Isso não é...

5 Isso não é um flerte.


Notas iniciais
E ai, galera? A música é Fools de Lauren Aquilina, para quem não conhece https://youtu.be/uodUCtmCRME

Such good friends, it has to end, it always does

That's the way life is

Do we take that risk?

(Esses bons amigos, tem um fim, isso sempre acontece

Essa é a forma que a vida é

Será que temos que correr esse risco?)

5-Isso não é um flerte. (E se eu não acreditar?)

Sexta-feira, 22 de abril

—Depp não é...

Demi nem esperou Julie terminasse de suspirar apaixonada e já estava balançando a cabeça, confirmando o que sua amiga nem chegou a dizer. A mãe de Julie não era a única com uma queda por Johnny Depp, Demi também fazia parte do fã clube. Não que Julie ficasse para trás. Ele era quase perfeito se não fosse pela idiossincrasia de não tomar banho. Urg, não! Apenas não.

—Como você está assanhada hoje, Demi.

Pegando a almofada que estava abaixo da sua mão, Julie a jogou com força nela. Demi caiu sentada no sofá, por um momento ela não fez nada, absorvendo a informação do que acabou de acontecer. Ela era um pouco – demais – lerda. Mas ao se recuperar, Demi atirou todas as almofadas que via na loira, uma atrás da outra sem pausa, e quando não tinha mais nenhuma, ela foi para cima dela, atacando-a com cócegas.

—Po-por fa-fa-favor, pa-pa-pa re.

Julie era bastante sensível, não adiantava nem negar. Ela tentou escapar, contudo Demi podia ser baixa, mas não era fraca. Ou leve. Ou quem sabe Julie que fosse a magrela fracote da historia. Ela acreditava que desmaiaria, teria um piripaque, qualquer coisa, antes que Demi saísse de cima de si, mas ela saiu. O que pode muito bem ser traduzido literalmente na língua de Julie como "retiraram a idiota que estava em cima de mim". Amém, Senhor.

Julie respirou fundo, tentando absorver todo ar perdido que conseguisse, e limpou – não tão sutilmente, não tinha como ser sutil – a baba. E ficou deitadinha no chão, aproveitando o show de camarote e pensando que Demi não sabia a hora de parar enquanto tentava controlar a respiração.

—O que você está fazendo? – exigiu Demi, colocando as mãos nos quadris.

Aquela posição enfatizava o fato dela ser baixa, fazendo-a parecer uma anã irritada para Julie, embora está deitada no chão fazia Demi parecer mais alta. Mas não tão alta assim. Não ao ser comparada a Michael. Se ele já era alto para Julie quando ela estava em pé – e ela era quase do tamanho dele – daquela posição, ele parecia mais alto ainda. Um gigante.

—O que você está fazendo? – perguntou Michael de volta.

—Não te interessa o que estou fazendo. Saia – ordenou Demi.

—Que má educação é essa, Demi? Essa será minha casa também daqui a pouco.

—Mas ela ainda é minha. Saia.

—E essa ingratidão? – continuo Michael, fingindo não ouvi-la. – Já esqueceu o que aconteceu?

—Saia – ordenou Demi pela terceira vez, cutucando-o no peito dessa vez para enfatizar que não o queria ali, como se ter mandado-o sair três vezes não fosse suficiente.

Eles se olharam, encarando-se, dividindo Julie, que estava esquecida no chão em dois pensamentos: Demi pularia sobre ele e eles começariam a se agarrar loucamente ou... E Mel apareceu. Melanie passou correndo só de toalha pelo meio dos dois, quebrando todo o clima, e Michael foi embora, batendo a porta com força ao passar por ela, levando Mel consigo.

Julie não queria a segunda opção, ela ficou deitada no chão duro e gelado para que eles se esquecessem dela e começassem a se agarrar. Julie sabia que isso a faria parecer uma voyeur, mas ela queria ver isso acontecer – seria o mais próximo de filme pornô que Julie teria coragem de assistir. Ela bateria naqueles dois idiotas e deixaria Mel sem doce. Por que a pequena irmã de Michael tinha que aparecer?

—Por que vocês não se agarraram? – perguntou Julie ao invés disso, sentando em posição indiana no chão e pausando o filme. Por causa da discussão, elas perderam o final e os créditos já subiam na TV. – Demi, hora de falar sobre os garotos.

Julie falou seriamente, contudo Demi revirou os olhos. Ela sabia o quanto Julie odiava dá uma do que ela chamava de "patricinha", era surpreendente ate que as duas fossem amigas. Demi era um pouco patricinha e totalmente líder de torcida. Duas coisas que Julie normalmente tinha repulsa, mas as duas eram amigas. Melhores amigas. Embora Julie recusasse a admitir que possuía uma amiga. Melhores amigas deixavam tudo pior. Só porque Julie gostava de Demi isso não significava que elas eram amigas. E só porque Demi era a única garota que Julie conseguia conversar sem revirar os olhos a cada instante isso não fazia dela sua melhor amiga.

—Por quê? – perguntou Demi. – Pensei que você não fosse uma dessas garotas que fofocam sobre garotos.

—E eu não sou. Mas, se eu te deixar solta, você não vai nem sair do lugar de tão parada que é.

—Vamos falar sobre você então.

As duas se encararam. Nenhuma delas querendo ser a primeira a falar. Julie não tinha do que falar, ela não gostava de ninguém e não flertava com ninguém além de alguns garotos – Ashton era um deles, e isso era tão normal para ela quanto respirar. Julie flertava com Ashton desde antes deles serem amigos, se isso não fosse natural, o que seria? – era o que Julie diria a Demi antes de perceber que ela não deveria pensar em Ashton. Sua meta do ano era resolver problemas de Demi, ela tinha que se focar apenas nisso para poder solucionar ao menos um. Os problemas dela eram muitos.

O celular de Julie tocou. Se bem que dizer que o celular era da Julie era mentira, já que seu celular quebrou depois que ela o havia jogando no seu namorado... Ou será que foi no chão? Julie se perdia em sua própria mentira, mas não era importante. O celular havia sido pego emprestado, para não dizer escondido, de Luke. O identificador de chamadas dizia Furada e Julie sorriu antes de atender, aumentando o sorriso ainda mais ao ouvir quem falava.

E saiu doida da casa dos Lovato, correndo ate a dos Clifford só de babydoll – um muito curto por sinal. Enquanto passava pelo meio da rua às dez e meia, um monte de tarados a encarou. Ta-ra-dos. E a caminhada nem era tão longa assim, a casa de Michael era ao lado da Demi e Julie correu, diminuindo ainda mais o tempo que ficou do lado de fora. Não vamos esquecer que os tarados eram seus próprios amigos, que estavam por algum motivo na janela, provavelmente encarando as garotinhas pequenas brincando de corda. Pe-dó-fi-los. Julie não precisou nem bater na porta, ela entrou com tudo dentro da casa, não assustando ninguém porque os tarados pedófilos observavam seu desespero pela janela. I-di-o-tas.

—O que foi... – começou Luke, mas Julie interrompeu cantarolado e pulando nos braços do irmão.

—Adivinhem!

Luke era forte, então ele a pegou, evitando que ambos caíssem no chão. Julie não queria voltar a usar gesso, mas deveria ter pensado nisso antes de pular, entretanto isso iria contra seu lema. Não, obrigada. Além de que agora era tarde e inútil.

Julie parecia confusa para si mesma, entretanto seus pensamentos corriam a uma velocidade impressionante, atropelando uns aos outros. E ela estava feliz. Muito feliz.

—Conseguir! Eu conseguir! – Contagiado pela minha animação ou obrigado por ser seu irmão mais velho, Luke pulava junto com ela. – Vocês vão cantar no Furada próximo mês. Toma essa, Luke – provocou ela, batendo sua testa na dele carinhosamente. Julie não sabia ser carinhosa, essa era a verdade. Ela se virou para o outro, disposta a não demonstrar o quanto a batida tinha doido. Eles estavam num circulo aberto e Julie girava em volta do seu próprio centro, vendo cada um deles e insultando-o. – Quem é a sua nova empresária, Calum? Quem é aqui manda agora nessa história, Mike? Você perdeu a aposta, Ashton – declarou ela, sorrindo. – Prepare o dinheiro que você vai me levar para jantar.

Por não ter acreditado que Julie conseguiria o primeiro show deles, Ashton teria um grande prejuízo. Ele sabia disso quando aceitou a aposta de Julie, ele sabia disso e mesmo assim aceitou. A possibilidade de Julie perder era grande e agora a possibilidade dele perder dinheiro era certa. Por isso, era totalmente aceitável que ele virasse de uma vez a vodca. Era o que ele dizia a si mesmo como desculpa.

—Pare de falar e gire logo isso, Julie – reclamou Ashton.

É claro que antes de poderem jogar o jogo da garrafa, Julie teve que fazer um longo e chato discurso, listando tudo que podia ou não mandar fazer como consequência – ela estava tirando toda a graça do jogo – além de que, quem brincasse, era comprometido automaticamente a dizer a verdade.

—Sem mentiras – disse Julie – porque eu saberei e, se esse fosse o caso, a punição seria pior do que a consequência.

Ninguém ousaria mentir, a ideia de punição da Julie era... estranha. Quando Julie finalmente girou, caiu Ashton para ela. E ele não sabia o que perguntar. Ashton decidiu seguir a velha regra que diz "pergunte o óbvio e esperado". Quem nunca perguntou isso:

—Com quem foi o seu primeiro beijo?

—No que estamos? No fundamental? – questionou ela, olhando para o teto, revirando os olhos para o céu de forma dramática, mas respondeu sem rodeios ao encará-lo. – Vo-cê.

—O que?

O incrédulo não era apenas Ashton, todos estavam menos Michael, porque ele sabia de tudo. Ele achava que sabia de tudo. Aquele não poderia ser seu primeiro beijo, pensou Ashton, não podia ser verdade, apenas não podia.

—Você quer dizer beijo ou beijo? – interrompeu Mike, pensando. – Qual foi a primeira pessoa que você...

Todos os olhos se voltaram para Julie, cientes da definição de Julie de que selinho não era beijo, embora Ash ainda não conseguisse acreditar que aquele tinha sido o primeiro beijo dela. Aquele no colégio, no meio do pátio, dos alunos, do seu irmão. Luke estava muito quieto, esperando a resposta ou maquinando algo pior do que os castigos de Julie, ele e Ashton estavam numa paz armada desde que Julie havia feito tudo aquilo.

—Gire a garrafa para perguntar Michael e torça para que...

Impaciente, Mike girou a garrafa e ela caiu dele para Julie. Ela parou de falar e olhou incrédula para a garrafa.

—Então?

—Não acredito nisso... – murmurou ela. – Com Ashton.

—O quê?

Dessa vez, o incrédulo não tinha sido Ashton, embora ele também estivesse chocado. Chocado o suficiente para ficar sem fala. Quando eu tinha beijado-a pela primeira vez...?, Ashton nem tinha capacidade de completar o pensamento.

—Ah, você quer dizer que o da festa...

—Sim, sim – interrompeu ela. – Próximo.

Calum girou. E acho que já sabe quem caiu contra quem, então vamos pular essa parte.

—O que? Só pode ser brincadeira.

—Que festa?

—Ate você? – lamentou-se Julie. Tomando a garrafa de álcool das minhas mãos de Ashton, ela tomou um bocado antes de responder. – Meu aniversario. Não vai querer perguntar nada, Luke?

Julie provocou seu irmão, oferecendo a vodca a ele – os dois precisavam – mas Ashton percebeu seu desconforto. Julie havia se esquecido que aquele era um jogo de verdade ou consequência, não verdade ou verdade, contudo ela era acostumada a fazer os outros sentir vergonha, não se sentir envergonhada. Talvez seu juízo tivesse sido prejudicado. Ou não, ela tinha uma péssima memória e seu juízo já era ruim de natureza. Tão educado quanto ela, Luke pegou a bebida para si e girou a garrafa do jogo.

—Vá cantar dingle bel na casa do vizinho – ordenou Luke, quebrando o circulo, porque, é claro, havia caído na sua irmã de novo.

Quando Julie estava fora, Luke se virou para os outros, irritado, e os fez prometer não perguntar mais nada disso a ela enquanto ele estivesse presente, que ele preferia morrer antes de saber da vida pessoal da sua irmã. Depois disso as perguntas e ações foram normais, rolar a escada, dançar no gramado com os regadores ligados, sair correndo nu pela rua... Nada meramente interessante. E nenhuma delas foi proposta pela Julie. Nem uma rodada fez com que ela fosse quem questiona, ela era sempre a outra, embora nem isso ela tivesse conseguindo ser.

—Finalmente! – exclamou ela. – Pensei que a minha vez nunca iria chegar.

A garrafa havia caído de Julie para Demi e ela olhou dela para Mike e de volta para Demi antes de perguntar bem devagar verdade ou consequência.

Não era preciso ler pensamentos para saber o que Demi queria, seja lá o que fosse que Julie queria perguntar, Demi não iria dar oportunidade a ela. Julie não pensou, com a consequência na ponta da língua como se soubesse o que sua amiga faria. O que era verdade.

—Consequência.

—Três minutos no céu com Michael – ordenou Julie e nem esperou Demi recusar, já completando: – Eu disse que não era para ter nenhuma conseqüência indecente e não estou mandando vocês fazerem sexo no banheiro. Para o armário.

Mortificada por Julie ser tão direta, Demi se levantou vermelha e meio que correu ate o armário de casacos, sem nenhuma reclamação.

Como toda vez que era relacionado a algo que envolvesse Demi, Mike se retraiu. Ashton não sabia o que aconteceu entre eles, nem porque continuavam a se relacionar indiretamente por Julie. Ambos eram amigos dela.

—Ninguém sabe o que você está fazendo, Julie – comentou Ashton.

Luke olhou para Ashton com uma vontade de dá a língua, mas se contentou a revirar os olhos... É claro que isso era o que Ashton via. Isso e dois Mike, dois Calum, dois Luke. Os Lukes eram os únicos que estavam certo, pois, na verdade, eram um Luke e uma Julie. Eles se pareciam muito para um bêbado, a única diferença significativa era o tamanho do cabelo, o da Julie chegava até os ombros. Julie foi a que agiu como uma criança.

Julie lançou um rápido olhar a Mike, perguntando-se se ele tinha ouvido, mas ele estava absorto no seu próprio mundinho e seguiu Demi para o armário, calado pela primeira que Ashton conseguia se lembrar. Assim que eles fecharam a porta, Julie correu ate lá e os trancou, girando a chave.

—Então, o que vocês querem fazer agora?

Ashton não questionou o que ela fez nem o porquê, ninguém disse nada. Ele apenas se levantou e foi pegar mais bebida, Julie o acompanhou. Servidos com bastantes garrafas, os dois foram para o jardim e ficaram bebendo ate tarde, ignorando os gritos de Michael e as batidas na porta, como Melanie conseguia dormir era uma incógnita. Uma hora depois, eles já haviam se calado e Calum e Luke dormiam desmaiados na sala, restando apenas Julie e Ashton, deitados na grama e olhando para as estrelas.

—Você não me disse que aquele foi o seu primeiro beijo – acusou Ashton.

Ashton estava reclamando demais, isso podia ter alguma coisa a ver com a vodca que estava em sua mão. Segunda garrafa que ele bebia completamente desde que chegou ao jardim sem o uso de um copo. Julie tentou manter os olhos abertos, mas ela também estava completamente bêbada. Embora se pedissem para andarem em linha reta, Ash não duvidava que ela se sairia melhor do que ele. Seu estado era lastimável.

—Você não perguntou – disse Julie, confusa. – Além do mais, o que você tem a ver com isso? Podia ser o meu primeiro ou ultimo, não te interessa.

E Julie continuava irritante naturalmente, sempre tentando sair como a inteligente.

Notas finais
O próximo capitulo é do aniversário de Julie. Preparados para o primeiro beijo? Estou pensando em JUSH como shipper, o que acham?