Isso não é...
55 Isso não é uma divisão.
Notas iniciais
Can you see the panic inside?
I'm making you uneasy aren't I?
(Você pode ver o pânico dentro?
Eu estou fazendo você desconfortável não estou?)
55-Isso não é uma divisão. (Ansiedade ou nervosismo? Nervosismo ou ansiedade?)
Sábado, 21 de maio.
Ashton estava nervoso. Nervoso e ansioso. Mais ansioso do que nervoso ou mais nervoso do que ansioso? Ele estava muito os dois para saber qual dos dois se destacava. Ele achava que estava começando a hiperventilar, mas... Ashton não poderia dizer, porque nunca teve um encontro antes e não tinha nada para comparar. Ele não sabia o que fazer!
—O que você está fazendo? – perguntou sua mãe.
—Pensando... – murmurou Ash, roendo as unhas.
Há quanto tempo Ashton Irwin não roía as unhas? Oh, Deus, Ash estava odiando a Julie por isso, por tudo isso. Por que ela tinha que inventar isso de encontro? Por que ele não pode dizer não? O problema estava justamente nisso, na incapacidade dele de dizer não a Julie. Seria tão difícil... Agora eles iam a um encontro quando nem um deles nunca foi num encontro!
—É difícil? – questionou Anne, repentinamente.
—Ahn? – Do que sua mãe falava? Por que ela estava ali, sentada ao seu lado com um balde de pipoca? – Você não deveria estar no restaurante? Ultimamente você está mais em casa do que qualquer outra coisa...
—Está reclamando? – questionou sua mãe, adorando aquele show na sua frente, com direito a pipoca e tudo. – Relaxe – disse Anne a ele. – Tecnicamente é o primeiro encontro de vocês, mas o que importa é a prática e prática vocês tem de sobra. Não numa exposição, é claro.
—Quem falou em encontro? – parou Ash, encarando-a. – Afinal... Quem te disse sobre a exposição?
—Ops – disse Anne, sem qualquer sinal de culpa. – A questão é... – ela mastigou, pensando. Anne não sabia qual era a questão, era a primeira vez que ela dava um conselho amoroso. Principalmente ao seu filho. – De qualquer jeito, não tem para que você se preocupar.
—Você ajudou muito, mãe, obrigado – agradeceu ele.
—Disponha – retrucou Anne, sentindo-se inútil. Por que seu filho não sequestrava Julie? Era bem mais fácil. E sem danos financeiros. Sem tantos danos financeiros. – Olhe, você só vai ser você...
—E eu iria ser quem?
—Não complique, Ashton – avisou Anne, encarando-o. – Julie vai fazer isso por você. Seja como sempre, porque, por alguma razão que eu não sei, ela parece gostar de você...
—Ei! – reclamou Ashton, sorrindo para sua mãe. Ela era boa em tirar a tensão, ele já se sentia menos neurótico.
—E vai perceber se você não for você – completou Anne. – Que horas começa a exposição? – Enfiando a mão no bolso, Ash entregou-a o ingresso que Julie tinha lhe dado. – Oh, é melhor você ir logo, você não quer se atrasar. O ingresso está para as 18:30... – Anne esperou ele saltar do sofá antes de completar: – Do próximo sábado.
—O que? Ela não... Julie não fez isso – disse Ashton, apesar de achar que ela faria justamente isso, embora não soubesse se seria intencionalmente ou não. As duas opções eram prováveis, refletiu ele, ligando para ela. – Nós ainda vamos sair hoje? – questionou Ash, antes que Julie pudesse dizer ao menos olá, enquanto sua mãe ria ao seu lado, engasgando-se com a pipoca.
—Você está me chamando para um encontro? Porque parece que você está me chamando para um encontro...
—Você que me chamou para um encontro, Julie – interrompeu Ashton.
—Era para você dar uma continuação ao flerte! – reclamou ela. – Você não sabe nem fazer...
—Julie – interrompeu ele novamente, massageando as têmporas. – A data do ingresso é para o próximo sábado.
—Sim, sim... O que? Como assim próximo sábado? Mamãe disse que era nesse sábado!
—Nesse sábado? – questionou Ash. – Liz disse que era nesse sábado? Tem certeza?
—É claro que ela...
—Julie.
—Não. Ela não disse.
—Então... – Ash respirou fundo, eles tinham duas opções: irem para outro lugar ou esperar. – O que você quer fazer?
—Não é obvio? – Ashton achava que sim – Vamos para...
Ele perguntava ao mesmo tempo em que Julie disse:
—Vamos esperar para a próxima semana. Tchau.
—O que?
Ashton não conseguia acreditar no que tinha ouvido, no que acontecia. Julie que estava ansiosa por esse encontro tinha adiado e ele que era o nervoso desejava sair com ela? Os papéis tinham se invertido? Porque agora ele conseguia definir seu estado emocional como ansioso e Julie tinha que se responsabilizar por isso, contudo, um minuto depois, quando Ash considerava ligar para Julie, ela mesma ligou.
—É mentira.
—Estou olhando para o ingresso e não tem nada de mentira.
—É mentira – repetiu Julie. – Ou você está me chamando de mentirosa? Te dei o ingresso errado... Não de propósito, é claro.
—Não vou mais sair com você!
—É claro que você vai – disse Julie. E Ash pode sentir os olhos dela se revirando, ele pode ouvir a confiança na voz dela.
—Hunf – bufou Ashton, desligando o telefone antes que dissesse algo que se arrependesse. Como cancelar o encontro. Realmente. E não apenas da boca para fora.
—Seja você, porque Julie será ela. – relembrou Anne. –Agora vai lá, garoto!
Seja você, seja você, seja você... Ashton já estava cansando de tentar conscientemente ser ele quando tocou a campainha, então ele tentou esquecer-se disso, distrai-se, e começou a cantarolar de olhos fechados a melodia que ouvia. E imaginou-se como um maestro diante de uma orquestra filarmônica, balançado as mãos no ritmo, prolongando ou diminuindo os altos e os baixos de todos os instrumentos.
Uau, Ashton não gostava daquela música – ele já estava ficando cansado de sempre ouvi-la – mas estava gostando daquilo. Gostando tanto que quase não ouviu a porta se abrindo, se não fosse pelo rangido que ela tinha.
—Você espera o trecho final da música para pensar em atender a porta? Testar se a pessoa quer realmente te ver? – questionou Ashton, abrindo os olhos apenas no fim.
Se Julie tinha esperado para abrir a porta, ela poderia esperar mais um pouco para ver os belos olhos castanhos dele, mas... Não, não era Julie quem estava na porta. Quando é que Julie atendia uma porta?, perguntou-se Ashton. Nunca na galáxia.
—É sério, Michael? Você é o que? A dama de honra da Julie? Por que você está sempre aqui quando vou levá-la para sair?!
—Hummm – murmurou Mike, parecendo presunçoso. – Você parece nervoso.
—Oh, saia da frente – disse Ash, empurrando-o. – Eu ainda me lembro do sermão interior, não preciso de outro.
—Não de mim ao menos – cantarolou ele. – Eu sou apenas o porteiro.
—O que você quer dizer? — virou-se Ashton, surpreendendo-se com a luz, que irradiava nos contornos de Michael. Era quase como se ele fosse um anjo e Ash não conseguisse enxergá-lo, se não morreria com toda luz.
—Boa sorte – acenou Mike, fechando a porta e o trancando dentro da casa.
Ashton piscou, tentando se restabelecer na escuridão que tomou conta de tudo, pensando que se Michael fosse um anjo ele com certeza era um dos caídos, e andou sem enxergar, usando da memória para desviar-se dos móveis. Enquanto esperava ver novamente, ele perguntou-se quem o aguardava – e se era possível fugir. Agora Ash estava mais nervoso do que ansioso, e sem perceber levou os dedos a boca.
—Uau – disse Liz, tentando parecer surpresa. – Eu não acreditei quando Anne disse que você estava nervoso, e não é que ela falava a verdade?
A primeira coisa que Ashton percebeu quando se acostumou com a falta de claridade foi que nem uma luz estava ligada – sem lâmpadas, sem tv. E que Liz parecia uma juíza, sentada sozinha num sofá, e Luke e Calum, em outro, os jurados.
—Isso daqui é o que? Estou avançando os níveis você é o boss do andar? Ou será que estou num julgamento de Salém e Mike é o carrasco?
—Ele já está passando muito tempo com a Julie – sussurrou Liz, espalhafatosa para os seus filhos
Calum assentiu, atento, e Luke desviou os olhos para o caderno na sua frente, como se tomasse notas – como ele enxergava no escuro era um mistério para Ashton.
—Cadê a Julie? – questionou Ashton, não a vendo.
—Alguém está ansioso para o encontro – cantarolou Liz antes de respirar fundo e o olhar seriamente. – Estamos aqui reunidos hoje para saber... – Ela deu uma pausa, cruzando os dedos sobre seus joelhos também cruzados. — Suas intenções com a minha filha.
—Não deveria ser as intenções de sua filha comigo? – questionou o réu.
—Essas eu já sei – descartou Liz, acenando com a mão. – Como vai ser? É o primeiro encontro dela. Você planeja pagar as contas? Porque isso seria machismo. Dar um beijo de boa noite na porta da frente? Porque eu estarei esperando-a na varanda com uma lanterna... Você sabe, para preservar a inocência de minha amada caçula.
Ashton não sabia quem bufou primeiro e depois começou a rir, descontroladamente: ele, Luke, Calum ou a própria Liz. Mas ele sabia que foi o primeiro a se controlar, limpando as lágrimas que formaram abaixo dos seus olhos antes de oferecer o seu melhor sorriso para a mãe do seu encontro.
—Farei tudo que puder para proteger... O que resta.
—Será que eu posso descer agora? – gritou Julie. – Eu não gosto de ouvir os outros rindo de mim... Sem saber o motivo – completou ela rapidamente. – Porque eu não estou ouvindo.
—Claro que ela não está ouvindo – murmurou Luke para Calum, tao baixo que Ashton quase não ouviu.
—Pare de falar de mim, Lu... Ops.
—É, ops – disse Liz, levantando-se no seu tempo e rodeando Ashton. – Você está muito bem vestido.
—Obrigado.
—Hum, mas acho que... – Liz virou-se para as escadas, fazendo uma elaborada mesura antes de anunciar, na sua melhor voz de apresentadora: – Julie Agnes Hemmings! – disse ela, prolongando o “s” (Eu odeio esse nome de aranha, Ashton pensou ter ouvido Julie murmurar.) – Está melhor.
Como se estivessem seguindo o script pré-definido por Liz, a luz acendeu-se (Luke a ligou) quando Liz disse "Julie Hemmings" e onde antes não havia nada, agora existia a própria.
Ashton piscou novamente, tentando se acostumar a luz súbita, e a primeira coisa que percebeu foi a mão dela em cima do corrimão – provavelmente para mostrar o anel em sua mão (era a primeira vez que Ashton a via com jóias) ou talvez para se equilibrar, embora não estivesse de saltos. Fosse o que fosse, a visão fez Ashton balbuciar.
—Ela está linda, não está? – afirmou Liz, realmente deslumbrada, acotovelando-o. – Ela puxou a mãe.
—Você está linda – disse Luke, sorrindo para sua irmã.
—Deslumbrante – Calum completou, colocando-se ao lado de Liz para vê-la melhor.
Julie sorriu. Ela sentia-se deslumbrante e um pouco desconfortável, era como se fosse e não fosse ela ao mesmo tempo. Sua mãe tinha comprado um vestido que era a sua cara, mas que ao mesmo a transformava numa pessoa diferente. Menos criança e mais adulta.
O vestido era justo nos lugares certos e ficava entre social e esporte, entre "isso não é grande coisa" e "eu me preparei muito para o meu primeiro encontro". Julie sentia-se dividida e aquele vestido parecia mostrar isso – ela não gostava de vestir algo tão óbvio, embora fosse de arrasar.
—Ashton? – incentivou Julie, descendo os degraus que faltava com uma postura impecável.
—V-você está como sempre – disse Ashton, esperando que não tivesse gaguejado como achava. E que a mentira não fosse tão óbvia, mas ela era. E não era. Era tão confuso.
—E? Ou mas? – Parou Julie no último degrau, ficando mais alta que Ash para que pudesse olhá-lo de cima. – Eu aceito qualquer um desses agora, menos essa frase incompleta.
—Você está como sempre e isso não me surpreende... – Julie esperou pelo resto, pelo “mas”, já que o “e” já tinha sido usado. – Mas eu ainda fico sem fôlego ao te ver, oh, minha adorável Juliette.
—Você anda decorando áudio book de novo, não é? – questionou Julie, inclinando-se para ele com os olhos estreitados. – Você vai precisar de mais que isso para passar em literatura.
—Eu tenho você.
—Uau – assobiou Liz, batendo palmas devagar em aprovação. – Como ele é atirado.
—Como professora – completou Ashton tardiamente.
—Julie também não passa longe – opinou Luke – ficando tão próxima assim de Ashton.
—E nós vamos ficar mais próximo, não é, querido? – sussurrou Julie, sorrindo ao colocar ambas as mãos nas bochechas de Ashton a medida que inclinou-se até que seus narizes se escovassem.
Ash sentiu seu estômago despencando e o nervosismo voltando enquanto alternava o olhar dos lábios rosados para os olhos azuis de Julie. Por quê? Ele já tinha beijado antes, ele já tinha beijado mais garotas do que Julie e tinha mais experiências que ela, mas... Ele sentiu como se não tivesse experiências, como se pudesse fazer algo errado e arruinar tudo, mas não era possível, porque se alguém fosse arruinar tudo seria Julie.
—Eu não acho que eu quero ver isso – disse Calum. Luke agradeceu a Deus. – É como ter certeza que minha pequena borboleta cresceu.
—Sim – assentiu Julie, seriamente, puxando pra trás com uma respiração profunda. – Sua pequena borboleta ainda está... – Ela começou a rir, dando-se conta do que a Calum disse. – Você está falando sério? Pequena borboleta?
—Claro que sim – sorriu Calum.
—Eu entendo – disse Liz, séria. – Fora. Por mais que eu quisesse ficar com vocês e tirar muitas fotos...
—Isso não é uma formatura, mãe – disse Julie, pegando a mão de Ashton antes de arrastá-lo para a porta. – Sem foto. Eu não gosto de fotos.
—Por mais que eu quisesse – repetiu Liz, desamparada. – Vocês tem que ir se não vão chegar atrasados.
—Claro. Ajude aqui, Ashton — pediu Julie, calçando os pés sem soltar a mão dele. Somente porque precisava de um apoio para não cair. Assim que entrou no carro, ela o despachou.
—Estão com os ingressos, certo? – perguntou Liz da varanda, ansiosa. – Você vai cuidar da minha borboletinha, não vai?
—Como se ela fosse minha – respondeu Ashton, assentindo. – Estaremos aqui antes da meia noite.
—Não! – gritou Liz. – Nada de Julie antes da meia noite, o toque de recolher dela hoje é para antes do amanhecer. Uma exceção.
—O que? – gritou Julie. – Sem chance, preciso do meu sono da beleza!
—Você está reclamando? – perguntou Ash, cético.
—É claro que sim, não quero ficar com você até o amanhecer. Vamos ficar fazendo o que até o amanhecer?
—Está vendo o que eu tenho que aguentar? – acenou Liz para sua filha antes que Ashton dissesse alguma coisa, como o que eles podiam ficar fazendo até o amanhecer. – Boa sorte – disse ela, sem saber para quem desejava. Ambos iriam precisar.
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