Isso não é...

47 Isso não é uma pergunta.


Notas iniciais
Mais um cap, dois cap num só dia para recompensar o tempo perdido. May I - https://youtu.be/orJJniWRpRQ

And there you stand opened heart, opened doors, full of life (...)

But I can see when the lights start to fade,

The day is done and your smile has gone away.

(E lá você estava, coração aberto, portas abertas, cheia de vida (...)

Mas eu posso ver quando as luzes começam a desaparecer

O dia acabou e o seu sorriso desapareceu)

47-Isso não é uma pergunta. (Porque é uma resposta.)

Sexta-feira, 13 de março

Muitas coisas estavam além da compreensão mundana. Afinal, não eram as perguntas que giravam o mundo, era a falta de respostas e o que você poderia fazer diante disso. Qual era sua reação frente algo que você não entendia.

Julie, a propósito, não entendia muitas coisas, mas poderia resumir todas essas coisas em apenas uma interrogação: Por quê? Julie acreditava que todas as perguntas tinham respostas – perguntas deveriam vir obrigatoriamente acompanhadas de respostas, mas tinha caso que não. Não para “não tinha resposta”; o não era para “você se nega a vê-las, a acreditar nelas”.

Era o que ela fazia naquele momento, e sabia que esse era o caso. Julie sabia que podia dizer que não entendia por que doía, porque não deveria doer, entretanto ela sabia que as coisas não eram assim.

Por que doía pensar em seu pai morto mesmo depois de quatro anos? Porque ela não queria acreditar que seu pai estava morto. Sua mãe continuar a viver era algo que Julie não estava preparada, mas... era isso. Sua mãe tinha que continuar a viver. Ela – Julie – tinha que continuar a viver. Seu pai tinha morrido, mas ela não.

Por que Ashton encarava-a silencioso desde que havia entrado no carro? Mesmo quando haviam saído do carro? Julie não sabia a resposta, mas alguém – definitivamente o próprio Ashton – sabia.

Ela tinha várias teorias, que giravam principalmente em torno do fato dela parecer um monstro digno de Oscar de terror, mas nada que a convencesse. Ashton já a tinha visto pior, aquilo não era nada. Não era como se ele nunca a tivesse visto com o cabelo pingando de água ou com o pijama de sempre do Pachirisu – obsessão por Pachirissu? – ou qualquer outra coisa. A única coisa que Ash podia não estar preparado era os olhos vermelhos de lágrimas.

Julie também não estava quando se viu refletida nas portas de vidro do prédio que Ashton morava. Ela não saia olhando-se no espelho quando chorava para gravar a imagem na memória – Ashton já estava fazendo isso por ela, recompensando todo tempo perdido. Ou imagem, no caso.

—Não está muito tarde para você está aqui, mocinha? – perguntou Lorenzo, olhando-a preocupado ao abrir a porta.

Se fosse outra pessoa Julie o mandaria cuidar da sua vida. Não era da conta de ninguém se estava ou não tarde além dela mesma, ela diria. Mas Julie sabia quem era aquele senhor e a resposta igualmente educada que ele diria de volta. E que sua preocupação era sincera.

—Não está muito tarde para você está acordado? – questionou Julie, tentando sorrir, embora sentisse que ele era falso. Sorrir falsamente doía até a alma. – Abuelo.

—Eu gosto disso, nieta – ironizou Lorenzo, com um forte sotaque espanhol, não caindo no papo de Julie, que entrou no elevador com Ashton silencioso atrás. – Mas ainda estou de olho em você! Em vocês dois!

Hum, certo, Julie revirou os olhos. Por que todo mundo pensava mal numa garota indo para a casa de um garoto tarde da noite? Ela podia pensar mal porque conhecia Ashton, ela tinha o direito de pensar mal de Ashton se quisesse – embora, se esse fosse o caso, isso significaria que Lorenzo também poderia. Quantas garotas ele não deve ter visto com Ashton antes? Julie não estava ficando com ciúmes.

—Ahn, Ash... – começou ela, assim que as portas do elevador fecharam-se.

—Shiii – pediu Ash, encarando-a tão abertamente que Julie o olhou desconfiada. – Vamos aproveitar o momento.

—Certo – disse ela, devagar.

O que ele tinha, vindo com esse papo de “aproveitar o momento”? Ashton odiava momentos silenciosos como aquele! Aquele não era Ashton. Ou ele tinha sido abduzido, torturado e tido a mente resetada por alienígenas antes de ir procurá-la no cemitério, porque ele estava assim desde que Julie o encontrou – ou foi encontrada, tanto faz. Julie deu um passo cauteloso para trás. E o-cara-que-não-era-Ashton a segurou.

—Ah! – gritou Julie, fechando os olhos para não ver o monstro que Ashton transformou-se enquanto agitava os braços, tentando se salvar.

—O que você está fazendo? – questionou Ash, confuso. – É para gente sair.

—Ahn... – Julie ao redor, percebendo que não estavam mais se movendo. O elevador tinha parado? – Você não é um monstro? Você não vai se transformar num monstro? Você não teve a mente resetada por alienígenas que te seqüestraram e torturaram? Não é uma capacho alienígena que ajudará na dominação mundial?

—Respire – pediu Ash, mas Julie continuou prendendo a respiração ainda mais. – Não. Não. Não. E não. Agora podemos sair?

—Ufa – suspirou ela de alivio, limpando uma gota de suor imaginária que descia pela sua testa. (E deixando Ashton passar na sua frente antes de sair do elevador. Não seria ela a testar sua sorte, remediar nunca era demais.) – Pelo menos eu agora sei que você não é monstro que vai me abrir ao meio na mesa da cozinha.

—Eu não te abriria na mesa da cozinha, Julie. Você é idiota? – perguntou Ash, colocando as mãos no bolso. – Mamãe desconfiaria de algo se eu te abrisse no meio da cozinha. Eu seria mais inteligente do que isso, não? Eu ao menos esconderia o fato de ser um monstro e te abrir no meio da mesa da cozinha não ia ajudar em nada.

—Ahn... – Julie não sabia o que poderia dizer em relação a isso. O Ashton que ela conhecia não era tão burro assim, mas será que o Ash resetado era?— Anne! – gritou Julie quando a mãe de Ash abriu a porta, como se esperasse por ela.

—Julie, queri... – Anne parou, observando o estado que aquela garota estava. – O que foi? Você está bem? Não foi ferida, foi? E por que está vestida assim? Você não foi...

—Ashton quer me abrir ao meio na cozinha, Anne!

—Ele não faria isso, Julie – negou ela, rapidamente.

Toda mãe dizia o mesmo do filho, pensou Julie.

—Ele disse que...

—Eu gosto de pensar que meu filho seria mais inteligente do que abrir alguém ao meio num local que eu posso ver.

Toda mãe gostava de pensar que o filho era inteligente, acrescentou Julie em pensamento.

—Ufa, estou à salva – ironizou Julie, rindo. Rindo ainda mais ao perceber que não doía sua alma, como doeu ao sorrir. – Ah, eu posso ficar aqui hoje?

—Claro que sim, se sua mãe concordar, mas por...

—Trabalho de arte – interrompeu Ashton, duvidoso que Julie quisesse dizer a verdade, puxando-a para o quarto. – Nós temos um trabalho sobre genealogia por causa do que perdemos quando Julie ficou doente e ela... Você sabe. – Ashton deu de ombros, deixando o resto para a imaginação da sua mãe.

—Claro – assentiu Anne, embora não soubesse. Sim, Julie ficou doente e ela o quê?

—Então nós estamos indo para o quar...

—Mas você vai dormir na sala – interrompeu Anne. (Ashton e Julie pararam chocados. Anne disse o que parecia que tinha dito?) – Não você, Julie – disse Anne, horrorizada com a falta de modos que pensaram que ela tinha. – Ashton. Ashton que vai dormir na sala.

—Mas... – gaguejou Ash. – Por quê?

—Porque eu não sou mal educada ao ponto de deixar uma visita dormir na sala. Você quer que Julie durma no chão?

—Não! Mas eu pensei que nós iríamos dividir a cama...

—Hum – murmurou Anne, tentando esconder um sorriso ao encará-los.

Oh, meu Deus! Ela queria rir pela expressão confusa deles, bater a mão no joelho e gritar "rá, pegadinha!" e sair dançando pela sala. Sinceramente, Anne queria trancá-los dentro do quarto e só deixá-los sair quando eles parecem de ser cabeça duras e aceitassem que estavam apaixonados... Desejar um netinho no processo não era pedir demais, era? Todos pareciam pensar que sim, inclusive sua parceira no crime e sogra do seu filho.

—Vocês nunca querem dividir uma cama que eu pensei que... – Anne deu de ombros. – Se Julie não achar nem um problema, eu não vejo porque não.

—Oh, não – negou Julie, voltando a caminhar para o quarto. – Ash pode dormir no sofá. Ou no chão. Eu não me importo de ter uma cama só para mim...

—Eu não vou dormir no chão! – exclamou Ashton, seguindo-a.

—Cabeças duras – murmurou Anne, suspirando resignada diante da cena na sua frente.

Seu filho era um idiota, concluiu Anne. Sem exagero. Ele realmente era um idiota. Como era que Ashton Irwin não estava num compromisso sério com aquela garota? Julie seria sua nora perfeita! E era óbvio o quanto ele estava caído por ela, com tanta proteção evidente nos olhos e nas ações dele. Ela podia até sentir que os dedos dele coçavam para tocar Julie, por isso ele tinha colocando-os no bolso.

—Pare ai mesmo, mocinhos – disse Liz, caminhando para eles. – Você vai tomar banho, Julie. E você vai fazer algo para comer quente, Ash. Podemos aproveitar e já ligar para sua mãe, Julie, eu gostaria de falar com ela. Ah, e precisamos de algumas roupas para você, essas estão todas molhadas. Esqueci de alguma... – Liz parou na porta do quarto do seu filho, percebendo que ninguém a acompanhava. – Algo errado?

—Mãe – tossiu Ashton, surpreso. – Você está sendo...

—Adulta? – ofereceu Julie, igualmente surpresa, quando ele não pode continuar.

—Uma mãe preocupada – corrigiu Ash. – Por que não me surpreende que isso é para Julie?

—Comentário desnecessário de ciúme desnecessário numa hora desnecessário, Ashton – respondeu sua mãe. – Agora adiantem, era só o que me faltava se você ficasse doente, Julie. E você também, Ashton. Vá tomar banho, deixe que eu faço chocolate quente... Para onde você está indo? – questionou Liz, observando seu filho andar até o seu quarto.

—Tomar banho. No seu quarto. Para que Julie use...

—Ah, não – disse Liz, balançando a cabeça. – Você não disse que eu sou uma mãe preocupada para a Julie? Então, ela que vai usar a banheira. Vá para o chuveiro.

O telefone chamou e chamou e Julie não sabia o que era pior: não ser ou ser atendida. Ambos era um problema, ela suspirou, afundando até que somente seu nariz se encontrasse em cima da água. Julie não sabia o que faria se sua mãe atendesse. Ela pediria desculpas? Elas brigariam de novo? E Julie também não sabia o que faria se sua mãe não atendesse. Como voltar para casa depois? Você abre a porta e finge que nada nunca aconteceu? Olha para o rosto de cada pessoa que ama e mente?

O telefone tocou e Julie sentiu sua perna começar a balançar – para cima e para baixo – contra a sua vontade, jogando água para todo lado. Suas mãos já estavam a meio caminho da sua boca, retornando o mau hábito de morder as unhas até não ter nada. Julie tinha se livrado disso quando começou a usar aparelho, agora ele voltava a todo vapor.

O telefone tocou e Julie pensou no que eles deviam estar fazendo: sua mãe devia estar no sofá, com o celular na mão, preocupada, esperando... Espere, não. Se esse fosse um cenário real, o telefone já teria sido atendido e ele tocou novamente.

Quantos toques faziam antes de uma chamada cair? Aquela ligação já não devia ter caído?

Julie também não tinha a mínima ideia de onde seu irmão estava. Para ela, ele estaria colado a um celular, esperando qualquer sinal de vida dela, mas cadê que ele atendia o...

—Julie.

—Telefone! – exclamou ela, empurrando os pés contra a banheira para emergir da água e falar sem se afogar.

—Celular – continuou seu irmão.

—Eu – tossiu ela.

—Você.

—Luke – cumprimentou Julie, sentindo a ameaça de um sorriso no seu tom.

—Pois é – concordou ele, simplesmente.

Julie esperou por mais, contudo quando ficou obvio que ele não diria mais anda, ela suspirou antes de falar.

—Você não vai dizer nada, vai?

—Não – falou Luke. – Não vou deixar as coisas mais fáceis para você.

—Hum, certo. Acho que mereço.

—Acha?

—Eu mereço – disse Julie, vendo tão bem quanto Luke estivesse na sua frente a sobrancelha dele levantando-se. – Eu não deveria ter saído de casa desse jeito.

—Você não deveria ter nem saído de casa.

—Eu não deveria ter nem saído de casa – concordou ela. – Não vai perguntar nem onde estou?

—Eu não sou burro, Julie. Eu sei ler o nome Irwin no identificador de chamadas.

—Se você diz...

Mais um segundo de silêncio. Julie suspirou novamente. Ele não faria isso mais fácil para ela realmente, não era?

—Como mamãe está?

—Pensei que não fosse perguntar – murmurou Luke. – Eu disse a ela que você estava bem, na casa da Anne e que...

—Como você sabia que eu estava...

—Calum me mandou uma mensagem. Afinal que raios de conversa é essa? “Você não precisa fazer isso, disse ele. Fazer o que, perguntou ela. Fingir que esta bem. Você está certo, mas preciso acreditar que ficarei melhor"?

—Gostou? É...

—Foco, Julie. Fo-co – pediu seu irmão.

Julie bufou, ouvindo vagamente enquanto submergia na banheira. Ela adorou aquela banheira, ela queria uma banheira daquela na sua casa – isto é, se não foi expulsa e deserdada. Julie agradecia por aquela banheira e por poder telefonar para casa sem uma multidão de olhos repreendendo-a.

—Que som é esse que estou ouvin...

—Estou tomando banho. Numa banheira – disse Julie, animada. – Sabia que Liz tem uma banheira no banheiro do seu quarto?

—Sim, sim – disse Luke, impaciente. (Aparentemente, pensou Julie, seu irmão não gostava da ideia de ter uma banheira tanto quanto ela.) – Só não vá morrer eletrocutada. E tome um remédio depois. A menos que queira ir para o médico – completou Luke, rapidamente, prevendo uma reclamação. – E agasalhe-se. E durma bem longe de Ashton.

—Qual bem longe de Ashton é bem longe de Ashton?

—Quando tiver uma muralha da china beem grande entre vocês.

—Se ela é a muralha da china ela já não seria beeem grande? Isso não seria...

—Não me venha com histórias de redundância, Julie Hemmings. Você saiu de casa, deixou todo mundo preocupado, mamãe está dormindo no sofá depois que tomou remédio...

—Julie? – gritou Ashton, interrompendo.

—É a voz do Ashton que escuto?

—Vou entrar – avisou ele. – Mamãe mandou deixar essas roupas aqui!

—Ele vai entrar? – gritou Luke. – Por que ele vai entrar no banheiro? Ele vai te ver nua! O box do banheiro daí é transparente!

—Tchau, Luke – murmurou Julie, revirando os olhos. Seu irmão não tinha ouvido-a quando disse que ela estava no banheiro de Liz, no quarto de Liz, tomando banho na banheira de Liz?

—Está em cima da cama – disse Ash, batendo na porta do banheiro. Julie afundou. – Ouviu?

—Sim – murmurou ela, vendo a água ondular por causa das vibrações da sua voz. – Daqui a pouco eu saio.

Julie ficou mais um pouco na água, pensando sobre tudo e nada. Desde perguntas existenciais até matemáticas. Desde a razão da vida até a sequência numérica dos números primos. Quando começou a pensar em Rei Leão, no ciclo da vida, Julie percebeu que tinha ficado muito tempo na água e que ela começava a afetar seus neurônios. Ela sempre afetava seus neurônios.

Submergido pela ultima vez, deixando apenas a cabeça de fora – ela não iria molhar o cabelo àquela hora para depois precisar secá-lo – Julie levantou-se e sorriu. O dia ainda não tinha terminado.

Notas finais
Quem não gosta da Anne?