Isso não é...
16 Isso não é fogo.
Notas iniciais
So take a deep breath and let it go
You shouldn't be drowning on your own
(Então respire fundo e relaxe
Você não deveria estar se afogando sozinha)
16-Isso não é fogo. (Que ironia, dada as circunstâncias.)
Domingo, 01 de maio
Se fosse para definir Julie Hemmings com uma palavra, ela própria escolheria fogo. Ela o amava. Ela o odiava. Ela era constantemente atraída para ele. E o provocava algumas vezes. Julie não conseguia evitar, era mais forte do que ela. Muito mais forte do que ela. Andar nas pontas dos pés, colocando um pé na frente do outro com cuidado e silenciosamente, também era muito mais forte do que ela. Surpreender Demi era um bônus que Julie também não perderia, além de que ela seria aquela que riscaria o fósforo. Michael colocou a gasolina e Julie atiçaria o fogo. Ela era uma piromaníaca, sem duvida.
Apesar de já ser meio dia, Demi ainda dormia, embora Julie não devesse dizer nada quanto a isso. Quando não ia para a escola, ela normalmente acordava depois do lanche da tarde, mas – por alguma razão que não deveria ter nenhuma relação com a bebida, o enjoo ou a dor de cabeça – Julie acordou muito cedo. Devia ser umas dez horas quando ela acordou, o que no seu vocabulário era igual a acordar com as galinhas.
—Ahhhhh!
Um segundo antes de Julie pular em cima de Demi, a própria abriu a boca e gritou, o que fez Julie gritar também em choque e em dor, pois sua amiga havia esticado os braços e empurrado-a direto para o chão!
—Ai – queixou-se Julie, apertando os olhos. Ela via tudo dobrado. E sua bunda doía. – Você está doida?!
—O que você está fazendo aqui?
Demi ainda parecia meio drogada com o cabelo e a bochecha toda amassada. Ela esfregou os olhos, olhou ao redor e esfregou os olhos de novo. Não entendendo nada. Nos dias bons, Demi não entendia nada. Nos dias ruins – e sonolentos – ela não entendia realmente nada. Aquele momento estava na ultima opção, obviamente.
—Festa! – gritou Julie, abrindo os braços para logo depois se encolher. Droga, quando o remédio ia começar a fazer efeito?, reclamou ela.
—Festa? – repetiu Demi, debilmente.
A compreensão do que acontecia demorou a chegar a Demi, e ate que esse momento chegasse, as duas ficaram se encarando. Demi não enxergava realmente a amiga, perdida em pensamentos sonolentos – ela só queria voltar para cama e dormir – e Julie só queria uma briga.
Depois de um tempo – finalmente – percebendo a musica que tocava um pouco alto, Demi arregalou os olhou e correu até a janela, puxando com tudo a cortina, compreendendo o que acontecia. Seu tempo de reação foi incrível
Lá embaixo, havia algumas patricinhas megeras – elas eram as que faziam todos pensarem que as lideres de torcida são loiras falsificadas e burras – as que provocavam essa generalização e acentuava o preconceito de Julie. E o que elas faziam de produtivo na piscina?
Se você pensa que estavam na piscina, meus pêsames, pensou Julie, olhando pela janela também, não esperem tanto delas. As lideres de torcida – todas as garotas lá embaixo eram lideres de torcida! O que esses garotos tinham com lideres de torcida? – tomavam banho de sol para que todas as partes do corpo estivessem uniforme, ninguém iria querer que elas mostrassem a bunda branquela ao usar aquela saia-calcinha.
Olhando mais atentamente para baixo, Julie agradeceu por existir também alguns belos corpos na piscina para admirar, embora a predominação entre eles fossem de loiros bombados. E eles não faziam o tipo de Julie, ela era bastante especifica quanto a isso.
—Por que você não me ligou quando soube disso? – questionou Demi, incapaz de desviar os olhos.
—Quero ver um barraco – respondeu Julie, sinceramente.
Demi olhou-a com desgosto antes de correr ao closet para trocar de roupa – ricos tem closet, aprendam. Julie não tinha – e saiu de lá com uma roupa decente e não um short de prostituta, como as garotas lá de baixo. E desceu as escadas pisando duro. E até se esqueceu de suas fobias – a de está em publico, a de existir – quando encontrou Michael cercado pelas loiras de farmácia.
—O que essas pessoas estão fazendo na minha casa? – rosnou Demi.
Como de costume as mãos dela apoiavam-se nos quadris, Demi sempre fazia isso quando estava com raiva. Aquela posição a deixa sentindo-se altiva. Contudo Michael era um idiota com certificado e não falou nada, ate fingiu não ver a posição de Demi, com medo de ser tachado como um... Julie não sabia qual era o apelido que ele não queria, mas ele era sim um idiota que não queria que ninguém soubesse que ele e Demi haviam sido amigos um dia.
Céus, refletiu Julie, eu estou com vontade de matar ele. E não apenas porque quero uma briga.
—O que você acha que está fazendo? – questionou Katherine, a maior vadia das vadias, intrometendo-se ao lado de Michael e passando os braços de forma possessiva pela cintura do mesmo, marcando território.
Julie queria pensar nela como a capitã das lideres de torcidas, mas tudo era tão parecido que ela sempre acabava se confundindo. Demi nem olhou para Kate, concentrada em encarar Michael, que claramente a ignorava. Seus cabelos estavam cor de amora agora, Julie aprovava, porque combinaria com a bochecha dela quando ela a batesse. Ou com o sangue que sairia do seu nariz quando ela o quebrasse. Julie ainda estava se decidindo, mas ela não foi rápida o bastante.
—Você é um idiota – disse Demi. Julie assentiu com a cabeça para aquelas palavras sábias, ela concordava com a amiga.
—Não é porque nossos pais se casaram que isso significa que somos amigos. – Mike finalmente falou e era melhor que tivesse continuado calado. – Então não fale comigo desse jeito.
Aquele dia estava sendo surpreendente, principalmente quando Demi o bateu. Contudo, antes que Julie pudesse aproveitar mais a imagem e pensar numa desculpa para bater no outro lado do rosto do Clifford – não era porque Demi bateu num lado que ela não pudesse bater no outro – quando Demi se virou para ir embora, Katherine “acidentalmente” – era bem óbvio a todos o quão acidental aquilo foi – tropeçou e derrubou Demi dentro da piscina. E ela não sabia nadar.
Todos viram que Demi foi empurrada para a piscina e perceberam sua luta para subir. Seus braços se debatendo, fazendo-a engolir mais água, o olhar aterrorizado, ela afundando... Mas ninguém fez nada. Alguns achavam que era drama, outros se encontravam num estado mental suspenso, não entendendo nada, e tinha também os que estavam aterrorizados demais para poder compreender o que acontecia, concentrando-se mais no futuro do que no presente. Concentrando-se mais no fato de que ela podia morrer do que no fato de que alguém – qualquer um – poderia salvá-la.
Julie via e não via a amiga. Ela via Demi, mas também via outro acontecimento sobreposto. Ela via a si mesma debatendo-se, desistindo, sendo puxada para baixo... E depois escuridão, confusão, alivio... E de repente dor. Dor para todo lado, em todos os cantos. E, então... tão rápido quanto veio, a lembrança se foi ao ver Ashton pulando na piscina.
Ashton enxergava todos os acontecimentos – Kate empurrando Demi e ninguém fazendo nada – da cozinha, sem realmente acreditar no que acontecia. Ele era quem estava mais longe da cena e quem mais rápido se recuperou do choque e correu para salvar Demi, atravessando todo jardim para enfim pular na piscina.
A água bateu nele gelada, molhando toda a sua roupa, grudando-a na sua pele e puxando-o para baixo, entretanto Ash conseguiu chegar a Demi sem problema. O problema estava no fato de Demi ter desistido de se debater. Ashton a envolveu seus braços com cuidado – ela parecia tão pequena neles, tão frágil e quebradiça que Ashton realmente ficou com medo que ela se quebrasse nos seus braços – e nadou apressado ate a borda, com medo que já fosse tarde demais.
Deitando-a na borda da piscina, Ashton içou-se para fora dela e buscou sua pulsação no pescoço, sentindo-a bater lentamente e suspirou aliviado por não ser tarde demais. Seu coração ainda batia, mas Demi não parecia respirar. Ashton não tinha nenhuma experiência nisso, então ele se inclinou logo na direção dela para respiração boca a boca, e aquilo fez Julie voltar aos trilhos.
—Espere! – gritou ela, correndo e se jogando de joelhos ao lado deles.
Julie ainda não estava recuperada dos eventos que presenciou, mas também não tinha tempo para refletir sobre eles ou se encolher numa bola de fetal – era o que ela mais queria fazer naquele momento. Dada as circunstâncias, ela era quem mais tinha chance de fazer algo, visto que era a única que saberia o que fazer. Sem perder tempo, Julie começou a fazer a massagem cardíaca.
Depois de contar ate três, Julie levantou a cabeça – assustada, mas determinada – e sinalizou a Ashton que continuasse de onde tinha parado antes que ela o interrompesse. Sem precisar pedir duas vezes, Ashton tapou o nariz de Demi e inclinou-se para ela, soprando tanto ar quanto conseguiu.
Todos ao redor deles prenderam a respiração, esperando o desfecho daquele caso, com mais medo de serem acusados do que pela situação de Demi. De um jeito ou de outro, eles tinham participado daquela brincadeirinha e agora a garota não se mexia mais.
Mike, observando a cena, fechou os punhos, tentando conter a raiva que sentia de Katherine, dele, de Ashton, de todos... E o medo. O que aconteceria com Demi? Apesar do que disse a ela, ele se importava com aquela garota. Talvez não a conhecesse mais, contudo ele se lembrava da garota que ela era antes dele ter sido um babaca. E Mike se importava com aquela garota, a garota que o fazia rir e se importava mais com os outros do que consigo.
Julie e Ashton repetiram o procedimento – ela fazendo a massagem e ele a respiração – até que Demi começou a tossi, cuspindo água, todos suspiraram de alivio. Mike abriu os dedos, flexionando as juntas sem sangue. Julie e Ashton trocaram um olhar, agradecendo um ao outro por mais coisas do que poderiam dizer, antes que ele se deitasse contra a grama, fechando os olhos, cansado de todo aquele drama. E Julie tentava não chorar. Ela não gostava de chorar. Então ela virou-se para Michael, trocando as lágrimas por algo que ela conseguia lidar. Raiva.
—Ella estaria decepcionada com você, Michael, se soubesse o que fez. Eu estou – disse Julie, olhando-o com raiva e decepção. Aquele garoto não era nada parecido com o garoto que ela fez amizade. Aquele garoto era um idiota e de idiotas ela já estava cheia.
Se contendo para não socar Michael, Julie levantou-se para ajudar Demi a entrar, e descobriu que não conseguia andar. Ela deu um passo e caiu de joelhos, o que provocou algumas risadas disfarçadas de Calum e Luke, que riam tanto por ser engraçado – ela caiu sem uma explicação plausível! – quanto para aliviar toda a tensão que sentiam. Eles observavam a cena sem ter o que fazer, sentindo-se inúteis. Ashton e Julie já faziam tudo que poderia ser feito e eles só podiam observar a cena.
Aproximando-se, Calum pegou Demi nos braços e Luke passou um braço ao redor da cintura de Julie, segurando-a – ele duvidava que sua irmã fosse aceitar ser carregada como uma princesa – e jogou uma toalha para Ashton. Era o mínimo que ele poderia fazer.
—Se enxugue, cara. Não quero ver seu tanquinho – provocou Luke.
—Tanquinho – zombou Julie, tossindo de tanto rir. – Que tanquinho?
—Urg, Julie – pediu Luke, afastando-se. Mas não tinha como afastar-se de Julie e continuar segurando-a. – Não cuspa em mim.
—Quem vai me ajudar a me levantar? – interrompeu Ashton, abrindo os olhos.
A primeira coisa que ele viu ao abrir os olhos foi Julie sendo abraçada por Luke e com a mão sobre o peito dele. Ash queria saber qual era o fetiche que ela tinha para com o peito do irmão. Sinceramente, Ashton preferiria nunca ter tentado conversar com uma Julie bêbada. Ele se arrependia disso.
—Você está machucada, Julie – percebeu Ashton, olhando-a tristemente.
Julie encarou-o surpresa por ele ter percebido. E com raiva. Ela achava que estava disfarçando muito bem quando Ashton solta essa afirmação do nada e de forma muito natural, como se não fosse grande coisa o fato dela está ou não machucada.
Luke olhou de um para o outro sem entender nada. Julie estava machucada? Como... Quando... Por... Hã?, os pensamentos dele não eram nada coerentes. Grande parte devia-se ao fato de Ashton ter percebido antes dele e isso era algo que ele não perdoaria.
—Seu joelho – apontou Ashton, percebendo que aquilo poderia ter duplo sentido.
—Ahhh, eu pensei que... – dando um olhar a Luke, Julie balançou a cabeça, descartando o que tinha em mente. – Não importa.
—O que vocês... – Luke não deixaria o que fosse para lá, quando estava óbvio que sua irmã e Ash tinham segredos.
—Vamos, Luke – disse Julie, puxando-o rapidamente para longe. Ela não podia deixar aqueles dois perto um do outro por muito tempo. – Meu joelho está doendo.
—Ele não estava ate um minuto atrás.
—Mas agora que estou ciente do machucado, meu joelho está doendo. E, Michael? – chamou Julie, olhando-o agora somente com decepção. A raiva tinha ido embora há muito tempo. – Quero todos fora. Coloque-os para fora se não contarei a Ella todos os detalhes do que aconteceu. E a Nathan. Ele adoraria saber o que houve com sua filha.
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