Isso não é...
35 Isso não é inveja.
Notas iniciais
You should know you're beautiful just the way you are
And you don't have to change a thing
(Você deveria saber que é linda do jeito que é
E você não tem que mudar coisa alguma)
35-Isso não é inveja. (Claro que isso é inveja. O que mais seria?)
Quinta-feira, 12 de Maio de 2016
Claro que Julie sabia que era maravilhosa e que as pessoas tinham inveja dela, mas quantas realmente confessaram isso? Uma. Demi. E, apesar de não ter experiências nesse tipo de confissões – nem em nenhuma; sua ultima confissão, que não foi realmente confessada, foi péssima – Julie sabia que chorar não era o próximo passo. Mas Demi caiu em lágrimas.
Não que ela mesma pudesse dizer algo quanto a isso quando fez o mesmo, mas Julie poderia ajudá-la. Não que Julie soubesse como ajudar alguém. Ela nunca foi de... conversas sentimentais e profundas, lágrimas escorrendo pelo rosto e fungados. Essas coisas, Julie deixava para Luke. Seu irmão era o gêmeo emotivo. Ela era a que ficava ao lado sem dizer uma palavra – ela não sabia que palavras dizer! – apenas sendo a companhia maravilhosa que realmente era. E podia ser que não fizesse diferença, contudo era o máximo que Julie conseguiria e foi o que ela fez daquela vez.
—Venha, sente aqui – ordenou Julie, batendo no espaço ao lado dela.
Sem reclamar, Demi deitou-se ao lado de Julie e olhou para a amiga. Ela estava realmente com inveja de Julie, aquelas palavras não foram da boca para fora. Mas o que tinha para não invejar? Dentre tudo – Julie ser bonita, engraçada, confiante (tudo que Demi não era) – ela era amiga de Ashton, o que já era meio caminho andando. Ao menos Julie falava – conversas completas – com ele! Entretanto Demi sentiu que algo estava errado, Julie não estava tão animada quanto pensou que ela estaria caso se apaixonasse por alguém. Algo tinha acontecido?
Percebendo o olhar de Demi sobre si – e sabendo o que ela queria lhe perguntar e que não se sentia confortável para fazer isso – Julie decidiu ajudá-la.
—Eu me confessei... Bem, não realmente. Mas Ashton sabe que eu estou apaixonada por ele.
—O que? E? – perguntou Demi, sentando-se rapidamente, não conseguindo conter o entusiasmo, parando de chorar tão rápido quanto começou. – E o que ele disse?
—Ele disse que... – Julie parou por um momento antes de continuar (Pensando bem, Ashton não tinha realmente rejeitado-a, mas estava subentendido): – que ele não gosta de mim.
—Oh, meu Deus! – exclamou Demi, deitando e fechando os olhos, horrorizada. – Se você não teve chances, eu também não tenho.
—Isso é algo para se dizer a uma garota rejeitada? – perguntou Julie, virando-a para ela.
—Você mesma disse que não se declarou – retrucou Demi – então não foi rejeitada.
— Bobagem – disse Julie, revirando os olhos. – E quem disse que eu não tenho chances? Você já me viu desistir?
Em resposta a sobrancelha levantada de Julie, Demi se deitou de costas na cama mais uma vez e olhou para o teto, e... suspirou. Uau, agora ela entendia porque Julie sempre encarava tão fixamente o teto do seu quarto; ele era lindo. Como não percebeu antes?
Demi não saia olhando para cima ou nunca tinha se questionado porque sempre tinha alguém na cama da Julie, olhando para cima, ela apenas supôs que gostassem da companhia de Julie – Demi deveria saber que isso seria uma piada – e por causa disso tinha perdido lindas constelações pintadas no teto, que, de alguma forma, pareciam reais. Elas eram idênticas as verdadeiras. E Demi poderia apostar que, se apagasse a luz, elas brilhariam, e sussurrou como se temesse quebrar o encanto delas:
—Estou com inveja. – Julie não disse nada, apenas concordou com a cabeça. E depois de um tempo, temendo quebrar o encanto daquela obra prima, Demi perguntou: – Foi o Ashton?
—Não – respondeu Julie, a contragosto. E completou mais a contragosto ainda: – Foi o papai.
—Não sabia que seu pai desenhava – disse Demi, embora quisesse completar “Não que eu saiba muitas coisas, afinal, você nunca fala dele”.
—Ele não desenha – disse Julie, percebendo tarde demais que ainda usava verbos no presente para se referir ao seu pai. Era difícil deixá-lo partir quando ela sentia sua presença todo dia, em todas as coisas; tudo o fazia se lembrar dele. – Não faço a mínima ideia de como ele fez isso. Papai é – confessou Julie (O certo seria é ou era? Julie não sabia) – tão ruim quanto eu em artes.
—Julie – chamou Demi, olhando-a como se ela fosse louca – você é péssima em arte e isso – ela apontou para cima, com um pausa – é uma obra de arte.
—O que significa que eu ainda tenho salvação – replicou Julie. E Demi nem precisou discordar, pois ela mesma fez isso: – Não. Não mesmo. Eu não tenho salvação.
—Você não está sem salvação – retrucou Demi, sentando-se mais uma vez. – Você é...
—Linda, engraçada, inteligente...
—Isso – concordou Demi, acenando. – Enquanto eu sou apenas... bonitinha.
—Bonitinha é sinônimo de feia – lembrou Julie, repetindo as mesmas palavras da sua mãe, que odiava qualquer palavra que terminava em “inha”. Julie sentia o mesmo que ela.
—Isso – concordou Demi. – Eu sou bonitinha.
—Você não é bonitinha! – exclamou Julie, sentando-se de frente a Demi.
E ela não era. Julie não dizia isso só para fazer Demi feliz ou mentia quando dizia que elas eram diferentes, não apenas na personalidade, mas também na aparência – contudo isso não queria dizer que Demi era “bonitinha”. Demi era baixa, mesmo para os padrões que Julie não utilizava, e quando ela os utilizava, Demi era mais baixa ainda; e ela tinha cabelos escuros encaracolados e olhos castanhos escuro. E tudo isso só a tornava fofa. Ela parecia uma bonequinha na opinião de Julie.
—Mas também não sou linda que nem você!
—Ninguém é – comentou Julie, sorrindo arrogantemente. – Mas você e eu somos diferentes. E não, Demi – disse ela, prevendo as próximas palavras de sua amiga. – Não estou falando da cor da sua pele ou do seu cabelo. Eu até queria um cabelo como seu – comentou Julie, tocando no cabelo dela antes de alisar o seu – qualquer coisa é melhor do que esse macarrão escorrido que se chama Meu Cabelo. Você é fofa, e isso é algo que eu nunca vou ser com toda essa altura.
—Eu acho você fofa.
—Owwnnnnttt – sorriu Julie. – Mas só você.
—E eu acho que Luke também acha – disse Demi, indecisa.
Julie a olhou cética. Demi era péssima em convencer alguém. Como Demi queria convencê-la quando nem ela mesma acreditava? Mas ao menos ela tinha tentando, já era meio caminho andando. Demi não estava mais desistindo, embora faltasse agora determinação. E confiança em si mesma.
—Ele é meu irmão – lembrou Julie, desqualificando-o.
—E Calum – continuou Demi, levantando um dedo.
—Eles são idiotas.
—E Michael – dois dedos.
—Já disse que são idiotas.
—E Melanie. E meu pai. E Ella. Ah, e sua mãe – disse Demi, já com uma mão e um dedo levantando.
—Idiota. Idiota. E idiota. Ah, e idiota – respondeu Julie a cada nome. – E pare de apontar esse dedo para mim! Já tenho todos os dedos que preciso, não quero mais.
—Você não pode falar assim da sua mãe! – exclamou Demi, batendo-a de leve no ombro.
—Por que você não disse nada em relação ao Ashton? – questionou Julie, arregalando os olhos e tremendo o lábio. Ela fazia sua carinha fofa. – Ele não me acha fofa?
—Porque eu queria comprovar uma coisa. E ele não te acha fofa – disse Demi. Julie gemeu, de um jeito que dizia “Tá vendo? Estou certa. Ah, é, como sempre”. – Ele te acha sexy.
—Hum, tenho certeza. – riu Julie, pelo “sexy” de Demi, embora soubesse que era verdade (Ashton a achava sexy), mas o modo como ela pronunciou “sexy” era engraçado. E fofo. – De qualquer jeito, os garotos nem tem como ter aquela ilusão romântica de me pegar pela cintura para beijar. A menos que ele seja um poste, e Ashton não é. Não para mim ao menos – provocou Julie.
—Você que está sendo a iludida, Julie... Espere, vocês já se beijaram? – questionou Demi, batendo as mãos na cama e se inclinando para frente.
Julie a olhou. E a olhou. E a olhou. Ate que precisou piscar. E piscou. Esse era realmente um daqueles momentos de “coloque tudo para fora e então se arrependa de ter falado mais do que deve”, não era? Julie não pagaria para ver... Ou talvez sim, fazia tempo que não apostava e agora ela queria um pouco de adrenalina.
—Eu não sei... – desconversou Julie. – Você e Michael já?
—Estamos falando de você – disse Demi, estreitando os olhos.
—Oh, você sabe que sim. – Os olhos de Demi se arregalaram. – Eu ate evitei Ashton depois. E você?
—Não estou falando disso! – reclamou Demi, batendo-a novamente. – E você sabe! Aquele beijo foi por aposta e beijos por apostas não contam!
—Você parece ter muita experiência em beijos por apostas – disse Julie, como quem não quer nada. Demi teve ao menos a decência de ficar vermelha e desviar o olhar.
—É, hum, você sabe, é que...
—Eu não sei – disse Julie, quando Demi não disse mais nada. Julie nem ia interrompê-la, mas parecia que Demi tinha se esquecido que ela estava ali.
—Eu não falo da sua vida romântica e você não fala da minha – propôs Demi. – Que tal?
—Não. O que eu ganho? Parece que só você vai sair ganhando, não tenho problemas em falar da minha vida romântica.
—Julie? – chamou Demi, com um sorriso. – Cadê o Ashton?
—Em casa. Doente. Por quê?
—Gripe? – chutou Demi.
—É... Como você...?
—O que vocês fizeram quando estavam sozinhos em casa para Ashton ter pegado...
—Demi – interrompeu Julie – você acha que eu terei vergonha de dizer o que aconteceu?
—Não... – murmurou Demi, desanimada. Como iria convencer Julie a não falar da sua vida pessoal? Ela não queria falar da sua vida pessoal (ou a falta dela) a Julie. Nem a ninguém. – Eu duvido que você consiga não se intrometer na minha vida mais – sugeriu Demi, do jeito mais desafiador que conseguiu. – O que acha?
Diante dessa tentativa patética de Demi de fazê-la aceitar uma aposta não propriamente dita, Julie revirou os olhos. Demi achava que ela era idiota para não perceber isso? Ela conhecia a si mesma e sabia como os outros iriam tentar comprá-la e enganá-la para que pudesse tentar resistir a tentação de sucumbir.
—Acho que devemos sair hoje – disse Julie ao invés disso, levantando-se da cama. – Tenho ate uma blusa amarela que ficaria perfeita na sua tonalidade, em mim parece que estou mais anêmica do que o normal, mas...
—Espere – pediu Demi, acompanhando-a com os olhos. (Espere era a palavra favorita dela, percebeu Julie.) – Você ainda está doente, não? Você não pode sair a noite desse jeito!
—Nada. Estou ótima – e para comprovar isso, Julie fungou e esfregou o nariz. – Vamos sair em trinta minutos. E acho melhor você ligar para Nathan, vamos chegar tarde.
—Eu não estou arrumada para sair...
—Eu vou te produzir – anunciou Julie, abrindo o guarda-roupa e olhando fixamente para ele. Qual roupa ficaria bem em Demi?
—Você? – repetiu Demi, surpresa.
—É. Algum problema?
—Eu não sei. Que tal o fato que você não sabe nem se arrumar? Eu tenho um bom gosto melhor que você.
—Se ele é um “bom gosto” – disse Julie, olhando duvidosa para suas roupas – ele já não seria melhor? Isso não seria uma redundância?
—Saia da frente – ordenou Demi, empurrando-a para o lado. Ela não aguentava Julie dando uma de sabichona.
—Certo. Um “por favor” seria o suficiente – murmurou Julie. – Vou pegar a maquiagem da mamãe.
—Maquiagem também? – gemeu Demi, já vendo a hora de sair dali parecendo um palhaço. Julie sabia usar maquiagem?
—É claro – disse Julie, parando na porta. – Pacote completo. Mas...
—Você não vai chamar os garotos para ir também, vai? – interrompeu Demi.
—Era o que eu ia dizer antes de ser interrompida: Só para garotas. E nada de falar de garotos também, fechado?
—Eu consigo ficar sem falar de garotos, mas você consegue?
Julie riu, embora se questionasse o mesmo. Ela conseguia ficar sem falar de garotos? Ugh, gemeu Julie. Essa pergunta parecia de patricinhas, como se a vida dele girasse ao redor de garotos.
—Minha vida não gira ao redor de garotos.
—Você só tem garotos na sua vida, Julie. Como é que ela não gira desse jeito?
—Você é um garoto? – questionou Julie, levantando a sobrancelha.
—Owwwnntt, como você está fofa hoje! – exclamou Demi, pegando Julie de surpresa ao ser pega num abraço. – Eu disse que você era fofa!
—Mova-se – pediu Julie, empurrando-a. – Você vai ver quem é fofa quando eu terminar de arrumar você.
—Eu não quero ser fofa – retrucou Demi, num murmúrio constrangido. – Eu quero ser sexy.
A intenção de Julie era deixar Demi fofa – realmente era – mas Demi já era fofa, então isso não seria nenhum desafio. E Demi tinha desafiado-a – não realmente – a deixá-la sexy. Foi meio que uma troca: Julie deixou Demi sexy enquanto Demi a deixou fofa. Demi gostou do que viu ao olhar-se no espelho, Julie nem tanto.
Ela não queria ser fofa, percebeu Julie, olhando-se no espelho. Ela não funcionava como fofa. Aquilo era... Aquilo não era ela! Aqueles cabelos encaracolados, aquela maquiagem, aquela roupa... Aquele ser era uma patricinha e Julie, que não ia com a cara de patricinhas, agora era uma! Ela com toda certeza não queria ser fofa!
Em contrapartida, Demi parecia ter gostado do que viu. Girado de um lado para o outro em frente ao espelho – depois de ter empurrado Julie da frente – com um grande sorriso estampado no rosto, ela aprovava a escolha de sua amiga. A blusa amarela realmente tinha ficado bem no seu tom de pele, junto a uma saia rodada e botas de salto alto. Os únicos sapatos de salto alto que Julie tinha eram botas, e, apesar delas terem ficado um pouco folgadas, se Demi quisesse ser sexy, ela precisava de algum jeito andar com elas.
Murmurando um “já volto” depois de ter pego algo no guarda-roupa, Julie entrou no banheiro e saiu – Em o quê? Cinco, seis minutos? – rapidamente, transformada noutra pessoa. Agora sim, aquela era a verdadeira e única Julie Hemmings; vestida como sempre e olhando como sempre. Ela não sabia definir o seu estilo, Julie apenas era... Apenas vestia o que queria. E daquela vez ela sentiu desejo de usar um macacão esquecido no armário com sandálias – Julie realmente queria usar suas velhas e companheiras havaianas, mas sua mãe a mataria se saísse com elas – e adivinhe? Sem nem uma maquiagem.
—Hum, Julie? – chamou Demi, descendo as escadas duvidosas. Era impressão sua ou Demi tremia? – Acho que você precisa saber de uma coisa. Ash está...
Demi não terminou. Suas palavras foram silenciadas pelas palmas e assobios vindo de baixo. Julie sorriu e abaixou a cabeça, com um elegante cumprimento, murmurando “obrigada, obrigada”, ate que viu onde Ashton estava e parou, franzindo a testa.
—Como você já está melhor e eu estou assim?
—Você não estaria assim – disse ele, muito confortável no sofá – se parasse de frescura e tomasse seus remédios.
—Seu cretino – retornou Julie, pensando se deveria jogar ou não sua bota que estava com Demi nele.
—Julie – repreendeu Ashton com um sorriso. – Olhe a língua. Pensei que você não falasse palavrões.
—Isso não é um palavrão – recuou Julie.
—Não, imagina.
—Cretino é um palavrão... – Julie olhou ao redor, procurando... Quem a apoiaria? – Calum?
—Bem, tecnicamente... – murmurou ele, olhando ao redor, mas não encontrando nem uma ajuda. Todos tinham desviado o olhar menos Ashton e Julie. Por fim, ele disse: – Não.
—Para onde vocês vão? – perguntou Luke, impressionado pela roupa anos 70 de Julie. todos estavam. Ash perguntava-se qual brechó ela tinha assaltado, porque julie tinha a tendência a roubar brechó.
—Festejar – disse Julie, como se fosse obvio. – Vamos, Demi? Ei, ei, Michael, para onde você pensa que vai? É só para garotas.
—Ahn... – murmurou Mike, olhando mais uma vez para a roupa delas.
Julie estava ok – e ele não ligava para o que Julie vestia, sinceramente (Ashton que se preocupasse com isso e os outros dois) – mas Demi? A roupa dela estaria ok com um acompanhante, não sozinha.
—Para onde...? – levantou-se Luke, querendo saber para onde elas iriam, mas Julie bateu a porta e gritou, como se citasse tópicos:
—Só para garotas. Sem companhia. Não nos sigam.
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