Isso não é...

36 Isso não é um filme.


Notas iniciais
Mais um capitulo!! Durante minha estadia sem pc, escrevi algumas partes, só falta organizar, porque surpreendentemente ficou muito grande. E quando eu arrumo tudo fica maior ainda, então tenho que juntar, cortar, revisar... Acho que irei postar mais amanhã. A música é Heartache On The Big Screen - https://youtu.be/DUv5KUl6_PY

This ain't a movie that I wanna see

A tragic story, starring you and me

(Este não é um filme que eu quero ver

Uma história trágica, estrelado por você e eu)

36-Isso não é um filme. (É mais clichê que um.)

Quinta-feira, 12 de Maio de 2016

Assistir um filme quando sua própria vida parecia um filme era... Era sem sentido. Ashton não entendia porque ele e seus amigos estavam sentados no sofá assistindo a um filme em vez de ir fazer algo. Viver, quem sabe. A vida era muito melhor do que um filme – não a sua naquele momento, é claro. Mas até que aquele filme, superando as expectativas, era bom

—Esse filme é bom – disse Ashton, jogando mais pipoca na boca, surpreendido. – E essa pipoca também.

—Percebi – disse Luke, olhando para dentro do balde vazio. – Você comeu tudo sozinho. Tome, Calum – disse ele, oferecendo o balde quase que vazio. Ainda havia milhos no fundo.

—Isso é bom – concordou Calum, passando o seu balde cheio de pipoca para Luke – Hum-hum – repetiu ele, mastigando ruidosamente os milhos que não eclodiram. Ele gostava deles. Somente ele gostava deles.

—Por que Calum ficou com um balde de pipoca sozinho? – questionou Michael. – Por que ele não comeu nem uma?

—Ele estava guardando-o para nós – explicou Luke – já que não gosta de pipoca.

—Ele não... Você não gosta de pipoca? – perguntou Michael, diretamente a Calum. – Qual é o seu problema?

—Não tantos quanto o seu – respondeu Calum, sem desviar os olhos da TV.

—Nós deveríamos ir atrás das garotas – repetiu Michael, novamente, lembrando do seu problema que tinha Demetria como nome e o sobrenome Lovato. – Deixá-las lá, sozinhas, não é uma boa...

—Não – disseram eles ao mesmo tempo. Michael só sabia falar disso desde que Demi desceu as escadas e Julie disse que elas iriam festejar. Sozinhas.

Sem companhia, completou Julie, como se "sozinhas" não fosse o suficiente para fazê-los entender que elas – Julie – não os queriam lá.

—Apenas coma, Michael. E assista. E tire os pés do centro, Ashton – disse Luke, empurrando-os para baixo com os próprios pés.

Calum deitava num sofá sozinho, protegendo o balde de pipoca – agora não mais; agora ele comia o milho – enquanto os outros três dividiam o outro sofá, com Luke no meio segurando o outro balde. Este com pipoca.

—Onde eu vou apoiar os pés? – questionou Ashton, colocando-os novamente em cima do centro.

—No chão – disse Luke, empurrando-os novamente.

—Esse cara deve ser idiota para correr tanto atrás dessa mulher – disse Calum.

—A palavra chave do filme é correr – comentou Ashton, levantando os pés devagar (para Luke não perceber) e colocando-os em cima do centro.

—Muito engraçado, Ash – falou Luke, olhando-o sério. – Agora tire os pés.

—Sabe o que seria bom? – perguntou Michael depois de um tempo. – Ir à um...

—Não – disseram os garotos ao mesmo tempo. Novamente. E suspiraram.

O filme era bom. Muito, muito bom. Comédia e drama na medida certa. Como não tinham visto antes? Porque quem o tinha recomendado havia sido Julie e ela possuía um péssimo gosto para filmes. Ela nem assistia a filmes e quando fazia ou o filme era muito bom ou muito ruim. Normalmente era algo horroroso.

Eles só assistiam Forrest Gump agora porque sentiram uma compulsão a fazer isso. Eles não queriam ficar sozinhos e era como se assistir aquilo fosse fazer alguma diferença. Não ter Julie ali deixava a atmosfera mais solitária, deprimida de algum modo. Eles estavam acostumados a ter Julie ao redor – talvez não Michael, (não completamente Michael) mas os outros viviam ali (ali era a casa de Luke, e quase que a casa de Calum, e Ashton só aparecia na sua para dormir e estava ou com Julie ou com aqueles garotos e Julie) – e aquilo era estranho: um momento só para garotos. Não ruim, apenas... Anormal.

Um momento só para garotos e só com garotos era anormal. Não ter Julie nos calcanhares, não precisar pensar um pouco no que falaria e colocar um filtro – embora fosse Julie que precisasse de um filtro – era estranho. Embora eles tenham percebido que filtro não era necessário. O que falavam com Julie e sem Julie era a mesma coisa, talvez um pouco mais leve do que seria com Julie presente. O filtro só era necessário quando Julie estava presente não porque os ouvidos dela fossem puros – Julie não era pura ou ingênua – mas porque ela colocava o pior deles para fora. Era como se deixar Julie constrangida fosse a meta de cada dia – e eles nunca conseguiam alcançá-la. Eles seriam ótimas pessoas e exemplos sem Julie. Julie, o exemplo do mal. Não... Julie, a... O... Ashton não daria certo para diretor de filme.

—Ela deveria ter morrido.

—Ela morreu – lembrou Calum a Luke.

—Antes – completou ele. – Ela deveria ter morrido antes.

—Ela tinha AIDS, certo? – questionou Ashton, tentando se situar.

Não era como se AIDS tivesse sido descoberta naquele tempo que o filme se passava. E o filme tinha apenas dito que a medicina não sabia nada sobre a doença e com a lista de pessoas que a garota ficou... AIDS era a única doença que Ashton conseguia pensar.

—Você deveria tomar cuidado, Ash – zombou Luke. – Se não pode acabar que nem ela. Morta.

—Todos morrem, Luke – disse Ashton. – O bom é aproveitar a vida.

—Mas... – murmurou Calum, olhando-o com a testa franzida em confusão. – Eu mais nunca vi Ashton com...

—É mesmo – percebeu Luke, empurrando o amigo com o ombro. – Será que alguém se apaixonou? Será que nosso pegador tomou jeito?

Oh, sim, Ashton tinha uma boa resposta na ponta da língua. Uma que envolvia "estou pegando suas irmã". Uma que significava que ele compraria uma briga se dissesse o que realmente pensava. Uma que ele nunca iria confessar a Luke.

—Sabe o que deveríamos fa...

—Michael – interrompeu Calum, jogando seu milho nele, já irritado. (Ele devia estar bem irritado para desperdiçar os milhos, refletiu Ashton, pois Calum olhava para aqueles milhos como Julie olhava para doces em geral.) – Não vamos seguir Demi por ai só porque você está com ciúmes.

—Isso não é... Eu não estou... Certo – disse Michael finalmente. – Eu estou com ciúmes. Mas pense só: ela e Julie, sozinhas, quem sabe onde, sozinhas, sem ninguém, sendo como são, sozinhas – repetiu ele – e se algo acontecer com elas...

—Sozinhas? – ofereceu Luke.

—Você não quer que um desconhecido dê em cima de sua irmãzinha, quer? – questionou Michael, calando-se enquanto esperava o avaral dele.

Como Luke era a única pessoa que se importaria se um desconhecido desse ou não em cima de Julie – Calum não iria ligar para quem decidisse testar a sorte com ela – Michael apostava todas as suas fichas em nele. Luke que iria decidir o seu destino, empatar o jogo, chame do que quiser. Embora Ashton tenha parecido tentando a responder.

Ash sabia que a pergunta não foi direcionada a ele, mas, mesmo assim, ele não gostou nem um pouco de saber que um desconhecido poderia estar agora mesmo dando em cima da sua Ju... que não era realmente sua. Ashton não gostou nem um pouco dos pensamentos possessivos que sentiu em relação à Julie. Ou em saber que Calum tinha razão e que ele mais nunca tinha ficado com alguém. Desde que seja lá o que ele e Julie tinham começou. Não era como se eles tivessem algo. Não era como se esse "algo" – que não existia – viesse com um contrato de exclusividade, então por quê? Por que Ashton estava... Seja lá o que ele tivesse, como tivesse. Por quê?

—Vamos – disse Ashton, levantando-se. – É como Michael, digo, Calum – consertou-se ele rapidamente – disse. Mais nunca fiquei com alguém...

Alguém que não fosse Julie, completou Ash mentalmente. Ele tinha ficado com Julie mais vez do que alguma vez ousou imaginar – não que tenha sido muitas vezes; ou alguma vez.

—Poderíamos aproveitar e ir para o mesmo local que De... As garotas! As garotas estão – sugeriu Michael, falhando miseravelmente em fingir que não ligava para o que fosse escolhido.

Por isso parecia um maldito filme?, questionou-se Ashton. Não, sua vida estava pior do que um filme. E um filme dramático ainda por cima, que não deixa espaço para finais felizes. E finais felizes não existiam na vida real.

A mudança repentina de gênero – drama para terror – pegou Ashton e os outros de surpresa. Ele não esperava por isso. Ninguém esperava por isso. Aquele bar deveria ter uma classificação para acima de 18 anos e só ser permitida a entrada com um documento de sanidade assinado por um médico... Ashton até aceitaria ser expulso daquele estabelecimento para nunca mais voltar – e lá tinha a melhor pizza de todas! – se isso significava nunca mais ouvir Julie cantar. Qualquer coisa para nunca mais ouvir Julie cantar. Ashton aceitava qualquer negócio.

Inclusive beijá-la, sussurrou a pequena – grande – parte traiçoeira da sua mente. Ashton mandou-a se calar.

—Julie! – gritou Luke, chocado. E envergonhado.

Os outros sentiam o mesmo, mas não tinham coragem para fingir que conheciam aquela garota no palco. Quem era aquela garota no palco? Mas, apesar de tudo, eles não puderam evitar o sorriso ao ver Julie sendo quem era e não negando isso. Quantas pessoas cantariam desafinadas, sabendo que estavam desafinadas, como se não estivessem desafinadas?

—O que foi agora, Lu...

A voz estridente de Julie ressoou pelo espaço até eles que se encolheram e perderam o sorriso. Esqueça a historia de orgulho, Julie não tinha vergonha? Até ela se encolheu com o som e a estática que o microfone produziu.

Irritada – por ter sido atrapalhada ou pelo claro sinal de que ela não nasceu para ser cantora?, Ashton não sabia – Julie saltou do palanque e andou pisando duro até aqueles idiotas que a tinham seguido apesar de sua clara ordem para não segui-la, olhando para cada um demoradamente, menos para Ashton. Julie só passou os olhos por ele como se temesse ser machucada. Ou agarrada, como se soubesse dos pensamentos dele a respeito dela. Ou tivesse os mesmos pensamentos que ele, também era possível.

—O que vocês estão fazendo aqui? – perguntou Julie. Todos abriram a boca para responder (a resposta variava e o grau de honestidade também), mas Julie levantou a mão e eles voltaram a fechá-la. – Quer saber? Eu não me importo. Vocês não vão arruinar meu dia.

—Noite – corrigiram eles em conjunto, o que só fez Julie os olhar irritada. Mais irritada ainda.

Aquela sincronia a irritava, como se todos estivessem chamando-a de burra. Contudo aquele seria um dia sem garotos – o fato do dia já estar acabando-o não o tornava menos verdade; ou que ela era burra. Sem garotos, ela repetiu mais uma vez para si mesma. Sem garotos. Quanto mais repetisse "sem garotos", mais rápido isso se fixaria na mente e menor a probabilidade de Julie se esquecer disso. Ela prometeu isso – um dia sem garoto – a Demi. E a si. E Julie cumpria com sua palavra.

Alem de que ela precisava de uma folga daqueles garotos idiotas na sua frente que só complicavam sua vida, contudo parecia que eles não conseguiam viver sem ela. Só que Julie conseguia – ela queria achar que sim.

A única pessoa que ela nasceu grudada foi com Luke. E sua mãe, ligada pelo cordão umbilical... Espere, já que ela e Luke não eram gêmeos univitelinos – era meio óbvio (completamente óbvio) já que eles eram de gêneros opostos – então eles não dividiram a mesma placenta, logo não estariam grudados... Não?

Dando as costas a eles, Julie fez mais uma promessa a si mesma, que, enquanto aquela noite não tivesse terminado, ela não falaria com eles. Ela os ignoraria. Julie só tinha pedido uma noite sem eles e o que eles fazem? Aparecem na sua frente! Pois bem, Julie fingiria que eles não existiam. Eles não pareceram ter problema em fazer isso ao fingirem não ouvi-la dizendo para não irem atrás dela, então quão difícil isso seria? Ela retornaria o favor.

Puxando uma cadeira na frente de Demi, Julie esticou os pés e ocupou a cadeira ao seu lado ao mesmo tempo que Ashton tentou puxá-la. Por que ela não estava surpresa com essa cara de pau deles? Nem para sentar em outra mesa tinham coragem! Nem para Ashton sentar em outro canto que não fosse ao seu lado!

—Eles não estão aqui, Demi. Ignore-os – disse Julie, encarando Ashton enquanto falava com Demi, que nem parecia surpresa com o fato de terem sido seguidas. – Com sorte, eles vão embora.

—Nós não temos sorte – disse Demi. – E eles devem estar desesperados por companhias se ainda não fugiram depois de terem te ouvido cantar.

—Ei – reclamou Julie, defendendo-se logo depois. – Eu canto muito bem. E cumprir com o meu desafio, diferente de você que não foi pegar o número do barman.

—Desafios? – ecoou Luke, sem entender.

—Que tipo de desafios é esse? – perguntou Ashton, tirando os pés de Julie da cadeira a força para se sentar ao lado dela.

—Você não vai pegar o número do barman! – exclamou Michael, batendo as mãos na mesa com força.

Julie o encarou – e chutou-o debaixo da mesa. (Chutar não contava como falar, chute estava na categoria agressão.) Demi nem piscou. Ela era melhor nesse negócio de fingir que não (ou)viu do que Julie, mas Julie não achava nada para se invejar nisso. Demi praticou essa técnica por boa parte da sua vida, Julie não estava indo invejar esse tempo. Ela agradecia não ter precisado fazer isso antes. E agradeceria ainda mais se não precisasse fazer isso mais nunca na sua vida. Não... Ela agradeceria ainda mais se não estivesse fazendo isso naquele instante – embora, se aquilo daquele instante não estivesse acontecendo, Julie não iria agradecer. Ela não precisaria agradecer e era sempre bom agradecer pelo que tinha. E pelo que não precisava.

—Uma pizza de mussarela, uma metade de frango com catupiry e portuguesa, uma de... – pedia Calum, olhando o cardápio.

Ele já sabia o que cada um iria querer, consultá-los seria perda de tempo (e eles pareciam ter muito o quê fazer para que Calum os atrapalhassem). E ele sabia o que Julie (que o olhou, somente o olhou; ela nem tinha feito sua "carinho fofa"!) queria, e Calum não pode não pedir o que ela queria. Mesmo que eles não estivessem se falando.

—E uma com todos os sabores misturados, numa massa doce. – Julie abriu a boca para dizer "com azeitonas" quando percebeu que isso seria falar com os garotos e ela não estava falando com os garotos. Felizmente, Calum era uma boa pessoa e entendeu o recado, e completou: – e com metade de azeitonas.

Afinal, essa mistura não seria apenas para Julie, Luke também gostava disso, menos da parte "com azeitona". Uma pizza só de queijo seria de Michael e Demi, que tinham o mesmo gosto. A metade de frango com catupiry era de Calum e a portuguesa a de Ashton... Não que Julie fosse se contentar só com a sua ou que Calum não fosse experimentar a dos Hemmings – ele sempre experimentava a dos Hemmings apesar de achá-la nojenta... Mas tinha algo atrativo nela. Era uma combinação agridoce que o fazia desejar comer ao menos uma fatia.

—Mas... Mas... – gaguejou Demi, chamando a atenção de Julie (comida em primeiro lugar!). – Ele não vai me dar o seu número.

—Você pode dizer que fui eu que pedi. Você pode até apontar e eu levanto a mão assim – disse Julie, fingindo chamar um garçom.

—Julie! – repreendeu Demi, puxando a mão dela para baixo. – Nós somos menores de idade! Se ele nos der o seu número é para ter medo...

—Eu concordo – disse Michael.

—Mas, pensando bem, eu deveria ir pedir número dele. Só se vive uma vez, não é? — continuou Demi, nem reagindo a voz de Michael.

—Eu realmente preciso dar em cima daquele cara agora...? – questionou Julie, olhando para Demi que tinha se levantado e parecia se aquecer para uma maratona. – Você não vai precisar de mim para... – Julie levantou a mão – Você sabe o quê.

—Não. Eu vou pedir o número do barman. Sozinha. E você vai atrás daquele garoto – apontou Demi, dando de ombros ao olhar cético de Julie. – Ele é bonitinho.

—Mamãe sempre diz que bonitinho é sinônimo de feio – relembrou Julie, num murmúrio. – E eu não estou dando em cima de caras feios.

Mesmo sem vê-lo – e querendo quebrar sua própria promessa para quebrar a cara dele (quebrar a cara dele quebraria sua promessa?) – Julie sabia que Ashton sorria e tinha vontade de mandá-lo... Ela não sabia o que iria mandá-lo fazer – e isso não significava que Ashton não era bonitinho (embora ele não fosse) – felizmente Julie não precisaria se preocupar com isso, ela não estava falando com ele. Nem com qualquer outro garoto que conhecia. Mas, felizmente – hoje era um dia abençoado! – isso não significava que Julie não pudesse conhecer mais ninguém hoje. E isso incluía o carinho bonitinho que passou na direção do banheiro.

Levantando-se, Julie o seguiu. Não antes de apontar para outro carinha e dizer, no seu tom de voz normal – ou seja, falando alto o bastante para ele ouvir:

—Aquele ali é muito mais do que bonitinho!

—Julie! – repreendeu todos...

Menos Demi que assobiou, aprovando a escolha da amiga, antes de afastar para o bar, vermelha pela reação instintiva. Julie não via nada para se envergonhar, ela faria o mesmo se soubesse assobiar. E completou, só para ouvir o tom incrédulo e envergonhado de seus amigos:

—Dá até vontade de adotar um gato desse...

—Julie!

Notas finais
O filme mencionado acima realmente assisti e foi o ultimo filme que tinha assistido quando escrevi esse capitulo - quem viu hoje Detona Ralf? Muito bom. E quem gostou do capitulo? P.S. Tentei acrescentar sua sugestão Luci, espero que tenha gostado.