Isso não é...
56 Isso não é arte.
Notas iniciais
We keep wasting colors
Maybe we should let this go
(Nós ficamos desperdiçando cores
Talvez devêssemos largar isto)
56-Isso não é arte. (A vida imita a arte ou a arte imita a vida?)
Sábado, 21 de maio.
Julie encarou o quadro, ele a encarou de volta, perguntando-se provavelmente o que ela estava fazendo ali. Ashton queria saber a mesma coisa. Para alguém que não gostava do que via, Julie olhava bastante. Ela não passava os olhos pela peça e ia para a próxima, ela a encarava como se tentasse descobrir todos os seus segredos, desde quem pintou, para quem pintou, como pintou, até porque pintou.
Julie queria muito mais do que os olhos viam – embora a opinião dela sobre o que via com fosse totalmente delirante... Talvez por isso Julie quisesse saber mais do que via, porque as informações que tinha não eram suficientes para criar uma imagem além da que os seus olhos registravam.
—Estou vendo um...
—Você está vendo errado – interrompeu Julie. – Veja de novo.
—Você não sabe nem o que eu iria dizer – murmurou Ashton. – E o que é que você está vendo então, amor?
Julie nem se preocupou em lançar um olho afiado a ele – Ash sabia que ela mandava um em pensamento. E tentou ver algo além do esperado naquele quadro.
—Estou vendo um cercado, onde cada estaca conta um momento de vida do autor...
—Artista – corrigiu Ashton.
—Autor – corrigiu Julie a correção. – Autor não é apenas para livros, também pode ter autor de quadros. Tipo, parece mais certo dizer o autor de Giaconda é da Vinci ou o artista de Giaconda é da Vinci? Ambos estão certos.
—Hum, certo – murmurou Ashton, empurrando-a para o lado. – Próximo.
Três horas e dezenas, centenas, de obras de arte depois, Ashton tinha que considerar que às vezes Julie parecia certa. Outras, normalmente, quase sempre, diariamente, totalmente, delirante.
—Não tem como isso não ser uma mulher loira tocando violino – disse Ashton, encarando sua companhia ao invés do quadro.
—É claro que essa mulher está tocando violino – concordou Julie.
—Eu di...
—Ou isso é o que ela quer que você pense.
—O que você quer dizer?
—Olhe para o quadro. – Ashton continuou olhando para ela. – O violino está ao contrário, perceba que aquela parte encaracolada na ponta está para baixo e você a usa com ela para cima, se não nada de cordas para tocar...
—Você está cega? A “parte encaracolada”, como você diz, está para cima. Ela está tocando o violino.
—E o arco? – desafiou Julie. – O que você diz? A mulher segura o arco como se tivesse segurando uma espada, pronta para o ataque... Pensando bem, você pode até dizer que o violino é o escudo dela pela posição. E tem aquela sombra no canto, se você olhar bem, dá para ver que é uma sombra hostil.
—Sombra hostil? – ecoou Ashton. Ele nunca ouviu nada tão lunático, digno de mandar alguém para um hospício. – Você quer ser internada?
—Não – disse Julie, dando-lhe as costas. – Próxima.
—Isso é uma arte abstrata – disse Ashton, enfático, como se Julie fosse cega ou não soubesse o que era uma arte abstrata. (Será que ele não sabia que todos os quadros ali eram abstratos?, pensou Julie. Porque estava bem obvio.) – Eu não sei nem por onde começar a interpretar.
—Pela mulher lilás que jogou o coração fora – indicou Julie.
—Mulher lilás? Coração fora?
—Pode ser um homem também – avaliou Julie. – A questão é que as cores escuras demonstram a escuridão da alma, o fato dela ter jogado o coração fora pode significar que ela não quis continuar sofrendo, ou queria não sentir mais nada. E eu não sei se é impressão minha...
—É impressão sua – interrompeu Ashton. Não importava o que fosse, era impressão dela.
—Minha impressão verídica – disse Julie, enfática – é que o coração vai se transformando num pássaro, livre, então pode ser que ela esteja livre de... de...
—De? – incentivou Ash.
—Livre dos códigos éticos e morais estabelecidos pela sociedade! É isso ai! – exclamou Julie, sorrindo vitoriosa. – O impressionante é a ironia no fato da escuridão está em cima, no céu, ao passo que as cores vão se desbotando, escorrendo, para baixo...
—Escorrer-se para cima? – interrompeu Ashton. Novamente.
Julie o encarou. Essa pergunta tinha saído da boca dele?
—Você está passando muito tempo comigo – disse ela finalmente, quando se pronunciou.
—Pró... – Ash não queria falar daquilo (era bem obvio), mas ele também não queria ir naquela direção. – Acho melhor a gente não ir por ali – recomendou Ashton, colocando as mãos gentilmente no ombro dela para ir na direção contrária.
Agora definitivamente nós vamos por ali. Qual o problema? – questionou Julie, fincando os pés no chão, sem desviar do quadro considerado abstrato por Ashton. – E eu ainda não terminei de avaliar o quadro... Será que eu devo me tornar uma avaliadora de arte? Estou tão indo tão bem...
—Não, você não está.
—O que você acha que é aquela outra forma logo abaixo? É como se fosse um trono e uma cobra ao redor... – disse Julie, confusa. – Será que ela está tentando atacar o coração. Cobras comem pássaros, né? Acho que é isso... E aquele arco em cima? Eu gostei desse quadro. Quer comprá-lo para mim?
Desviando o olhar do quadro a sua frente para Ashton, Julie percebeu que ele não encarava a mesma coisa que ela nem ao menos era ela para que ela pudesse pensar em perdoá-lo por não olhá-la. Ash não olhava para Julie, a Julie real, mas ele olhava para uma cópia muito boa...
—Uau – ofegou Julie, caminhando em direção a cópia. – Isso é impressionante. Isso é... Eu.
—Você – concordou Ash, sem tirar os olhos do quadro que era ela.
Ashton sempre sentiu como se seus quadros mostrassem uma parte dele – era como sua alma pintada e exposta o mundo. Mas vê-la realmente exposta ao mundo ainda era desconcertante. Principalmente quando a pessoa que ele menos queria que visse, estava vendo-a.
E se Julie não gostasse de algo? E se ela não gostasse do modo como ele a via e retratava? E se não fosse bom o bastante? Era claro que Julie não acharia bom o bastante, nada nunca estava bom o bastante para ela, mas ainda assim...
—Por que você não me disse que eu estaria em exposição? – perguntou Julie, também se observando. Então era por isso que ele precisava de uma modelo.
—Pensei que você não gostasse de artes – comentou Ashton, olhando-a. Olhando-a realmente, não para uma imitação barata feita por ele mesmo.
—E não gosto. Arte é inútil, mas seres humanos são inúteis. Menos eu. E essa só eu, então isso não é inútil.
Ashton assentiu. Na cabeça de Julie deveria haver algum sentido. Ou o fato de não haver sentido fazia sentido. Mas ele realmente estava passando muito com ela, porque entendeu o sentido da frase de Julie – Ash também precisava ser internado, porque ele entendeu que aquele era o máximo de elogio que receberia dela.
—Obrigada – agradeceu ela, sem retirar os olhos de si.
Ou talvez não, pensou Ashton, olhando-a por um momento, surpreendido, antes de fazer o mesmo, sem palavras para dizer algo. Era bom ouvir aquilo; não era a toa que aquela era uma das palavras mágicas.
Virando a cabeça, como se tentasse acompanhar a imagem, Julie queria tentar vê-la de um ângulo diferente. Quem era aquela garota? O que o artista tentou passar? O que ela como observadora observava? O que ela diria sobre si?
—Eu vejo uma linda garota – disse Julie. – Não tenho o que acrescentar.
—Veja de novo – disse Ashton, sorrindo brevemente para a garota real antes de dirigir o sorriso a imagem. – Tem muitas mais coisas ali do que uma linda garota. Uma linda garota é o que ela quer que você pense, ela quer que você pense que uma linda garota é tudo que ela é, quando não é verdade. A garota é muito mais do que bonita. A posição dela, os olhos fechados, denota uma confiança impressionante. Os lábios apertados mostram que ela é teimosa. E há algo lá que você pensa que ela é inteligente, engraçada, que ela é alguém que você pode amar.
—Ela parece ser alguém que pode amar outros também, embora seja meio cadela às vezes.
—Meio? Às vezes?
—Completamente. Diariamente – corrigiu-se Julie.
Um segundo depois, como se não estivesse fazendo ou dito nada, Ashton deu um passo para o lado até que seus ombros estivessem se tocando, e empurrou-a de brincadeira.
—Não precisa exagerar tanto assim – disse ele. – Ela só é cadela um pouco, raramente, e sempre tem um motivo. Não que eles sempre sejam bons e aceitáveis, mas ao menos ela não age como quer apenas porque quer. Bem, quase sempre ela não faz isso.
Hunf, bufou Julie, movendo-se para o lado e pegando a mão dele. Não era mentira, mas isso não significava que ela tinha que gostar do que ouvia.
Se Ashton pareceu surpreendido, ele não reagiu – mas as funções ali eram divididas, pensou Julie, não podia deixar tudo para ele. Ash falou de um quadro? Julie discordaria. Ash aproximou-se? Julie pegaria sua mão. Ela queria um relacionamento saudável e era bom deixar isso claro antes mesmo deles terem de fato um relacionamento.
—Espero que você esteja gostando – disse Julie, como quem não queria nada ao se inclinar contra ele. – É o seu presente de aniversário adiantado.
—Sem chance – recusou Ashton, horrorizado. – Aparentemente Liz te deu os ingressos, você não os comprou, não tem como isso ser o meu presente.
—Ela comprou para mim. Ela me deu – disse Julie, pausadamente, para não forçar a cabeça de Ashton. Ele devia estar delirando se achava que ela pagaria algo. O mundo acabaria antes que Julie Hemmings pagasse algo com o seu dinheiro! – É meu e eu faço o que quiser com eles. Inclusive te dar um e a minha companhia como presente. Adiantado. Ou você não quer?
Antes que Ashton pudesse responder – dizer que aceitava tudo que ela oferecesse ou recusar-se a tal?— mais alguém percebeu que Julie real e Julie cópia eram idênticas. Como ninguém tinha percebido antes que realidade e imaginação se olhavam naquele instante, entrava na lista de mistério de Ashton Irwin.
—Você é a garota do quadro! – exclamou um homem. Pelo crachá de identificação ele era da banca avaliadora e Ash só queria morrer. – Você está tão, tão... Você foi tão bem representada, é quase como se fosse a mesma pessoa, só de olhar para você realmente posso enxergar que o artista captou tudo. Ou ele fez um bom trabalho, porque até os pequenos erros realçam a obra. Quem é o artista?
Ashton queria desaparecer, morrer não seria o bastante. De quem foi a idéia de gênio deles terem um encontro ali? Como foi que Liz... É claro que sua mãe foi quem disse, ela era a única pessoa que sabia que Ash iria expor uma obra, e isso somente porque ele precisava da permissão e assinatura dela. Por que ele aceitou a sugestão de Mireille, sua professora de arte, e decidiu participar daquela exposição? E ainda mais com Julie como modelo e inspiração? Ashton estava perdido.
Entretanto, por mais perdido que estivesse, ele não era burro de perder uma bolsa de estudos. Mesmo que ainda não soubesse o que queria para a sua vida.
Como se soubesse desse fato, Julie lançou-lhe um olhar solidário, um aperto de mão reconfortante e mostrou a direção do artista para o jurado.
—Ele é o autor – apontou Julie para o garoto ao seu lado.
Ashton queria se matar e depois matá-la.
—Ah – suspirou o homem, olhando para as mãos entrelaçadas. – O amor juvenil! Agora entendo a áurea apaixonada.
—Sério? – questionou Julie, olhando para seu amor juvenil e desviando o olhar para a obra dele do seu amor juvenil. Segundo o jurado. – Eu não vejo essa áurea.
—É claro que ela está ali! – afirmou o jurado. – De que outra forma o artista conseguiria captar todas as nuances da modelo? Apenas alguém que a entenda bem, a conheça, conseguiria ter essa intimidade.
—Eles poderiam ser amigos – opinou Julie, como se não fosse da sua vida que falavam.
—Sim, eles poderiam. Mas ou o amigo é apaixonado por ela ou... Não sei. Mas não tem como eles serem só amigos, por toda essa atmosfera sexual...
—Já chega – interrompeu Ashton, empurrando Julie. Existia um limite! – Foi bom conhecer você, obrigado pela opinião, mas temos que ir andando...
—É claro que sim – concordou Julie. E sussurrou para o jurado: – Ele é tímido com sua arte. – Não importava quantas vezes dissesse isso, Julie sempre tinha vontade de rir e essa não foi uma exceção. – E temos que continuar com nosso encontro. Obrigada.
—Amor juvenil – comentou o homem, balançando a cabeça com um suspiro apaixonado, vendo a familiaridade e cuidado um com o outro, antes de ir avaliar as outras obras.
—Então... – disse Julie, assim que se sentou no banco de passageiro. – Estou com fome.
—Você sempre está fome – relembrou Ashton, não fazendo nem um movimento para tentar saciar a fome dela.
Julie o observou por um momento, perguntando-se se alguém tinha sentado com ele e dito o que era suposto para acontecer num encontro, porque Ash não deu partida no carro, não colocou o cinto, não ligou o rádio, ele apenas ficou lá com os dedos no volante, batendo-os num ritmo que estava na sua imaginação.
Não que Julie gostasse da ideia de ter um encontro previsível, com começo, meio e fim, mas ela gostava menos ainda do fato de estar sentada sem fazer nada. Nada por nada ela estava em casa. Comendo. Porque estava com fome.
Na lista de acontecimentos previsíveis em encontro, o item numero dois era levar seu encontro para comer e nem para isso Ashton servia... O item número um tecnicamente não acontecia durante o encontro, mas depois, em frente a casa do seu encontro.
Sem sentido, na opinião de Julie. Por que beijar alguém no final? Era medo? Receio que a pessoa não se revelasse tão interessante quanto acreditava e esperança que pudesse pular essa parte caso descobrisse alguma idiossincrasia nojenta? Julie não precisava se preocupar com isso, ela conhecia bem Ashton, então eles esperavam o que?!
—Ashton Irwin – anunciou Julie, formalmente, virando-se no banco até que estivesse em frente a ele e com os joelhos dobrados debaixo de si. – Vamos nos beijar.
Com uma velocidade impressionante, Ash virou-se, mas ele não tinha uma capacidade de pensar tão incrível, porque a encarou boquiaberto. E, talvez, talvez pela pouca luz do estacionamento deserto, talvez por ter problemas de vista (ela não tinha problemas oftalmológicos), Julie pensou ter visto uma coloração avermelhada nas bochechas dele.
—Você está falando sério?
—Seríssimo – respondeu Julie, assentindo devagar para que ele não perdesse nem um movimento.
—Você não chega numa pessoa e diz “vamos nos beijar”, Julie! – reclamou Ashton. – E nem ouse perguntar por que não!
—Você marcava direto momentos para trocar saliva! – retrucou Julie, esperando que estivesse conjugando o verbo corretamente. Ela odiaria errar na gramática nesse momento. – Por que eu não posso dizer “vamos nos beijar”?
—Nós estamos num encontro – lembrou Ashton. – Você não pode chegar assim e... E dizer vamos nos beijar! Nem quando você beija alguém apenas por beijar, você já chega beijando! Precisa de um clima!
—Foque em mim – pediu Julie, apontando para os olhos dele antes de apontar para os próprios. – Você ouviu o jurado sobre a áurea apaixonada e sensual, sexual, da sua imagem sobre mim. Alguém que consegue criar uma áurea dessas numa imagem com certeza consegue me beijar já chegando. Me beije logo e acabe com isso... Melhor ainda! – exclamou Julie, animada pela brilhante ideia que teve, batendo as mãos nos joelhos. – Eu te beijo e a gente acaba com isso!
—Essa é a sua ideia?
—Não. Essa é a minha brilhante ideia – sorriu Julie. – Agora venha aqui... Hum, será que tem como fazer isso confortável num carro? E pare de levantar essa sobrancelha maliciosa para mim!
—Eu não disse nada.
—Mas estava pensando!
Fechando os olhos, Julie respirou fundo e tateou em busca de algum apoio em Ashton, subitamente constrangida. Não é porque sua ideia era geniosa que a vergonha era excluída; não é porque ela estava com vergonha que não iria realizar seu plano.
Suas mãos pousaram em algo macio que Julie reconheceu como o cabelo dele, coçando as pontas dos dedos no couro cabeludo, ela foi deslizando até que sentiu as orelhas de Ashton, que pareciam quentes. Subindo mais um pouco e indo para o lado, Julie encontrou os olhos; descendo, o nariz; indo novamente para os lados, foi a vez das bochechas. Seguindo esses movimentos, Julie finalmente encontrou os lábios de Ashton e os dedilhou, como observava fascinada seu irmão fazer com o violão quando ainda estava aprendendo a tocar.
Os lábios de Ashton estavam um pouco ressecados, os dedos de Julie comprovaram isso; ela sentiu isso, assim como a maciez deles. Urg, Julie agora entendia porque o beijo acontecia por último; era por vergonha. A vontade de bater a porta na cara de Ashton, encolher-se no chão, lembrando-se do que tinha acontecido, e depois correr para debaixo das cobertas seria reconfortante. Mas ela não iria desistir!
Avançando por instinto onde achava que eram os lábios, Julie tocou na bochecha dele, e foi na base de tentativa e erro, guiando-se pela respiração de Ashton, até encontrar o que finalmente queria. A boca dele. Embora não devesse atribuir o credito desse acontecimento a si mesma, porque Ash praticamente empurrou a boca contra a dela.
Ashton já estava cansado de tanta lentidão de Julie, era como se ele fosse uma boneca de porcelana que se quebraria ao menor toque... Embora Julie estivesse aproveitando bastante, tateando-o como se estivesse moldando argila e precisasse captar os mínimos detalhes do seu rosto.
Se não achasse arte inútil, Julie seria uma artista impressionante. Se não fosse meio cadela, ela seria perseguida por fãs. Se ela não fosse ela, Ashton não achava que estaria nessa situação.
Fale com o autor