Isso não é...
6 Isso não é necessário.
Notas iniciais
Broken trust and broken hearts, I know, I know
Empty promises will wear, I know, I know
(Confiança partida e corações partidos, eu sei, eu sei
Promessas vazias serão desgastadas, eu sei, eu sei)
6-Isso não é necessário. (Não que eu esteja ouvindo reclamações.)
Seis dias atrás
Sábado, 16 de abril
Aniversario.
Aquele era o aniversario que Julie não queria, mas que decidiu aproveitar, contudo não aproveitou. Ela amava agir com contradições, entretanto não hoje. Não quando, no seu campo de visão, Julie viu uma linda cama elástica, entretanto toda vez que ela andava em sua direção algo acontecia. Julie já estava vendo a hora dela rasgar somente para que não pudesse pular, nem que fosse depois, quando não tivesse mais ninguém no seu jardim, nenhum dos convidados que ela não chamou.
Mas não era como se todos ali fossem estranhos ou Julie os odiassem, ela não odiava... muitas pessoas. Por Julie, a comemoração seria apenas uma mesa de muitos doces e somente poucos escolhidos, para não dizer quase ninguém, entretanto sua mãe estava tentando recompensar e ela queria comer. Não seria ela a dizer não à Liz.
Hipnotizada pela cama elástica, Julie caminhou em sua direção mais uma vez, querendo um pouco de sorte, mas acabou esbarrando em alguém no caminho, quando estava estabilizada sobre os saltos, ela levantou a cabeça. E droga. Ela se distrai por um momento e lá estava sua tia. Isso era tão injusto.
Nem no seu aniversario o universo conseguia diminuir o azar. Julie tinha vontade de gritar aos céus, perguntando ao éter porque não deu uma folga no carma que a perseguia. Em suma, dá uma de louca. Mais louca do que o costume, com direito a roupa rasgada e puxadas de cabelos.
—Querida, como você está? – perguntou sua tia Josephine, abraçando-a.
Julie se esforçou para não se esquivar ou fazer cara de nojo, mas ela não achava que conseguir cumprir a ultima. Ela tentou, contudo era difícil quando Josephine cheirava a rosas. Julie odiava rosas.
—Bem... – murmurou ela.
—Você está tão magrinha – falou ela, apertando sua bochecha. Ser tratada como uma boneca só melhorava tudo. – Tem que comer mais para ficar ao menos bonitinha, se não vai acabar sozinha que nem sua mãe.
—Estou namorando, tia – disse Julie, dando ênfase no tia.
Josephine odiava ser chamada assim e Julie amava vê-la se contorcendo, parecia uma lagarta. Ela a odiava muito, sua tia era uma das poucas pessoas que ela podia afirmar isso sem hesitação, tanto por ter dito que ela era “bonitinha” – Julie não era bonitinha, ela era linda – quanto por “sozinha que nem a sua mãe”. Quem Josephine achava que era para falar assim da sua mãe? Alem de Liz estava muito bem acompanhada durante todos os seus dias de casada, e era inegável a qualquer um que continuaria assim se seu marido não houvesse morrido. Josephine era uma cobra das mais venenosas.
—E é? – Julie ouviu um tom de deboche em sua voz. – Quem...
—Ashton – interrompeu ela, avistando seu “namorado”. – Tia, esse é Ashton, meu namorado. Ash, essa é Josephine, minha tia.
Caminhando até ele sorrindo e esperando que ele entrasse no jogo, Julie tentou transmitir o desespero que sentia pelos seus olhos. Por favor, por favor, hoje é meu aniversário...
—Eu estava te procurando, Julie – disse Ashton, um pouco bruto, andando até ela.
Julie já estava rezando, pedindo a Deus que a perdoasse por contar essa mentirinha e que fizesse Ashton participar também. Josephine era a irmã da sua mãe e, assim como a odiava, ela também não suportava a sobrinha, o que era totalmente recíproco. Sempre que via visitar a família, o que só acontecia uma vez ao século, – graças a Deus, Julie não a agüentaria por tanto tempo – Josephine só sabia desprezá-los e o pior era que Liz proibiu a filha totalmente de colocá-la no seu local. Algo que Julie faria mesmo sendo proibida, mas Liz conhecia-a muito bem e sabia como fazê-la mudar de idéia. Chantageando. Toda mãe deveria seguir seus passos.
—Você está linda – sussurrou Ashton alto o suficiente para Josephine ouvir. Colocando uma mão ao redor da sua cintura de forma possessiva, ele puxou o quadril dela de encontro ao seu com força, mas beijou-a levemente nos seus lábios. Virando-se para a tia de Julie, Ash completou estendendo a mão: – Prazer em conhecê-la.
O beijo era desnecessário, Ashton sabia disso, mas estava irritado; Julie sabia disso, mas não estava em condições para reclamar. Ele estava mentindo por ela, encostar os lábios nos seus não era um preço tão grande a se pagar e nem o fato de que o seu primeiro beijo tinha sido roubado. Não que Julie se importasse com isso, beijo que é beijo tem língua envolvida, tocar os lábios era brincadeira de criança. Julie ficou irritada pela arrogância dele, como se ela fosse seu objeto sexual ou animal de estimação.
—Ele até que é... hunf... – murmurou Josephine sem poder encontrar algum defeito em Ashton para desmerecê-lo. Ashton era um deus em comparação aos namorados das suas filhas.
Julie não deu importância a tia e ficou olhando para Ashton enquanto ela falava, quando ele iria perceber que era para tirá-la dali? Julie não mentiu para tê-lo como uma estatua ao seu lado. Mentiras era o tipo de coisa que ela se recusava a fazer, não por questões religiosas, éticas ou por ser muito ruim nisso – ela mentia de vez em quando, é claro, e era ótima jogando poker – mas mentir criava uma teia muito complicada e grudenta. Falar a verdade é fácil, na maioria das vezes, e Julie não gostava de enrolar. Ela era do tipo direta. O que era uma contradição mentirosa na maioria das vezes.
A culpada disso tudo era sua mamãe, decidiu-se Julie por fim, se ela não tivesse chantageando-a, ela não estaria nessa situação agora, mentindo. Enlouquecendo-se.
—Minha mãe quer falar com você... Preciosa – interrompeu Ashton, mordendo o lábio para se impedir de rir. Julie apertou os olhos. Que raio de apelido era aquele?
—Embora eu queira ficar aqui com você – Julie sorriu, mentindo – eu tenho que ver o que minha sogrinha quer.
—Claro – concordou Josephine falsamente, abraçando-a para poder sussurrar no me ouvido: – Você deve fazer de tudo para amarrá-lo a você, isso é o melhor que você irá conseguir.
Aquela vadia!, pensou Julie. Quem ela achava que era para falar assim comigo?
Tia Josephine era a definição de baranga, mais velha do que Liz, ela nunca foi casada e trocava de namorados como trocava de calcinha. Ela odiava a irmã por ser bonita, ter seguido seus sonhos e, principalmente, por ter se casado com quem amava mesmo contra a vontade de toda a família. Liz era a ovelha negra e Josephine a invejava por isso. Ela tinha problemas, Julie sempre acreditou, não que ela mesma pudesse dizer algo quanto a isso.
Julie não devia estar com uma expressão boa, porque Ashton segurou na sua mão e puxou-a dali. Ainda bem que ele tirou-a dali rápido, agradeceu Julie enquanto era puxada, porque o melhor que ela ia conseguir seria a sua mão na cara dela. Ela sentia a mão formigando com o desejo de deixar cinco dedos marcados na bochecha da titia e Julie estava se sentindo inclinada a ceder. Muito inclinada, mais do que a Torre de Pisa. Seria a realização de um sonho.
—Vamos, preciosa.
—Certo, Smeagol. Isso já esta demais – ameaçou ela quando já estavam longe de Josephine. – Me chame assim de novo que eu faço que nem o Frodo e te jogo dum penhasco.
Senhor dos anéis e Julie se amavam? Sim, sem nenhuma duvida, mas somente uma pessoa poderia, Julie deixaria, chamá-la assim – isso se Smeagol pudesse ser considerado uma pessoa. Preciosa era um apelido carinhoso pior do que amor ou bebê, se possível. O que ela achava difícil.
Ashton puxou Julie apenas por alguns segundos até que ela parou, encarando-o de forma acusatória e hostil, como se fosse atacá-lo a qualquer momento por ele não ter oferecido um pedaço do seu chiclete. É, ela já fez isso uma vez e foi suficiente para Ashton aprender a lição. Uma lição que foi aprendida somente depois que ele quebrou um dedo e ganhou uma cicatriz que levará para toda vida, mas o que importava era a solução, não como ela foi encontrada.
—Cadê meu presente?
Isso saiu mais como um rosnado do que uma pergunta, Julie era assustadoramente uma gananciosa sem salvação, sempre tentado se sair bem em qualquer situação.
—Mais tarde – respondeu Ashton, pacientemente, ao passar a mão no cabelo, retirando-o da frente dos olhos.
Ele precisava cortá-lo urgentemente se não continuaria caindo sobre meu rosto, normalmente ele usava um bandana, mas não hoje.
—Não combina com sua roupa – disse Anne, sua mãe, sendo influenciada por Julie, forçando-o a usar um smoking. Ele usando um smoking? Ashton nem tinha usado na formatura do ensino fundamental!
—Hum... – Julie olhou-o desconfiada. – Você comprou mesmo?
—A esquecida aqui é outra – disse ele, revirando os olhos.
Julie ia abrir a boca para discutir, ela nunca conseguia deixar outra pessoa ter a palavra final, mas alguém pigarreou atrás deles.
—Estamos interrompendo?
Ashton se virou e, com medo, Julie fez o mesmo, entretanto quando viu quem era, ela soltou-se do seu amigo, os dois ainda estavam de mãos dadas, e correu até Klaus e Margaret, abraçando-os. Klaus era o diretor na escola do fundamental que eles estudaram e Margaret era sua esposa, depois de tanto tempo que passava na sua sala, Julie acabou virando amiga dele, o mesmo deve ter acontecido em relação à Margaret que era enfermeira, depois de aturá-la por tanto tempo no hospital. Ou você faz amizade com Julie ou morre sendo importunado, é difícil escolher entre os dois.
—Senhor e senhora Acker – cumprimentou Ashton, educado.
Ele não precisava olhar para Julie para saber que ela revirava os olhos, se ela fizesse algo desse tipo, Ashton tinha certeza que também estaria revirando os olhos. Klaus conhecia-os muito bem, Julie não era a única que aparecia quase sempre na diretoria, embora que, com ela, era quase sempre mesmo. Quatro dias sim e um não, isso se não fosse contando os fins de semana que ela ficava de detenção.
—Quando os vi juntos pela primeira vez – comentou Margaret do nada, sorrindo – pensei o quanto vocês formavam um belo casal.
—Eu me perguntei quem me daria mais dor de cabeça – murmurou Klaus, recebendo uma cotovelada da esposa.
—Você deveria ir consultar um medico – aconselhou Julie à Maggie, séria. – É grave.
—Aquele é Jason encarando você? – perguntou ela, mudando de assunto habilmente.
—Sem nem uma duvida aquele é Jason – concordou Julie, sorrindo. – E Ashton irá acompanhar vocês ate sua mesa!
A ultima parte foi anunciada de forma muito animada e mal educada, que podia fazer com que qualquer um que passasse por ali pensasse que Julie estava tentando se livrar dos Acker, mas na verdade era de Ashton. Ash a encarava, questionando-a que era Jason porque ele a encarava fixamente, também curioso para saber quem a fez sorrir tão abertamente. Era compreensível sua curiosidade, pois há um numero limitado de pessoas que faz Julie mostrar os dentes de forma agradável, normalmente ela só os mostrava para arrancar um pedaço.
—Lembre-se, – sussurrou Julie, pegando no seu pulso antes que ele se afastasse – que você é o meu namorado e eu não quero ser traída na minha própria festa de aniversário.
—Qual é, preciosa? Você acha que eu faria isso com você?
Pelo olhar que Julie o deu, ela achava sim. Ashton sentiu-se ofendido. Se ele estivesse fingindo ser namorado de outra, quem sabe Ashton fizesse isso, mas ele nunca – não que conseguisse se lembrar – fez nada a Julie para merecer essa desconfiança. A menos que esquecê-la no mercado e só voltar para pega-la depois de uma hora conte, entretanto Julie havia gostando de ficar em frente ao ar do congelador.
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