradeci a pelo menos isso, já que o resto estava perdido mesmo.
Abri a blusa e estiquei os braços, segurando nas mangas do meu novo uniforme. Era branca e tinha bolinhas coloridas... Rosa, amarelo, verde, azul, laranja... Além de ser de gola, e eu odiar esse modelo.
Inspira. Expira.
Tirei minha jaqueta de couro e a camiseta que vestia por baixo, ficando apenas de calça e sutiã. Por sorte, eu havia vindo de tênis, o que não iria piorar ainda mais o meu novo look.
No momento em que eu esticava os braços para cima para vestir a blusa, a porta se abriu e eu congelei alguns instantes.
Edward me olhava com sua típica cara de babaca – que eu havia decidido que ele era um, após sua intromissão na sexta-feira –, com a mão na maçaneta da porta e a boca ligeiramente aberta.
Assim que me dei conta da situação, coloquei o uniforme na frente do corpo, tentando me cobrir ao máximo.
– Eu... Eu... – Edward gaguejava. Percebi que, antes que eu me escondesse, ele lançara um olhara para os meus seios, voltando a inspecionar meu corpo. Finalmente, olhou para o meu rosto.
– O que é? – perguntei impaciente, tentando camuflar minha vergonha. – A loira oxigenada não avisou que eu estava me trocando?
– Não – respondeu, prontamente. Então, sua postura se tornou diferente e idiota, como ele costumava ser. – Seria bom se a porta ficasse totalmente fechada, e não entreaberta. Me desculpe, mas aprenda da próxima vez.
Meu sangue ferveu, ao mesmo tempo em que ele me dava as costas, saindo do lugar. Como ele... Como Edward ousava? Tão idiota, tão prepotente... Argh.
Ainda com raiva, vesti de uma vez a blusa e prendi meu cabelo em duas tranças, deixando a franja de lado. De repente, me senti como se tivesse cinco anos.
Enfiei a roupa que usava antes dentro da minha mala, colocando no armário, junto com as bolsas dos outros funcionários. E sim, eu ainda estava com raiva.
Por que ele havia sido tão frio? Ele me desejara – eu sabia. Mas foi como se percebesse que eu era um bicho nojento e pensar no que ele pensava de mim era o que mais me dava raiva.
Por que diabos eu desgastava minha mente com pessoas insignificantes?
Apaguei a luz e sai da pequena sala, dando de cara com uma lanchonete relativamente cheia. Havia, principalmente, adolescentes ali, e agradeci por não encontrar algum que conhecesse.
A loira – eu ainda não sabia seu nome, então não via mal em chamá-la assim – me encontrou, ainda com sua cara nada receptiva.
– Venha , o Sr. Collin pediu que eu te instruísse enquanto você precisar – ela murmurou. Segui-a para trás do balcão. – Sua função é anotar os pedidos de clientes e levar o papel até a cozinha. Sempre manter as mesas limpas. Pelo que eu sei, você não irá servir mesas, então pode ajudar a lavar alguns copos que ficam por aqui... É isso. Alguma dúvida?
Sua cara era de tão desgostosa que preferi dizer que não tinha nenhuma, o que era verdade.
Eu optei por lavar alguns copos quando ela saiu dali, e fiquei observando Edward de longe. Ele servia mesas com grande habilidade. Perguntei-me internamente se ele havia ganhado aquela habilidade com o tempo ou se era uma habilidade nata.
Algo me dizia que era a segunda alternativa, simplesmente porque Edward fazia tudo sem parecer desajeitado ou algo do tipo.
Sequei minhas mãos em um pano de algodão ao meu lado e ajeitei a franja, antes caída em meu olho. Olhei em volta e nenhum cliente novo havia chegado.
Virei-me, pronta para sair de trás do balcão e ir ao banheiro, mas as pessoas que entravam nesse exato momento na lanchonete me fizeram ficar sem ação.
Eu sabia que se quisesse, teria dado tempo de me virar e sair dali a passos rápidos, mas Noah berrou em alto e bom som:
– É a Bella, Rose! Olha! – ela disse, apontando para onde eu estava. Rosalie segurava-a a no colo, e ao seu lado estavam Jasper, Alice e Emmett. Os cinco olhavam para mim. Eu olhava para eles, sem saber o que fazer.
Por que minha vida não piorava de uma só vez? Por que tudo vinha em parcelas para mim? Por que, com tantas lanchonetes em Nova York, eles tinham que estar bem na que eu começava o meu primeiro dia de trabalho?
Sinceramente, eu me odiava.
E “humilhação” era a única palavra que passava pela minha mente agora.
Notas finais
Bom, vou dar minhas explicações: eu demorei pouco mais de duas semanas para postar porque vou ter provas até o dia 25, então... Além de que os capítulos são grandes e isso é uma história de drama, o que exige tempo e atenção, porque se eu esquecer algum detalhe aqui, refletirá no no final. Espero que compreendam.
Vou abusar mais um pouquinho e pedir para vocês darem uma passadinha em duas histórias.
A primeira é essa: http://www.fanfiction.com.br/historia/171256/Whos_Laughing_Now
É uma história perfeita, e Meu Deus, eu adoro!
A segunda é essa: http://www.fanfiction.com.br/historia/141307/Grenade
Grenade é minha primeira One-Shot e foi postada há algum tempo.
Vou tentar não demorar, mas não prometo nada. A partir do dia 25, estarei de férias e poderei me dedicar mais!
Beijos :*
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