Isso não é...

10 Isso não é um roubo.


Notas iniciais
Preparados mais um capitulo? Até os comentários! A música é I Was Made for Love You, cantada por Tori Kelly e Ed Sheeran. https://youtu.be/dFD02LYcw4k

A dangerous plan, just this time

A stranger's hand clutched in mine

(Um plano perigoso, só dessa vez

A mão de um estranho segurando a minha)

10-Isso não é um roubo. (Eu te conheço?)

Quatro anos atrás

Diga com quem anda que eu te direi quem você é. Todo mundo sabe desse ditado, com Ashton não era diferente. Com quem ele andava? Delinquentes. O que isso fazia dele? Um delinquente, é claro. Um delinquente que estava prestes a entrar numa conveniência para roubá-la.

—Essa é uma péssima ideia – disse Ashton.

—Vai desistir?

Os outros dois ao seu lado observaram-no, esperando alguma reação dele, mas Ashton ficou calado. O esquema era bem simples: entrar, roubar e sair. O que tinha para dar errado? Tudo, obviamente, já que Ashton estava incluído no plano.

—Vocês não vão comigo? – perguntou ele ao invés disso.

—Essa é a sua inicialização, Ashton – disse Marcus, sorrindo. – Iremos daqui a pouco para vê se você realmente roubou.

É, minha inicialização no mundo dos crimes, pensou Ashton. Ele olhou ao redor e respirou fundo, colocou as mãos no bolso da forma mais casual que conseguiu e saiu andando. Quando Ashton virou a cabeça para trás, Marcus e Jake levantaram o polegar para cima no mesmo lugar que ele os havia deixado. Eles eram dois brutamontes já formados e que iriam para o ensino médio, mas eles eram os mais próximos de amigos que Ashton tinha. O que não significava muita coisa.

Ashton entrou na loja e foi direto para os doces, olhando furtivamente para o atendente concentrado na televisão e ao redor, procurando câmeras. Não havia nenhuma, nem mais pessoas. Ao ouvir a porta se abrindo, Ashton virou a cabeça, esperando que fosse seus compassas, contudo era uma garota magrela, que caminhou diretamente para a mesma seção que ele estava, atrás dela estavam os dois que Ashton esperava. Eles deram uma olhada rápida nele antes de desviarem o olhar.

Desesperado para acabar logo com isso, Ashton pegou uma embalagem de qualquer coisa e colocou dentro de sua jaqueta fechada, escondendo-a. Ele achava que foi bem rápido ate que a garota olhou para ele de forma acusatória.

—Isso é errado – disse ela. – Se você está com fome, deveria ao menos roubar algo nutritivo, não essas porcarias.

Ashton a encarou. A garota parecia uma mendiga com toda aquela magreza, como se estivesse passando fome. Além disso, ela claramente tinha experiências e estava ajudando-o, se bem que seu roubo não seria justificável como o dela. Ela realmente precisava, Ashton não.

—Obrigado pela dica.

—Você não entendeu. Devolva. Ou irei contar ao guarda – disse ela, acenando em direção ao policial sem tirar os olhos do ladrão a sua frente.

Julgando-a, Ashton observou a garota e viu que ela estava determinada a fazer o que disse. Eles com certeza não estavam do mesmo lado. Por cima do ombro da garota mendiga, Ashton encontrou o olhar de Jake e deu de ombros, desculpando-se. Não teria como ele fazer isso naquele momento.

—Tudo bem – disse Ashton, devolvendo o pacote de amendoins a prateleira. Ele nem gostava de amendoins. – Satisfeita?

—Sim – respondeu ela, sorrindo. – Eu posso comprar algo para você, se quiser. Mas não muito caro, só tenho cinco...

Nesse instante, Jake passou perto dela e a empurrou, passando um recado bem claro para Ashton, se bem que a imagem dele colocando algo no bolso da calça dela já era suficiente.

—Ei, não sou prostitua para você está passando a mão onde bem querer não – avisou ela, fuzilando-o.

Entretanto Ashton prestava atenção a Marcus que não havia acompanhado o amigo, ele conversava com o policial, apontando para onde os dois estavam. Droga, xingou Ashton para si mesmo. Ele devia ser um idiota se não soubesse o que estava acontecendo.

—Desculpe – disse Jake, piscando o olho para Ashton. – Foi sem querer.

E se foi. O guarda já caminhava na direção daqueles dois, olhando-os desconfiados. Ashton deu um passo para trás e andou em direção a saída. A menina não disse nada, apenas o observou, como se soubesse o que havia acontecido, mas esperasse que ele fizesse algo.

Droga, repetiu Ashton. Já a alguns passos distantes, ele lembrou-se do que sua mãe dizia sobre ser um cavalheiro e do seu pai falando sobre fazer o certo. Para começo de conversa, se Ashton tivesse se recusado de participar daquela inicialização, nada disso teria acontecido, mas ele aceitou.

Respirando fundo e praguejando pela terceira vez, Ashton voltou, pegou a mão da garota e começou a correr. Ele era um estranho, entretanto, facilmente, ela o acompanhou sem nem perguntar o que estava acontecendo. Ele era um estranho e ela o seguia. Ashton ainda estava chocado por todo desenvolvimento da historia, principalmente por aquela garota não bater bem da cabeça.

O policial foi despistado quando Ashton puxou Julie para um beco que, coincidentemente, era o mesmo que Jake e Marcus se escondiam. Ashton empurrou o mais próximo para a parede, o que significava que Marcus, o Gigante, foi o escolhido. Ash devia escolher melhor não apenas suas amizades, como quais lutas entrar.

—Qual é o seu problema, cara? – questionou Marcus, empurrando-o de volta.

—Meu problema? – perguntou Ashton, rindo, e apontou para a menina. – Ela não tinha nenhuma relação com isso!

—Por que não? Ela é sua namoradinha?

A menina, sem medo, se colocou entre os dois, separando-os, e os deu um olhar ameaçador. Ashton ignorou-a. Aquilo não era com ela.

—Você não pode pegar... – disse Ashton, colocando a mão no bolso da menina e puxando o que Jake tinha colocado ali antes.

—Ei! – reclamou a garota, preparada para dá um soco nele quando viu o que Ashton tinha nas mãos. – O que é isso?

—Droga. Você colocou droga no bolso de uma garota inocente. Droga suficiente para ela ser vista como uma traficante. Ela seria levada... Quem sabe para onde ela seria levada!

—E qual o problema? Só estávamos nos divertindo.

—E poderíamos nos divertir mais agora – comentou Jake, olhando para a loira. – Não podemos deixá-la de fora.

Não era preciso de muito para entender o que acontecia na cabeça deles, por mais inusitado que aquilo parecesse a Ashton. A menina não era nem um pouco atraente, embora seus olhos azuis tivessem algum charme, ele tinha que admitir.

—Eu não ficaria magoada se vocês fizessem isso – devolveu ela. – Estou agradecida pela gentileza de vocês, mas não.

E, mais uma vez, Ashton sentiu que ela o olhava como se esperasse algo, e, mais uma vez, ele se relembrou sobre ser cavalheiro e fazer o certo. E, por fim, mais uma vez, Ashton tomou a mão da garota e correu.

Eram dois gigantes contra um, não tinha como Ashton vencê-los, apesar de não ser tão magro quanto a loira, ele ainda seria destruído por aqueles dois. Adeus, amigos, despediu-se Ashton, saindo do beco e encontrando o guarda que ainda estava parado na porta da conveniência, olhando para os lados, procurando-os. E, no fim, os dois foram perseguidos por três pessoas.

—Loira, o carro – avisou Ashton, quando um passou perigosamente próxima a ela.

—Loira? Esse é o melhor que você pode fazer?

—Eu não sei o seu nome – disse ele, dando de ombros. Julie não sabia como ele conseguiu fazer isso correndo, mas ele conseguiu.

—Sou Julie, a propósito – gritou ela, correndo, quase sem fôlego.

—Julie de Juliete? – questionou Ashton, segurando sua mão com medo dela cair.

As condições de Ashton não eram as melhores, mas estava melhor do que a dela. Julie de Juliete só continuava na maratona porque era puxada, se não ela teria desistido a muito tempo.

—Não! – negou ela, ofendida. – Julie de Ju.

As pessoas passavam e olhavam para aquelas duas crianças de maneira estranha ou, mais especificamente, encaravam a garota que usava, indiferente ao frio que congelava devagar ate aos ossos, apenas uma regata. Ate fazia vapor quando falava de tão baixa que estava a temperatura.

—Tome – disse Ashton, jogando seu casaco em cima dela. Sua condição era de sentir pena.

—Se você acha que eu vou recusar está enganado – avisou ela.

Passando os braços pelas mangas, Julie cheirou sem disfarçar a roupa, aprovando. Ou estava com muito frio para ser exigente. Ashton continuava com uma blusa resistente por baixo, contudo ele ainda precisava controlar sua vontade de bater os dentes, ele não sabia como Julie conseguia aguentar.

—Para onde você está me levando? – perguntou ela.

—Merda – respondeu Ashton, empurrando-a para um beco.

Ele sabia que isso era muito educado com uma menina que acabou de conhecer, nem esperou pelo segundo encontro e já estava empurrando-a para um beco com a intenção de agarrá-la, mas Marcus e sua dupla arruinaram meus planos românticos. Ashton inclinou a cabeça para fora, mas eles, um bando de dois brutamontes, continuavam lá e não parecia que sairiam tão cedo dali. O sol ainda estava à vista. Quando eles viraram a cabeça para onde estavam, Ashton puxou a sua rapidamente para dentro.

—Sabe, cara? Embora você seja muito bonito e tudo mais, você não faz o meu tipo, sou muito nova e acabamos de nos conhecer.

—Não fale – sussurrou Ashton, lançando-a um sorriso sedutor e colocando um dedo sobre os lábios dela, mantendo-os lá por um instante. Ele não sabia como eles estavam tão quentes. – Fique parada um pouco mais...

Julie não aguentou por muito tempo. Ela se contorcia como se o simples fato de está parada fosse um castigo, quem sabe o frio estivesse finalmente atingindo-a. Já não era sem tempo.

—Mas é realmente necessária essa posição?

Ela estava de costas contra a parede e Ashton na sua frente, pressionando-a. O beco era muito curto para eles ficarem um ao lado do outro e estreito de mais para terem espaço suficiente entre eles. As mãos de Julie estavam grudadas na parede e as de Ashton nela, descansando relaxadas no seu quadril. Talvez Ashton estivesse aproveitando a situação, mas, em sua defesa, ele tinha 12 anos e seus hormônios estavam agitados. Inclinando-se na sua direção – completamente dentro do espaço pessoal permitido de Julie naquele momento, que não era muito – Ashton sussurrou no ouvido dela:

—Por quê? Está com medo de mim?

Julie se retraiu arrepiada, talvez ela não estivesse tão indiferente assim ao frio.

—Por que eu teria? – questionou ela revirou os olhos, teatralmente. –Você não irá me fazer nada.

—Muito confiante, você.

—Pode apostar. Eles ainda estão ai? – perguntou Julie.

Ashton inclinou-se para fora e os viu, não tinha como eles saírem sem serem visto. Os dois estavam ali ate que a determinação de Marcus ou Jake morresse.

—Sim. O que vamos fazer?

—Torcer para que eles não nos vejam? – tentou Julie.

—Você acha que vai dar certo?

—Não. O que sugere? Tenho que chegar em casa antes de anoitecer.

Ashton não tinha nenhuma ideia sobre o que fazer, mas não podia deixar Julie ser castigada por sua causa. Ele tentou pensar em algo, eles tinham que saírem dali sem serem vistos, contudo...

Os dedos de Ashton começaram a trabalhar, puxando os cabelos da garota na sua frente para cima, amarrando-o com ele mesmo, entretanto ele era liso demais para ficar preso. Depois de tê-los prendidos de qualquer jeito, Ashton colocou seu boné por cima e puxou para baixo ate cobrir os olhos dela; ajeitou a jaqueta e começou a encaixar os botões de cima para baixo.

—O que você está fazendo? – perguntou Julie, batendo em suas mãos.

—Temos que esconder você – respondeu Ashton, sendo mais uma vez estapeando quando tentou colocar o botão em sua casa.

—Ainda não entendi porque está quase tocando nos meus peitos.

Ashton não conseguia entender como Julie não ficou envergonhada enquanto ele estava completamente vermelho, mortificado. Ela deveria ser uma dama recatada e delicada, corando por qualquer coisa! Todavia, se Julie andasse de modo diferente, mais encurvada e desleixada, ela quase poderia se passar por um menino se ninguém prestasse atenção ao seu rosto, pois ela praticamente não tinha... Ela era uma... Ashton tentou explicar isso a ela e Julie pareceu entender com o seu ponto de vista.

—Sou uma tábua – concluiu ela. – Você está certo, mas o que vamos fazer a respeito de você?

—Torcer para que eles não nos vejam? – repetiu Ashton a ideia dela. – Vou levar uma surra de qualquer jeito, mas se eles não te pegarem irão te esquecer. Ou seja, fuja se eu for visto.

—Sem duvidas. Você acha que eu iria fazer o que?

Depois de tudo que ele fez a ela, Ashton não esperava esse comportamento, talvez um pouco de insistência da parte dela.

Após sair do beco, Julie parecia ter adquirido uma personalidade distinta, ela parecia uma garota desleixada para Ashton. Mas para quem não sabia que ela era menina e a visse de costas, ate de frente, qualquer um pensaria que era um menino. Ela andava muito... De um jeito delinquente, Ashton ate diria drogado, porque parecia que ela nem conseguia ficar de pé. Contudo eles conseguiram desaparecer sem nenhum problema.

—Vou te dar uma recompensa pela sua ajuda – disse Ashton, retirando o boné da cabeça dela e colocando de volta na dele.

—O que? – questionou Julie, arregalando os olhos ao segurar o braço dele com força, parando-os, e roubando de volta o boné para si. – É algo de comer? Eu gosto de doces.

—Você segue qualquer um que te oferece doces?

Doces parecia ser a palavra para tirar Julie do juízo, Ashton já estava vendo o momento dela sair saltitando se o soltasse, como se ele fosse a ancora dela. Julie abriu um sorriso para ele e isso a fez parecer tão... Impressionante. Uma beleza de tirar o fôlego que fez Ashton, pela primeira vez em muito tempo, querer desenhar algo. Seus dedos coçavam para retratar aquela imagem.

Já era tarde e o sol caia, por isso, nas suas costas, o céu tinha uma coloração lilás e nuvens alaranjadas. Uma ótima paisagem. E a modelo estava agora com os cabelos loiros soltos, os olhos azuis brilhando e um sorriso banguela. Era uma imagem que nunca sairá da minha cabeça, pensou Ashton. Uma daquelas coisas que só acontecem uma vez na vida. Duas se tivesse sorte.

—Eu já disse que você não é má pessoa.

—Eu posso ser...

—Sim, sim... – interrompeu ela, revirando os olhos. – Você pode. Vamos voltar para o que importa. O que é? Onde é?

Notas finais
Ashton, eu não sabia que você era assim: um maloqueiro drogado! E vocês?