Isso não é...
11 Isso não é uma amizade.
Notas iniciais
Threw some punches then we had a laugh
I can see that you and me are gonna be friends
(Jogou alguns socos, em seguida, nós rimos
Eu posso ver que você e eu vamos ser amigos)
11-Isso não é uma amizade. (E como os jovens chamam isso hoje em dia?)
Quatro anos atrás
Existem dois motivos para alguém roubar: precisa do que foi roubado ou está só brincando porque não tem o que fazer. Na verdade, três motivos, a razão também poderia ser que a pessoa era um cleptomaníaco – você sabe, alguém viciado em roubar. Cada um com seu vicio, Julie não estava julgando. Ela gostava de chocolate, mas quem não gostava?
Julie entrou numa conveniência para comprar alguns para ela quando foi surpreendida por um garoto roubando. Ele não parecia que precisava, mas quem era ela para julgar? Seguindo sua ideologia do dia, que consistia em ajudar quem precisasse, Julie ofereceu-lhe algo. Por causa disso, ela acabou sendo feita de laranja e teve que fugir de policiais, para logo depois ser indiretamente ameaçada sexualmente e ter que fugir mais uma vez. Ela realmente não entendia todo esse alvoroço para fugir, Julie podia resolver tudo sem problemas, mas sua companhia não parecia pensar o mesmo que ela.
—Auto lá, estranho – chamou ela. – Estou cansada!
O parque tinha uma aparência encantadora por está coberto de neve e era uma paisagem maravilhosa para quem está sendo seguida; Julie saiu marchando ate ele e sentou-se num balanço sem olhar para saber se o estranho lhe seguia, entretanto logo depois o balanço ao seu lado foi ocupado. Por um momento, eles ficaram calados, apenas ouvindo as correntes rangendo ao se balançarem. Julie decidiu dizer o que martelava na sua mente – perfurando-a como um prego de maneira torturante – prometendo a si mesma que não deixaria isso acontecer de novo, que seria apenas daquela vez, embora ela soubesse que era uma mentira. Julie não conseguia imaginar um dia que sua curiosidade não fosse levar a melhor.
—Por que você me ajudou? – perguntou ela, finalmente.
—Era o certo a se fazer – respondeu Ashton, sem olhar para ela, concentrado-se em cada vez fazer o balanço ir mais alto.
Essa brincadeira acabou virando uma competição que Julie ganhou – se ela entrava em algo era para ganhar – entretanto isso não a fez se esquecer o que queria saber. Se Ashton esperava que isso acontecesse, ele se enganou. Julie não desistia fácil.
—Você realmente iria roubar por causa daqueles dois?
—Sim.
—Você é um idiota – declarou Julie.
—E? – questionou Ashton, levantando a sobrancelha.
—Isso me dá uma vontade de te socar – respondeu Julie, admitindo no seu pensamento que o fato dele ter a capacidade de levantar a sobrancelha deixava-a com um pouquinho de ódio. Um pouquinho bem grande de ódio.
—Serio? Se não fosse por mim você estaria... Seja lá o que teriam feito com você.
—Auto lá, estranho – repetiu Julie, levantando-se de um salto do balanço em movimento e apontando o dedo para ele. – Eu não estaria naquela situação se não fosse por você. E quem disse que teriam feito algo comigo? Eu sei me defender.
—Uma garota magrela como você sabe se defender? – perguntou Ashton, retoricamente. Estava óbvio para ele que ela não sabia.
—Quer que eu te soque para provar isso?
—Vá em fren...
Julie não o deixou terminar e o socou, provavelmente ela não deveria ter feito isso, contudo, mais da metade das coisas que ela não deveria fazer, Julie acabava da fazendo. Isso não significava nada para ela, principalmente quando ganhar estava em jogo.
—Quer tentar me socar agora? Vá em frente – imitou Julie. – Que tal um agradecimento, então?
Ashton apenas olhou-a enquanto seu nariz pingava. Ele não era muito inteligente, percebeu Julie. Nem uma reação satisfatória ele teve, apenas exclamou:
—Uau!
—Levante – pediu Julie, quase se arrependendo.
Quase, arrepende-se dos seus atos não era com ela. Julie deveria levá-lo para casa ou o hospital. Não era muito bom para a sua meta do dia deixá-lo desorientado e sangrando daquele jeito no meio da rua, além de que ele não uma pessoa muito inteligente. Julie não deveria ter se aproveitado disso para começo de conversa.
Para alguém que foi espancando por uma garota, Ashton parecia muito feliz, como se tivesse acabado de realizar um sonho. Quem sabe?, questionou-se Julie. Garotos provavelmente tinham fantasias de espancamento.
—Tem gelo, carne ou ervilha? – perguntou Julie, abrindo a geladeira.
A geladeira tinha muitos doces e em nenhum momento passou pela sua cabeça pegar um deles emprestado. Céus, Julie estava nos céus. Aquilo era o paraíso numa geladeira. Pequeno, gelado e bem abastecido. Sonho de consumo de qualquer um que se preze.
Ashton havia lavado o nariz, retirando o sangue seco e puxado uma cadeira para se sentar e esperar algo que anestesiasse a dor, entretanto Julie demorou um pouco por está concentrada no paraíso. Ela encontrou carne, mas embora seja muito usado, Julie não gostava do cheiro que ficava depois ou do desperdício de comida, então pegou um pacote de batatinhas congeladas e empurrou para seu nariz. Na verdade, ela pegou dois pacotes – e ainda havia mais disponível no congelador. Quem pensa que apenas o espancado sofre está profundamente enganado, a mão de Julie era a prova disso. Os nós dos seus dedos já estavam ficando roxo.
—Ei, filho – chamou, provavelmente, sua mãe.
—Ei, mãe – murmurou Ashton com a voz anasalada por causa do nariz quebrado.
—Meu Deus – murmurou ela. Julie esperou pelo “o que essa menina magrela está fazendo aqui?”, mas o que saiu foi: – Você andou brincando com os porcos?
Julie concordava com o horror de sua voz, Ashton havia chegado ao apartamento jogando cada coisa que tinha para um lado. Todavia, o que era traumatizante em Ashton, era essa sua aparência desgrenhada; ele não devia chegar em casa todo dia desse jeito, Julie não deu muita importância a esse fato antes ou depois, mas ela, a mãe, dava. A maioria das mães costumava se importa com isso.
—E sua jaqueta? Não me diga que você...
—Comigo – interrompeu Julie, voltada para a geladeira. Ela escolheu um bolo de chocolate e se serviu, sem se virar.
—Sua amiga? — perguntou ela, observando-a.
Se Julie fosse tímida já teria saído daquele lugar completamente vermelha – a mãe de Ashton a encarava atentamente e Julie sabia disso, ela sentia os olhos na sua nuca – mas além dela não ser, aquele bolo estava delicioso.
—Não! – gritou Ashton.
—Namorada?
Era impressão minha ou ela estava começando a sorrir?, perguntou-se Julie antes revirar os olhos e gemer. Aquele bolo era... Céus, o paraíso estava em todo lugar.
—Não!
—Sou Julie. E esse bolo – disse Julie, sem perder o embalo ao apontar animada para o prato – está delicioso.
—Anne – disse a mãe de Ashton, olhando-a curiosa. – Se vocês não são amigos...
Ela esperou que Julie completasse o resto da frase, mas a garota não fez isso, decidida a não ser quem iria dizer a Anne que seu filho andava roubando por ai. Julie colocou mais uma vez o garfo na boca, mantendo-se ocupada.
—Eu já disse que esse bolo está delicioso? –murmurou Julie, tentando distraí-la.
—Ashton... – começou Anne, virando-se para ele irritada, perguntando-se no que o seu filho tinha se metido dessa vez, até perceber as batatinhas. – O que aconteceu com você?
—Julie aconteceu – murmurou ele.
—Já era a hora de alguém te colocar no seu lugar – disse ela, arrumando outro garfo para ajudar Julie a comer o bolo. Não que ela precisasse de ajuda.
—O que? Serio? Não acredito que isso aconteceu! – exclamou Julie, rindo. – É verdade, Ashton?
Ele murmurou algo incompreensível, mas ninguém lhe deu valor. Já fazia algum tempo que Julie estava em sua casa conversando com Anne, que era uma mulher alta, graciosa, de cabelos loiros compridos e bondosa, seus olhos e seu sorriso irradiavam isso. Não existiam muitas pessoas assim no mundo atualmente.
—Meu Deus, não sei se o acho inteligente por ter desenhado os pais aos 6 anos ou burro por achar isso mais fácil do que falar sobre eles. Afinal, quem faz isso ao ser perder?
—Eu sei – concordou Anne. – Ah, e você tem que ver o caderno dele...
—Mãe...
—Tudo bem – disse Anne, levantando-se. – Tenho que ir me arrumar, meu expediente começa daqui a pouco. Não vá sem se despedir.
—Eu não sei desenhar nem mesmo uma linha reta com régua e você sabe fazer tudo isso – disse Julie, olhando-o surpreendida. – Ao menos eu sou bonita.
A parte do “ao menos eu sou bonita” era mais um premio de consolação fora da validade para Julie do que a verdade. Ashton não era feio, ele tinha cabelo loiro mais escuro e cacheado do que o seu, olhos castanhos esverdeados e a mesma altura que ela. A única correção que Julie tinha que fazer na frase era acrescentar o “mais”. Ela era mais bonita do que ele. Isso não estava em discussão.
—Sério, Julie?
—Eu tenho que aumentar minha autoestima de algum jeito.
Se bem que o propósito de Julie não era esse, ela apenas tentava fazer Ashton participar da conversa – ele estava muito calado desde que havia chegado em casa – e o melhor jeito disso acontecer era insultando-o. Sempre funcionava. Julie iria fazê-lo falar mais, mas suas prioridades mudaram. Seu celular tocou.
Para ser mais exata, a quinta sinfonia de Beethoven começou a soar no celular dela e só podia significar que alguém chamada Demetria – Julie sabia, que nome – havia trocado o toque dele. Ela com certeza não possuía bom gosto musical, ouvir aquilo dava a Julie a sensação de está assistindo a um filme de suspense, com todos aqueles altos e baixos se fizesse algum sentido. Ela pegou o celular do bolso e leu o nome do seu adorável irmão na tela, agora ele lembrava-se dela. O relógio na barra superior marcava 17:50 e eles haviam sido separados aproximadamente as 15:00, só agora Luke ligava para ela, depois de quase 3 horas.
—O que é? – murmurou Julie, pressentindo o que aconteceria.
—Onde você está? – gritou Luke no seu ouvido, o que fez com que ela afastasse o celular do seu ouvido rapidamente. Aquilo doeu até os seus tímpanos.
—Fale baixo – pediu Julie, tentando ser educada e não mandar seu irmão e se ferrar. Aquilo com toda certeza arruinaria o seu ideal de perfeição.
—Eu estou aqui em casa com o Calum e você não está em lugar algum. Você sabe o quão preocupado eu fiquei quando cheguei em casa e ela estava vazia?
—E de quem você acha que é a culpa por ter me deixado sozinha?
—Agora a culpa é minha? Você que disse que não queria ir conosco até o pet shop!
—Eu sou alérgica a pelos! E pare de gritar comigo, seu idiota. Você não é meu pai! – gritou Julie, desligando o celular.
—Quem era? – perguntou Ashton, cuidadosamente.
A chamada estava terminada, mas Julie continuava batendo na tela, ela poderia quebrar o touch screen a qualquer momento que se importaria menos. Luke era uma das poucas pessoas que conseguia acabar com a sua paciência.
—Um idiota.
Depois de respirar fundo e se acalmar, Julie comeu mais um pedaço de bolo e ligou para outro estúpido da sua vida. Apesar de está irritada com Luke, ela não conseguiria deixar que seu irmão ficasse preocupado com ela. E que, principalmente, contasse alguma mentira para seus pais e Julie fosse proibida de sair de casa por um longo, longo tempo. Colocando o celular em cima das suas pernas no viva-voz, Julie ocupou suas mãos com um prato e um garfo, se ela iria ter que fazer aquela ligação, seria comendo. Quando Calum atendeu, ela podia ouvir um barulho muito familiar como plano de fundo.
—Você está jogando videogame enquanto eu estou desaparecida?
—Não... – disse Calum, mas Julie ouviu o som inconfundível do joystick. – Eu nunca colocaria você em segundo lugar.
—E o que é que eu estou ouvindo?
—E você está comendo mesmo tendo sido sequestrada?
—Como você...
—Julie, eu te conheço desde pequena, você não deixaria ninguém em paz até está comendo.
—Ele já se acalmou? – perguntou ela, mudando de assunto. Calum estava certo, então não adiantava de nada discutir.
—Não.
—Eu estou com um amigo meu...
—Você não te amigos, Julie – interrompeu Calum.
—Ha ha ha. Muito engraçado. E o que você é?
—Eu sou seu irmãozinho!
—Certo, diga para o idiota que já estou indo.
—Está tarde, faça esse seu “amigo” imaginário te trazer...
—Você não me conhece desde pequena? – interrompeu Julie, sorrindo. – Se preocupe mais em passar de nível, Calum.
—Você vai para casa? – perguntou Ashton depois de Julie ter desligado o celular como uma pessoa normal e o colocando de volta no bolso.
—Ah, sim... – concordou Julie, distraída. Ela queria saber duas coisas: uma era qual o jogo que Calum estava jogando, ela esperava que não fosse o que tinha salvado, e a outra era... – Eu já ia me esquecendo: qual é o sabão que você usa?
—Hã?
—Você não precisa me acompanhar – disse Julie. – Anne não vai saber.
—Ela vai saber – discordou Ashton, veemente.
Ele tinha certeza que ela iria; Anne sempre conseguia arrancar a verdade dele sem que seu filho se quer abrisse a boca. Ambos ficaram calados por um momento. Ashton não dava nem oportunidade a Julie de falar, ela se sentia oprimida desse jeito.
—Não aguento esse silencio – comentou Julie, chutando uma pedra do caminho. – Você gosta de ovos? Eu também gosto de ovos!
—Ovos?
Julie podia ouvir ceticismo em seu tom de voz, Ashton acreditava que ela estava debochando dele. Julie parecia uma fangirl de ovos. Embora parecesse isso, havia muita verdade naquela frase. Você nunca fala brincado, há sempre um pouco de verdade, é mais fácil enganar assim. E Julie podia falar sobre ovos o dia inteiro e ainda teria assunto, é impressionante a quantidade de coisas que se pode fazer com esse produto.
—É. Ovos ponche, ovos fritos, omelete... Qualquer tipo, menos ovos cozidos.
—Qual o problema com os ovos cozidos? – questionou Ashton, achando graça.
—Eles são... Não tem gordura, colesterol suficiente. Só é pegar o ovo, colocá-lo na água, esperar ferver e pronto. É tão sem emoção!
—Emoção? Ovos? Ovos têm que ter emoção?
—É claro, o que você vai fazer com os ovos? Comer? Hunf!
—E o que é que eu vou fazer então? Jogá-los no lixo?
—É claro que não! Não se pode desperdiçar comida. Você sabe quantas pessoas não tem o que comer para você está pensando em jogar comida fora? Tome vergonha! – repreendeu Julie.
Ela o encarava antes de virar a cabeça, jogando o cabelo por cima do ombro. Julie gostava de fazer o estilo patricinha. Sabe aquelas que têm nojo de tudo? Oh, e também a dramática.
—Certo... – murmurou ele as suas costas. Ashton finalmente entendeu que Julie não precisava dele. Ele não a ajudou, ele ajudou Jake e Marcus, aqueles dois teriam ficados loucos com essa. Ela era muita coisa para o cérebro pequeno deles.
—Papai! – exclamou Julie, surpresa ao vê-lo.
Finalmente ela havia chegado em casa, do apartamento até ali não era muito longe, Julie achava que foi apenas 10 minutos de caminhada. Sentado numa cadeira na varada, resolvendo as palavras cruzadas do jornal – aquilo iria demorar, havia uma pilha deles ao seu lado – estava Andrew Hemmings, seu pai louco de pedra. Era uma surpresa vê-lo ali aquela hora – ele normalmente chegava do trabalho umas 19 horas, assim como sua mãe – e sem nenhuma proteção contra o frio. Faltava juízo nele. Céus, ele devia ser o bom exemplo.
—Esse é seu amigo? – questionou Andrew, apontando para Ashton com a caneta enquanto o avaliava.
—Luke já foi fofocar para você? Ele não sabe manter a boca fechada?
—Então – perguntou ele, escondendo um sorriso – de onde vocês se conhecem?
Julie sabia o que ele estava pensando. Por que todos sempre pensam na mesma coisa?, Julie queria saber. Não tem nada mais útil para fazer, não? E pais deveriam ficar irritados com essa possibilidade, da sua menininha está crescendo, não felizes. Com certeza faltava mais do que juízo nele. Cadê sua preocupação de pai? Andrew não iria dizer nada sobre sua filhinha de 12 anos, sua caçula, chegar acompanhada de um estranho no começo da noite?
—Você não quer saber, papai.
Julie podia muito bem ajudá-lo nesse aspecto, ajudá-lo a aflorar a preocupação inata que devia ter em algum lugar dentro dele. Ela esperava que existisse em algum lugar dentro dele, embora Luke se saísse muito bem no papel dele. Julie não precisava dos dois lutando pela mesma posição.
—Quando você fala assim, eu fico até com medo de saber o que você fez – comentou Andrew.
—Por que eu tenho que fazer alguma coisa? Eu não posso ser uma vitima?
—Você se conhece? Já se olhou no espelho?
—Mamãe vive dizendo que sou sua cópia cuspida e escarrada, então você é o culpado. Aceite a responsabilidade. Obrigado por me acompanhar, – agradeceu Julie a Ashton – embora tenha sido totalmente desnecessário. Eu sei me cuidar.
—É assim que se agradece a alguém? – questionou o maldito ao se recuperar da relação de pai e filha que via, erguendo as sobrancelhas. Ela o invejava por isso.
—É bem melhor do que não agradecer, você não acha, Irwin? – provocou Julie, batendo a porta. Ela gostava de saídas dramáticas, mas teve que abri-la de novo. Isso acabava com o clima que havia criado antes. – Não fique muito tempo ai fora, está fazendo frio, papai.
E bateu a porta de novo.
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