Isso não é...

3 Isso não é uma desculpa.


Notas iniciais
Hello, Hello. Sorry de Justin Bieber - https://www.youtube.com/watch?v=fRh_vgS2dFE

You gotta go and get angry at all of my honesty

You know I try, but I don't do too well with apologies

(Você tem ir e ficar bravo por toda minha honestidade

Você sabe que eu tento, mas eu não sou boa com desculpas)

3-Isso não é uma desculpa. (Alias, você sabe como se pede?)

Quinta-feira, 21 de abril

—Você pesa – declarou Ashton.

—Nunca diga a uma garota que ela pesa – repreendeu Julie, batendo na sua cabeça. – E eu não peso.

Julie era puro ossos, ela sabia disso, então como pesava? Ela costumava contar a todos que era uma fada e, por isso, era tão leve. Os pássaros têm ossos ocos. Ela tinha até licença poética para acrescentar que fadas não eram seres pequenos, apesar de ninguém nunca acreditar.

Sobre as costas de Ashton, Julie tinha a bochecha encostada em seu ombro e não parava quieta, remexendo-se para encontrar uma posição confortável para dormir. Ela estava cansada. Ao respirar, Julie percebeu que Ashton usava o mesmo perfume gostoso desde que o conhecia e ele, o cheiro, era praticamente da família.

—Não, você não pesa. Só não é uma pluma – disse Ashton, dando uma pausa. Julie não gostou dessa pausa nem do que viria depois, ela nunca gostava. – Você estava me evitando.

Não era uma pergunta. Uma afirmação. As piores são. A certeza de algo é pior que as duvidas. E tinha que ser cego para não perceber que Julie realmente estava evitando-o.

—Não – negou ela por força do hábito. – Só estava prolongando o momento.

Julie estava enrolando, ela sabia disso e se considerava uma boa enroladora. Ela acreditava que se focasse mais no que estava fazendo e não no porque fazia, Ashton se esqueceria da pergunta principal. Ela podia deixá-lo confuso o bastante para que isso acontecesse.

—Isso é uma desculpa.

—Não – replicou Julie, piscando os olhos e bocejando, abafando-o na camisa de Ash. Um pouco de baba pode ter ficado nela. – Apenas pessoas envergonhadas criam desculpas e... e-eu... não estou envergonhada – murmurou ela, adormecendo por causa do remédio.

Ao menos era isso que Julie dizia a si mesma, que estava dopada pelo remédio e não cansada ou confortável. Talvez só um pouco, não ter que evitar mais Ashton a deixava despreocupada e mais leve; leve o suficiente para dormir nas costas de alguém.

—Julie? – chamou Ashton, percebendo que ela estava muito quieta.

Dando tudo que tinha acontecido, Ashton ficou por um momento dividido entre ela está realmente dormindo ou apenas fingindo para não ter aquela conversa. Julie já tinha feito antes mais do que isso, fingir dormir era o de menos. Contudo ela estava muito quieta para um fingimento e ele não confiava em si para balançá-la – era capaz dos dois caírem e se esborracharem no asfalto. A conversa deles teria que ficar para outra hora, Ashton ainda tinha um pouco de determinação e curiosidade para saber o motivo de Julie tê-lo beijado. Mas ele já estava ficando cansado de todas essas enrolações e desculpas que Julie insista em contar.

Luke esqueceu que estava com raiva de Julie assim que a viu, mas continuou querendo matar Ashton. Se antes era por ter deflorado sua irmã, – mesmo que isso não houvesse acontecido – agora o motivo era por ele ter machucado sua irmãzinha. Contudo Julie era mais importante, logo Luke se esqueceu de Ashton temporariamente, deixando-o na porta. Ele não teve sua entrada barrada, mas também não foi convidado a entrar, se quisesse entrar que entrasse Luke não fazia questão da companhia de Ashton, toda sua atenção concentrava-se em Julie. Assim que abriu a porta de casa e viu sua irmãzinha nos braços daquele canalha e com o tornozelo aquarela, Luke retirou-a dos braços dele e a levou ate o sofá.

Ainda meio grogue, Julie acordou quando ele colocava muitas almofadas sob o seu pé e ou viu a andar de um lado para o outro preocupado, não antes de ligar no canal que ela queria, oferecer uma barra de chocolate e tentar convencê-la a ir ao hospital. Sem parar um minuto se quer para respirar.

Como não conseguiu fazer Julie mudar de ideia, Luke não viu outra alternativa se não ligar para sua mãe. Ashton teve que segurar Julie enquanto ele fazia a ligação, pois ela queria pular em cima dele mesmo com o tornozelo machucado, esquecendo-se rapidamente do sono. Liz quando soube o que aconteceu com Julie queria vir para casa no mesmo instante, entretanto Luke disse que não era nada serio e a convenceu a esperar até o final da palestra, prometendo que, se fosse algo mais serio do que parecia, iria chamá-la imediatamente. E Liz obrigou Julie a ir.

Ashton foi arrastado para o hospital, embora ele próprio não soubesse o por quê. Quem sabe Luke e Julie achassem que haveria poucas pessoas sofrendo de tédio, pois nenhum dos dois parecia querê-lo ali. E ele não fazia nada ali. Ashton queria ir para casa, mas estava olhando para o teto, contando as rachaduras presentes.

—Feliz agora, Luke? – questionou Julie.

Fazia mais de uma hora que eles estavam ali e Julie encarava seu irmão como se quisesse passar a faca nele com o propósito que ela havia sido feita. Cortar. Machucar. Sangue seria um bônus.

—Eu não aguento mais isso – choramingou Luke, batendo a cabeça na parede, torturando-se.

—Pare de reclamar – reclamou Ashton. – Eu também não queria estar aqui, mas estou.

—Eu vou pegar um suco – anunciou Luke de repente, levantando-se. – Vocês querem algo?

—Água – pediu Ashton.

—Morrer – pediu Julie, categórica.

—Está indisponível no momento – falou Luke, olhando para o cardápio imaginário. – Chá para você.

—Eu não gosto de chá, – disse ela, franzindo a testa – você sabe.

—É o mais próximo de uma morte que você terá – explicou Luke, sobre o ombro, indo embora.

Julie decidiu seguir os passos de Ashton e começou a olhar para as rachaduras, contando-as enquanto esperava sua bebida mortal. Embora ela quisesse apenas fechar os olhos e dormir, Julie não conseguiu, ela sentia-se desconfortável por está sendo encarada por Ashton tão abertamente. Julie já havia sido encarada mais vez do que podia contar ou gostar, mas ao menos elas eram encaradas sutis, contudo Ashton não tinha nem a vergonha de disfarçar.

—O que é? – perguntou ela, olhando-o irritada.

—Nada – respondeu ele, sem desviar os olhos.

—Você ainda está me encarando – afirmou Julie. Ashton nem concordou ou negou apenas continuou a olhá-la. – Admita que você está me encarando.

—Não, eu quero prolongar o momento... – repetiu ele suas palavras de antes, prolongando as vogais.

—Que eu te mato? – completou Julie, sorrindo irônica.

—Você acha que iriam nos atender logo se você me matasse aqui? – perguntou Ashton, laçando um olhar rapidamente para a recepção.

—Provavelmente – respondeu ela, dando de ombros. – Quer tentar?

—Não – disse ele, voltando a encará-la nos olhos. – Quero que você me diga por que estava me evitando.

—Você sabe o porquê.

—Diga.

Mas Julie não disse, ela apenas continuou a encará-lo para não ser a primeira a desviar os olhos. Eles ficaram assim por um minuto ate que ela sentenciou por fim:

—Vamos esquecer o que aconteceu.

—Não... – começou Ash, mas calou a boca ao ver quem se aproximava.

Ele duvidava que Luke fosse querer saber o que eles conversavam, embora se fosse que ter aquela conversa na frente de Luke, seria melhor que fosse ali, no hospital. Ambos já seriam tratados. Ou iriam direto para a funerária.

—Aqui está a sua água – disse Luke, entregando uma garrafa a ele. – Comprei suco em caixinha para você, Julie.

—E eu pensando que iria morrer agora – disse ela, sorrindo ao aceitar o suco. Feliz por não ser chá. Feliz por Ashton não ter coragem de conversar com ela na frente do seu irmão. Feliz por aquela conversa não ter acontecido.

E nem aconteceria, Ashton decidiu esquecê-la, aquilo já estava ficando velho. Por que importava saber a razão de ter sido beijado do nada por sua melhor amiga de uma forma que ele nunca imaginou que ela fosse capaz de fazer? Ou dele de retribuir? Nada, não tinha importância. E aquele assunto já ficava chato, todo esse joguinho. Julie não queria dizer e pronto, ele sabia que não conseguiria arrancar nada dela. E Ashton não queria mais ouvir as desculpas de Julie ou ser evitado. Ou receber olhares de mortes de Luke sempre que ele o via ou revia, como agora.

—Você está quente – informou Luke, tocando os dedos da irmã ao passar o suco. Colocando a mão na sua testa, Luke percebeu que ela não estava apenas quente, Julie pegava fogo.

—Ótimo – disse Ashton, sem conseguir se aguentar de tanta alegria. Ele acreditava que Julie seria atendida mais rápido, já que pessoas febris tem prioridade.

—Ótimo? – rosnou Luke. Ele não conseguia acreditar no que estava ouvido. Ashton achava bom o fato da sua irmã está doente?

—Ótimo – concordou Julie, sabendo por onde os pensamentos de Ashton andavam.

—Ótimo? – repetiu Luke, sem entender mais nada. Ele não entendia nada desde o momento que Julie e Ashton se beijaram. O mundo estava perdido. Suspirando, Luke completou, dando-se por derrotado: – Ótimo.

Mas não estava nada ótimo – demorou mais de uma hora ate que Julie fosse atendida – ou talvez estivesse tudo bem – o tipo de “tudo bem” que significa que nada está bem, mas que está indo – já que Julie não torceu o tornozelo, embora tenha sido obrigada a usar gesso do mesmo jeito. Ashton fingiu não reparar no olhar que ela lhe deu, todavia ele podia afirmar, mesmo sem ver, que era igual ao que ele deu a ela na enfermaria. O olhar que dizia “eu te disse”.

Notas finais
Adios, adios.