Isso não é...
2 Isso não é uma queda.
Notas iniciais
I'm stuck on the ground
So why do I try?
I know I'm gonna fall down
(Estou cravado no chão
Então, por que eu tento?
Eu sei que vou cair)
2-Isso não é uma queda. (Imagina, você apenas se jogou no chão.)
Quinta-feira, 21 de abril
Ashton realmente acreditava que Julie não fugiria dele, mas aquilo era uma mentira. Uma pura e límpida mentira. Se uma mentira pudesse ser limpa como água, aquela seria. Os dois se conheciam, eram amigos e, justamente por isso, Ashton deveria saber que se Julie quisesse – e ele não fazia ideia da opinião dela quanto a isso – ela encontraria uma forma de evitá-lo. Porque, de algum jeito, de alguma forma, Julie conseguiu evitá-lo durante as duas ultimas aulas e a ultima eles faziam juntos. E ela não faltou.
Julie chegou atrasada, ate então nenhuma surpresa, entretanto em vez de sentar ao lado de Ashton, eles eram parceiros em Arte, ela se sentou numa das primeiras cadeiras. Talvez não parecesse grande coisa para quem não a conhecia, contudo Julie era péssima naquela matéria, qualquer um que visse seus trabalhos perceberia isso, mas continuaria duvidando. Julie, a garota prodígio, ruim em algo? Como Ash e ela eram da mesma turma, eles tinham acertados um esquema para ela não ser reprovada na matéria, ficava difícil dizer quem saia ganhando nele. A parte de Ashton no acordo também não era nada mau.
Entretanto conhecer Julie não fez com que Ashton pudesse encontrá-la. Ela o evitou na escola e não foi só isso, quando foi em sua casa, ela não estava. E nunca Julie não estava em casa. Hemmings era uma preguiçosa, sair de casa no começo da semana não era com ela. Nem em qualquer outro dia a menos que comida estivesse envolvida. Eles não se encontraram em sua casa, na entrada da escola, nos corredores e nem no intervalo da terça, quarta ou quinta. Agora, Julie estava na sua frente. Na ultima aula de química. Na quinta. E ela não fugiria.
Ashton passou a aula todinha encarando-a, mas Julie não parecia incomodada, não mais do que estava na aula de Arte, e, quando o sinal tocou, ela conseguiu escapar mais uma vez. Ele estava olhando fixamente para ela e Julie desaparece?! Aquela garota realmente queria se livrar dele, percebeu Ashton, não que todos aqueles desencontros puramente ocasionais não houvessem ajudado a criar esse pensamento.
—Ash – ronronou Jackie, parando na sua frente e apoiando a mão aberta em seu peito. Suas unhas vermelhas combinavam com seu batom e arranhavam sua camisa, como um gato. Seu sutiã era da mesma cor, rendando e sexy. Ashton teve que se forçar a desviar os olhos. Se forçar muito. – O que acha de irmos...?
—Não vai dar – interrompeu Ashton, indicando onde Julie devia está e não estava. Ela andava rápido e já descia a escada. – Minha carona está indo embora, tenho que correr se não ela vai me deixar.
Não restava duvidas a Ashton que Julie o deixaria se tivesse a chance, mas essa probabilidade não existia. Ela não tinha carro. Ele correu para alcançá-la, desviando-se dos poucos alunos nos corredores e gritou seu nome ao chegar ao começo da escada. Ash ate que poderia acreditar que ela não o ouviu – a audição dela era péssima – se Julie não tivesse aumentado o passo. E, como desastrada que era, Julie mais uma vez não o surpreendeu ao escorregar no ar e sair rolando o resto da escada.
Ai, pensou Ashton. Ele acharia triste se não fosse engraçado.
Deitada numa posição estranha aos pés da escada, Julie tinhas muitas questões e infelizmente ela também possuía todas as respostas. Ela se perguntava “o que mais me dói depois de rolar pela escada?”, a resposta era “meu orgulho”; outra era “sabe o quão patético é conseguir realizar essa proeza? De um a mil? Incrivelmente patético”. O pior não era isso, mesmo que essas questões estivessem martelando na sua cabeça, tentando sair. O pior era sentir todos os seus ossos do seu corpo dolorido. Ate o seu dedo mindinho. Principalmente o seu dedo mindinho.
—Você está bem?
Ash não parecia preocupado, mas lhe ofereceu ajuda sorrindo. Julie não entendia a graça. Ela rolava de uma escada e ele sorri?
Dando um tapa na mão que se estendia na sua direção, Julie tentou se levantar sozinha. Tentou. Ao tocar o pé no chão, uma forte dor emanou do seu tornozelo e ela cairia se Ashton não tivesse bons reflexos. Por mais que doesse dizer isso, pensar também era muito ruim, Julie tinha que admitir que Ashton era um bom baterista e bons bateristas tem reflexos muito bons. Antes que sua bunda tocasse no chão, ele segurou seu braço, impedindo-a de cair. Julie preferiria se esborrachar no chão de novo a receber sua ajuda.
—Solte-me – ordenou ela.
Desvencilhando-se dele, Julie tentou de novo, colocando devagar o pé direto, o pé bom, no chão. Cada vez que o pé tocava no chão, ela rangia os dentes, mas um gemido ou outro continuava saindo da sua boca. Seu consolo era não está chorando, contudo ela estava tentada a sair pulando com um pé só. Julie deu apenas dois grandes e dolorosos passos antes que Ash fizesse algo, mas mesmo assim ela recusou-se a aceitar sua ajuda. Ela se sentia tentada a se jogar no chão como uma garota mimada.
—Pare de ser contorcer – repreendeu Ashton.
Seu braço circundava a cintura dela, segurando boa parte do seu peso. Ajudando-a. Contudo Julie não queria sua ajuda. Ela preferiria ser atropelada por um carro, todavia ela sabia que acidentes só acontecem nas horas erradas. Aquela era uma hora errada, o que a tornava certa para um acidente, o que significava que não teria atropelamento por carro, moto ou qualquer outro veículo. Por Deus, eles estavam dentro de uma escola!
—Eu não quero... – começou Julie.
E ele a soltou.
Crianças mimadas ganham o que querem na hora que querem e Julie parecia uma delas, sem duvida, entretanto mesmo assim ela ficou um pouco surpresa quando foi solta tão rápida. Julie queria uma briga, mas ela não precisou nem brigar... E a alegria acabou antes que Julie pudesse se arrepender de não pedir ajuda. Ainda bem. Ou não, já que Ashton levantou-a no bom e velho estilo de noiva.
—O que você está fazendo?
Julie diria que contornou contra sua vontade os braços ao redor do pescoço dele se não cairia. Apenas por isso... Bem, em parte, pois se ela realmente quisesse levar em frente seu desejo de dizer a verdade, somente a verdade, Julie teria que admitir que meio que estava gostando da viagem. Está daquele jeito dava-lhe uma sensação de comando, como se ela fosse da realeza. Talvez Julie tivesse alguma parte nobre no seu sangue. Talvez não.
—Estou te levando para a enfermaria – respondeu Ashton.
—Por quê?
—Você quebrou o tornozelo.
—Eu torci o tornozelo – corrigiu ela.
—Você quebrou.
Julie não olhou para Ashton, mas ela podia apostar sua coleção de figurinhas de Pokémon que ele a olhava como se dissesse “eu te disse”. Ashton realmente a olhava assim. Não era preciso ser um gênio para saber disso, qualquer pessoa agiria assim em uma situação dessas, ate as melhores pessoas. E Ashton não era uma boa pessoa, embora, comparado a Julie, ele fosse, o que era uma surpresa.
—Eu não quebrei – desmentiu Julie a enfermeira.
—Você quebrou.
—Eu não...
A pressão que a enfermeira fez foi o suficiente para fazê-la calar a boca. Se o seu tornozelo não estivesse quebrado, Julie tinha o sentimento que Karla o quebraria para mostrar que estava certa, esse fato fez com que Karla ganhasse o respeito de sua paciente. Julie respeitava pessoas decididas, e um pouco rudes também.
—Ótimo – concordou ela, dando um tapa de leve em cima do inchaço que fez Julie se retrair. – Você não pode colocar o pé no chão e acho melhor ir ao hospital engessar.
—Isso está feio – comentou um aluno do primeiro ano.
O primeiro anista esperava a enfermeira Karla terminar de olhar o pé de Julie para poder levá-la ate onde encontrava-se alguém que caiu... Ou se machucou? Não importava, Julie chegou primeiro e tinha prioridade. Ela encarou o menino ferozmente, Ashton também. Com medo, ele recuou um passo. Ambos mereciam um premio por assustar meninos fracos e ingênuos.
Julie sabia que não tinha exatamente uma boa fama e Ashton não era minúsculo, não em comparação ao magrelo. Não que Julie pudesse falar da magreza do garoto, Julie era mais. Ela sempre era. Os dois juntos eram uma combinação perigosa e assustadora. A grande duvida de Julie no momento era se aquilo podia ou não ser bullying mesmo que acontecesse só na sua cabeça.
Oh, não, lamentou-se ela, estou me transformando no que mais temia. Preconceituosa e valentona.
—Não assustem ele – repreendeu Karla, guiando-o para longe daqueles dois. Ela já via a hora deles atacá-lo a qualquer momento como um bando de animais selvagens.
—Mas é verdade – comentou Ash, olhando o tornozelo de Julie ao estarem a sós. – Isso está feio.
Julie tinha que concordar com ele. Seu tornozelo estava... Inchado, óbvio. Parecia que uma bola de golfe tinha sido colocada ali dentro e havia uma mistura de roxo, vermelho e amarelo. Tudo era impressionante de um jeito traumatizante, igual a um acidente de carro. Ela mexeu os dedos do pé lentamente, com cuidado para não realizar nenhum movimento brusco, mas mesmo assim eles doeram.
—Como você vai para casa?
—Eu vou para casa? – retrucou Julie, olhando com fascínio e horror para seu pé.
Aquela era uma boa pergunta. A mãe de Julie, Liz, estava viajando a trabalho; Luke, seu irmão, estava com raiva dela desde que ela havia beijado o idiota da sua frente. Hoje de manha, ele tinha passado a faca no café como se quisesse matá-la com ela... – Não a faca no café, ai era uma colher, ele passou uma faca durante o café. O café da manha. Embora também pudesse passar uma faca no café, o importante é que mexa tudo direito. – Julie olhou para o idiota, culpando-o pelo fato de não ter uma carona. Nada mais justo que Ashton arrumasse um jeito de levá-la para casa e Julie até já possuía uma ideia brilhante, só precisava que ele a colocasse em pratica.
—O que foi?
Ashton sentiu um forte desejo de dá um passo para trás ao olhá-la, contudo se controlou. Julie era que nem um cachorro: se farejasse medo, atacava.
—O quê? – replicou ela, piscando os olhos da forma mais inocente que sabia. – Eu não fiz nada.
—Espero que continue assim... – murmurou Ash, inutilmente.
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