Isso não é...

62 Isso não é expectativa.


Notas iniciais
Mais de uma semana sem postar. Saudades? Eu pretendia terminar domingo, mas acabei ficando sem tempo porque... Faculdade! Alguma ideia de qual curso? Não revisei porque eu me conheço e se revisasse começaria a achar que estava ruim e desistiria, qualquer erro avise. Nas minhas contas tem mais quatro ou cinco capítulos, (in)felizmente falta apenas dois para terminar. Something just like this - https://youtu.be/FM7MFYoylVs

I'm not looking for somebody with some superhuman gifts

(...) Just something I can turn to somebody I can kiss

(Eu não estou procurando por alguém com algum dom sobre-humano

(...) Apenas algo a que eu possa recorrer, alguém que possa sentir beijar)

62-Isso não é expectativa. (Seja para o bem ou mal, você supera as minhas.)

Domingo, 29 de maio.

Ashton sabia que colocar tantas expectativas sobre um dia, uma pessoa, não era bom, não era certo, mas ele não conseguiu não fazer isso e agora estava cansado de tudo isso. Ele estava literalmente cansado de tudo isso. Ash duvidava que conseguisse manter seus olhos abertos por mais alguns segundos, consequência de passar a noite toda se revirando na cama sem conseguir dormir, ansioso para o que sol aparecesse e para que pudesse ficar com a sua namorada, mas...

Na bela manhã do seu aniversário, o que Ashton não esperava era encontrar Julie deitada no sofá com um livro sobre o seu rosto, como se estivesse caído no sono enquanto lia. Ash até poderia pensaria que ela estava realmente dormindo se não fosse o fato de que Julie nunca cairia no sono enquanto lia com medo de estragar seus preciosos. Ou se não tivesse ouvido a risadinha que veio dela – uma risada um pouco petulante e envergonhada ao mesmo tempo, que apenas deixou Ashton com vontade de dormir realmente. Porque ele sonhava.

Mesmo o barulho de Julie caindo no chão, assustada, não foi o suficiente para apagar essa impressão. Ou o fato de que Julie continuou ali, olhando-o culpada antes de olhar para o livro que lia, como se nem mesmo ela soubesse, e então o mostrando com um “não estou vendo nada indecente”.

Ashton balançou a cabeça, certo de que ainda estava sonhando – essa conversa já tinha acontecido antes, então ele tinha precedentes mentais para ter sonhado. Se bem que aquele sonho de agora era mais real e possível do que todos que já teve. Se bem que qualquer coisa era possível depois do jogo de ontem. Se bem que Ashton não estava ligando nem um pouco para o que era real ou não.

Julie estava lá agora. Julie estava lá e era o aniversário dele. Julie estava lá e Ash não se importava com o que Julie tinha dito ou não. Cansado demais para pensar, ele apenas deslizou para o lado dela, com as costas contra o sofá.

—O que você está fazendo aqui essa hora? – bocejou Ashton, ajudando-a se sentar como ele. – Não está muito cedo para você, não?

—Não – riu Julie, deixando que Ashton passasse o braço ao redor da sua cintura.

Não era desconfortável, então por que não? Era até bom; o friozinho na barriga era confortável, os arrepios no pescoço quando ele descansou a bochecha no seu ombro, respirando tão perto que Julie ficou arrepiada, era... quente. Não quente do tipo “Uou, que tentação!”, mas um quente que a deixava confortável para estar naquela posição apesar de não gostar de ninguém próximo de sua nuca; um quente que parecia ser o tipo de quente que ela imaginava que era ao ficar perto de uma lareira; um quente que ela gostava.

—Está tarde – riu Julie novamente, passando as páginas rapidamente para encontrar a parte que gostava enquanto se aninhava a Ashton. – Adivinhe? Não durmo desde ontem! E estou com tanto sono!

—Adivinhe? Não mais do que eu – suspirou ele. – Cadê minha mãe?

—Minha sogra? – brincou Julie. Assim que tinha chegado, Anne já foi revelando seu desejo de ser chamada de sogrinha, e quem era ela para negar isso?! – Minha sogra e seu cunhado foram às compras.

—M-meu cunhado? – gaguejou Ash, surpreso. Ah... – Qual deles?

—Ele está aprendendo! – parabenizou Julie, cansada demais para oferecer algo além de um meio sorriso. – Luke.

—Espere. – Ashton prendeu a respiração, percebendo o que acontecia. – Você está dizendo que eles foram ao mercado?

—Sim, por quê?

Ashton gemeu, apertando a bochecha contra o ombro ossudo de Julie – tudo nela era angular. Julie tinha todos os ossos apontando; indo para a direção errada, como se eles estivessem permanentemente quebrados. E todos eles eram perceptíveis com uma olhada detalhada; costelas, escápula, osso do punho e dedos eram os que mais se destacavam – Julie seria um ótimo modelo vivo para aulas de anatomia e uma parte de Ash estaria preocupado que Julie tivesse algum distúrbio alimentar se ela não começasse tanto. E ele prestava tanto atenção a Julie, tantas pessoas prestavam tanta atenção em Julie, que seria difícil isso passar despercebido. Mas era bom ter certeza.

—Você sabe que é linda, não é?

—Você está doente? – se preocupou Julie, colocando a testa contra a dele. Por experiência própria, Julie sabia que aquela era uma ótima maneira de medir febre.

—E que ninguém precisa lhe dizer o contrário? – continuou Ash. – Ou o mesmo? Você não precisa da opinião de ninguém.

—Você está me preocupando – murmurou ela, franzido a testa e mordendo os lábios.

—Só tendo certeza – disse Ashton, beijando-a levemente para fazê-la se esquecer. Mas, quando ele se afastou, a testa dela ainda estava franzida de forma desconfiada. – Qual é, Julie? – Ash apertou o polegar naquela dobra. – Você vai ficar cheia de ruga antes do tempo, embora eu ache que ainda vai continuar linda...

—Você acha? Porque eu pensei que só minha opinião importasse – disse ela, sarcástica.

—Não importa. – Ash deu de ombros. – Eu te...

—Vamos parar por ai, por favor. – pediu Julie, pousando um dedo sobre os lábios quentes de Ashton. – Já me sinto bastante ofendida. Então o que você queria dizer sobre...

—Porque eu não posso dizer? Eu tenho sentimentos também, certo? Eu não posso demonstrá-los só porque sou um menino?

—Claro, garotinho, claro – disse Julie, revirando os olhos. Não dormir deixava as pessoas dramáticas. – Porque pelo visto eu sou o tipo de pessoa que vai te dizer que te ama só porque sou uma menina. Eu entendo que você se empolgou ontem...

—Eu não...

—Você se empolgou – repetiu Julie devagar para não deixar dúvidas. – Você entrou no personagem e apenas... disse. Eu entendo.

—Então é para eu não dizer nunca?

—Eu não disse isso. Eu não vou namorar alguém que nunca vai dizer que me ama de um modo romântico, eu não estou passando o tempo com você porque não tenho o que fazer. Eu tenho muito o que fazer – ressaltou Julie. – Mas eu não quero que isso seja algo que sai sem reflexão, no calor do momento.

E Julie não queria ouvir essas palavras assim, desse jeito. Era muito cedo, muito recente. Eles nem tinham começado a namorar realmente e dizer aquilo só iria colocar uma certa pressão entre eles – só iria doer mais se desse errado, disse a pequena parte negativa que Julie conseguia ignorar quase sempre; hoje, ela conseguiu sem ouvida. Julie estava ficando mole.

—Entende o que eu quero dizer? – questionou Julie, calmamente. Ela estava ficando mole, porque foi só ver a frustração de Ashton que Julie sentiu-se amolecendo. Como ela tinha ficado tão influenciável assim?

Ashton entendia Julie, ele entendeu o ponto dela, contudo ainda se sentiu rangendo os dentes, porque pelo visto ele não podia dizer que a amava só porque Julie achava que era da boca da fora. Ash podia não ser tão inteligente quanto Julie, mas ele com certeza podia dizer o que era os seus sentimentos, se eles eram ou não reais sem a opinião dela.

—Anne Irwin é um desastre – disse Ash, guardando o assunto para mais tarde. – Ela sai comprando tudo que ver.

—Não se preocupe – disse Julie, dando tapinhas reconfortantes na cabeça dele. – Luke é do tipo que não compra um chiclete se não for necessário.

—Aposto que mamãe vai comprar o supermercado inteiro.

—Aposto que Luke não vai nem perceber.

—Você não acabou de dizer...

—O que? Luke é um Hemmings, é claro que ele é distraído – murmurou Julie, encostando sua cabeça na dele aliviada por ele não ter alongado o assunto. Uou, pensou ela, sentindo-se um gatinho ao esfregar a bochecha nos cabelos de Ash, mas era tão fofinho, tão macio. – Quer que eu leia para você? Eu costumo ler para o Luke quando ele não consegue dormir. Papai sempre dizia que eu tenho uma voz hipnótica.

—Hum, sei... Deve ser por isso que eu desejo pular de um prédio sempre que te ouço cantar.

—Seus ouvidos apenas não conseguem assimilar a frequência que eu canto. A culpa não é minha.

—Claro que não – sorriu Ash. – Mas não era indecente? Você está lendo indecências para mim?

—Não é indecência – defendeu-se Julie. – É um livro infanto-juvenil. Como um livro infanto-juvenil vai ter indecências? É um livro infanto-juvenil de fantasia – continuou ela. – Livros infanto-juvenis não têm indecência. Eu não lenho indecência. Eu não...

—Para alguém que não fez algo você está se explicando de mais – observou Ashton. – Não é você quem diz que só quem é culpado tenta se explicar?

—Você me ouve? – questionou Julie, surpresa. Ela tinha certeza que tudo que dizia entrava por um ouvido e saia pelo outro.

—É claro que eu te ouço. Nem tudo entra por um ouvido e sai pelo outro, às vezes você fala algumas coisas interessantes. – (Estava explicado, pensou Julie.) – Vai ler ou não? Pensei que sua voz fosse hipnótica.

—Hum-hum – tossiu Julie, limpando a garganta. – Espere, você quer que eu comece pelo começo ou pela metade? Pelo começo do livro ou o começo de tudo? – especificou Julie. – Porque a ordem cronológica daqui é meio bagunçada, não é para cabeças fracas.

—Começa pela parte que você mais gosta – sugeriu Ashton, guardando para si o comentário mordaz de que a cabeça de Julie era mais fraca do que a dele.

—Hum-hum – tossiu Julie novamente, percebendo que o seu dedo marcava sua parte favorita. Que também era o primeiro capitulo. – “Você. A palavra pairou no ar. Ninguém disse nada, não era necessário dizer mais nada. Uma única palavra causou todo aquele silêncio, mas aquela palavra não significava apenas o que parecia. Era muitas coisas, outras palavras e sentimentos não ditos. Em apenas uma única palavra. Aquela palavra mudou tudo, mudaria tudo. Tudo e nada estavam presentes naquela única palavra. Eles não entenderam o que aquilo significava para o mundo, apenas para ambos, focados demais neles mesmos. Muitas coisas poderiam acontecer. E aconteceriam. Eles podiam esquecer, ignorar ou continuar. Aquela decisão mudaria tudo. E todos. Ela seria definitiva. Os sentimentos deles eram complexos e contraditórios, contudo ele avançou. O ar soprou, o fogo apagou,a terra tremeu, a água ondulou. Varias coisas aconteceram. O gelo quebrou. E eles caíram.”

Depois de pouquíssimo tempo prestando atenção na narração de Julie, Ashton percebeu que aquilo que ela lia não era, na verdade, para cabeças sãs, porque era... Era o tipo de coisa doida que Julie gostava. E se Julie gostava algo estava errado. Mas ela estava certa quanto a sua voz ser hipnótica – ou talvez Andrew estivesse, porque havia um certo ritmo, uma cadência sonora, que relaxava. Ou talvez fosse o fato de que Julie estava ao seu lado, de que eles estavam sozinhos e que ele sentia-se confortável.

A questão era que Ashton sentiu-se adormecendo, puxando sua amada namorada que não queria ser amada para si, respirando e inspirando, respirando e inspirando, não pensando sobre Julie não querer ser amada por ele (ainda), não se concentrando nas palavras que ela falava, na historia que ela contava, mas... Apenas ouvindo-a. Não para as palavras fazerem sentido, mas para que a voz de Julie o embalasse e ele dormisse.

Eles dormissem. Julie deixou de lado o fato de que lia para Luke quando ela também não conseguia dormir; ambas deveriam estar com sono para que a mágica funcionasse. E aparentemente a mágica não era uma coisa de gêmeos, porque Julie sentiu-se adormecendo quando Ash a puxou para os braços dele.

—Você está vendo isso? – Julie ouviu o sussurro de sua sogra muito longe para que conseguisse alcançar.

—Eu preferiria que não – retrucou seu irmão. – O que você está fazendo?

—Tirando uma foto, é obvio – disse Anne.

—E agora?

—Enviando para Liz.

—Mamãe? – Luke não era o único surpreso.

—Uhh – murmurou Anne. – Uhh. Sua mãe é uma estraga prazeres, ela mandou...

—Acordá-los? – sugeriu Luke, esperançoso.

—Você não conhece sua mãe. Ela mandou...

—Pegar um cobertor – completou Luke, desanimado.

—Você conhece sua mãe – comprovou Anne, tirando outra foto.

—Mas eles precisam estar tão juntos assim? – reclamou Luke. – E pare de tirar foto!

—Por quê? – Outra foto. – Eu tenho que guardar para a posterioridade.

Por um momento, Julie manteve os olhos fechados, avaliando a situação e o tamanho de seu calor. Ela estava quente, quente, quente; três vezes quente; quente ao cubo; quente de um modo que não podia nem imaginar ser possível se não estivesse com hipertermia. Quente por estar confortável com Ashton, quente por ter algo sobre si que a aquecia demais (ela era uma pessoa constantemente gelada que estava constantemente quente), quente por...

—Eu sei que você está acordada – sussurrou Ashton contra o seu ouvido.

Julie revirou os olhos. Sim, ela sabia que ele sabia que ela estava acordada. Não era como se ela soubesse fingir que dormia; ela nunca conseguia, sempre era pega. Julie apenas avaliava a situação: ela, Ashton, sozinhos... Ou talvez não tão sozinhos assim, porque seu olfato avaliava se o que estava no fogo era bolo, sua audição se concentrava na batedeira e no liquidificar ligado, e o resto dos seus sentidos se focava em Ashton.

Os olhos azuis de Julie viram os olhos castanhos dele sonolentos, refletindo a si mesma e algo... algo quente que a aqueceu ainda mais; suas mãos como se dominadas por algo deslizou-a entre os cabelos de Ash, sentindo e sorrindo com a sensação; e seus lábios se voltaram contra os dele.

Julie sempre achou um exagero expressões de último biscoito do pacote e afins (não era eles que viam quebrados então para que tanto alvoroço?), mas às vezes podia ser que elas fizessem sentido. Elas faziam sentido, porque Julie sentiu o significado. Ashton a beijava como se ela fosse o último biscoito do pacote (deveria ser realmente sortudo para conseguir pegá-lo sem quebrar); como se ele fosse a ultima coca cola do deserto (Julie preferia soda) e ela o seu refrigerador, seu oásis particular; como se eles estivessem sem fôlego e lutassem para ver quem ficaria com o último oxigênio da terra... O último não fazia sentido, percebeu Julie, mas ela estava muito ocupada perdendo seu fôlego para se importar.

—Oi – respirou Julie, ofegante, quando Ash se afastou. Quando ela tinha ficado por baixo?

—Oi – murmurou Ashton de volta contra os seus lábios, mas ele não a beijou.

Deslizando os lábios pela pele de Julie, Ash sentiu o gosto do sabonete, do hidratante, do perfume, e nem um deles era de morango, um gosto doce ou enjoativo, era mais... de mato, algo amargo. Se ele fosse dar uma cor seria verde, pensou Ashton, ao seguir a linha do queixo dela distraído, descendo pelo pescoço com o nariz.

—Ashton.

O nome saiu como um suspiro e gemido, mas principalmente como um pedido. Julie queria que ele se afastasse dela, porque ela achava difícil fazer isso; ser aquela que tomaria a iniciativa de se afastar, não quando ela mesma não queria que eles se afastassem.

—Não – negou Ash, sabendo o que ela pensava e grudando-se ainda mais em Julie. – Eu ainda não beijei aqui – disse ele, beijando sua têmpora. – Ou mordi o suficiente – murmurou ele, mordendo a orelha dela, e completou: – Ou chupei.

Os lábios de Ashton pousaram no pescoço de Julie, bem no ponto que sabia que nenhuma roupa dela cobriria – embora todas as blusas de Julie não conseguissem nem ficar sobre os ombros sem cair – e deixou uma marca.

A dor, a sensação, o prazer, foi suficiente para fazer com que Julie caísse na real e percebesse que aquilo já estava indo longe demais mais – embora uma pequena parte dela acreditasse que aquilo estava muito pouco. Cadê a personalidade cafajeste de Ashton que ela tanta via em ação com outras? Sim, eles estavam namorando e não se pegando; sim, Ashton respeitava-a e não fazia nada que ela não quisesse; sim, aquilo não era hora nem local para estarem deitados no chão se beijando... Sua sogrinha parecia achar o mesmo, olhando-a mais com diversão e constrangimento do que desaprovação.

—Será que estou atrapalhando? – questionou Anne, colocando as mãos no quadril e levantando a sobrancelha.

—Ops – disse Ashton, encarando sua namorada, mas não se afastando.

—Ops – concordou ela num sussurro. – Vai querer fugir? Posso reconsiderar e te dar um passe para você me levar para sair hoje.

—É meu aniversário, por que eu preciso de um passe? Você não é toda minha hoje?

—Sem chance.

—Ei, sogra da Julie – disse Ash, escolhendo enfrentar a mãe com raiva.

—Nem me venha com essa história de sogra – repreendeu Anne, mas ela começava a sorrir, amolecendo. – É sogrinha.

—Hum-hum – tossiu Julie. – Não vai dizer nada sobre... A situação?

—Vocês deveriam fazer isso no quarto – opinou Anne. – E de preferência longe de Luke.

—Vamos, querida? – provocou Ashton, estendendo a mão para sua namorada, que se recusou a pegá-la.

—Não sou sua querida – anunciou Julie, levantando-se sem ajuda. – Vai querer ajuda, Anne?

—Sogrinha – corrigiu a própria. – E – sorriu ela – tudo já está pronto.

—O que? – espantou-se Julie. – Sério?

—Que horas são? – questionou Ashton.

—Já são oito horas – disse Anne. – Eu iria acordar vocês, porque já tudo já está pronto. Fiz todos os pratos que você gosta.

—Até lasanha? – comemorou Ash.

—Ahn? – Anne virou-se para ele. – Do que você está falando? Porque eu estou falando com ela.

—Eu – concordou Julie. – Até pizza?

—Até pizza – assentiu Anne. – Embora Liz tenha dito que é para não mimá-la.

—Mas você a ignorou – aprovou Julie.

—É claro. Tenho que mimar minha nora preferida.

—E única.

—E única – repetiu Anne de acordo. – Vá se sentar, eu e Ash vamos pegar os pratos.

—Você se lembra que o aniversário é meu, certo? – murmurou Ashton para sua mãe quando eles estavam sozinhos, mas ela o ignorou.

—E única, ouviu, Ash? Não...

—Estrague tudo – completou seu filho também sussurrando para não ser ouvido.

—Também. Mas não a deixe estragar tudo.

—Amor? – chamou Ashton. Julie o ignorou. – Amor, você pode passar o sal?
—Tome, Ash – disse Calum, entregando o saleiro.

Tomando-o da mão dele, Ashton colocou ao lado do outro saleiro. Ele já tinha um ketchup, uma maionese, um paliteiro e dois saleiros agora, não existia mais nada para pedir que Julie passasse. Ash já tinha tentado diversos apelidos carinhosos – amor (Luke revirou os olhos), coração (foi a vez de Calum), pequena (Demi teve um ataque de risos enquanto bebia refrigerante e Michael começou a bater em suas costas, enquanto Melanie, a irmãzinha dele, perguntava se ela iria morrer) e... Quando Ashton não tinha mais ideia do que dizer e abriu a boca para falar, sua própria sogra fingiu vomitar, adiantando que aquilo seria péssimo:

—Pequena borboleta?

—Você não está autorizado a me chamar assim – reagiu Julie, virando-se para ele. – Pequena borboleta é para... para... qualquer um menos você, entendeu? Sem pequena borboleta para você!

—Qual é, borboleta?

—E sem variações de pequena borboleta para você também!

—Qual é...

—Hora do bolo! – anunciou Anne, surgindo com um delicioso bolo e o colocando na frente de Ashton.

—Lugar errado, mãe, esse bolo é para ela – apontou ele.

—Você é o aniversariante, Ashton – zombou Anne. – E o primeiro pedaço vai para?

Ashton olhou ao redor da mesa, para os diversos rostos que nem tinham tido coragem de parabenizá-lo ou que o encaravam agora, e chegou a uma decisão.

—Para minha querida e amada... – disse ele, esperando uma reação que nunca chegou. – Sogra.

—Alguém está dando em cima de mim, Julie – disse Liz, aceitando o prato. – Você não acha, Michael?

—Alguém que não sou eu, não é, Luke? – perguntou Mike.

Luke revirou os olhos, voltando a conversar com Julie e Calum que estavam cada um ao seu lado. E mais uma vez ignorado, pensou Ash, cutucando os morangos de seu prato. Julie não queria apelidos; Ashton queria dar um a ela, porque agora ele tinha uma desculpa para fazer isso... Qual ele daria que Julie não conseguiria recusar? Ah...

—Minha rainha?

—O que? – piscou Julie, não percebendo a diferença no seu nome. Rainha era tanto o seu nome quanto Julie, era uma segunda natureza responder ao ser chamada assim, mas mesmo assim Ashton se surpreendeu.

—Nada.

—Me deixe em paz – murmurou ela. – E não, Calum.

O que eles tanto conversavam afinal? Durante todo o jantar eles estavam concentrados, ouvindo enquanto comiam e falando enquanto os outros comiam, revezando e não deixando a conversa morrer.

—Você tem que dizer, Julie! – exaltou-se Calum.

—Eu não acho que ela tem – discordou Luke.

—Exato – concordou Julie.

—Está vendo? – apontou Calum. – Se você e Luke estão concordando então vocês estão errado, e se eu estou discordando, então estou certo.

—Você sempre está certo – murmurou Luke.

—Não é? – concordou Julie.

—Então quando você vai...

—Eu não sei. – Ela deu de ombros. – Só não hoje que é o aniversário dele.

—Vocês estão falando de mim? – interrompeu Ashton. – O que você tem que me dizer, Julie?

—Hora dos presentes! – disse Liz, atrapalhando mais uma discussão, sentindo-se em casa para tal.

Era um complô, Ashton tinha certeza. Todos sabiam o que Julie não queria dizer a ele e ninguém queria dizer a ele. Ash sempre podia seduzir sua sogra caso sua namorada se negasse a contar todos os detalhes.

—Seu presente – entregou Calum, com cuidado. – Não quebre ao meio num surto de arte mal compreendida.

—Uma... uma paleta? – questionou Ashton ao desembalar. Era uma paleta retangular de uma cor branca, mas não era nem madeira nem plástico e Calum parecia com medo que ele a jogasse no chão; ela era de... – Porcelana? Você é rico? É claro que é – respondeu ele mesmo para si mesmo.

—Julie disse que você queria uma – defendeu-se Calum.

—E você acreditou nela?

—O meu é uma boina para fazer par! – exclamou Luke, jogando para ele a pior boina que Ash já viu, a mais vagabunda, a que seu cunhado nem teve coragem de colocar num papel de presente.

—Vou nem perguntar se você acreditou ou não, está óbvio.

—Pois é – sorriu Luke.

—Novas baquetas, Michael? – questionou Ashton, segurando novas baquetas que também não haviam sido embrulhadas. O que esse povo tinha contra surpresa?

—Não, imagina, eu peguei do lixo – disse Mike, revirando os olhos. – Quem é doido de acreditar na Julie?

—Ei – reclamou Calum.

—Obrigada pelo papel de presente, Demi – aceitou Ashton, enquanto ela a olhava com uma cara do tipo “você queria o papel de presente como presente?”. Como uma pessoa tão literal era amiga de Julie?

—É melhor você não abrir – disse ela, balançando a cabeça para limpar a cabeça. – Julie disse que você precisava de pinceis novos.

—S-Sério? Obrigado! Você até que não é uma má amiga, Julie – disse Ashton, olhando para sua má e depressiva namorada, que achava que ele estava muito do lado escuro. Paleta, boina, pinceis, isso era uma indireta para que ele usasse cores?

—Apenas uma má irmã – murmurou Calum.

—O meu são tintas aquarelas – disse Liz. (É, pensou Ashton, essa era uma indireta bem direta, não seria sua namorada a perder tempo com sutileza.)– E não foi a Julie, foi a Anne.

—Obrigada – agradeceu ele, olhando de canto de olhos para sua namorada. Por que ela estava tão quieta?

—O que você mais queria? – questionou sua mãe, balançando um par de chaves . – Além da Julie – completou ela rapidamente.

—Hum... – Ash a encarou, piscando os olhos inocentes. – Não faço a mínima ideia.

—Um carro! Eba! Agora que você já tem idade para ter carteira, vai poder pegar o carro.

—É... – comemorou Ashton, levantando a mão num falso “eba”. Ele já pegava o carro, aquilo não iria fazer diferença. – E você, Julie? Qual o segredo?

—Ash? – disse sua mãe, hesitante. – Hum... Tem mais um presente.

—Vai me dar dois presentes? Só por que estou namorando sua única nora?

—Não é meu, seu... – Os dedos de Anne apertaram o papel que segurava. – O homem que doou metade do seu DNA, ele mandou esse cartão postal.

—O homem... meu... – Ashton estava sem palavras ou controle sobre os seus membros, porque ele não sentiu pegando o papel, mas agora o olhava. – Eu não o conheço.

Notas finais
A parte do livro que Julie ler é, na verdade, o primeiro capitulo de outra fanfic que desejo escrever. Uma fanfic de fantasia! Será que ela vai sair do desejo e tomar forma na vida real/fictícia? Eu desejo que sim! Depois que eu escrevi é que eu percebi: eu disse que o aniversário de Ash era dia 28 de maio, não? Ops, acontece.